quinta-feira, 25 de maio de 2017

Henri Heine por Virgílio Várzea (Aspectos Biográficos)


Henri Heine por Virgílio Várzea
Texto escrito por Virgílio Várzea, em 1904. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


A última vez que vi Henri Heine foi algumas semanas antes da sua morte. Eu devia escrever uma rápida notícia para a reimpressão das suas obras. Jazia ele sobre o leito onde o retinha essa indisposição, ligeira no pensar dos médicos, mas que não lhe permitia levantar-se, havia oito anos. Assim, como ele próprio dizia, se tinha sempre certeza de o encontrarem casa. No entanto, pouco a pouco, a solidão se fez em torno a si. Por isso, um dia em que Berlioz o foi visitar, recebeu-o dizendo: “Vires ver-me, tu! Sempre original!” Não era que o amassem e admirassem menos, mas o torvelinho da vida é assim mesmo: na desventura desvia os corações os mais fiéis. Só então a Mãe e a Esposa não nos abandonam, ainda na mais persistente agonia. Os olhos humanos não podem contemplar por muito tempo, sem se desviarem, o espetáculo da dor. As Deusas mesmo se fatigam, e as três mil Oceanides que vinham, todas as manhãs, consolar Prometeu sobre a sua cruz do Cáucaso, se retiravam sempre pela tarde.
Logo que a minha vista se afez à penumbra que o cercava, sob a luz de um dia brilhante ferindo o seu olhar quase extinto, distingui uma poltrona junto à sua cama de enfermo e aí me acomodei. O poeta me estendeu com esforço uma pequenina mão doce, esguia, mate-branco como uma hóstia, uma mão de doente subtraída à influência do grande ar, e que nada tocava, nem mesmo a pena, desde muitos anos. Jamais os rijos ossos da Morte se acharam enluvados numa pele tão fina e suave, tão cetinosa e polida. A febre, apesar da fraqueza, dava-lhe algum calor. No entanto, ao seu contato, experimentei um ligeiro arrepio, como se tivesse tocado a mão de um ser que não pertencia mais à terra.
Com a outra mão, para me ver, levantou a pálpebra paralisada da vista que, nele, conservava uma vaga e confusa percepção dos objetos e lhe deixava distinguir ainda um raio de sol como através de uma gaze negra. Depois de trocadas algumas frases, quando soube do motivo da minha visita, disse-me: “Não te apiedes muito de mim. O retrato da Revue des Deux Mondes, que me representa emaciado, com a cabeça pendente como um Cristo de Morales, já muito abalou em meu favor a sensibilidade das boas almas. Eu não amo os retratos que se parecem: o meu desejo é ser representado belo como as lindas mulheres. Conheceste-me quando eu era ainda jovem e são: substitui, pois, por minha antiga imagem essa efígie piedosa.”
Efetivamente o Henri Heine a quem eu fora apresentado em 183... pouco tempo depois da sua chegada a Paris, não se parecia quase com aquele que eu via, agora, estendido diante de meus olhos, imóvel como um corpo que espera apenas o deitem num caixão.
Era então um belo moço de trinta e cinco a trinta e seis anos, com a aparência de uma robusta saúde. Ao contemplar-se a sua alta fronte, clara como um bloco de mármore, emoldurada em abundante massa de cabelos louros, dir-se-ia um Apolo germânico. Seus olhos azuis cintilavam de graça e inspiração. Suas faces redondas, cheias, de um contorno elegante, não eram sombreadas pela lividez romântica tão em moda nessa época: ao contrário, as rosas vermelhas desabrochavam nelas classicamente. Uma ligeira curva hebraica modificava, sem lhe alterar a pureza, a intenção que tivera o seu nariz de ser grego. Seus lábios bem feitos, “unidos como duas belas rimas”, para me servir de uma das suas frases, guardavam, quando em silêncio, uma expressão encantadora. Mas quando Heine falava, da sua curva rosada partiam, sitiando, setas agudas e farpadas, dardos sarcásticos que nunca erravam o seu alvo, porque ninguém como ele foi tão impiedoso e cruel para com a tolice humana. Tinha o sorriso divino de Musagete, a que sucedia sempre a ironia do sátiro.
