quinta-feira, 25 de maio de 2017

Guilherme de Almeida - Ideias de 1922


Ideias de 1922

Texto escrito por Guilherme de Almeida e publicado em 1929. Pesquisa,  transcrição e  atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Pediram-me os ativos organizadores do "Salão de Maio" que escrevesse, para o seu catálogo, qualquer coisa sobre a reforma artística que se operou no Brasil, em 1922, com centro em S. Paulo, e cujo eixo centrípeto e centrífugo — A Semana de Arte Moderna — continua a ser o de todo pensamento moderno do país.
Confesso que eu não saberia dizer bem, com palavras de hoje, impressões de ontem. Não teria, o que eu viesse a escrever, aquela frescura de sinceridade que têm umas notas minhas, que andei desentulhando do meu arquivo. Prefiro reproduzi-las, intactas, tais como me saíram da pena há uns quinze anos. Têm o mérito de ser espontâneas e verdadeiras, sem os inevitáveis falseamentos, as ilusões de óptica criadas pela distância do tempo.
Aí vão, pois, essas páginas... (poderei dizer "íntimas"?) que fixam o instante da renovação, esclarecendo certo equívoco que perdura ainda entre os não muito familiares com o movimento de 1922.
I
Eu tenho aqui, à minha direita, uma porção de i i i; à minha esquerda, uma porção de pingos; e, à minha frente, uma porção de papel. Os i i i não estão pingados; os pingos estão inúteis, esperando; o papel está em branco. Ora, eu preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa. Porque sim; porque preciso. Que há de ser? É claro: pôr os pingos nos i i i, em cima deste papel. É difícil, eu sei, e arriscado. Mas... quem sabe? Às vezes pôde dar certo. Se os pingos ficarem um pouco fora do lugar, eu tenho certeza, tenho uma inabalável convicção de que o amável leitor há de pensar que é erro tipográfico; o tipógrafo, que é erro de revisão; o revisor, que é erro do datilografo; o datilógrafo, que é... defeito da máquina e...
Bom. Vou começar.
O primeiro "i" não é um "i". Ou antes, é um "i" de cabeça para baixo: é um ponto de exclamação. Exclamação irregular, multiforme, variabilísima, que toma em cada boca uma entonação diferente; em cada meio uma inflexão diversa; em cada ocasião um sentido distinto. "FUTURISMO!" Porque o homem gordo e bom, que acredita em cardápios e acha que "é de cinco pessoas a lotação de cada banco", quando esbarra com o quadro ou com a página de um artista moderno, não exclama "Futurismo!" da mesma maneira com que o faz a senhora-criança de pernas cruzadas e cabeça atirada para traz da poltrona, que solta ao teto, entre os ferros-batidos e a símil-pedra de um hall frio, a baforada franzina do seu cigarro doirado. Não. Aquele senhor põe impertinências apressadas ou ódios explosivos na sua voz; ao passo que esta dama põe displicências lânguidas ou enervamentos excitantes no seu gritinho. E todo mundo, à sua maneira, vai produzindo, mais ou menos como entende e como sente, a fatal exclamação. Todo mundo, sim. O vendedor de jornais, o orador sacro, a telefonista, o conselheiro, o garçom, o leiloeiro, a normalista, o corretor, o alfaiate, o homem de clube, a dona de casa, o aviador, o ministro, a marechala, o coronel, o pastor-protestante, a menina-lulu-da-Pomerania, o deputado, o sacristão, o cometa, o astrônomo e até mesmo o escafandrista ou o bacharel — todo mundo, todo mundo sabe de cor, atualmente, essa palavra e tem uma maneira especial, própria, pessoal, individual, particular, original de pronunciá-la diante de certas coisas infelizes. " Futurismo! "
No entanto, essa palavra elástica, líquida, polifônica, camaleônica, a que a gente dá a fôrma, a cor, o som, o sentido que entende, tem, como tudo neste mundo, o seu fundo e a, sua fôrma. A sua fôrma é isso tudo que aí está — é esse agrupamento de letras (um "f", um "u", um "t", outro "u", um "r", etc...), são as entonações, as inflexões, os sentidos diferentes, dispares, que cada qual lhe empresta conforme o ambiente e a ocasião, no tempo e no espaço. Mas o fundo... Ah! o fundinho é sempre o mesmo; um único, invariável, sólido, estável, uno imutável, constante: "futurismo" entre nós, é termo pejorativo. É. Eu sei que é. É como famigerado ou guarda-chuva. Cria o ridículo, o ruim. Assobiado por lábios pintados e estendidos de desdém ou vociferado entre murros sobre o mármore das cervejarias filosóficas da meia-noite; cuspido entre dentes de ouro numa Repartição Pública, ou aromatizado na fumaçazinha azul de um khediwa num grill-room — como quer que seja, essa palavra desgraçada tem um fundo infamante, injurioso, de pouco caso ou de ódio, que a gente atira, com gestos diferentes, para um fim único: pulverizar.
