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11/28/2022

A glória (Conto), de Coelho Neto


 A GLÓRIA 

O caminho tornava-se a mais e mais apertado e sombrio. Árvores de coma espessa esgalhavam a ramaria densa interceptando a passagem da luz. O solo, pedregoso e seco a princípio, ia-se tornando em mole alagadiço — vasto balseiro onde apodreciam folhas mortas. Aves sinistras voejavam pesadamente de galho a galho, negras, de enormes garras, com os bicos aduncos manchados de sangue. No interior havia um choro perene — talvez alguma fonte oculta a lacrimar. 

De quando em quando um réptil aparecia — ora enroscado à beira da trilha estreita, vibrando a língua bífida ou mole, oscilando pendente de um ramo, como uma ponta de cipó. 

O ar era úmido e tresandava à podridão. Não havia outro rumor senão o do ramalhar do arvoredo e o do choro misterioso que vinha, como um fúnebre presságio, do recesso do bosque. E o peregrino seguia. 

Era um lindo mancebo louro — os cabelos caíam-lhe em bucres sobre os ombros, as suas mãos eram brancas e finas, o seu andar airoso. Seguia cantando, sem impressionar-se com o horror do sítio: animava-o a esperança de que, além daquela morta paragem, resplandecia no céu um sol eterno. Para alcançar, porém, o largo e formoso país da luz sempre viva, quantos sacrifícios teria ainda de sofrer! 

Ia caminhando, a cantar, quando, de um calvo rochedo, desceu crocitando uma revoada de corvos famintos. Abriu o farnel e, para conter os voracíssimos animais, atirou-lhes a metade das provisões que levava. Foi o bastante para que, de todos os lados, acudissem, com uma grasnada aterradora, centenas de aves vulturinas, umas negras, outras vermelhas como se houvessem tingido as penas em sangue. 

O peregrino, sem descorçoar, abriu a governita e desfez-se de tudo quanto levava e, enquanto os monstros debicavam gulosamente as provisões, lá ia ele, sempre a cantar, feliz com a esperança de ver-se, em breve, livre daquela passagem temerosa. 

Mas, dentre o bosque uma voz silvante, que parecia retalhar o silêncio, pôs-se a dizer através de casquinadas sarcásticas: 

“— Que há de ser de ti, mancebo imprudente? Julgas, talvez, que está próximo o termo da viagem? Muito tens ainda que andar e que sofrer. Desfazes o teu alforje, cedes tudo aos abutres e com que hás de saciar a tua fome quando ela apertar? A floresta é estéril, as árvores que vês nada produzem. Volta, ainda é tempo; retrocede antes que se desfaçam as tuas pegadas, que são o roteiro que te restituirá à vida feliz que abandonaste por um sonho ingrato. Não prossigas. 

“Quanto mais avançares mais difícil se te tornará o regresso ao lar abandonado onde vivias feliz, entre os teus, à sombra das tuas árvores sempre em flor. Não te iludas! Essas aves bravias que vês, gordas, tão gordas que mal podem voar de um galho a outro, nutrem-se de imprudentes como tu. Outros, que têm ousado a travessia, têm ficado pelo caminho e, apodrecendo, vão formando esse atascal escuro no qual te chafurdas. 

“Retrocede em tempo para que não tenhas a mesma sorte dos que te precederam”. 

“Deixaste a luz tranquila, vais em busca da claridade maior mas, antes dela, infeliz, estão os horrores da selva mefítica, estão as perfídias, estão as maldades. As aves escarninhas zombarão de ti — seguirás perseguido pela assuada atroadora de todas e muitas, baixando, virão bicar-te as carnes como fizeram outrora ao filho de Japeto. Retrocede, imprudente.” 

O peregrino ouvia a voz que vinha, como um oráculo, do fundo tenebroso do arvoredo e, indiferente, sorria. Que lhe importava o sofrimento se lá ao longe, alma da floresta, estava a compensação? 

O terreno tornava-se mais encharcado — um cheiro acre de sangue subia do tremedal. Por vezes um crânio rolava ou eram tíbias que se levantavam hirtas entre as ervas do pau. 

Que importava? Já os seus olhos divisavam uma réstea de luz, além — antes da tarde lá estaria: era a aberta que levava aos campos elísios. 

Os outros haviam desanimado, ele não se deixaria vencer pela cobardia. Que esvoaçassem as gordas aves carniceiras, à noite todas se recolheriam às suas cavas, aos seus ninhos nos penhascos e ele, então, seguiria sossegadamente, a correr, vencendo distâncias. 

Pensava assim quando um novo bando de aves precipitou-se das frondes, galrando. Nada mais lhe restava e como havia o infeliz de saciar os abutres? As aves adejavam ameaçadoramente em torno da sua cabeça loura, investiam com estrondoso bater de azas; ele procurava espantá-las, agitando a capa que levava e que era o seu único agasalho; as aves, porém, rasgaram-na com as garras e às bicadas reduzindo-a a tiras; depois atiraram-se-lhe ao corpo, e estraçalharam-lhe as roupas e ele sentiu nas carnes o acúleo dos primeiros bicos. Pensou, então, que se atirasse aos seus perseguidores um pedaço de carne, enquanto eles a disputassem, poderia caminhar tranquilo. Mas onde havia de encontrar, naquela esterilidade, a carne de que carecia para repastar os abutres? Deteve-se um momento, encostado a uma árvore, em atitude de defesa. A árvore, porém, estilava uma resina venenosa cujo aroma matava. 

O peregrino sentia-se abalado: vertigens seguidas enfraqueciam-no, perturbava-se-lhe a vista, vergavam-se-lhe as pernas. Notou, então, que havia mais perigo naquele refúgio do que no meio agitado das aves vorazes e, atordoado, lançou-se afoitamente a caminho. 

Seguia quando se viu, de novo, cercado pelos monstros; foi então que resolveu engodá-los atirando-lhes tassalhos da própria carne e, arrancando da cinta uma adaga afiada, pôs-se a retalhar o corpo jogando aos animais postas ensanguentadas. 

Foi uma alegria satânica no bando alado e, como se o cheiro do sangue fresco chegasse além, outras aves surgiram precipitadas, com um galrar horrendo, e, enquanto disputavam a carne que ele lançara, o peregrino seguia. 

Não estava longe o termo da viagem — lá brilhava, por entre a luzida folhagem, a luz sem crepúsculo, o esplendor sem ocaso. Mais um pouco de ânimo e venceria aquela passagem onde tantos haviam sucumbido. Lá ia. 

Repentinamente, a mesma voz, que lhe falara à entrada da floresta, tornou com mais sarcasmo, vindo, como um canto de pássaro, da ramaria mais alta de uma árvore frondosa e negra. 

“Volta, peregrino ousado. Vê que já se te tornou necessário o sacrifício — é com a tua própria carne que vais comprando os passos nesse caminho, teu sangue encharca o terreno e, dentro em pouco, não terás resistência para o menor movimento. Aí vem a noite; repousa um instante e, quando as aves adormecerem, retrocede. Não tens saudade da terra em que nasceste? Aqui tudo é hostil, lá tudo é propício. Aqui as árvores envenenam, o ar que se respira é nauseabundo, a água, longe de aplacar a sede, aumenta-a e é como um fogo que abrasa as entranhas. Se saíres do alagadiço em que te vais enxurdando encontrarás o pedregulho agudo que rasgará os pés e os espinhos que te romperão as carnes. Volta! espera a noite e volta. 

“A esta hora os teus, que além deixaste, gozam os favores da primavera cheirosa. Teus filhos brincam porque são inocentes e, como tu lhes disseste que lhes levarias brinquedos quando regressasses, fazem castelos dourados saltando na relva. O mais novo chama por ti na sua linguagem indecisa alongando os olhinhos para o lado em que o sol morre. Tua esposa suspira — talvez que o coração, que adivinha, lhe esteja a contar os teus sofrimentos. Espera a noite e volta. 

“Não te iludas com o sonho. A vida é a tranquilidade e mais feliz é o pastor que tem um pouco de queijo negro e água da fonte e não deseja senão a madrugada e as estrelas do que o milionário que ambiciona — e tu és o maior dos ambiciosos. Volta!” 

O peregrino ouvia, mas os seus olhos não se tiravam do ponto luminoso que fulgurava ao longe. Ia-se-lhe o sangue pelas muitas feridas, doíam-lhe os pés, a fadiga tornava-o vagaroso, ainda assim lá ia ele sorrindo e cantando. 

