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5/29/2025

Coelho Neto: Os dez melhores contos (Seleção de Iba Mendes)


Coelho Neto foi um autor prolífico, que explorou diversos gêneros literários, incluindo romances, contos, poemas, peças de teatro e crônicas.  Como contista,  narrou histórias tocantes, algumas das quais já inseridas do panteão dos contos clássicos brasileiros, como é o caso de “Os pombos”. 


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4/28/2025

As sete dores de Nossa Senhora (Livro), de Coelho Neto

“Os quadros de “As Sete Dores da Santíssima Virgem Maria”, escritos pelo Sr. Coelho Neto, são um mimoso volume de interessantes e amenas leituras religiosas, que, pela sua elegância e beleza, prendem e recreiam o espírito e cativam o coração. O assunto nada perdeu da sua natural majestade sob a pena delicada de tão abalizado literato e aprimorado estilista, que o tratou com carinho, simplicidade o elegância de arte. É um mimoso ramalhete colhido mestre no precioso jardim da literatura, contornado ele belas imagens e ajustado cm finíssimas gazes de aprimorado estilo. É, pois, esse um livro ao qual não regatearemos nossos francos elogios e o nosso IMPRIMATUR, e ao seu Autor com abundância de coração damos a nossa bênção.” (J. Card, Arcebispo, 1907)

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4/05/2025

Os pombos (Conto), de Coelho Neto

 

OS POMBOS  

Quando Joana apareceu à porta bocejando, fatigada da longa noite em claro, à cabeceira do filho, Tibúrcio, de pé no terreiro, firmado à enxada, olhava o pombal alvoroçado. O sol começava a subir dourando as folhas úmidas à beira do córrego, esvoaçavam rolas, e os sanhaços faziam alegre algazarra nos ramos altos das árvores das cercanias. O caboclo, imóvel, não tirava os olhos do pombal que ficava à sombra de copada mangueira. Por vezes, franzia a fronte queimada, acusando a luta íntima, graves preocupações que lhe trabalhavam o espírito. Um pombo abalava, outro, logo outro — ele voltava a cabeça, seguia-os até perdê-los de vista e tornava à contemplação melancólica.

As aves iam e vinham, entravam, saíam agitadas, arrulhando alto. Esvoaçavam em redor da habitação, pousavam nas árvores, no sapé da cabana, baixavam à terra inquietas, fazendo roda, arrufadas. Algumas pareciam orientar-se buscando rumo claro espaço, aprofundando a vista nos horizontes remoalongavam os olhos pelo tos. Outras voavam, descreviam grandes voltas e regressavam ao pombal. Juntavam-se em rebuliço turturinando, como se discutissem, combinassem a abalada. Algumas, indecisas, abriam as asas ameaçando o vôo, mas logo as fechavam, e outras arrojavam-se, retrocediam sem ânimo e o rumor crescia, na atropelada excitação da faina da partida.

O caboclo não se arredava, olhando. Ele bem sabia que era a vida de seu filho que ali estava em jogo, pendente da resolução das aves. Quando os pombos desertam, a desgraça vem logo. Vendo-o, Joana perguntou:

— Que é?

O caboclo coçou a cabeça sem responder. Ela insistiu: Que é, Tibúrcio?

— A mode que os pombos estão arribando, Joana.

A cabocla sorriu tristemente:

— Uai! Só agora é qu'ocê 'tá dando por isso? Desde que ele caiu de cama. Eu não quis falar, mas bem que eu 'tava vendo.

O caboclo pôs a enxada ao ombro e foi-se lentamente a caminho da roça, por entre o capim molhado que exalava um cheiro picante. Galinhas cacarejavam ocultas nas ervas altas, e um fio de água, que derivava fino e suave, lampejava, aqui, ali, nas abertas do mato. Tibúrcio, sempre de cabeça baixa, enxada ao ombro, seguia impressionado com a repentina migração das aves. Era o anúncio fatal. Ele bem ouvira a coruja noites e noites seguidas. Não fizera caso — tudo ia bem, o pequeno com saúde, eles sempre robustos. Mas ali estava a confirmação do aviso — a fuga dos pombos; todos criados por ele, lá iam, abandonavam-no pressentindo a chegada da morte.

Voltou-se, levantou o olhar as aves esvoaçavam descrevendo círculos e Joana lá estava na soleira da cabana, encostada ao umbral, braços cruzados, a cabeça pendida, decerto chorando, coitada! Revoltou-se com uma surda explosão de ódio contra as aves ingratas. Nunca tivera coragem de matar uma só e vivia sempre a consertar o pombal, mais uma coisa, mais outra, pensando em aumentá-lo para os novos casais. E o filho? Não era ele quem pilava o milho para os borrachos? Quem sempre andava pela mangueira, de ramo em ramo, a ver se havia alguma fenda no pombal por onde a chuva penetrasse? Quem sabe se era porque o não viam que os pombos abandonavam a casa?

Encolheu os ombros e seguiu mato dentro. Ao atravessar a estiva, o coração bateu-lhe com força, na emoção de um presságio. Parou. A água rebalsada refletia-se imóvel e ele olhava sem ver a sua imagem, pensando no pequeno que delirava, ardendo em febre.

Enveredou pela roça. O milharal apendoado era tão alto que o homem desaparecia seguindo os carreiros cobertos de folhas secas. Pomas de terra fofa encobriam formigueiros que ele sempre arrasava nos dias tranquilos. Nem deu por elas. Seguia. Papagaios fugiam chalrando, com as verdes asas luzindo ao sol, e gafanhotos enormes saltavam nas folhas. Por vezes um calango rastejava ligeiro.

Havia um ranchinho de palha — era ali que o filho costumava ficar arranjando as suas arapucas. Ainda lá estava um feixe de taquaras, mas a erva começava a invadir o abrigo abandonado. Também ia já para um mês que o pequeno ali não aparecia. Quando chegou ao mandiocal, sentou-se alquebrado — a enxada pesava-lhe ao ombro como uma carga, as pernas afrouxavam, todo o corpo ressentia-se de fadiga como se ele chegasse de estirada viagem. Sentou-se num cômodo e pôs-se a riscar a terra com um graveto, pensando.