Uma leve robustez paga, que devia expiar mais tarde uma magreza toda cristã, arredondava o seu talhe. Não usava nem barba, nem bigode, nem costeletas: não fumava, nem bebia cerveja: e, como Goethe, tinha horror a essas três coisas. Achava-se então em todo o seu fervor hegeliano. Não acreditava que Deus se tivesse feito homem, mas admitia, sem dificuldade, que o homem se tivesse feito Deus. Era essa a sua maneira de pensar. Mas deixemos que ele próprio conte essa esplendida embriaguez intelectual.
“Eu mesmo era a lei viva da Moral: era impecável, era a pureza encarnada. As Madalenas mais comprometidas ficavam purificadas às chamas dos meus ardores e se faziam outra vez virgens entre meus braços. Estas restaurações de virgindade falharam algumas vezes, é verdade, e esgotaram minhas forças onipotentes. Eu era todo amor, e, por isso, todo isento de ódios. Jamais me vingava dos meus inimigos, porque não admitia enfrentassem a minha divina pessoa. Tolerava apenas os infiéis, porque o mal que me faziam não passava de um sacrilégio, assim como as injúrias que me atiravam não eram mais que outras tantas blasfêmias. Entretanto, de tempos a tempos, forçavam-me a castigar tais impiedades, mas era isso um castigo divino para o pecador e não uma vingança de rancor humano. Não conheci amigos, mas fiéis, crentes, e eu lhes fazia todo o bem. No entanto as despesas de representação de um Deus que não tem método em ser galante e não dirige convenientemente a sua bolsa nem o seu corpo, são enormes. Para desempenhar esse soberbo papel é necessário, antes de tudo, ser dotado de muito dinheiro e de muita saúde. Ora, uma bela manhã dos fins de fevereiro de 1848, essas duas coisas me abandonaram e minha divindade foi de tal modo abalada que se despedaçou miseravelmente.”
Eu vi muito Heine nesse período divino. Era um deus encantador — maligno como um demônio! — e tão bom quanto se podia desejar. Que ele me considerasse como seu amigo ou como seu crente, isso pouco me importava, com tanto que me fosse dado gozar da sua brilhante conversação, pois se ele era pródigo do seu dinheiro e da sua saúde, não o era menos do seu talento. Sabia muito bem o francês, mas, algumas vezes, divertia-se em dissimular suas sátiras sob uma forte pronuncia alemã, que exigia, para ser reproduzida, as estranhas onomatopeias pelas quais Balzac figura, na sua Comédie Humaine, as frases extravagantes do barão de Nucingen. O efeito era então irresistível: era Aristófanes falando com a prática de Eulenspiegel.
Ao seu lirismo se misturava uma espécie de força e alegria, e se o luar alemão prateava um dos lados da sua fisionomia, o álacre sol de França dourava deliciosamente o outro. Nenhum escritor como ele, teve, ao mesmo tempo, tanta poesia e tanta profundeza — duas coisas que geralmente se destroem. Quanto à sensibilidade nervosa que faz o encanto do Intermezzo, do Tambor Legrand, dos Banhos de Lucca e de tantas páginas dos Reisebilder, ele a ocultava na vida comum com singular pudor, reprimindo oportunamente, por uma palavra sutil e bela, a lágrima que houvesse derramado.
A sua toilette, embora não tivesse nenhuma intenção de dandismo, era mais cuidada do que costuma ser comumente a dos literatos, onde sempre certa negligência desfaz as veleidades do luxo. Os diversos aposentos que habitou não tinham o que se chama hoje “cunho artístico”, isto é, não se achavam atravancados de buffets esculpidos, quadros, estatuetas e outras curiosidades de bric-á-brac: apresentavam, ao contrário, um conforto burguês, onde era manifesta a vontade de evitar o excêntrico. Um belo retrato de mulher, pintado por Lamlein e representando a Julieta de que fala o poeta no prelúdio de Atta Trol, era o único objeto de arte que me lembra ter visto ali.
Desde que o poeta, para restaurar sua divindade, que começava a decair um pouco, partiu para a estação de banhos de Cauteretz, onde compôs o singular poema que tem por herói um urso, misturando a poesia mais ideal aos caprichos mais grotescos — eu o perdi de vista por algum tempo.