“Mais um pouco, dizia, mais um pouco, e viverei como a própria Vida — meu nome ficará como um esplendor eterno. Que importa a dor? O que sofre é o corpo, mas, para que quero eu o corpo senão para que conduza minha alma? E é ela que vai à vitória. A tranquilidade, sim, a tranquilidade é deliciosa mas o grande Bem lá está, já o diviso daqui. Mais um esforço e, antes da noite, eu estarei repousando no campo de flores imarcescíveis — e lá se renovará o meu corpo, um sangue mais forte me encherá as veias, sangue eterno, feito de luz, como esse que purpurina o céu nas claras manhãs e nas tardes luminosas. Que importa a carne que vai ficando pelo caminho no bico e nas garras dos abutres? Que importa o sangue que jorra das feridas abertas? A glória é uma ascensão e eu faço como os que tentam remontar às nuvens: alijo a carga inútil. Eia! Um pouco mais e será minha a vitória”. 

Caminhava, mas um novo bando de aves pôs-lhe cerco; não hesitou: retalhou-se e, atirando a um lado e a outro o pasto vivo, foi seguindo. 

Já era escuro na brenha, sinistro, lá longe, porém, fulgurava sempre o pérfido esplendor e nele levava o caminhante os olhos postos. 

“Mais um pouco! Que me não traíam as forças agora que estou a chegar ao termo da jornada. Que me fique nas veias uma só gota de sangue e com ela irei ao extremo da viagem”. 

Mas os olhos empanavam-se-lhe, dobravam-se-lhe os joelhos, vacilava indo de encontro às árvores e aos seus ouvidos chegava um rumor confuso como o do longínquo bater do mar. 

Deteve-se encostado a um tronco, olhando — os abutres cercaram-no a princípio medrosos; mas o primeiro avançou, logo outro o seguiu, outro, mais outro e, atirando-se todos ao corpo do peregrino, começaram às frenéticas bicadas. 

Ele ainda tentou reagir mas faleceram-lhe as forças, os braços penderam moles ao longo do corpo aberto em chagas. Passou-lhe, então, na saudade, a visão do lar que abandonara — lembrou-se da terra amiga que deixara, da esposa, dos pequeninos filhos, mas a visão foi rápida porque logo os olhos se voltaram para o ponto luminoso que parecia estar tão perto, a uns passos curtos daquele sítio de morte. 

Súbito, de todos os meandros do bosque romperam risos sarcásticos e o peregrino, só então, chorou, porque em verdade, doíam-lhe mais aqueles risos do que as bicadas das aves. 

Esmorecia; ia-se-lhe o corpo curvando e tombou no atascal e, no momento em que exalava o derradeiro suspiro, pareceu-lhe ouvir a voz oracular que saía do bosque repetindo as palavras que dissera: 

“Que há de ser de ti, mancebo imprudente? Julgas, talvez, que está próximo o termo da viagem? Muito tens ainda que andar e que sofrer...” 

Era outro que vinha ousadamente, trilhando o mesmo caminho ingrato que levava à gloria. 

Que perecesse aquele, outros que perecessem, o caminho há de ter sempre andejos que por ele sigam, afrontando tormentos, de olhos postos no além, na eterna luz que fulgura.

A árvore (Conto), de Coelho Neto


 A ÁRVORE

Dans les villes et dans les écoles l’esprit subtil et vain peut rire de l’âme de l'arbre. On n'en rit pas dans le désert, dans les climats cruels du nord ou du midi, où l’arbre est un sauveur.
On y sent bien le frère de l’home (Michelet) 

Quem, como eu, teve um dia a fortuna de dormir agasalhado por uma floresta, mais antiga que a cruz nesta formosa e moça região da América, sentiu, por certo, a mesma impressão poderosa que avassalou o meu espírito quando, ao morrer da luz forte, ao nascer da luz branda, desde a beira do rio até o íntimo da selva, correu um sussurro manso como o suspiro amoroso da vegetação. 

Os nossos canoeiros, acocorados em torno de um fogo de versas, as mãos estendidas acima da chama que as avermelhava como se as trespassasse, falava baixinho. A água lenta e cheia do rio deslizava com um leve murmúrio e, por vezes, longe, um pio de ave noturna feria o silêncio. As nossas redes oscilavam de galho a galho fazendo farfalhar a folhagem. 

Esfriava. Docemente, no céu límpido, ia a lua subindo. Já a densa fronde alta estava toda forrada de alvo e, insinuando-se pelos escassilhos, atravessando as abertas, a claridade mística escorria pelos troncos, alastrava a alfombra, brilhava na água ou estendia-se no recesso do arvoredo ribeirinho figurando maravilhosas estruturas: Aqui era um adito de capela, com o altar atoalhado, os nichos brancos, como de mármore; ali eram ruínas dos castelos — as franças semelhavam muralhas aluídas, parapeitos ameados, torres que subiam talhadas em seteiras; e clarões, salteando o negror, criavam perspectivas fúnebres e fundas recuando aquelas fantasmagorias selvagens. Além era uma alvura que se destacava, perpendicular e esguia, fincada na treva como um cipó solitário. Mais longe, disseminadamente, esplendores colgando o negrume e a água lisa e dormente do rio espelhava todos aqueles aspectos estranhos recordando-me as descrições românticas do Reno onde os poetas vão abeberar a musa elegíaca, ao longo das margens tradicionais em que perduram, como arcabouços do passado, muros negros de castelos e elfos e ondinas, à noite, esvoaçando ou bailando, redizem lendas do velho tempo ou entoam bailadas melancólicas que fazem tremer o barqueiro retardatário ou assombram e enlouquecem o afoito caçador furtivo. 

Meus companheiros dormiam; eu velava extasiado, olhando o céu por entre os ramos e parecia-me que as estrelas eram flores que desabrochavam na coma altíssima daquelas árvores. Por vezes, como se alguma se desfolhasse deixando cair uma pétala esplêndida, uma centelha descia trémula, bruxuleando e perdia-se... Vagalume errante, vagalume errante, ardentia alada dos oceanos de verdura. 

Então senti, senti bem a vida grande e misteriosa das árvores. 

A espaços era um crepitar, depois um estalido seco, e logo um hálito — era a brisa que passava... Seria a brisa ou o suspiro da selva pressaga? Pobres árvores acolhedoras, prisioneiras da terra, eu bem senti que vivíeis e vós, porque nos víeis ali, quisestes guardar reserva como o caçador surpreendido pela fera que, de bruços, contém a respiração enquanto sente o inimigo a farejá-lo. A vossa alma, que os gregos personificaram na hamadríada, não ousou deixar o recesso dos cernes, lá se ficou encolhida porque o homem cruel estava ali perto. 

Debalde o luar magnífico brilhava, debalde as auras passavam, não procurastes corresponder ao apelo do mistério e a noite correu serena e casta, só os arbustos amaram, eles, os pequeninos, eu bem os senti que se abraçavam na sombra, junto às raízes dos jequitibás portentosos; mas, pela madrugada, um perfume forte, acre, estonteante, veio até mim, perturbador como uma sedução — vinha de longe, era a respiração ofegante das árvores que se amavam na brenha virgem, era o aroma nupcial da floresta, a exalação erótica dos vegetais. Era o amor poderoso e eterno da natureza, o amor fecundo, o amor criador que passava em eflúvio pelo bosque, multiplicando a beleza, a graça, a força e o benefício. 

E porque se acautelavam tão pudicamente as árvores mais próximas? Porque sentiam o homem, o homem cruel, o encarniçado inimigo da sua generosa espécie. Ó se têm alma as árvores! 

Alma é amor e que maiores provas de amor queremos que nos dê a árvore? Ela é a purificadora do ar que respiramos, ela é que nos garante a fonte que jorra para a nossa sede e para a rega dos campos, ela é a fiandeira de sóis — caem-lhe na copa os raios caniculares e ela, desfiando a flama, dá apenas o calor ao que se achega à sua sombra. Ela é a medicina, ela é a beleza cercando a moradia em que vivemos, ela é a nossa confidente discreta porque é sob os seus ramos que abrimos francamente o coração deixando livres as saudades e as reminiscências. Assim é a árvore viva. 

Morta ela é tudo — o princípio e o fim: berço e esquife, e, entre esses dois polos, tudo mais é floresta: a casa e o templo, o leito nupcial e o altar, o carro que trilha os campos, o navio que sulca os mares, o cabo da enxada e a haste da lança, tudo é madeira, tudo é arvore, é a floresta. 