Às vezes, parecia-lhe ouvir a voz da mulher ecoando. Levantava a cabeça e, atento, sobressaltado, ficava à escuta. Só ouvia o crepitar das folhas balançadas pela viração e o zizio dos insetos ao sol. A terra transpirava, um vapor diáfano subia tremulante do solo aquecido, as folhas pendiam lânguidas e no céu, de um azul intenso, passavam urubus vagarosos demandando as malhadas longínquas.

De repente, um pombo atravessou os ares, outro, outro logo depois. Tibúrcio pôs-se de pé olhando — lá iam eles, lá iam! Asas estalaram — eram outros. Aqueles não tornariam mais, nunca mais! Fugiam espavoridos, sentindo a morte que devia vir perto. Lançou um olhar largo e só viu a verdura farta ondulando à brisa, sob a claridade cálida. Devia ter levado o filho à vila logo que ele caiu doente. Mas quem podia contar com aquilo? De repente, um febrão, delírio... Que fazer? Levantou os olhos para o céu e ficou contemplando o azul luminoso. Mais um pombo passou. Meneou a cabeça desanimado e, atirando um murro à coxa, pôs a enxada ao ombro e deu volta tornando a casa. Quando Joana o descobriu no terreiro, como se adivinhasse o seu pensamento, disse:

— Foi mesmo melhor você voltar, meu velho. Eu aqui sozinha nem sei que hei de fazer.

Ele olhou o pombal — estava deserto, em silêncio.

Ao cair da tarde, sentou-se ao limiar da cabana, e, fumando, ficou à espera dos pombos. As cigarras cantavam, todos os pássaros, que tinham os seus ninhos nas árvores próximas, recolhiam e, como ainda havia luz, deixavam-se ficar nos ramos; desferindo os últimos galreios. O céu empalidecia, nublava-se de leve o fundo campo triste. A aragem da tarde espalhava o suave aroma das açucenas que abriam. Perto um cão ladrava, a espaços, e, por vezes, um lento mugido entristecia o silêncio. Tibúrcio não tirava os olhos do pombal senão para os alongar pelo espaço, procurando descobrir uma das aves. Talvez tornassem.

Onde achariam elas melhor abrigo? A floresta era arriscada e pombos de casa não fazem vida no mato. Que outro pombal os teria atraído? Se ele houvesse seguido a direção do voo... Alguns tinham tomado para os lados dos campos, outros haviam endireitado para a serra. E não voltavam.

Começava a escurecer. Joana acendeu a candeia. Já os sapos coaxavam nos aguaçais. Uma estrela luziu no céu. Tibúrcio fitou nela os olhos e pôs-se a rezar baixinho. O silêncio era apenas interrompido pelo burburinho da água do córrego que rolava perto, nos fundos da cabana, saltando, escachoando em pedrouços. Tibúrcio suspirou e ergueu-se, encostou-se no umbral sem ânimo de entrar.

Joana chegou-se à porta.

— Então?...

— No mesmo. Agora nem água. Qual!

Ele desceu o degrau de madeira, chamou-a e caminharam vagarosamente no terreiro que começava a clarear. Junto à mangueira, justamente sob o pombal, pararam e o caboclo, baixinho, como se receasse ser ouvido pelo filho, perguntou:

Joana, você não sabe reza nenhuma pra isso? — e mostrou o pombal deserto.

— Nhá Lina é que sabe.

— E chama?

— Diz que sim.

Tibúrcio ficou a pensar. Súbito, levantando resolutamente a cabeça, disse em voz firme:

— Eu vou lá.

— Agora?

— Então? Você não diz que chama?

— Eu nunca vi, Tibúrcio, dizem.

— Você não quer.

— Eu? Eu não. Só o que acho é que é muito tarde. Você já viu como ele está? Não dá acordo de nada. Eu ando, falo, viro e mexo no quarto e ele... nem como coisa. Ali só Deus!

A voz ia-se-lhe travando na garganta, e de repente desatou a chorar. Tibúrcio afastou-se, pôs-se a andar vagarosamente no terreiro. A lua subia, os campos alvejavam e as sombras das árvores, muito negras, tisnavam a claridade.

— Tem paciência, minha velha. A gente fez tudo.

Os grilos cantavam estrídulos. Um caburé passou com um grito rascante. O caboclo murmurou:

— Já sei.

De repente Joana estremeceu, voltou-se hirta para a cabana, por cuja porta escancarada saía ao terreiro um raio de luz lívida, e, depois de olhar um momento, como assombrada, partiu de arranco. Tibúrcio, imóvel, sem compreender o que fizera a mulher, esperava vê-la reaparecer tranquila, quando um grito lancinante atravessou o silêncio. O caboclo arrojou-se para a cabana, foi direito ao quarto que uma lamparina alumiava: a mulher, de joelhos junto ao catre, debruçada sobre o filho, soluçava desesperadamente.

— Que é, Joana?

Ela rouquejou, atirando os cabelos sobre o corpo da criança.

— Acabou! Vê...

Ele inclinou-se — o seu rosto roçou por uma face que ardia, a sua mão trêmula pôs-se a apalpar um corpo abrasado, sentindo o peito magro ripado pelas costelas, o ventre fundo.

— Vê o coração, Tibúrcio.

Ele apenas disse:

— Acabou.

A mulher ergueu-se de ímpeto, desfigurada, com os cabelos desgrenhados, os olhos flamejantes; quis falar, estendeu os braços para o marido, mas caiu molemente numa canastra e, dobrando-se toda, rompeu a chorar, redizendo o nome do filho com a ternura a coar-se pelos soluços:

— Meu Luís! Meu Luisinho! Tão vivo, minha Nossa Senhora!

Tibúrcio afastou-se e, na sala, diante da mesa em que jazia a candeia, parou com o olhar perdido, os lábios trêmulos e as lágrimas rolando em grossas gotas ao longo da face ossuda. Joana rompeu do quarto cambaleando como ébria e, vendo-o, atirou-se-lhe nos braços; ele amparou-a sem dizer palavra e, abraçados, ficaram largo tempo de pé na estreita sala obscura onde os grilos cantavam.

Joana tornou para o quarto. Tibúrcio ficou encostado à mesa, de olhos fitos na luz da candeia, que oscilava com o vento. O luar entrava alvo, caleando as paredes. Ele moveu-se com arrancado suspiro, foi até a porta, sentou-se na soleira, acendeu o cachimbo e quedou olhando o campo iluminado. De repente pareceu-lhe ouvir arrulhos — levantou a cabeça, olhando. As estrelas cintilavam na altura, a copa das árvores reluzia ao luar. Seria ilusão?

