segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Fronteira (Conto), de Coelho Neto


A Fronteira
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Noite alta e morna: o rio rolava vagarosamente as suas grandes águas, e a veneranda seiva, de troncos virgens, enchia a solidão com o seu murmúrio solene, quando chegou ao povoado um cavaleiro. O animal, que ele cavalgava, humilde e arquejante, denunciava um longo e desabrido galope: e a pressa com que saltou da cela à porta da primeira cabana, fechada e silenciosa, fazia suspeitar que algum acontecimento grave o levava a empreender tão arriscada viagem, através da floresta percorrida pelos animais bravios.


Bateu com força e, como não lhe respondessem, bateu de novo: falaram. — Abre! — bradou imperativamente. Logo rangeu o ferrolho, e num raio de luz apareceu no limiar da porta a valida figura de um sertanejo trazendo apenas sobre o corpo uma camisola ampla que lhe chegava aos pés.
— As nossas terras vão ser tomadas: — disse o recém-chegado, antes mesmo de saudar o sertanejo. — Vim por essas matas a todo galope para ver se ainda chegava a tempo de prevenir-vos.
— Vão ser tomadas! — exclamou o outro, pasmado.
— Sim. Estrangeiros efetuaram um desembarque e vêm pela floresta, armados.
— E então? Que havemos de fazer?
— Armemo-nos.
— Quantos são eles?
— Não sei: o número pouco importa, o necessário é que nos defendamos.
— E se eles forem muito superiores em número?
— Não importa. Se eu aqui vivesse isolado, da porta da minha cabana faria fogo sobre os invasores até cair atravessado por uma bala. Somos ao todo vinte e três homens, eles são talvez duzentos... mas vamos! Arma-te e vem: acorda tua mulher e teu filho, eu vou prevenir os mais.
O sertanejo esteve algum tempo hesitante. O murmúrio da floresta crescia com o vento, dando, por vezes, a ilusão de tambores rufados, ao longe.
— Eles aí vêm...
— Eles aí vêm: não há tempo a perder! Se morrermos, todos os nossos corpos ficarão marcando a fronteira da Pátria. Pelas nossas ossadas e pelas cinzas das nossas cabanas, os que vierem mais tarde conhecerão o limite do Brasil. Vamos! Falta-nos uma bandeira; temos, porém, o céu, o grande céu; e o choro assustado de nossos filhos excita-nos mais do que os clarins de guerra. Vamos!
— Vamos! — bradou o sertanejo, correndo a buscar a sua arma de caça.
Quando luziu a madrugada formosa, todos os homens do povoado estavam de pé, de arma em punho, entrincheirados, esperando o invasor.
As mulheres intrépidas, que não haviam querido deixar os maridos, apertavam ao colo os filhos que dormiam, e todos os olhos estavam cravados no caminho onde deviam aparecer os estrangeiros.

Era quase meio dia, o sol abrasava, quando os primeiros soldados surgiram tranquilamente, pisando com orgulho a terra que julgavam abandonada: à frente caminhava o oficial garboso, fazendo brilhar ao sol a espada nua. Mas um grito atroou: — “Viva o Brasil!” — e logo uma descarga retumbou no silêncio. Os invasores, surpreendidos, recuaram: eram em número muito superior ao dos que defendiam a terra natal, posto que cinco deles já escabujassem no solo alcançados pelas balas certeiras dos sertanejos.

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