Matai a árvore e tereis o vagueiro. A terra tem os seus nazires: Sansão tosquiado é impotente para a vingança, as regiões devastadas tornam-se desertos. E que vemos nós por todo este vasto Brasil que era uma floresta frondosa? A destruição inclemente. E porque vai tão encarniçadamente o homem à árvore, que foi a primeira geradora do lume nos tempos remotos do pastor ariano? Porque a árvore é um ser bruto, insensível e mudo. Ah! que se atentasses bem, lenhador, à morte de árvore, tal não dirias, homem de coração. Ao primeiro golpe do machado todo o colosso treme e os passarinhos, como a gente de uma cidade abalada por um terremoto, logo desertam os ninhos. Vai o segundo golpe ao mesmo lanho, afunda-o — eis a seiva a correr, é o sangue que se esvai; outro golpe e começa a árvore a gemer surdamente, doridamente — a sua folhagem agita-se como a acenar à clemência, os seus ramos debatem-se mas o lenhador, a mais e mais empenhado na crueldade, redobra os golpes e canta. 

Em torno da que agoniza as outras parecem tremer como ovelhas num pátio de matadouro e, como se de uma a outra corra a notícia cruel, toda a floresta vibra prevendo a mesma sorte. 

Por fim, a um golpe mais rijo, um estalo responde — é o estertor da árvore e o lenhador recua e fica a olhar... Lá vem pendendo a frondosa cabeça, inclina-se e um fragor levanta-se na mata; derruba-se hirta, roçando de raspão nas companheiras, a árvore ferida e cai estrondosamente esmagando os arbustos gerados à sua sombra. Cai e agoniza e leva dias agonizando até que se lhe vão secando as folhas, encolhendo, mirrando... então sim está morta a árvore. 

E para que a sacrificas, homem de coração? Para o fogo... e secas a fonte da qual a vítima era como a ninfa protetora, e esterilizas o terreno que ela fecundava alimentando-o, como o pelicano, com o seu próprio sangue que ia nas folhas, que ia nas flores, que ia nos frutos. E, com a morte das árvores, lá se vão os animais e, em pouco, o que os descobridores viram como a região favorecida da fartura e da beleza não será mais que um campo arrasado, seco e triste, cavado em valetas que foram leitos de rios, brocado em grotas que foram nascentes e desamparado ao sol esterilizador... 

Felizmente começa a reinvindicação e coube à criança iniciar a santa empresa. Para responder ao machado ai está a enxada nas mãos débeis dos infantes — mas a semente é como a esmola e a Terra é como Deus: dai-lhe um grão e ela vos responderá com a centena, plantai um renovo e ela vos gratificará com o milhão e ainda com prêmios maiores que são o ar puro, a água, a sombra, a medicina e com a sua beleza — assim a árvore demonstra a sua gratidão 

Não tem alma e é grata! não tem alma e vinga-se... 

Eu, que tive a fortuna de dormir agasalhado por uma floresta, posso dizer-vos, crianças heroínas do renascimento, semeadoras benditas da segunda geração floral: fazei o bem às árvores que elas saberão corresponder à vossa caridade e lembrai-vos de que a festa que celebrais é o início de uma Redenção: renovar a flora é robustecer a Pátria da qual as florestas são os reservatórios de vida e de fortuna.

A propósito de festas (Reflexão), de Coelho Neto


 A PROPÓSITO DE FESTAS

Em torno do círculo eterno são vários e diferentes os caminhos da vida, mas as regiões que eles percorrem são invariavelmente as mesmas. A primeira — brumal — o ponto de partida, é a região da infância que coincide com a última — nivosa — região da velhice, como se fosse uma aurora d’aquela noite, um esbatimento suave daquela sombra. Segue-se — floreal, a região luminosa e alegre da adolescência, depois germinal, a fulgurante e cálida região da idade adulta que se inclina, em crepúsculo, para a treva tristonha. 

Há uma larga e fácil estrada central, sem desvio, que liga os pontos extremos — é o caminho afortunado. Por ele seguem os felizes, os que fazem a travessia com descanso, sempre protegidos por sombras gratas. Ainda assim nem sempre os peregrinos alcançam a desejada meta porque não faltam ciladas, não rareiam abismos — as mesmas flores admiráveis que enfeitam e perfumam as margens estilam veneno, as águas límpidas dos lagos ocultam serpentes e sob as folhagens que se adensam em macios tapetes trescalantes, há vórtices que devoram os caminheiros incautos. 

E quantos são os que se aberram, uns por ousados, outros por curiosos, ainda outros por ambiciosos abalsando-se e perdendo-se nos ínvios caminhos! Ah! Os ínvios caminhos...! Esses são estreitos — uns pedregosos, outros apuados de espinhos, outros alagados por imensos marnéis, outros ainda acidentados e todos estéreis, com raras fontes e árvores escassas mas, como vão por vários sítios, sempre com horizontes novos, umas vezes ladeando a estrada larga, outras vezes subindo em aclives fatigantes pelas serras escabrosas, descendo a floridos vales, são os que o Destino escolhe para os poetas, não só para que os cantem como também para que, com os seus cantos, deem coragem à turba numerosa dos infelizes que os trilham. 

A estrada larga é mais fácil mas não é mais bela — a regularidade da sua beleza torna-a monótona. Os aspectos dos caminhos variam de instante a instante, os mesmos perigos encantam e o orgulho de os vencer já constitui um incentivo. 

Há um lago, é necessário atravessá-lo, a empresa não é fácil, antes, porém, do arrojo o caminhante contempla extasiado as maravilhas que tornam o sítio admirável e, enquanto os olhos gozam, o sofrimento adormece... depois... à aventura! E, por todos esses caminhos vários, a Humanidade desfila em rumo ao seu destino. 

As regiões, com os seus climas, com os seus aspectos próprios, essas não variam. 

O feliz lembra-se vagamente da névoa tênue de que saiu para uma doce luz. Ó a alegre passagem! Como andava ligeiro e contente! como tudo lhe parecia delicioso! Não tinha cuidados nem tristes pensamentos, seguia cantando, por entre flores. Depois o sol, o vivo sol, os frutos corados vergando os ramos das árvores, um momento de repouso num sítio aprazível, um encontro idílico, por fim a doçura da tarde, o silêncio da noite e o serão à volta do fogo. 

Felizes são os que podem achegar-se à lareira, felizes são os que sabem acumular o necessário combustível para a noite gelada. São como centelhas em torno dos corações dos velhos as cabecitas louras dos netinhos gárrulos, e, eles, buscando-os, sentem-se rejuvenescidos vendo nos cabelinhos anelados como lampejos do Sol da mocidade, o passado, tudo que foi, o irregressivo tempo. 

Como os felizes gozam os infelizes — não à lareira, mas à beira de um fogo, às vezes mais vivo e mais alegre... Pois não é verdade que as criancinhas pobres riem mais francamente? E vendo-as os avozinhos recordam os transes difíceis, mas os mesmos espinhais florescem, o mesmo cardo dá a sua flor e não há vida miserável que não tenha, lá no fundo, como um lírio em águas de paul, a sua flor de poesia. 

No extremo são todos os mesmos e, quando a noite entrevece, quem pôde saber, na multidão dos velhinhos trêmulos e engelhados, todos com as mesmas rugas na face e com as mesmas saudades no coração, quais foram os que vieram pela estrada fácil e quais os que tiveram de vencer os tropeços dos caminhos escabrosos? Na morte? Quem os distingue? São todos os mesmos pobres velhinhos. 

O que lhes resta no fim da vida é essa saudade grande chamada tradição. E que é a tradição? É o lume que as gerações se transmitem, é o fogo sagrado que a Alma dos povos, como a antiga vestal, deve conservar sempre vivo. Todos os que viajam nos caminhos da vida trazem da peregrinação uma lembrança ou deixam ficar uma recordação. 

Os poetas passam e deixam os seus hinos, os profetas deixam as religiões. Aqui fica a memória de um amor, ali a ruína de um templo. 

Os velhos, à noite falam aos moços do que viram e eles, que veem? Que encontram? Tudo arrasado: a Poesia morta, a Beleza extinta e fazem a viagem sem uma impressão, sem uma alegria, sem um oásis onde se reúnam confraternizados e repousem celebrando o culto do Passado. 