Uma manhã, porém, vieram dizer-me que um estrangeiro desejava falar-me. O criado citou-me o nome, mas de tal modo desfigurado que o não pude compreender. Desci, entretanto, à sala de visitas, e aí esbarrei com um homem muito magro cujo rosto, lembrando o de Gericault, rematava por uma barba pontuda e loura, entremeada de abundantes fios de prata.
Por momentos, procurei recordar-me do nome desse hóspede matinal, que me saudava tão familiarmente pelo meu apelido literário e que me estendia a mão com a franca cordialidade de um velho camarada. Não consegui, entretanto, ligar o nome aquela pessoa que, se eu de fato conhecia, se achava por certo bem mudada. Mas ao fim de alguns minutos de conversação, a um traço de espírito do desconhecido, exclamei comigo mesmo: “Este é o diabo ou Heine”. Era Heine com efeito, de Deus tornado homem.
Alguns meses depois, Henri Heine caía prostrado no leito para nunca mais se erguer: oito anos assim permaneceu, pregado à cruz da Paralisia pelos cravos do Sofrimento.
Durante essa longa agonia deu-se nele o fenômeno da alma vivendo sem o corpo, do espírito abandonado da matéria: a doença, secando-o pela fraqueza, dissecava-o a seu gosto, e na estátua do Deus Grego modelava, com a paciência meticulosa de um artista da Idade-Média, um Cristo descarnado até ao esqueleto, onde os nervos, os tendões e as veias se salientavam com nitidez. Mas, mesmo assim despojado, ele era belo ainda. E quando sobre o Reno: e que eles conduzam o féretro e o atirem ao Mar, porque um grande féretro precisa de uma grande cova. E sabeis porque desejo um tão grande caixão. É para levar comigo, juntamente, os meus sofrimentos e os meus sonhos.
O féretro não foi tão grande como o desejara o poeta, nem foi também depositado no Mar, mas simplesmente numa cova provisória, em presença de um pequeno número de poetas e artistas franceses e alemães, que aí o cercavam respeitosamente, sabendo que assistiam aos funerais de um Rei do espírito, embora não tivesse um longo cortejo, nem música fúnebre, nem tambores velados, nem bandeiras consteladas de Ordens, nem discursos enfáticos, nem trípodes coroadas de chamas verdes. Fechada a cova, cada um desceu a triste colina e se perdeu de novo no imenso formigueiro da vida humana.
Poucos poetas nos comoveram e emocionaram tanto como Heine. É verdade que não sabem o alemão e não o admiramos senão através das traduções. Mas que homem não devia ter sido aquele que, apesar de despido do poder do ritmo, da rima, do feliz arranjo das palavras, de tudo enfim que constitui o estilo, produziu efeitos tão mágicos! Heine é o maior lírico da Alemanha, e se coloca naturalmente ao lado de Goethe e de Schiler, tão grandes nos afigura, embora a poesia traduzida em prosa não seja mais que um tênue luar, como ele próprio dizia.
Não é aqui o lugar mais apropriado para tratar da sua obra, que viverá por si, mas dela vou procurar dar uma ligeira impressão. Quando se abre um volume de Heine parece entrar-se num desses jardins que ele descreve com amor: as Esfinges de mármore da escadaria alongam suas garras sobre o ângulo dos pedestais e nos fitam com os seus olhos brancos, de uma fixidez inquietante; frêmitos percorrem-lhe a juba leonina e sua garganta de mulher palpita como se um coração batesse sob o contorno rígido. As portas gemem rodando nos gonzos enferrujados e acredita-se ver uma prega de vestido desaparecendo sob uma arcaria ogival, como se a alma da Solidão fugisse, surpreendida pela nossa presença. O musgo, a urtiga, a bardana nascem no terraço, entre as abertas dos ladrilhos desconjuntados e os ulmeiros frondosos procuram reter-nos, suplicando-nos não passarmos além. As rosas parecem sangrar entre os espinhos, e as gotas de chuva suspensas de suas pétalas brilham como lágrimas: as outras flores, enlaçadas pelas ervas daninhas, desprendem perfumes estranhos que asfixiam e dão vertigem. Na cascata e no lago, a água negra corrompe-se sob as lentilhas verdes e a Náiade caída tem a cara achatada como a máscara lívida da Morte. O sapo salta através das áleas arenosas e vai anunciar a nossa vinda à sua tia, a víbora. Entretanto o vento suspira elegias e o rouxinol descanta as queixas dos seus amores perdidos. À janela de um Castelo de lenda, uma rapariga aparece, loura e fresca, apertada nas suas vestes de seda, semelhando uma dessas lindas neerlandesas que Gaspar Nestcher compraz-se pintar em quadros de pedra ou de vinha virgem. Mas essa rapariga encantadora não tem coração, e em seu seio se condensa uma pequena geleira. Jamais nos fará injustiças, mas para a nossa delicada sensibilidade bem melhor será que abandonemos semelhantes criaturas, que trazem a traição oculta sob o rosado da face — porque essa donzela inefável nos infligirá mil suplícios, inocentemente diabólicos, e no dia do Julgamento Final não nos será grato ressuscitar com terror de a vermos.