Encolheu-se e, imóvel, atento, ficou à escuta — os arrulhos continuavam. Ergueu-se impetuosamente e caminhou direito ao pombal, colando-se ao tronco da mangueira. Seriam os pombos que voltavam depois da passagem da Morte? Respondendo à sua ideia, pôs-se a resmungar enfurecido:

— Agora é tarde! Agora é tarde, malditos!

Um ruflo de asas, turturinos meigos, pios, partiram do pombal. Não havia dúvida. O rosto contraiu-se-lhe em ricto. Adiantou-se e, do meio do terreiro, olhou o pombal, caminhando resolutamente para a cabana. Joana soluçava. Ele apanhou a candeia, dirigiu-se à cozinha e, vendo o machado a um canto, tomou-o, sempre resmungando. Voltou ao terreiro e, sob a mangueira, arregaçando as mangas da camisa grossa, brandiu o machado.

Ao primeiro golpe no poste que sustentava o pombal, as aves calaram-se. Tibúrcio redobrava de esforço, arquejando. A um estalo seco afastou-se, mas a construção continuava de pé, resistindo. Encostou o machado ao tronco e, agarrando-se aos galhos, guindou-se, foi marinhando pela árvore acima, e, firmando-se numa forquilha, atirou um pontapé à grande caixa, que rapidamente pendeu, ruiu, com estrondo no terreiro. Dois pombos voaram assustados, estonteados, incertos na claridade noturna, e pousaram no teto da palhoça.

O caboclo escorregou ligeiro pelo tronco e viu dois pequenos corpos que piavam, oscilavam, arrastavam-se — eram dois borrachos. Agachou-se, tomou-os nas mãos, pôs-se a mirá-los — eram hediondos, ainda implumes, tendo apenas leve penugem sobre as nervuras do corpo engelhado e mole. O caboclo, virando-os, revirando-os nas mãos encoscoradas, sentia-lhes os ossos frágeis, e os animais debatiam-se, movendo o coto das asas, esticavam o pescoço, piavam. Rilhando os dentes, foi-os espremendo, esmagando os ossos tenros estalavam como gravetos, o sangue espirrou, escorrendo-lhe por entre os grossos dedos, pelos punhos. Em ímpeto de fúria, arremessou-os ao chão; eles bateram fofos como frutos podres que se esborracham e o caboclo espezinhou-os com rugidos surdos. Os pais arrulhavam aflitos na palha da cabana, indo e vindo.

Joana, abraçada ao filho, soluçava quando Tibúrcio entrou no quarto. Quedou diante do catre, a olhar. Subitamente a mulher estremeceu e, levantando-se de salto, agarrou o braço do marido, os olhos muito abertos, a boca em hiato, a cabeça inclinada como a ouvir vozes, rumores longínquos.

— Que é, Joana? Que é qu'ocê tem?

Ela murmurou apavorada:

— Os pombos, meu velho. Ocê tá ouvindo? — Eram os arrulhos tristes que vinham de cima da casa. — Estão voltando. Quem sabe?! Ele ainda está quente...

E havia uma esperança imensa no coração dolorido da cabocla. Tibúrcio encolheu os ombros:

— É choro deles. Estão chorando como nós. É um casal que ficou por causa dos filhos. Eu derrubei o pombal, matei os borrachos. Olha — e mostrou as mãos ensanguentadas. — Eles voaram, estão em cima da casa. Você quer ver?

Foi saindo; ela acompanhou-o. Desceram ao terreiro. Tibúrcio mostrou o pombal tombado, depois apanhou os esmagados corpos dos borrachos.

— Olha aqui...

Joana olhava sem dizer palavra. Cessara de chorar, espantada, mirando o marido, cujos olhos acesos fulguravam. Ele derreou o busto e atirou o primeiro borracho ao sapé, rugindo: "É bom?!". Atirou o segundo: "É bom?!". Os pombos abalaram espavoridos, perderam-se nas galhadas negras. "É bom?!". Joana não tirava os olhos do marido, muda, aterrada, vendo-o chorar aos arrancos, a olhar as mãos espalmadas, tintas de sangue.

— Vamos, meu velho. Foi a vontade de Deus. Está no céu.

E vagarosamente o foi levando. Entraram, e, diante do catre em que jazia o filho morto, as lágrimas romperam dos olhos de ambos, e sobre o teto da palhoça os pombos, que haviam tornado, arrulhavam doridamente.



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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.

11/28/2022

A glória (Conto), de Coelho Neto


 A GLÓRIA 

O caminho tornava-se a mais e mais apertado e sombrio. Árvores de coma espessa esgalhavam a ramaria densa interceptando a passagem da luz. O solo, pedregoso e seco a princípio, ia-se tornando em mole alagadiço — vasto balseiro onde apodreciam folhas mortas. Aves sinistras voejavam pesadamente de galho a galho, negras, de enormes garras, com os bicos aduncos manchados de sangue. No interior havia um choro perene — talvez alguma fonte oculta a lacrimar. 

De quando em quando um réptil aparecia — ora enroscado à beira da trilha estreita, vibrando a língua bífida ou mole, oscilando pendente de um ramo, como uma ponta de cipó. 

O ar era úmido e tresandava à podridão. Não havia outro rumor senão o do ramalhar do arvoredo e o do choro misterioso que vinha, como um fúnebre presságio, do recesso do bosque. E o peregrino seguia. 

Era um lindo mancebo louro — os cabelos caíam-lhe em bucres sobre os ombros, as suas mãos eram brancas e finas, o seu andar airoso. Seguia cantando, sem impressionar-se com o horror do sítio: animava-o a esperança de que, além daquela morta paragem, resplandecia no céu um sol eterno. Para alcançar, porém, o largo e formoso país da luz sempre viva, quantos sacrifícios teria ainda de sofrer! 

Ia caminhando, a cantar, quando, de um calvo rochedo, desceu crocitando uma revoada de corvos famintos. Abriu o farnel e, para conter os voracíssimos animais, atirou-lhes a metade das provisões que levava. Foi o bastante para que, de todos os lados, acudissem, com uma grasnada aterradora, centenas de aves vulturinas, umas negras, outras vermelhas como se houvessem tingido as penas em sangue. 