Não há memória de um só homem que tenha começado a viagem partindo da segunda região — todos vêm da névoa infantil, todos saem do mesmo ponto para que gozem todos os climas e tenham todas as impressões e é por isso que se perpetua no mundo o amor da Humanidade, é porque “em tudo há um pouco do passado”. 

Nós caminhamos sobre túmulos: Como os antigos guerreiros para tomarem de assalto os muros das cidades iam subindo pela mortualha, fazendo de cada cadáver o degrau da escada, nós vencemos à custa do que foi — o dia de ontem é que nos deixa no amanhã, a noite, que é a morte, é que nos traz o dia — nas escadas, entre os degraus, há um vácuo como os túmulos. 

E por que havemos nós de ser ingratos com esse Passado ao qual tudo devemos? Quem o não lastima? Quem o não invoca? 

Comme nous voudrions, ne fût-ce qu’un moment,
Revenir en arrière et, frissonants d’ivresse,
Parcourir de nouveau le meandre charmant
Que creuse en s’écoulant, dans nos cœurs la jeunesse!" 

A alma rumina — no fim da vida ela apenas se alimenta de saudades. 

Dir-se-á que os séculos não carecem de poesia — a Poesia é o espirito, é a mesma alma da Humanidade. Calem-se os poetas e o mundo, com a sua agitação frenética, ficará como um grande corpo de convulsionário rebolcando inconscientemente. 

Agindo, o homem só atribui o seu trabalho à mecânica do corpo — é a mão que escreve, burila, debuxa, cava, semeia, vence, erige, destrói e abençoa. Ninguém no momento da ação, se preocupa com a alma, ela, entanto, é a ideia na frase, a expressão na figura, o sentimento na paisagem, a intenção no braço do cavador, a direção na destra do semeador, o esforço no punho do soldado; a simetria no escopro do arquiteto, a fúria no montante e o amor no gesto que perdoa e sagra. 

Assim no progresso só se vê o produto material, ninguém penetra o segredo das coisas, que é a Poesia, criadora de Deus e da Liberdade, ubíqua como o próprio Deus. 

A poesia não está só nos poemas, em tudo ela existe: sob a clâmide e sob a blusa, sob a farda e sob o amicto — ela é a alma... Guia, ela tem um Norte, o Ideal... e é porque ela o indica que a Humanidade caminha. 

Todos os povos veneram a sua Poesia, quer seja ela a Ilíada ou os Niebelungen, quer seja a simples farândola no campo florido ou a suave vigília em torno de um rústico presepe. Essa poesia simples, popular, que nos vem de eras perdidas, modificando-se, sem todavia perder a beleza, constitui, entre os homens, um elo forte, robustecendo neles o sentimento patriótico. Quem não terá visto o emigrado triste, sentado pensativamente no limiar da casa em que se instalou no país novo, suspirar, olhando o céu estreitado, em noites santas, a pensar nas festas que se celebram nos campos de sua terra? Será o europeu mais rude do que nós outros? Não, entretanto, apesar da intensa cultura intelectual que o distingue, é ele o povo mais conservador das tradições, mais respeitador das coisas do Passado e esse respeito dá-lhe mais resistência à crença, prende-o mais à terra, conforta-o no desalento — como ele traz a sua religião, traz a sua poesia... 

Só nós, só nós, povo de ontem, povo infante, nós que ainda nos achamos na primeira região: brumal, por uma vaidade ridícula ou por um triste indiferentismo que demonstra o nosso desinteresse pelas coisas pátrias, deixamos que pereçam essas tradições ingênuas, uns alegando que elas são restos de um culto pagão, superstições deprimentes, abusões aviltantes, outros porque entendem que o tempo é escasso para os negócios lucrativos e que essas festas infantis revelam ingenuidade, falta de ponderação. 

Que o brasileiro é um povo triste sabem quantos visitam este alegre país, poucos, porém, ousam dizer a verdade, que ele é... 

Em tudo quanto produzimos o que logo se nota é a absoluta falta de sinceridade, nem pode haver tal virtude quando há imitação. A nossa Poesia é um reflexo — os nossos poetas vivem a gemer, não porque sofram, senão porque está em voga o gemido. Se a Arte se nubla com o nefelibatismo, surgem os nefelibatas e já temos os sinfonistas, os decadistas e uma série de bardos em ista que não valem um caracol. A verdadeira, a genuína Poesia brasileira raramente aparece e é preciso ter um grande nome para lançar à publicidade quatro ou cinco estrofes de um puro lirismo sem mescla de estrangeirice. 

Somos um povo novo, devemos ter alegria e devemos cantá-la — só a Poesia espontânea vive, o arrebique é frágil. Não é inspiração que nos falta e a natureza aí está a oferecer-nos copiosas fontes mas... a França atrai-nos e, como nos vestimos à francesa, também poetamos à francesa. E vamos deixando morrer as tradições. 

Antigamente, como eram divertidas essas festas de junho — Santo Antônio, São João, São Pedro... Quem as gozou deve lamentar a geração de agora, triste geração, triste e presumida, que não conheceu o encanto de uma noitada em torno da fogueira crepitante, a ouvir trovas e vaticínios, enquanto as névoas se confundiam com o fumo dos fogos e os estralos das bombas faziam com que não fosse ouvido o leve e amoroso rumor de um beijo. 

Oh! O passado, as festas do passado... 

Quem escreve estas linhas faz a travessia da vida por trilhos difíceis e muito lhe tem custado vencer certos trâmites pedregosos, mas não inveja os moços afortunados que vão pela estrada larga, mas sem encantos, saturados de filosofias e com mais descrenças e mais tédio na alma do que o frenético Timon de Atenas. 

Ele soube ser criança: na idade de brincar brincou e, ainda hoje, diante de uma fogueira, lembrando-se do velho tempo, é bem possível que a saltasse bradando um viva! Ao santo festejado. 

Mas o brasileiro começou pelo fim: É um povo que saiu da noite, como as estriges. Quando entrará ele na região da alvorada? E quando chegar à velhice, que dirá ele às novas gerações, ele que nada leva, ele que vai destruindo e apagando o que recebeu dos bons velhos d’antanho, a crença, o amor e as tradições? 

Merencória velhice vai ser a tua, povo de velhos que ainda balbuciam.

Um audaz (Conto), de Coelho Neto


UM AUDAZ

A vida extraordinária desse robusto e alegre Steelman é das que se prestam às urdidas e complicadas páginas dos romances de aventuras, com imprevistos maravilhosos, rasgos admiráveis de energia e audácia e prodígios a cada passo. 

Steelman tem sido tudo, conhece todos os gozos e não há dor nova para os seus nervos. Foi tatuado na Tartária: desenharam-lhe nas costas os mistérios da vida de um lama e inscreveram-lhe no peito, com um sortimento de finas e compridas agulhas, em três espaçados meses de tortura, um dos quatro livros da Moral de Confúcio. 

Em Esmirna teve uma cultura de bálsamo; foi pastor de camelos no Teeram; curtiu peles numa aldeia pestífera da costa do Mar Vermelho; conduziu hostes negras de uma aringa ao deserto onde destroçou um bando rapace de beduínos que incendiava as culturas e furtava o gado, pregou num templo budista, passou sob a terra, nas margens do Ganges, com uma plantação de aveia a brotar sobre o túmulo em que o encerraram, vinte e tantos dias, sem sofrer, sem sentir, dormindo tranquilamente “no seio da morte”. 

Numa povoação Tibetana, que era um imenso oásis de palmeiras, esteve nu, com uma leve tanga em torno dos rins, as mãos rijamente ligadas por uma corda de fibra de coqueiro, a cabeça curvada sobre um cepo, sob o gladio reluzente e curvo de um fanático. 

Livrou-o da morte um prodígio do qual ficou referência memorável numa laje, em caracteres eternos, gravados fundamente, a ferro. Na ocasião em que o carrasco, agarrando, a mãos ambas, o alfanje largo, derreava o corpo para vibrar o golpe, uma cegonha, passando no ar, deixou cair do bico uma flor sobre a cabeça da vítima. 