Por quê? Quem havia de dizer! Por causa de um galicismo. É. Por causa de uma coisa que se chama "malentendu". Isso mesmo. Houve um mal-entendido inicial; e continuou a haver, e continua a haver e parece que continuará sempre a haver esse mal-entendido. Houve um "i" sem pingo; já se quis pôr, já se pôs mesmo o pingo naquele "i"; mas, de que serviu? A gente já se acostumou mesmo a ver o tal "i" sem o pingo indispensável e... agora é tarde. Em todo caso, nunca é mau insistir. Eu vou tentar pôr mais uma vez aquele pingo inaceitável, rebelde, naquele "i" irônico, pejorativo. Mas, atendam, pelo amor de Deus.
Eis aqui o "i": — Em fevereiro de 1909 — na Itália, um homem chamado F. T. Marinetti inventou uma coisa qualquer (isto não tem a mínima importância) a que chamou "futurismo". Muito bem.
Eis aqui o pingo: — Em junho de 1921, um dos nossos "novos", falando de outro dos nossos "novos", publicou num jornal de S. Paulo um artigo com este título: "O meu poeta futurista". Dias depois, o poeta respondeu lindamente ao artigo, explicando o que era futurismo e mostrando porque não era futurista. Mas aconteceu que toda a gente achou engraçada a palavra e montou nela: fez dela cavalo de batalha contra os "novos". Mas — aí! — nem sabia que esse cavalo era oco e tinha uma porção de guerreiros dentro; que era um bucéfalo artificial igualzinho a um célebre presente de gregos que os troianos acharam uma vez nos seus campos.
Tinha muita coisa dentro, sim. Tinha a Semana da Arte Moderna, que saiu em fevereiro de 1922; tinha "Klaxon", que saía logo depois, em maio; tinha... tinha nós todos, que diabo!
Daí, as confusões. Tantas confusões! De quem a culpa? De gregos e troianos. Porque nós também fomos muito imprudentes, irritamos muito, arre! Aquela Semana e aquele "Klaxo" foram dois poderosos fixativos para a compreensão precipitada de todo o mundo. A palavra italiana — "Futurismo" — havia sido esboçada a carvão, de leve; qualquer piparote distraído, qualquer soprozinho sutil poderia desfazê-la num segundo. Mas os fixativos involuntários aplicaram-se sobre ela — e o carvão tornou-se indelével. Agora...
II
Portanto, não somos futuristas, nem nada. Nós somos, por uma evolução lógica, por uma necessidade natural de vida, atualistas. Simplesmente atualistas. Homens, come todo o mundo. Evoluímos e vivemos no hoje de toda a gente. Existimos dentro desse hoje com todas as nossas faculdades intelectuais, com todas as nossas atividades aproveitáveis ou não, com todos os nossos propósitos, com todas as nossas crenças. E assim, do nosso lugar, assistimos à vida. Aplaudimos ou pateamos — isso é direito de todo espectador.
E, assistindo a esse espetáculo (como em todas as épocas todos os povos assistiram), tomamos intimamente o partido desta ou daquela personagem que nos é mais simpática, "torcemos", criticamos, comentamos; numa palavra, "sentimos" a peça. Ficamos, assim, sob o domínio de um pensamento, de uma tensão comum. Os nossos olhares estão todos num mesmo ponto; os nossos sentidos num mesmo objeto; ouvimos as mesmas palavras, acompanhamos os mesmos gestos. É um "estado de espírito".
Nos primeiros soluços do romantismo — há certo um século exatamente inventou-se uma expressão vaga, indefinível, para explicar isso: o "mal do século". Suspirava-se essa coisa ou com apreensão, como se se tratasse verdadeiramente de um "mal"; ou com desconfiança, como se se tratasse de uma revolta. Fosse doença ou fosse revolução — o fato é que, para estes e par a aqueles esse "mal de século" existia mesmo, era uma realidade inelutável. Pois um século mais tarde, eis que esse estado de espírito se repete.
Sente-se agora, na humanidade, uma alteração inexprimível, uma preocupação estranha e fala-se muito em "espírito moderno". Ninguém saberá definir esse espírito, localizá-lo, analisá-lo; sente-se que ele existe de fato — e nada mais E seria mesmo imprudência, até tolice, querer explicá-lo, situá-lo. Sabemos que tal quadro tal poema, tal música "são modernos" ou "não modernos". Por quê? — Impossível responder. São porque são, não são porque não são.
Assim, a gente que hoje produz artisticamente - poetas, pintores, escultores músicos — não forma escola, não tem mestres nem discípulos. O "atualismo é uma escola, não é uma doutrina: é um estado de espírito.
Ser do momento — ser de hoje. Isto é: "ser" e não "ter sido".

Nenhum comentário:

Postar um comentário