O peregrino, sem descorçoar, abriu a governita e desfez-se de tudo quanto levava e, enquanto os monstros debicavam gulosamente as provisões, lá ia ele, sempre a cantar, feliz com a esperança de ver-se, em breve, livre daquela passagem temerosa. 

Mas, dentre o bosque uma voz silvante, que parecia retalhar o silêncio, pôs-se a dizer através de casquinadas sarcásticas: 

“— Que há de ser de ti, mancebo imprudente? Julgas, talvez, que está próximo o termo da viagem? Muito tens ainda que andar e que sofrer. Desfazes o teu alforje, cedes tudo aos abutres e com que hás de saciar a tua fome quando ela apertar? A floresta é estéril, as árvores que vês nada produzem. Volta, ainda é tempo; retrocede antes que se desfaçam as tuas pegadas, que são o roteiro que te restituirá à vida feliz que abandonaste por um sonho ingrato. Não prossigas. 

“Quanto mais avançares mais difícil se te tornará o regresso ao lar abandonado onde vivias feliz, entre os teus, à sombra das tuas árvores sempre em flor. Não te iludas! Essas aves bravias que vês, gordas, tão gordas que mal podem voar de um galho a outro, nutrem-se de imprudentes como tu. Outros, que têm ousado a travessia, têm ficado pelo caminho e, apodrecendo, vão formando esse atascal escuro no qual te chafurdas. 

“Retrocede em tempo para que não tenhas a mesma sorte dos que te precederam”. 

“Deixaste a luz tranquila, vais em busca da claridade maior mas, antes dela, infeliz, estão os horrores da selva mefítica, estão as perfídias, estão as maldades. As aves escarninhas zombarão de ti — seguirás perseguido pela assuada atroadora de todas e muitas, baixando, virão bicar-te as carnes como fizeram outrora ao filho de Japeto. Retrocede, imprudente.” 

O peregrino ouvia a voz que vinha, como um oráculo, do fundo tenebroso do arvoredo e, indiferente, sorria. Que lhe importava o sofrimento se lá ao longe, alma da floresta, estava a compensação? 

O terreno tornava-se mais encharcado — um cheiro acre de sangue subia do tremedal. Por vezes um crânio rolava ou eram tíbias que se levantavam hirtas entre as ervas do pau. 

Que importava? Já os seus olhos divisavam uma réstea de luz, além — antes da tarde lá estaria: era a aberta que levava aos campos elísios. 

Os outros haviam desanimado, ele não se deixaria vencer pela cobardia. Que esvoaçassem as gordas aves carniceiras, à noite todas se recolheriam às suas cavas, aos seus ninhos nos penhascos e ele, então, seguiria sossegadamente, a correr, vencendo distâncias. 

Pensava assim quando um novo bando de aves precipitou-se das frondes, galrando. Nada mais lhe restava e como havia o infeliz de saciar os abutres? As aves adejavam ameaçadoramente em torno da sua cabeça loura, investiam com estrondoso bater de azas; ele procurava espantá-las, agitando a capa que levava e que era o seu único agasalho; as aves, porém, rasgaram-na com as garras e às bicadas reduzindo-a a tiras; depois atiraram-se-lhe ao corpo, e estraçalharam-lhe as roupas e ele sentiu nas carnes o acúleo dos primeiros bicos. Pensou, então, que se atirasse aos seus perseguidores um pedaço de carne, enquanto eles a disputassem, poderia caminhar tranquilo. Mas onde havia de encontrar, naquela esterilidade, a carne de que carecia para repastar os abutres? Deteve-se um momento, encostado a uma árvore, em atitude de defesa. A árvore, porém, estilava uma resina venenosa cujo aroma matava. 

O peregrino sentia-se abalado: vertigens seguidas enfraqueciam-no, perturbava-se-lhe a vista, vergavam-se-lhe as pernas. Notou, então, que havia mais perigo naquele refúgio do que no meio agitado das aves vorazes e, atordoado, lançou-se afoitamente a caminho. 

Seguia quando se viu, de novo, cercado pelos monstros; foi então que resolveu engodá-los atirando-lhes tassalhos da própria carne e, arrancando da cinta uma adaga afiada, pôs-se a retalhar o corpo jogando aos animais postas ensanguentadas. 

Foi uma alegria satânica no bando alado e, como se o cheiro do sangue fresco chegasse além, outras aves surgiram precipitadas, com um galrar horrendo, e, enquanto disputavam a carne que ele lançara, o peregrino seguia. 

Não estava longe o termo da viagem — lá brilhava, por entre a luzida folhagem, a luz sem crepúsculo, o esplendor sem ocaso. Mais um pouco de ânimo e venceria aquela passagem onde tantos haviam sucumbido. Lá ia. 

Repentinamente, a mesma voz, que lhe falara à entrada da floresta, tornou com mais sarcasmo, vindo, como um canto de pássaro, da ramaria mais alta de uma árvore frondosa e negra. 

“Volta, peregrino ousado. Vê que já se te tornou necessário o sacrifício — é com a tua própria carne que vais comprando os passos nesse caminho, teu sangue encharca o terreno e, dentro em pouco, não terás resistência para o menor movimento. Aí vem a noite; repousa um instante e, quando as aves adormecerem, retrocede. Não tens saudade da terra em que nasceste? Aqui tudo é hostil, lá tudo é propício. Aqui as árvores envenenam, o ar que se respira é nauseabundo, a água, longe de aplacar a sede, aumenta-a e é como um fogo que abrasa as entranhas. Se saíres do alagadiço em que te vais enxurdando encontrarás o pedregulho agudo que rasgará os pés e os espinhos que te romperão as carnes. Volta! espera a noite e volta. 

“A esta hora os teus, que além deixaste, gozam os favores da primavera cheirosa. Teus filhos brincam porque são inocentes e, como tu lhes disseste que lhes levarias brinquedos quando regressasses, fazem castelos dourados saltando na relva. O mais novo chama por ti na sua linguagem indecisa alongando os olhinhos para o lado em que o sol morre. Tua esposa suspira — talvez que o coração, que adivinha, lhe esteja a contar os teus sofrimentos. Espera a noite e volta. 

“Não te iludas com o sonho. A vida é a tranquilidade e mais feliz é o pastor que tem um pouco de queijo negro e água da fonte e não deseja senão a madrugada e as estrelas do que o milionário que ambiciona — e tu és o maior dos ambiciosos. Volta!” 