O carrasco ficou como de pedra, a olhar; a multidão tremeu e, repentinamente, com uma algazarra que chegou às montanhas, onde os penitentes queimavam lenhas aromáticas, entre cedros frondosos, as mulheres, numa fúria, descabeladas, aos ululos, arremeteram, derrubaram o carrasco, romperam, a dentes, as cordas rijas e, carregando Steelman, nu e pálido, entraram com ele no povoado, aclamando-o e, com a notícia do caso, apareceram adoradores, houve ideia de exigir-se um templo ao homem da tez rosada, moveram-se, dos mais fundos desertos, peregrinos com presentes e Steelman ficou como um deus, adorado, principalmente pelas mulheres, que lhe pediam fios de cabelos e da barba loura, razão pela qual esse homem admirável é calvo como Sócrates e glabro como um hierofante. 

Nessa terra de trato rude e velhíssimos costumes andou ele, dous anos, representando uma divina hipóstase, e, o que maior tédio lhe punha na alma era não poder caminhar livremente porque, se aparecia nas vielas, com ânsia de ar, logo o povo correndo atropeladamente para forrar-lhe o caminho com as tangas, prostrava-se no pó da terra, seco e imundo, com um murmúrio de reza, beijando-lhe os pés nus, as canelas nuas, todo o seu corpo nu e ele tinha de seguir vagarosamente, rompendo aquela difícil muralha de homens, de mulheres e de crianças, babujado por aquelas bocas, beliscado por todos os dedos que não lhe deixavam um pelo curto nas carnes. 

Só os cães se animavam a fitá-lo, alguns mesmo rosnavam farejando-lhe as pernas e ele voltava à sua choça derreado, com o braço direito pendido e esmorecido de tanto sacudir bênçãos sobre as cabeças devotas, sobre os mirrados campos para que se cobrissem de milho, sobre as águas escassas para que não cessassem de correr e ainda pelos ares para que os não toldassem as nuvens de gafanhotos. 

Fugiu, com ódio e nojo, àquela gente espessa descendo o rio num barco de couro com uma rapariga e, chegando a uma cidade, já inglesa, onde havia gin e polícia, respirou largamente, com satisfação, quando se viu entre as mãos de quatro policemen severos por causa da sua nudez divina, contrária à moral e às leis inglesas. 

Meteram-no em uma prisão sórdida onde passou uma semana, entre um faquir bêbedo e uma velha do deserto, douradora de víboras, que chorava e cantava versos de Firdusé. 

Steelman, na pocilga, não se cansou de render graças a Deus que o livrara daquele martírio da adoração, restituindo-o à vida, com as suas leis exigentes, os seus cárceres sujos, as suas inflexíveis justiças e os seus grogues. 

Na Rússia Steelman comprometeu-se no niilismo aliando-se, em pacto tremendo, aos impulsivos do otchaianié. Fez-se apóstolo da regeneração, adorou o mujique e preparou uma bomba que explodiu à beira da linha férrea dois segundos depois da passagem de um trem imperial e, uma tarde, à margem do Neva, depois de um conflito, foi espezinhado por um esquadrão de cossacos ficando sobre a neve, com o corpo em pandarecos, e uma costela a pedir solda. 

Na Polônia, em Varsóvia, foi do partido dos libertadores e escreveu panfletos com o pseudônimo de Kosciusko. Foi membro da Máfia, na Itália; na Inglaterra alistou-se na “Salmtion army”; em França ateou uma jacquerie, abafada a tempo; apedrejou conventos na Espanha, dirigiu uma greve de cocheiros em Portugal, tentou incendiar o harém de Constantinopla... 

Mas, a sua aventura maior foi em Dakar. Saltando nesse porto com a sua insaciável curiosidade de homens e de paisagens, foi seguindo, ao acaso, por entre choupanas e lixo, repelindo cães e negrinhos, a ver, a informar-se, debuxando no seu álbum trechos da terra seca e misérrima, negralhões em camisolas folgadas, negras de grandes e pendurados beiços, tetas moles e chatas e carapinhas altas como cocares. 

As casas, umas locas, eram acaçapadas, algumas arriavam os muros frágeis fendidos, arrimando-se às árvores. Uma poeira quente embaçava o ar e, do labirinto lobrego daquela imensa arenga, saíam porcos grunhindo, cães gafados, ladrando, lotes de negrinhos nus, aos saltos, rinchavelhando. 

Steelman ia seguindo, a olhar, mas, amolecido pelo bochorno, sentindo as pernas vergarem-se, já se decidia a voltar quando viu, por entre as árvores, alvejar uma casa, à cuja frente uma latada verde cobria de sombra duas mesas toscas e dois compridos bancos mal acepilhados. 

Um homem de rotundo ventre, barbudo e sardento, fumava à porta. Steelman adiantou-se e percebeu, com alegria, que a casa era uma tasca: lá estavam as garrafas, as latas de conservas, pencas de frutos e, no seboso balcão, uma pipinha de Cristal com aguardente. Pareceu-lhe aquilo um oásis providencial e logo, dirigindo-se ao gordo homem, que era francês, pediu cerveja e charutos — só havia cerveja e infame; Steelman resignou-se e, abancando a uma das mesas, tirou o casaco, arregaçou as mangas da camisa e bebeu, depois estirou-se em um dos bancos e adormeceu. Quando acordou a luz era branda, cantavam cigarras, e uma brisa, cheirando a florestas, sacudia as palmas dos coqueiros. De repente, pálido, de olhos arregalados, boquiaberto, Steelman ficou como se houvesse avistado um leão ou uma serpente — é que uma ideia irrompera, súbita como uma pontada: o paquete! Ergueu-se assustado, pagou a cerveja choca e deitou a correr seguido de cães que ladravam e de moleques que riam, chegando à praia esfalfado justamente quando a lua, imensa e amarela, como de cera, subia pelo céu vazio: o paquete era um pequenino ponto no horizonte que logo desapareceu ficando no seu lugar, à flor das águas, uma estrelinha a brilhar. 

As muitas e arriscadas aventuras deram a Steelman uma resignação invejável — duas pragas surdas e um leve encolher de ombros e o grande homem retrocedeu lamentando apenas a falta de charutos e o seu inseparável Homero. 

Caminhando pelas ruelas apagadas onde começava o despejo, chafurdando em Iodo, pisando flácidas imundícies que se esparrimavam molemente sob os seus pés, chegou ao albergue onde o francês, na doçura da noite morna, com o cachimbo nos beiços, já bêbado, afagava a carapinha de uma negra lúbrica. 

Entrou, contou a sua desgraça e pediu ceia e cama. A negra, num assomo de pudor, encolheu-se toda, escondendo nudezes e o francês, com um espanto grande no carão barbudo, pôs-se a resmungar — que fora mesmo uma desgraça aquela partida do paquete e que, para ceia, se podia arranjar umas bananas fritas em azeite. Steelman comeu as bananas e dormiu num catre, forrado de palha, num quarto contíguo ao do alberguista de onde, até adormecer, revoltado com aquela molície, ouviu a negra gemer e o homem fungar como um suíno no lodo. 

Cedo, ainda escuro, Steelman saltou do catre, escancarou a porta e saiu à procura da água — não havia água, tudo era secura e miséria. As árvores pareciam cobertas de cinza, a terra era todo um cineral, as mesmas casas pareciam feitas de cinza amassada. Rugiu com ódio e, numa assanhada revolta, responsabilizando a França por aquele desconforto, jurou, no seu íntimo, tirar uma desforra tremenda conflagrando a negrada da Senegambia contra o governo da grande República que assim deixava uma das suas colônias sem água para um banho e sem um charuto. 

Efetivamente, recolhendo ao albergue, meditou um vasto plano de conspiração que, numa hora de matança e de fogo, acabasse com a dominação francesa. Redigiu a proclamação e os primeiros decretos, lançou as bases de uma constituição liberal na qual, como legislador supremo, permitia a poligamia e a nudez e, com as suas notas no bolso, saiu a tramar. 

Sabendo, por velha experiência, que não há povo, na face da terra, que se não julgue oprimido, Steelman dirigiu-se ao primeiro negro que encontrou, agachado junto a um poço, coçando as pernas; chamou-o com mistério e expôs-lhe a sua ideia. O negro, pasmado, esfolava, escalavrava as pernas com as unhas sem perceber palavra e foi necessário que o grande homem lhe dissesse claramente — que era preciso acabar com os franceses, queimar as casas dos franceses, não deixar na terra negra memória alguma dos franceses, juntando às palavras, como se as ilustrasse, a mímica mais precisa e feroz, para que o “comedor de carne de porco”, saltando e ululando, lhe atirasse os braços ao pescoço, comovido. E logo saiu a concitar os companheiros e, em pouco, toda a população, reunida num bosque, ouvia a leitura da proclamação sediciosa. 

Facas reluziram, fimbos entrechocaram-se e, com um juramento solene, todos comprometeram-se a dar cabo dos brancos antes que outro sol luzisse e uma negra, com louvável patriotismo, rasgando a saia, que era de riscas vermelhas, ofereceu um trapo para bandeira. Steelman foi aclamado salvador da Senegambia e senhor absoluto de terra e mar, desde as carvoeiras do porto até as minas do sertão. 

Infelizmente, porém, um negrote mais entusiasta ou mais bronco, sem paciência para esperar a hora propícia da meia noite, logo à tardinha, com um facalhão afiado, vociferando contra a França despótica, saiu à procura de franceses. Foi preso e, ante ameaças de torturas e de morte, denunciou a conspiração sem omitir a leitura da proclamação e o episódio da bandeira. 

Steelman, vendo-se perdido, ganhou a floresta e, durante noventa e tantos dias de trabalhos e sustos, de misérias e dores, caminhou pelas brenhas, ouvindo silvos de serpentes e frémitos de tigres, nutrindo-se de frutos e de raízes, desalterando se em pântanos até que alcançou uma feitoria portuguesa de onde pôde passar a terras da Europa, como cozinheiro num brigue. 

Esse homem raro que conhece toda a terra e que nela tem sido tudo, encontrando-me, nas vésperas da sua repentina partida, disse-me, com verdadeiro terror: “Meu amigo, só agora ao fim de trinta e tantos anos largamente vividos neste vastíssimo e descontente planeta, que tenho percorrido, como aquele herói do conto suábio, “sem conhecer o medo” vim tremer neste ponto superior da terra onde as árvores são sempre verdes e os homens sempre amarelos. 

“Fui adorado por um povo forte e guerreiro que, antes de queimar resinas a meus pés, tentou arrancar-me a cabeça dos ombros; fui pastor de camelos, curtidor de couros, rás de uma horda niilista, socialista, anarquista e tudo mais que acaba em ista e que procura destruir a ordem social; preguei num templo, passei um mês num túmulo, tentei sublevar povos, fuzilei homens e leões, pisei constituições e serpentes, cavalguei príncipes e zebras, fiquei tostado aos sóis africanos, tiritei em covas de esquimós, combati na China por uma religião desconhecida e defendi os cristãos na Armênia, gemi em cárceres, três vezes a corda deu volta ao meu pescoço, fui tatuado, estive para sofrer uma operação decisiva que me desclassificaria e resisti a tudo sem empalidecer. Confesso-lhe, porém, que não me atrevo a ficar neste país excelente onde vim conhecer o que me parecia uma palavra vã — o medo. Saio daqui com medo, meu amigo, varado de medo”. 

— E por quê? Perguntei. 

— Por quê?! Pois não sabe que, seduzido por um homem, consenti em alistar-me e sou hoje eleitor? Francamente lhe digo — os que me admiram, os que andam a escrever louvores à minha coragem, não sabem que há políticos e eleitores nesta terra ou, se sabem, ignoram como aqui são feitas as eleições. Com uma cédula eleitoral, recebi uma caixa de armas, dois cunhetes, uma camisa de malha, o recibo que me garante sete palmos de terra no cemitério do Caju... e outros papéis. Não! antes a fera e os bárbaros. 

E o intrépido Steelman tomou passagem para o Amazonas, constando que vai viver entre antropófagos. Os jornais, anunciando a sua partida, subordinaram a notícia ao título: “Um audaz”. Um audaz... Pois sim!

O peixe (Conto), de Coelho Neto


 O PEIXE

Logo que se espalhou a notícia da prisão de Jesus — nesse tempo não havia jornais de grande (nem de pequena) tiragem, mas havia mulheres — os discípulos que eram apontados, em Jerusalém, como cúmplices do nazareno, trataram de acautelar a vida, não porque receassem perdê-la — que era a vida amargurada que levavam comparada à outra, de tranquilidade e glória, que lhes prometera o Mestre excelente? — mas porque tinham uma missão a cumprir que era a de levarem aos mais remotos e rudes confins da terra a doce palavra tomada nos lábios do próprio Deus. 

A polícia do sanhedrin, açulada por Malcus, que perdera uma orelha, varejava os khans das estradas, invadia os bazares que referviam nas verdes e floridas vertentes do monte das Oliveiras, trazia vigiada a casinha de Simão, na Bethânia, onde ainda durava o suave cheiro do óleo com que Maria untara os pés do moço amado e mantinha asseclas nas imediações das granjas de Getsêmani de onde o vento trazia um cheiro aborrecido e morno de azeite novo. 

Os mesmos galileus, de antes tão dedicados ao filho do carpinteiro, bandearam-se covardemente e, como conheciam os lugares proferidos de Jesus, prestavam-se a guiar os esbirros, já subindo com eles aos velhos cedros da colina sob cuja fronde, à tarde, quando os imensos galhos se cobriam de pombas, os que deixavam os pilões e os tanques, lustrosos de óleo, iam repousar um momento olhando, ao longe, as aldeias caladas que as névoas azuis iam pouco a pouco abrumando, ou desciam às margens escarpadas e rumorosas da pedrenta torrente do Cedron onde moças cantavam entre linhos alvos, corados nas ervas cheirosas. 

Jerusalém, a cidade maldita, era um perigoso sítio para quantos haviam acompanhado o mancebo divino que, trilhando as estradas de areia ou os caminhos pedregosos dos montes, espalhara, por toda aquela região amorável, a doutrina do amor e milagres. 

Cefas, muito comprometido, ofereceu-se para agasalhar os companheiros em Cafarnaum, na sua miserável cabana de adobe, à margem do lago de Genezaré. Não havia riqueza mas o Senhor, mais de uma noite, cobrindo o rosto com o seu alvo manto, dormira tranquilamente sobre um estrame, perto das redes que tresandavam à maresia e, de manhã, quando os primeiros barcos, deslizando na areia, molhavam as negras proas na água transparente, abrindo os olhos, abençoara aqueles muros enegrecidos de fumo e aquele teto onde as cegonhas costumavam parar olhando os espaços azuis que o sol ia dourando. 

Entre os galileus, das cinco cidades estariam a salvo da perseguição e, cumprida a dolente profecia, sairiam todos, cada qual a seu rumo, a espalhar a semente bendita que o divino apóstolo lhes deixara na alma. 

A proposta do pescador foi aceita e, como a noite era negra e alta, logo foi resolvido que deviam aproveitar o sono da cidade para a fuga; e fugiram. Não diz a tradição como fizeram a viagem, ora atravessando campinas rasas, de grande esterilidade, sem água e sem sombra, ora galgando alcandores de rochas nuas que, ao sol, ardiam e queimavam como brasas ou passando em desfiladeiros altos, de pedra negra, fervilhantes de víboras que silvavam ameaçadoras, à beira das luras. — Chegaram a Cafarnaum ao cair da tarde quando os barcos recolhiam lentos com o peixe vivo saltando, no fundo da quilha, num resto de água que rolava. 

Os pescadores, tanto que Cefas lhes dirigiu a palavra, logo o aclamaram com alvoroço e, esquecendo a pesca e a ceia que os esperava, quente e cheirosa, nos lares, às últimas luzes da tarde dourada, sentados em círculo na areia, pediram ao companheiro notícias do lindo moço que tantos milagres fizera naquelas paragens de simplicidade. E Cefas suspirando, com os olhos voltados para os lados de Jerusalém, anunciou aos pescadores a prisão do Messias. 

Foi uma consternação entre a boa gente. Alguns, mais exaltados, falaram em partir para a cidade vil, com armas. Forçariam as portas, assassinariam os guardas e iriam arrancar Jesus às mãos dos seus algozes Cefas, porém, que tinha experiência da vida, agitou a cabeça lustrosa, dizendo:

 

— Amigos meus, as coisas parecem muito fáceis quando as olhamos de longe — eu também tive ímpetos de levar tudo a gume de espada, cheguei mesmo a decepar a orelha de um soldado recalcitrante e teria debandado a guarda se o Mestre me não houvesse detido dizendo-me, com a sua voz doce e persuasiva: “Que não me opusesse à realização da profecia”. Embainhei a espada contendo a fúria e deixei-me ficar para um canto remoendo o meu ódio. Depois chegaram legionários cobertos de ferro, com lanças e, querem vocês saber, meus amigos? foi preciso que um galo cantasse três vezes entre as oliveiras de uma herdade para que eu recuperasse o ânimo que me havia abandonado. Ninguém imagina o efeito que produz no espírito de um homem a presença da polícia — é preciso ter sentido o que eu senti, eu que, vocês sabem, não sou medroso — afronto com calma as mais desabaladas tempestades e, mais de uma vez, atravessei sozinho o bosque de Tiberíades onde há feras que atacam... mas a polícia... não sei. Nós somos os depositários da palavra divina, continuou Cefas — se perecêssemos, quem espalharia entre os homens o gérmen da Nova Doutrina? Eu sei que vão crucificá-lo e, se não fosse a missão de que fui por ele incumbido, teria reclamado uma cruz, menor que a dele, porque sou um discípulo, mas com os mesmos cravos, no Calvário... Não devo, é preciso que me sacrifique pela sua Ordem — sou apóstolo, tenho de viver. E todos, em torno, lamentaram comovidamente a sorte daquele discípulo fiel que, por amor da doutrina e da salvação dos homens, deixara de morrer no monte, ao lado de Cristo e, sem parar, ferindo os pés nas pedras e nos espinhais dos ásperos caminhos, deixara Jerusalém a largas pernadas para refugiar-se em Cafarnaum. 

Ora, em Cafarnaum os rebanhos eram raros e, quando se abatia uma rês, era um acontecimento de que se falava longamente desde Magdala até Corazim. O lago nutria as populações que lhe ficavam à beira — peixe e frutas, mas não havia. Sabia disso Cepas e, caminhando vagarosamente, à brisa fresca da tarde, para a sua cabana toda aberta em frinchas, com erva brava pelos muros, foi preparando o espírito dos companheiros: 

— Olhem, amigos meus, aqui não há os recursos fáceis de Jerusalém, isto é uma pobre aldeia de pescadores — há o bom peixe das águas e a boa fruta dos pomares e alguma caça gorda, no tempo dos patos, e é tudo: tenham vocês paciência, é pelo amor de Deus. E, empurrando a porta da cabana, notou que ela resistia como se a houvessem pregado; forçou-a mais rijamente, e lá a levou dentro com fragor. 

Um ar úmido, tresandando a bolor, fez com que o apóstolo recuasse e, como um pescador aparecesse com um feixe de palhas embebidas em resina levantando uma chama rubra e crepitante, um bando de morcegos desprendeu-se das vigas e voou, perdendo-se nos ares melancólicos, toldados de brumas, que era o triste momento do cair da noite. 

Cepas entrou seguido dos companheiros e como não houvesse pescado nem lume um velho ofereceu-se generosamente para fornecer-lhes a ceia e logo pela filha, uma linda moça morena e forte como um cedro novo do Líbano, lhes mandou duas fundas malgas onde, em molho corado e perfumado a coentro, apareciam as postas de um peixe alvo e gordo, que cheirava apetitosamente. 

Sentaram-se os discípulos e, devorando, recordavam as passagens felizes do bom tempo — as tardes à sombra do cedro do Olivete ou no beiral das fontes onde se reuniam as raparigas, à hora em que os trituradores esmagam as azeitonas nas grandes fábricas de azeite de Getsêmani, os passeios à Betfagé, as subidas à Betânia. Alguns, ainda agarrados ao mundo, pensavam, com saudade, nas belezas da cidade vil — nos seus palácios, nos seus banhos, nos seus mercados e no formigar constante de homens que de manhã, à hora dos primeiros sons das buzinas romanas, entravam cantando, com os jumentos carregados de frutas, moças com ânforas de leite, gemores de farinha e gigos de ovos, outras com aviários de junco, as cabeças graciosamente ornadas de lírios, um ramo de rosas como a mostrar a divisão dos seios. 

Lá fora, a lua silenciosa iluminava de alvo o lago adormecido e foi o mesmo Cefas o primeiro a falar no Mestre: 

— A esta hora que fará Ele? suspirou. 

—Talvez pense em nós. 

— E nós aqui comendo este saboroso pescado que é o melhor de toda a Palestina... 

— Eu comeria de bom grado um pouco de carneiro. 

— E eu um bolo de farinha e mel ou um punhado de tâmaras. 

— Contentemo-nos com o peixe que outra coisa não há nestes lugares que o Senhor visitou e amou e lembremo-nos de que se fazemos este sacrifício, que há de ser contado no céu, o Mestre amado sofre a injúria, sangra, expira, talvez, entre os soldados boçais do romano e a cáfila cruel dos sabujos do Sanhedrin. 

Um largo e profundo suspiro abalou os velhos muros da cabana e as colheres raparam as malgas onde apenas restavam as espinhas chupadas e, como nada mais houvesse, os discípulos desceram à fonte e Cefas, juntando as mãos, com os olhos no céu, disse cheio de unção devota: 

— Seja tudo pelo amor de Deus! E, enquanto se demoraram em Cafarnaum, Cefas e os seus companheiros não comeram mais que peixe do lago... 

É por isso, para comemorar o sacrifício dos apóstolos que, durante a quaresma, o peixe é de preceito... Enfim, se não é por isso (bem pode ser que não seja porque essa tradição é muito contestada), deve ser por outro motivo, bem desagradável aos peixes que nada fizeram e que na semana santa têm a vida por um fio e custam os olhos da cara.

O Ney (Memória), de Coelho Neto


 O NEY 

Realizou-se, no cemitério de São João Batista, no Rio, a piedosa cerimônia da exumação dos ossos de Paula Ney. 

Eu estava presente quando as “maxilas do sepulcro” se fecharam sobre o corpo do generoso boêmio. A tarde era linda, uma tarde fresca e dourada. O arvoredo funéreo estava cheio de cigarras e, no alto e negro cruzeiro, brilhava ainda uma faixa de sol. 

Éramos poucos, todos amigos do que ia ficar no seio da terra e, silenciosamente, como se adubássemos o alqueive que recebera a semente, íamo-nos transmitindo a pá de cal antes que a terra incubadora rolasse fechando o túmulo; depois recuamos e os coveiros começaram o seu triste serviço. 

As cigarras cantavam, alegres coeforas que, dos altos ramos funerais, diziam adeus àquele irmão que também atravessara a vida descuidado, sem pensar nos invernos agrestes que trazem a fome. Cantavam, nem deviam chorar porque a morte fora para o excelente rapaz um descanso — tão consumido andava ele e tão triste, como um príncipe que houvesse perdido o seu reino. 

Nos últimos tempos tornara-se melancólico, silencioso, — raro em raro atrevia um comentário. Encostado à porta do Paschoal, os olhos parados e tristes, ficava horas contemplando a multidão negando-se aos convites. A alguém que com ele insistia, uma tarde, para que fosse beber um vermute, respondeu: 

— Obrigado, meu amigo — não posso aceitar: estou sem espírito; e encaramujou-se amuado. 

Dias antes da morte, indo eu visitá-lo, ele chamou-me para junto do leito em que jazia, estendeu-me a mão fria e magra — mão generosa que era como uma ponte de misericórdia entre a riqueza e a miséria, porque recebia dos banqueiros para dar aos pobres, e ficou a olhar-me — enternecido e mudo, com os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas; e disse, com uma voz surda e áspera, arrancada, a custo, do fundo do peito: 

— Estou acabando, meu amigo. A Morte, em mim, está procedendo por partes: estou assistindo a uma mudança. Ela começou pelos extremos: tenho os pés frios, tão frios que não os sinto — estão mortos: parece que estou soterrado em neve até à cinta. Não como, não tenho apetite... Isto cá por dentro está vazio — os órgãos essenciais já perderam a energia, a Morte levou-a. Estou agora sentindo que arrastam alguma coisa no meu coração. Ah! Não há de ser fácil a remoção nesse órgão, é que nele eu tenho os móveis mais pesados: o coração era o gabinete de trabalho de minha alma. Imagina o mundo de afeições que nele eu tenho...! E suspirou: Como deve pesar o meu amor de filho, velho amor que nasceu comigo e que a saudade foi, aos poucos, aumentando. Minha pobre mãe! E os outros amores! Meus filhos, ela, vocês, o sol, as crianças... tudo isto!... Quando saem das casas os móveis pesados, o soalho, por onde eles são levados de rastos, ficam vincados... é o que se está dando no meu coração. A Morte é brutal, meu amigo... que execução dolorosa! Como ela arrasta e como é lúgubre o vazio que se vai fazendo em mim...! Nunca imaginei que a minha vida acabasse assim, com um mandado de despejo. Sorriu tristemente e recostou-se nos travesseiros altos. Depois, tocando na garganta, continuou: Ouves a minha voz? Está rouca. Tu que a conheceste sonora deves ter pena da sua miséria atual. A Morte quis levá-la inteira, não pôde e fez com ela o mesmo que se faz a um grande móvel: desarmou-a e lá a vai levando aos pedaços. Foi primeiro o timbre — estou fanhoso, foi depois a dutilidade, estou áspero — resta-me o sarrido: falo como um asmático. Em pouco a Morte estará no cérebro abarcando as ideias e a divina Fantasia, que ocupa o altar-mor. É triste morrer assim, aos arrancos. Cair fulminado! Eis o meu ideal. Enfim... Quedou, cruzando as mãos. Que há de novo? Perguntou de repente, repuxando as cobertas. A Poesia indígena continua a proliferar? E a Política? E as mulheres? 

