quinta-feira, 25 de maio de 2017

Um poeta - Cassiano Ricardo


Um poeta: Cassiano Ricardo — “Martim Cererê” (São Paulo — 1928)

Texto escrito por A. de A. M. e publicado em 1928. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2017)
Martim Cererê não é livro inteiramente novo. Há nele várias poesias do Vamos caçar papagaios (com uma ou outra modificação ligeira) e outras cujos temas já foram explorados pelo próprio poeta em seus livros anteriores. O mesmo acontece com certas imagens e certos achados verbais.

Isso mostra que Cassiano continua batendo na tecla Brasil. Permanece o poeta do descobrimento e da colonização sobretudo. Poeta oratório (o que denuncia sua brasilidade), e descritivo. Quando oratório ou quando descritivo sempre fortemente eloquente.
O caso de Cassiano Ricardo é um caso à parte na nossa literatura atual. Cassiano até 1925 foi inimigo violento da reação moderna. Depois (era fatal) se converteu. Houve nisso um missionário irresistível: o Brasil. Se o movimento moderno entre nós não tivesse assumido também uma feição nacionalista acredito que Cassiano continuasse inimigo dele. No Marfim Cererê a isente verifica isso facilmente: do espírito moderno que é universal o poeta aceita pouca coisa. Mas o tema Brasil do modernismo o seduz.
Por causa dele chegou a romper com o seu próprio passado literário. Na lista de suas obras publicadas constante do livro de agora não figuram A flauta de Pan, Jardim das Hespérides e os outros dois volumes anteriores a 1925. Esse repúdio aliás não tem razão de ser. E constitui uma injustiça: A flauta de Pan principalmente tem versos que são dos melhores do parnasianismo brasileiro.
Pelo que já ficou dito lá no princípio é evidente a infusibilidade de criticar Martim Cererê sem repetir uma a uma as críticas (elogios e reparos) que já mereceram abundantemente Borrões de verde e amarelo e Vamos caçar papagaios.
Eu que mesmo nos novos sempre procuro o novo, o que é novo na novidade deles, me contento em reproduzir aqui este ótimo poeminha chamado Lua cheia nº 1:
Boião d’leite
que a noite leva
com mãos de treva
pra não sei quem beber.

Mas que embora levado
muito devagarinho
vai derramando pingos brancos
pelo caminho...

Gosto tanto dessa gostosura que ouso pedir a Cassiano que não se esqueça de molhar seus livros futuros nesse mesmo leite gorduroso e cheiroso. Puro lirismo sem água.
Marfim Cererê foi impresso com bastante cuidado. Além disso tem bonitas ilustrações de Di Cavalcanti. Algumas mais que bonitas até: a da capa; a da página 19 e outras.

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