O peregrino ouvia, mas os seus olhos não se tiravam do ponto luminoso que fulgurava ao longe. Ia-se-lhe o sangue pelas muitas feridas, doíam-lhe os pés, a fadiga tornava-o vagaroso, ainda assim lá ia ele sorrindo e cantando. 

“Mais um pouco, dizia, mais um pouco, e viverei como a própria Vida — meu nome ficará como um esplendor eterno. Que importa a dor? O que sofre é o corpo, mas, para que quero eu o corpo senão para que conduza minha alma? E é ela que vai à vitória. A tranquilidade, sim, a tranquilidade é deliciosa mas o grande Bem lá está, já o diviso daqui. Mais um esforço e, antes da noite, eu estarei repousando no campo de flores imarcescíveis — e lá se renovará o meu corpo, um sangue mais forte me encherá as veias, sangue eterno, feito de luz, como esse que purpurina o céu nas claras manhãs e nas tardes luminosas. Que importa a carne que vai ficando pelo caminho no bico e nas garras dos abutres? Que importa o sangue que jorra das feridas abertas? A glória é uma ascensão e eu faço como os que tentam remontar às nuvens: alijo a carga inútil. Eia! Um pouco mais e será minha a vitória”. 

Caminhava, mas um novo bando de aves pôs-lhe cerco; não hesitou: retalhou-se e, atirando a um lado e a outro o pasto vivo, foi seguindo. 

Já era escuro na brenha, sinistro, lá longe, porém, fulgurava sempre o pérfido esplendor e nele levava o caminhante os olhos postos. 

“Mais um pouco! Que me não traíam as forças agora que estou a chegar ao termo da jornada. Que me fique nas veias uma só gota de sangue e com ela irei ao extremo da viagem”. 

Mas os olhos empanavam-se-lhe, dobravam-se-lhe os joelhos, vacilava indo de encontro às árvores e aos seus ouvidos chegava um rumor confuso como o do longínquo bater do mar. 

Deteve-se encostado a um tronco, olhando — os abutres cercaram-no a princípio medrosos; mas o primeiro avançou, logo outro o seguiu, outro, mais outro e, atirando-se todos ao corpo do peregrino, começaram às frenéticas bicadas. 

Ele ainda tentou reagir mas faleceram-lhe as forças, os braços penderam moles ao longo do corpo aberto em chagas. Passou-lhe, então, na saudade, a visão do lar que abandonara — lembrou-se da terra amiga que deixara, da esposa, dos pequeninos filhos, mas a visão foi rápida porque logo os olhos se voltaram para o ponto luminoso que parecia estar tão perto, a uns passos curtos daquele sítio de morte. 

Súbito, de todos os meandros do bosque romperam risos sarcásticos e o peregrino, só então, chorou, porque em verdade, doíam-lhe mais aqueles risos do que as bicadas das aves. 

Esmorecia; ia-se-lhe o corpo curvando e tombou no atascal e, no momento em que exalava o derradeiro suspiro, pareceu-lhe ouvir a voz oracular que saía do bosque repetindo as palavras que dissera: 

“Que há de ser de ti, mancebo imprudente? Julgas, talvez, que está próximo o termo da viagem? Muito tens ainda que andar e que sofrer...” 

Era outro que vinha ousadamente, trilhando o mesmo caminho ingrato que levava à gloria. 

Que perecesse aquele, outros que perecessem, o caminho há de ter sempre andejos que por ele sigam, afrontando tormentos, de olhos postos no além, na eterna luz que fulgura.

A árvore (Conto), de Coelho Neto


 A ÁRVORE

Dans les villes et dans les écoles l’esprit subtil et vain peut rire de l’âme de l'arbre. On n'en rit pas dans le désert, dans les climats cruels du nord ou du midi, où l’arbre est un sauveur.
On y sent bien le frère de l’home (Michelet) 

Quem, como eu, teve um dia a fortuna de dormir agasalhado por uma floresta, mais antiga que a cruz nesta formosa e moça região da América, sentiu, por certo, a mesma impressão poderosa que avassalou o meu espírito quando, ao morrer da luz forte, ao nascer da luz branda, desde a beira do rio até o íntimo da selva, correu um sussurro manso como o suspiro amoroso da vegetação. 

Os nossos canoeiros, acocorados em torno de um fogo de versas, as mãos estendidas acima da chama que as avermelhava como se as trespassasse, falava baixinho. A água lenta e cheia do rio deslizava com um leve murmúrio e, por vezes, longe, um pio de ave noturna feria o silêncio. As nossas redes oscilavam de galho a galho fazendo farfalhar a folhagem. 

Esfriava. Docemente, no céu límpido, ia a lua subindo. Já a densa fronde alta estava toda forrada de alvo e, insinuando-se pelos escassilhos, atravessando as abertas, a claridade mística escorria pelos troncos, alastrava a alfombra, brilhava na água ou estendia-se no recesso do arvoredo ribeirinho figurando maravilhosas estruturas: Aqui era um adito de capela, com o altar atoalhado, os nichos brancos, como de mármore; ali eram ruínas dos castelos — as franças semelhavam muralhas aluídas, parapeitos ameados, torres que subiam talhadas em seteiras; e clarões, salteando o negror, criavam perspectivas fúnebres e fundas recuando aquelas fantasmagorias selvagens. Além era uma alvura que se destacava, perpendicular e esguia, fincada na treva como um cipó solitário. Mais longe, disseminadamente, esplendores colgando o negrume e a água lisa e dormente do rio espelhava todos aqueles aspectos estranhos recordando-me as descrições românticas do Reno onde os poetas vão abeberar a musa elegíaca, ao longo das margens tradicionais em que perduram, como arcabouços do passado, muros negros de castelos e elfos e ondinas, à noite, esvoaçando ou bailando, redizem lendas do velho tempo ou entoam bailadas melancólicas que fazem tremer o barqueiro retardatário ou assombram e enlouquecem o afoito caçador furtivo. 

Meus companheiros dormiam; eu velava extasiado, olhando o céu por entre os ramos e parecia-me que as estrelas eram flores que desabrochavam na coma altíssima daquelas árvores. Por vezes, como se alguma se desfolhasse deixando cair uma pétala esplêndida, uma centelha descia trémula, bruxuleando e perdia-se... Vagalume errante, vagalume errante, ardentia alada dos oceanos de verdura. 

Então senti, senti bem a vida grande e misteriosa das árvores. 