Heine, como Goethe, soube criar tipos de mulheres os mais verdadeiros — basta-lhe um toque para que uma figura se desenhe, viva e completa. Que encanto enganoso, que languidez pérfida, que riso de hiena, que lágrimas de crocodilo, que Maldade ardente, que chamas geladas e que coquetterie felina! Nunca poeta algum logrou tão bem fazer menear a ponta da “cauda do Dragão” ao canto de uns lábios cor de rosa. E com que sutileza diz ele de Lusignan, o amante de Melusina: “Feliz do homem cuja amante não é senão em metade serpente!”.
Si é certo que Heine esculpiu em paros o mais brilhante, estátuas de deuses gregos e baixos-relevos de Bacchantes, tão puros de fôrma como os antigos, não é menos certo se haver tornado o igual Uhland e de Tieck, quando canta as legendas católicas e cavalheirescas da Média-Idade. Ele transforma a trombeta maravilhosa de Achim de Arnim e de Bretano em fanfarras que fazem estremecer os veados nos recessos das florestas e abater a ponte-levadiça dos Castelos Feudais. Quando monta o seu corcel impetuoso, é para roçar com a sua bota a saia armorial da Castelã em caça. E ninguém maneja o venáblo com mais galanteria fidalga.
O nosso meio literário, muito susceptível, pôde supor de uma grande crueldade algumas das composições de Heine, porque ele é inclemente para os poetastros. Mas Apollo não terá o direito de estrangular Marsias? A mão que empunha a lira de ouro brande também o espadim agudo para varar o rude sátiro.
Vou terminar por esta página do Livro de Lázaro, um dos melhores espécimes do estilo do poeta, que certamente conhece agora toda a verdade desta terrível questão:
“A pobre Alma disse ao Corpo: Eu não te abandono, fico contigo, contigo quero abismar-me na noite e na morte, contigo desaparecer no Nada. Tu foste sempre o meu segundo eu: envolvias-me amorosamente como uma vestimenta de cetim docemente forrada de arminho. Mas ai! é necessário agora que eu, completamente nua e separada de ti, um ser puramente abstrato, vá errar lá acima como um nada bem-aventurado, lá acima, nesses frios espaços do Céu onde as eternidades me olham silenciosas, num desalento, Elas aí se arrastam entediadas e fazem um rumor insípido com os seus pantufos de chumbo! Oh! como isso será horroroso! Oh! não me abandones, meu Corpo bem amado!”
O Corpo disse à pobre Alma: “Oh! consola-te, não te aflijas assim! Devemos suportar serenamente a sorte que nos traça o Destino. Eu sou a mecha da lâmpada, é justo, pois, que me consuma: tu, o espírito, serás escolhido para brilhar lá no alto, como uma linda estrela, com a claridade a mais pura. Eu não sou mais do que um trapo, não sou mais do que matéria: vã torcida, é necessário que me acabe e que volte ao que era — uma pouca de cinza. Adeus, pois, e consola-te. Talvez o Céu seja mais divertido do que tu pensas. Se encontrares a Grande-Ursa na abóbada dos astros, mil saudações da minha parte.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário