quinta-feira, 25 de maio de 2017

Crônica da Literatura Portuguesa


Crônica da Literatura Portuguesa
Texto escrito por Ramalho Ortigão, em 1863. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


A casa More editou as Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco.
O nome do autor deste livro inutiliza a redundância de encarecidos prólogos, com que eu pudesse inculcá-lo à estimado meu leitor.
O talento de Camilo Castelo Branco vigorou e robusteceu notavelmente no seu adolescer, sempre trabalhado de amargos desgostos. O último período da sua vida tempestuosa arrelvou-lhe de flores outoniças e enflorou-lhe de frutos saborosos a fantasia desangrada da primitiva seiva, irrequieta, superabundante, esplêndida sempre, mas débil e achacosa de antes, como planta que recebia o alimento pela rama e não pela raiz. O substancioso crescer e madurar desta notável imaginação palpa-se agora progredindo de dia para dia em cada uma das sucessivas produções com que ela de contínuo se engrinalda.
Em um capítulo do Amor de perdição, escrito do cárcere no curto espaço de quinze dias, segundo a asseveração do autor, encontra-se já uma descrição dos enredados condutos de um caminho, superior ao melhor que neste gênero temos lido nas demais obras deste romancista. É um exemplo do gênero descritivo, que recordará ao autor, sem lhe mover inveja, os imortais modelos de Waller Scott.
O tipo do ferrador, no citado livro, aquele bem intencionado homem, desalumiado e rude, que serve como escravo selvagem os imprescritíveis devores da amizade e da gratidão, saldando a ponto as suas dívidas, com sacrifício e abnegação traduzida e patenteada já nos mais alevantados rasgos de probidade, já na voluntária desonra, ou no homicídio conscienciosamente despejado pela boca da sua clavina; — este singelo e verdadeiro tipo é magistralmente delineado e tem um acabamento perfeito.
São dois belos raptos do talento o mau fim do ferrador traspassado pela carga de um bacamarte, que viandante, desconhecido como o destino, lhe despeja na arca do peito, fazendo-o tombar à presença de Deus no mesmo lugar em que ele cometera a sua primeira morte, e o saudoso e amorosíssimo adeus acenado com lenço branco de uma janela do convento de Monchique ao desterrado Simão da Cunha, que passa no Doiro para nunca mais voltar, e com os olhos arrasados de lágrimas mal vê já esse derradeiro e esmorecido almejar da sua esperança que morre...
São esses dois sublimes lances, que lembrarão sempre a quem uma vez os ler, embora o livro passe, e desapareça da lembrança o nome do autor. Esse é o verdadeiro cunho com que o gênio assela e legítima as suas obras.
Nas Memórias do Cárcere não há esses arroubos fantasiosos que erguem o espírito às alturas em que o clarão deslumbra; nem estas Memórias são um livro de fantasia temperado com os estímulos fortes do romance.
A obra cuja aparição eu saúdo é talvez menos — ou mais — que um estudo; é singelamente uma observação, mas observação funda, perfeita, cabal, dos diferentes episódios que se sucediam na tela negra da miséria, desdobrada ao sabor do acaso ante os olhos do poeta.
Alguns sujeitos chocalheiros e metidiços da vida alheia, fariscaram um escândalo no título deste livro. Pressupunham-no eles a escancarada história de um lar doméstico, uma espécie de boqueirão aberto por onde um ressentimento espezinhado haveria de manar ódios e vinganças. Tragaram estes uma triste decepção: Camilo deu a muitos dos seus confrades da imprensa um saudável exemplo de moralização literária, abstendo-se de servir a causa própria à custa dos leitores incautos.
Eu, que sou um fanático adorador de todos os princípios de liberdade, odeio a letra redonda, e choro pela lei que quis arrolhar a imprensa, quando encaro com estes periodiqueiros sem gravata, que fazem de um jornal o estendal nauseabundo e obsceno de toda a roupa suja da freguesia!
Pois manda-se retirar da praça pública o mendigo que exibe uma úlcera, e há de haver lei que permita a um pedintão descarado e mal falante que rasgue aos olhos do mundo íntegro o sendal de todas as asquerosidades que conhece?! Isto é um insulto à vergonha pública, isto é um estúpido alvedrio concedido aos tolos e aos maus. A vida íntima devia ser defesa por uma vez à sanha destes sabujos hidrófobos. Assim o pedia a dignidade, a moral c a honra.
É por efeito desta convicção que eu nunca defendi nem agredi Camilo Castelo Branco na sua vida particular. Públicos acusadores c públicos defensores sempre me pareceram igualmente ofensivos do bom decoro e da boa educação. Se a minha consciência absolve no foro íntimo o que é réu perante a lei, estendo-lhe a mão: se o contado de alguém me incomoda, afasto-me. Não reconheço em mim, nem admito em ninguém, direitos mais extensivos.
Nas Memórias do Cárcere há apenas uma alusão muito vaga ao motivo do encarceramento do autor. É o primeiro capítulo do segundo volume, por onde Camilo Castelo Branco deixa passar um tenuíssimo raio de luz para o seu viver íntimo. É este um capítulo grave, recatado e pudico, que mais consente adivinhar do que deixa ver. Ainda assim destoa do pensamento que inspirou o livro, e desdiz da ideia geral que eu faço dele.
O livro de Camilo ó uma coleção de esboços biográficos; é a fotografia de muitos dos seus vizinhos do cárcere; é a desgraça exatamente copiada pelo perfil que ela apresentava aos olhos do autor na Cadeia da Relação do Porto.
A luz que alumia esses quadros, tristes ou alegres, abjetos ou heroicos, não é a luz tétrica da masmorra, é o radiante clarão do dia, descoberto em todo o seu esplendor; os olhos que estão vendo na vida esses quadros, que hão de debuxar-se na tela, são os olhos do talento despreocupado, e feliz da sua liberdade inteira. Camilo Castelo Branco escreve do cárcere rindo dos outros e de si próprio, como Voltaire nos ferros da Bastilha. Absolvido, o autor do Homem de brios falia-nos da Cadeia livre e desafogadamente, sem saudade por ela, mas também sem ressentimento e sem dor. Faz lembrar o dito do escritor francês: “Acho muito bom que Vossa Alteza cuide em me dar de comer, mas suplico-lhe que não pense outra vez em arranjar-me casa.” Para o poeta da Henriada e para o autor do Amor de perdição a Cadeia é questão de um gracejo.
Entre os tipos dos diferentes encarcerados, apresentados ao leitor nestas memórias, alguns há primorosamente delineados.
A história de Coutinho, insignificante falsificador de moeda, é uma lindíssima narrativa. Sentem-se no coração aquelas lágrimas do pobre velho partilhadas por uma cadelinha, companheira única do desesperado infortúnio daquele homem, inteligente, e sem nome, sem família e sem amor; para quem não há um vislumbre de esperança no futuro nem uma consolação no presente; desconhecido da sociedade, deslembrado dos homens, sepultado num cárcere, e condenado por lei irrevogável a ir morrer longe, bem longe, da única felicidade que ele poderia apetecer na terra — a liberdade e a pátria!
Não é fácil ler sem comoção alguns trechos da biografia deste homem, que muitos leitores conheceram. Citarei o modo como ele recorda nos últimos dias de vida os jardins onde brincou a sua descuidada meninice.
Naquela quinta dos Olivais haviam anêmolas... Como era fresca e bela aquela candidez das anêmolas! Nas ruínas os cachos das trepadeiras; as cilindras na rampa que subia para o olival, as acácias na circunferência do tanque; as laurentinas e as madressilvas!... Oh! que saudade eu tenho daqueles sítios onde a minha alma era tão pura e inocente como as flores!... Quando há dez anos fui a Lisboa, e visitei aquelas ruínas, e por ali andei com o padre Álvaro, como eu chorava, senhor, como eu me sentia bem chorando ao pé de cada árvore envelhecida, que nascera comigo! Onde eu vim, meu Deus! onde eu vim morrer! Nem agora um pouco de ar livre! Que perderia o mundo se me deixasse agonizar e morrer onde visse o céu! Quem me dera um bocadinho de ar, que a esta hora tem o desamparado que morre na serra ou nas tormentas do mar!...
Deste mesmo gênero é a história do tenente Salazar, a do José do Telhado, e outras. São lágrimas, não imaginadas pelo poeta, se não vivas e choradas por aqueles que as sentiram borbulhar e rebentar do coração com a vida.
O espírito do leitor desentenebrece deste peso de infelicidades com a leitura de páginas alegres muito artisticamente entressachadas no volume. Tais são aquelas em que se nos pinta o Sr. José Dias, mestre-escola da Cadeia, e o Sr. Rocha, que enxota o diabo, levanta a espinhela caída, e talha o bicho e o mau ar com notável perícia e aceitação geral; e muitas outras, em que o autor tranca o “ridículo” nos ferros do seu quarto, e o obriga, ali mesmo, a cumprir a sua obrigação de fazer rir a gente.
Camilo Castelo Branco conclui a sua obra com estas linhas.
“Fecham-se as Memórias.
“Há nelas uma grande lacuna. Eu devia ter dito porque estive preso um ano e dezesseis dias. Não disse, nem digo, porque verdadeiramente ainda não sei porque foi”.
Parece-me isto uma insinuação demasiadamente direta, que desafina da geral harmonia do livro, e que o autor eliminaria da sua obra, se pudesse dar-lhe um conselho admissível, crítica mais entendida e autorizada do que a minha.
A linguagem deste livro, como a de todos os que ultimamente tem publicado Camilo, é seleta e castigadamente elegante e portuguesíssima. Lê-se, admira-se, toma-se de cor, e lá se acha depois coado na inteligência o sueco de uma excelente lição.

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