A espaços era um crepitar, depois um estalido seco, e logo um hálito — era a brisa que passava... Seria a brisa ou o suspiro da selva pressaga? Pobres árvores acolhedoras, prisioneiras da terra, eu bem senti que vivíeis e vós, porque nos víeis ali, quisestes guardar reserva como o caçador surpreendido pela fera que, de bruços, contém a respiração enquanto sente o inimigo a farejá-lo. A vossa alma, que os gregos personificaram na hamadríada, não ousou deixar o recesso dos cernes, lá se ficou encolhida porque o homem cruel estava ali perto. 

Debalde o luar magnífico brilhava, debalde as auras passavam, não procurastes corresponder ao apelo do mistério e a noite correu serena e casta, só os arbustos amaram, eles, os pequeninos, eu bem os senti que se abraçavam na sombra, junto às raízes dos jequitibás portentosos; mas, pela madrugada, um perfume forte, acre, estonteante, veio até mim, perturbador como uma sedução — vinha de longe, era a respiração ofegante das árvores que se amavam na brenha virgem, era o aroma nupcial da floresta, a exalação erótica dos vegetais. Era o amor poderoso e eterno da natureza, o amor fecundo, o amor criador que passava em eflúvio pelo bosque, multiplicando a beleza, a graça, a força e o benefício. 

E porque se acautelavam tão pudicamente as árvores mais próximas? Porque sentiam o homem, o homem cruel, o encarniçado inimigo da sua generosa espécie. Ó se têm alma as árvores! 

Alma é amor e que maiores provas de amor queremos que nos dê a árvore? Ela é a purificadora do ar que respiramos, ela é que nos garante a fonte que jorra para a nossa sede e para a rega dos campos, ela é a fiandeira de sóis — caem-lhe na copa os raios caniculares e ela, desfiando a flama, dá apenas o calor ao que se achega à sua sombra. Ela é a medicina, ela é a beleza cercando a moradia em que vivemos, ela é a nossa confidente discreta porque é sob os seus ramos que abrimos francamente o coração deixando livres as saudades e as reminiscências. Assim é a árvore viva. 

Morta ela é tudo — o princípio e o fim: berço e esquife, e, entre esses dois polos, tudo mais é floresta: a casa e o templo, o leito nupcial e o altar, o carro que trilha os campos, o navio que sulca os mares, o cabo da enxada e a haste da lança, tudo é madeira, tudo é arvore, é a floresta. 

Matai a árvore e tereis o vagueiro. A terra tem os seus nazires: Sansão tosquiado é impotente para a vingança, as regiões devastadas tornam-se desertos. E que vemos nós por todo este vasto Brasil que era uma floresta frondosa? A destruição inclemente. E porque vai tão encarniçadamente o homem à árvore, que foi a primeira geradora do lume nos tempos remotos do pastor ariano? Porque a árvore é um ser bruto, insensível e mudo. Ah! que se atentasses bem, lenhador, à morte de árvore, tal não dirias, homem de coração. Ao primeiro golpe do machado todo o colosso treme e os passarinhos, como a gente de uma cidade abalada por um terremoto, logo desertam os ninhos. Vai o segundo golpe ao mesmo lanho, afunda-o — eis a seiva a correr, é o sangue que se esvai; outro golpe e começa a árvore a gemer surdamente, doridamente — a sua folhagem agita-se como a acenar à clemência, os seus ramos debatem-se mas o lenhador, a mais e mais empenhado na crueldade, redobra os golpes e canta. 

Em torno da que agoniza as outras parecem tremer como ovelhas num pátio de matadouro e, como se de uma a outra corra a notícia cruel, toda a floresta vibra prevendo a mesma sorte. 

Por fim, a um golpe mais rijo, um estalo responde — é o estertor da árvore e o lenhador recua e fica a olhar... Lá vem pendendo a frondosa cabeça, inclina-se e um fragor levanta-se na mata; derruba-se hirta, roçando de raspão nas companheiras, a árvore ferida e cai estrondosamente esmagando os arbustos gerados à sua sombra. Cai e agoniza e leva dias agonizando até que se lhe vão secando as folhas, encolhendo, mirrando... então sim está morta a árvore. 

E para que a sacrificas, homem de coração? Para o fogo... e secas a fonte da qual a vítima era como a ninfa protetora, e esterilizas o terreno que ela fecundava alimentando-o, como o pelicano, com o seu próprio sangue que ia nas folhas, que ia nas flores, que ia nos frutos. E, com a morte das árvores, lá se vão os animais e, em pouco, o que os descobridores viram como a região favorecida da fartura e da beleza não será mais que um campo arrasado, seco e triste, cavado em valetas que foram leitos de rios, brocado em grotas que foram nascentes e desamparado ao sol esterilizador... 

Felizmente começa a reinvindicação e coube à criança iniciar a santa empresa. Para responder ao machado ai está a enxada nas mãos débeis dos infantes — mas a semente é como a esmola e a Terra é como Deus: dai-lhe um grão e ela vos responderá com a centena, plantai um renovo e ela vos gratificará com o milhão e ainda com prêmios maiores que são o ar puro, a água, a sombra, a medicina e com a sua beleza — assim a árvore demonstra a sua gratidão 

Não tem alma e é grata! não tem alma e vinga-se... 

Eu, que tive a fortuna de dormir agasalhado por uma floresta, posso dizer-vos, crianças heroínas do renascimento, semeadoras benditas da segunda geração floral: fazei o bem às árvores que elas saberão corresponder à vossa caridade e lembrai-vos de que a festa que celebrais é o início de uma Redenção: renovar a flora é robustecer a Pátria da qual as florestas são os reservatórios de vida e de fortuna.

A propósito de festas (Reflexão), de Coelho Neto


 A PROPÓSITO DE FESTAS

Em torno do círculo eterno são vários e diferentes os caminhos da vida, mas as regiões que eles percorrem são invariavelmente as mesmas. A primeira — brumal — o ponto de partida, é a região da infância que coincide com a última — nivosa — região da velhice, como se fosse uma aurora d’aquela noite, um esbatimento suave daquela sombra. Segue-se — floreal, a região luminosa e alegre da adolescência, depois germinal, a fulgurante e cálida região da idade adulta que se inclina, em crepúsculo, para a treva tristonha. 