— Tudo como deixaste, Ney. 

— Não é possível: a imbecilidade deve ter produzido alguma coisa nova. Fala-me dos imbecis para que eu saia da vida sem saudade. Abriu os olhos como em ânsia e, surdamente, soerguendo-se, exclamou: Meus filhos! Que há de ser deles? Ah! Meu amigo, o que dói na morte é o desprendimento: os amores são as nossas raízes. Eu vou tranquilo — já dei balanço na vida: tenho um grande saldo a favor da alma e a benção de um sacerdote honesto... mas os pequenos? A Caridade anda muito atarefada e falta-lhe um repórter... como eu. Enfim... Deus está lá em cima e eu que tanto consegui dos homens ei de conseguir alguma coisa do Senhor, não te parece? 

Quando me despedi ele exclamou, conservando a minha mão: Adeus! Eu disse: “Até logo!” O moribundo sorriu: Até logo! Vais suicidar-te? Adeus! Adeus! 

De repente, com os olhos rebrilhantes, como se neles houvesse renascido a antiga centelha, filou-me e, rindo, com todo o corpo a tremer, pediu-me: Olha, vê se conténs F. Eu sei que ele anda a compor um necrológio para recitar à beira do meu túmulo, volta e meia está aqui a rondar-me, a beber inspiração. Compreendes que na minha posição de defunto, que é, com pouca diferença, a mesma de uma vítima do retrato a óleo, tenho de aturar resignado, mas vocês, meus amigos, que vão apanhar a maçada de uma viagem ao cemitério... não! Aquele canalha, que nunca conseguiu impingir-me um discurso, é muito capaz de aproveitar-se da minha morte para vingar-se... mas a pilhéria é que eu não ouço. Em todo o caso, por causa das dúvidas, não deixes falar senão depois que os coveiros houverem entupido a minha cova. E rimos. Dois dias depois extinguia-se serenamente o grande espírito. As suas últimas palavras foram ainda de piedade e fantásticas. Voltando-se para um dos amigos que o cercavam, rouquejou, referindo-se às crueldades praticadas em Canudos: 

— Que ei de eu dizer ao Eterno quando ele interrogar-me: “Ney, como é que em teu país há um homem que enfurna mulheres e crianças para matá-las a querosene?” Confesso que, pela primeira vez na minha vida, quero dizer, na morte ficarei sem resposta... Logo depois, vagarosamente, arquejando, murmurou: Daqui a pouco estarei como o meu alfaiate: cadáver. 

E assim desapareceu o gênio da pilhéria. 

Paula Ney, cuja vida foi sempre misteriosa, era conhecido em ama roda muito restrita — o boêmio, esse era íntimo do povo: o banqueiro e o operário, a matrona e a cocote, o fidalgo e o mendigo tratavam-no com a mesma familiaridade — era o Ney, o alegre Ney, que fazia rir, mas o verdadeiro Ney que enxugava lágrimas, que levava criancinhas doentes aos consultórios dos médicos, que guiava os cegos nas ruas, que visitava enfermos em verdadeiras tocas de miséria, que fazia enterros à sua custa e que defendia os animais com o carinho piedoso de um brâmane, esse só era conhecido no reduzido grupo dos companheiros. 

Trabalhávamos, uma vez, na tipografia Reynaud, onde era impresso O Meio: Mallet, escrevendo de pé, com o grande chapéu mosqueteiro, um imenso charuto a fumegar ao canto da boca, eu redigindo vagarosamente uma nota escandalosa, Ney, a vociferar contra a “sandice universal” quando assomou à porta uma velha, muito encarquilhada e tímida. 

Ney, logo que deu por ela, precipitou-se e lá se ficou todo curvado cochichando, a gesticular com o pince-nez. De repente bramiu: 

— Não senhora! Há de ser no sábado, neste sábado... senão... e rugiu ameaçador: meto-o na cadeia, a ferros. A ferros! Vá e diga-lhe isto: a ferros! E, tomando a velha pelo braço, inclinou-se e berrou-lhe ao ouvido: — Olhe, minha senhora, isto é uma canalha. Mulher não é melão que a gente cala para ver se está maduro. Diga-lhe que no sábado, às quatro horas, quero encontrá-lo pronto para a cerimônia. Os papéis estão arranjados, o padre está falado. No sábado! nem que chova raios, entendeu? Senão demito-o e meto-o na cadeia, a ferros. Ele sabe que sou homem para mais. Vá. O véu eu levo para salvar a moralidade do caso. E despediu a velhinha. Interrompendo, então, o nosso trabalho, esbravejou: — Comigo está enganado! Mallet voltou-se curioso: 

— Que é? De que se trata? Quem é essa velha, Ney? 

— Hein? A velha? Quem é? Homem, com franqueza... sei que é uma velha que a compulsória obriga a ser virtuosa. Procurou-me, há dias, lavada em lágrimas, pedindo-me que lhe salvasse a filha, uma linda pequena que abalara de casa com um amanuense. Pus os meus galfarros em campo e consegui descobrir o terno casal num chalé, no Engenho Novo. Entrei pelo ninho amoroso como o próprio símbolo da Honra e bradei: — “Olá, amiguinhos, não comprometam, a um tempo, com tamanho desplante, a gramática e a moral: o verbo amar é regular, nada de exceções arbitrárias...” e, intimando os pombinhos em nome da Lei, trouxe a pequena e dei ao marmanjo quinze dias para tratar dos papéis, sob pena de ser demitido e metido a ferros, numa fortaleza. Ah! porque se for preciso, vou a São Cristóvão, lanço-me aos pés do imperador pedindo justiça. O tipo anda a adiar a coisa e ontem foi pedir moratória, a pretexto de falta de dinheiro. Há de casar no sábado, mesmo porque eu sou o padrinho e a pequena não tem tempo a perder. Há de casar no sábado! 

— Mas que diabo tens tu com isso, Ney? 

— Que tenho! Homem essa! Não tenho nada... mas é um desaforo. Que tenho!... Tenho irmãs, sabe você? Tenho irmãs... Efetivamente, no sábado, às 2 horas da tarde, o Ney apresentou-se na tipografia enfarpelado para o casamento e com um lindo buquê de cravos brancos. 

Cabem-lhe perfeitamente as palavras com que Philarète Chasles traçou o caráter estranho do poeta do Intermezzo

Heine est peuple; il est bohemien, et il l’avoue: bonhome et médisant, il en convient. Mais il est home. Il est même vulgaire à bon escient et j’aime mieux cela. Il pleure, il rit, il se desole. Redoutable et toujours, présente, mobile, incertaine et s’égarant sans cesse, en lui vit éclate et flamboie, come le feu follet sur les marais, la flamme de la passion sincere”. 

Os que leram a notícia da trasladação dos seus ossos e que só conheceram o Ney das sátiras explosivas e dos paradoxos flamejantes muito devem ter pasmado sabendo que a Provedoria da Misericórdia resolveu realizar aquele meigo transporte em lembrança dos muitos e grandes benefícios prestados à santa instituição pelo grande estroina que parecia rir de tudo e que passava os dias às portas das lojas da rua do Ouvidor, não raro a pedir para os outros. 

Generoso Ney, só os que privaram contigo podem falar da tua caridade mas não serei eu quem desvende os teus segredos. Descansa em Deus, tu que foste o melhor de todos nós, o mais escandaloso e o mais meigo, o mais implacável e o mais terno — abelha dourada que distribuía o mel e as ferroadas com a mesma liberalidade. Descansa em Deus, puro espírito.