Há uma larga e fácil estrada central, sem desvio, que liga os pontos extremos — é o caminho afortunado. Por ele seguem os felizes, os que fazem a travessia com descanso, sempre protegidos por sombras gratas. Ainda assim nem sempre os peregrinos alcançam a desejada meta porque não faltam ciladas, não rareiam abismos — as mesmas flores admiráveis que enfeitam e perfumam as margens estilam veneno, as águas límpidas dos lagos ocultam serpentes e sob as folhagens que se adensam em macios tapetes trescalantes, há vórtices que devoram os caminheiros incautos. 

E quantos são os que se aberram, uns por ousados, outros por curiosos, ainda outros por ambiciosos abalsando-se e perdendo-se nos ínvios caminhos! Ah! Os ínvios caminhos...! Esses são estreitos — uns pedregosos, outros apuados de espinhos, outros alagados por imensos marnéis, outros ainda acidentados e todos estéreis, com raras fontes e árvores escassas mas, como vão por vários sítios, sempre com horizontes novos, umas vezes ladeando a estrada larga, outras vezes subindo em aclives fatigantes pelas serras escabrosas, descendo a floridos vales, são os que o Destino escolhe para os poetas, não só para que os cantem como também para que, com os seus cantos, deem coragem à turba numerosa dos infelizes que os trilham. 

A estrada larga é mais fácil mas não é mais bela — a regularidade da sua beleza torna-a monótona. Os aspectos dos caminhos variam de instante a instante, os mesmos perigos encantam e o orgulho de os vencer já constitui um incentivo. 

Há um lago, é necessário atravessá-lo, a empresa não é fácil, antes, porém, do arrojo o caminhante contempla extasiado as maravilhas que tornam o sítio admirável e, enquanto os olhos gozam, o sofrimento adormece... depois... à aventura! E, por todos esses caminhos vários, a Humanidade desfila em rumo ao seu destino. 

As regiões, com os seus climas, com os seus aspectos próprios, essas não variam. 

O feliz lembra-se vagamente da névoa tênue de que saiu para uma doce luz. Ó a alegre passagem! Como andava ligeiro e contente! como tudo lhe parecia delicioso! Não tinha cuidados nem tristes pensamentos, seguia cantando, por entre flores. Depois o sol, o vivo sol, os frutos corados vergando os ramos das árvores, um momento de repouso num sítio aprazível, um encontro idílico, por fim a doçura da tarde, o silêncio da noite e o serão à volta do fogo. 

Felizes são os que podem achegar-se à lareira, felizes são os que sabem acumular o necessário combustível para a noite gelada. São como centelhas em torno dos corações dos velhos as cabecitas louras dos netinhos gárrulos, e, eles, buscando-os, sentem-se rejuvenescidos vendo nos cabelinhos anelados como lampejos do Sol da mocidade, o passado, tudo que foi, o irregressivo tempo. 

Como os felizes gozam os infelizes — não à lareira, mas à beira de um fogo, às vezes mais vivo e mais alegre... Pois não é verdade que as criancinhas pobres riem mais francamente? E vendo-as os avozinhos recordam os transes difíceis, mas os mesmos espinhais florescem, o mesmo cardo dá a sua flor e não há vida miserável que não tenha, lá no fundo, como um lírio em águas de paul, a sua flor de poesia. 

No extremo são todos os mesmos e, quando a noite entrevece, quem pôde saber, na multidão dos velhinhos trêmulos e engelhados, todos com as mesmas rugas na face e com as mesmas saudades no coração, quais foram os que vieram pela estrada fácil e quais os que tiveram de vencer os tropeços dos caminhos escabrosos? Na morte? Quem os distingue? São todos os mesmos pobres velhinhos. 

O que lhes resta no fim da vida é essa saudade grande chamada tradição. E que é a tradição? É o lume que as gerações se transmitem, é o fogo sagrado que a Alma dos povos, como a antiga vestal, deve conservar sempre vivo. Todos os que viajam nos caminhos da vida trazem da peregrinação uma lembrança ou deixam ficar uma recordação. 

Os poetas passam e deixam os seus hinos, os profetas deixam as religiões. Aqui fica a memória de um amor, ali a ruína de um templo. 

Os velhos, à noite falam aos moços do que viram e eles, que veem? Que encontram? Tudo arrasado: a Poesia morta, a Beleza extinta e fazem a viagem sem uma impressão, sem uma alegria, sem um oásis onde se reúnam confraternizados e repousem celebrando o culto do Passado. 

Não há memória de um só homem que tenha começado a viagem partindo da segunda região — todos vêm da névoa infantil, todos saem do mesmo ponto para que gozem todos os climas e tenham todas as impressões e é por isso que se perpetua no mundo o amor da Humanidade, é porque “em tudo há um pouco do passado”. 

Nós caminhamos sobre túmulos: Como os antigos guerreiros para tomarem de assalto os muros das cidades iam subindo pela mortualha, fazendo de cada cadáver o degrau da escada, nós vencemos à custa do que foi — o dia de ontem é que nos deixa no amanhã, a noite, que é a morte, é que nos traz o dia — nas escadas, entre os degraus, há um vácuo como os túmulos. 

E por que havemos nós de ser ingratos com esse Passado ao qual tudo devemos? Quem o não lastima? Quem o não invoca? 

Comme nous voudrions, ne fût-ce qu’un moment,
Revenir en arrière et, frissonants d’ivresse,
Parcourir de nouveau le meandre charmant
Que creuse en s’écoulant, dans nos cœurs la jeunesse!" 

A alma rumina — no fim da vida ela apenas se alimenta de saudades. 

Dir-se-á que os séculos não carecem de poesia — a Poesia é o espirito, é a mesma alma da Humanidade. Calem-se os poetas e o mundo, com a sua agitação frenética, ficará como um grande corpo de convulsionário rebolcando inconscientemente. 

Agindo, o homem só atribui o seu trabalho à mecânica do corpo — é a mão que escreve, burila, debuxa, cava, semeia, vence, erige, destrói e abençoa. Ninguém no momento da ação, se preocupa com a alma, ela, entanto, é a ideia na frase, a expressão na figura, o sentimento na paisagem, a intenção no braço do cavador, a direção na destra do semeador, o esforço no punho do soldado; a simetria no escopro do arquiteto, a fúria no montante e o amor no gesto que perdoa e sagra. 

Assim no progresso só se vê o produto material, ninguém penetra o segredo das coisas, que é a Poesia, criadora de Deus e da Liberdade, ubíqua como o próprio Deus. 

A poesia não está só nos poemas, em tudo ela existe: sob a clâmide e sob a blusa, sob a farda e sob o amicto — ela é a alma... Guia, ela tem um Norte, o Ideal... e é porque ela o indica que a Humanidade caminha. 

Todos os povos veneram a sua Poesia, quer seja ela a Ilíada ou os Niebelungen, quer seja a simples farândola no campo florido ou a suave vigília em torno de um rústico presepe. Essa poesia simples, popular, que nos vem de eras perdidas, modificando-se, sem todavia perder a beleza, constitui, entre os homens, um elo forte, robustecendo neles o sentimento patriótico. Quem não terá visto o emigrado triste, sentado pensativamente no limiar da casa em que se instalou no país novo, suspirar, olhando o céu estreitado, em noites santas, a pensar nas festas que se celebram nos campos de sua terra? Será o europeu mais rude do que nós outros? Não, entretanto, apesar da intensa cultura intelectual que o distingue, é ele o povo mais conservador das tradições, mais respeitador das coisas do Passado e esse respeito dá-lhe mais resistência à crença, prende-o mais à terra, conforta-o no desalento — como ele traz a sua religião, traz a sua poesia... 

Só nós, só nós, povo de ontem, povo infante, nós que ainda nos achamos na primeira região: brumal, por uma vaidade ridícula ou por um triste indiferentismo que demonstra o nosso desinteresse pelas coisas pátrias, deixamos que pereçam essas tradições ingênuas, uns alegando que elas são restos de um culto pagão, superstições deprimentes, abusões aviltantes, outros porque entendem que o tempo é escasso para os negócios lucrativos e que essas festas infantis revelam ingenuidade, falta de ponderação. 

Que o brasileiro é um povo triste sabem quantos visitam este alegre país, poucos, porém, ousam dizer a verdade, que ele é... 

Em tudo quanto produzimos o que logo se nota é a absoluta falta de sinceridade, nem pode haver tal virtude quando há imitação. A nossa Poesia é um reflexo — os nossos poetas vivem a gemer, não porque sofram, senão porque está em voga o gemido. Se a Arte se nubla com o nefelibatismo, surgem os nefelibatas e já temos os sinfonistas, os decadistas e uma série de bardos em ista que não valem um caracol. A verdadeira, a genuína Poesia brasileira raramente aparece e é preciso ter um grande nome para lançar à publicidade quatro ou cinco estrofes de um puro lirismo sem mescla de estrangeirice. 

Somos um povo novo, devemos ter alegria e devemos cantá-la — só a Poesia espontânea vive, o arrebique é frágil. Não é inspiração que nos falta e a natureza aí está a oferecer-nos copiosas fontes mas... a França atrai-nos e, como nos vestimos à francesa, também poetamos à francesa. E vamos deixando morrer as tradições. 

Antigamente, como eram divertidas essas festas de junho — Santo Antônio, São João, São Pedro... Quem as gozou deve lamentar a geração de agora, triste geração, triste e presumida, que não conheceu o encanto de uma noitada em torno da fogueira crepitante, a ouvir trovas e vaticínios, enquanto as névoas se confundiam com o fumo dos fogos e os estralos das bombas faziam com que não fosse ouvido o leve e amoroso rumor de um beijo. 

Oh! O passado, as festas do passado... 

Quem escreve estas linhas faz a travessia da vida por trilhos difíceis e muito lhe tem custado vencer certos trâmites pedregosos, mas não inveja os moços afortunados que vão pela estrada larga, mas sem encantos, saturados de filosofias e com mais descrenças e mais tédio na alma do que o frenético Timon de Atenas. 

Ele soube ser criança: na idade de brincar brincou e, ainda hoje, diante de uma fogueira, lembrando-se do velho tempo, é bem possível que a saltasse bradando um viva! Ao santo festejado. 

Mas o brasileiro começou pelo fim: É um povo que saiu da noite, como as estriges. Quando entrará ele na região da alvorada? E quando chegar à velhice, que dirá ele às novas gerações, ele que nada leva, ele que vai destruindo e apagando o que recebeu dos bons velhos d’antanho, a crença, o amor e as tradições? 

Merencória velhice vai ser a tua, povo de velhos que ainda balbuciam.

Um audaz (Conto), de Coelho Neto


UM AUDAZ

A vida extraordinária desse robusto e alegre Steelman é das que se prestam às urdidas e complicadas páginas dos romances de aventuras, com imprevistos maravilhosos, rasgos admiráveis de energia e audácia e prodígios a cada passo. 

Steelman tem sido tudo, conhece todos os gozos e não há dor nova para os seus nervos. Foi tatuado na Tartária: desenharam-lhe nas costas os mistérios da vida de um lama e inscreveram-lhe no peito, com um sortimento de finas e compridas agulhas, em três espaçados meses de tortura, um dos quatro livros da Moral de Confúcio. 

Em Esmirna teve uma cultura de bálsamo; foi pastor de camelos no Teeram; curtiu peles numa aldeia pestífera da costa do Mar Vermelho; conduziu hostes negras de uma aringa ao deserto onde destroçou um bando rapace de beduínos que incendiava as culturas e furtava o gado, pregou num templo budista, passou sob a terra, nas margens do Ganges, com uma plantação de aveia a brotar sobre o túmulo em que o encerraram, vinte e tantos dias, sem sofrer, sem sentir, dormindo tranquilamente “no seio da morte”. 

Numa povoação Tibetana, que era um imenso oásis de palmeiras, esteve nu, com uma leve tanga em torno dos rins, as mãos rijamente ligadas por uma corda de fibra de coqueiro, a cabeça curvada sobre um cepo, sob o gladio reluzente e curvo de um fanático. 

Livrou-o da morte um prodígio do qual ficou referência memorável numa laje, em caracteres eternos, gravados fundamente, a ferro. Na ocasião em que o carrasco, agarrando, a mãos ambas, o alfanje largo, derreava o corpo para vibrar o golpe, uma cegonha, passando no ar, deixou cair do bico uma flor sobre a cabeça da vítima. 

O carrasco ficou como de pedra, a olhar; a multidão tremeu e, repentinamente, com uma algazarra que chegou às montanhas, onde os penitentes queimavam lenhas aromáticas, entre cedros frondosos, as mulheres, numa fúria, descabeladas, aos ululos, arremeteram, derrubaram o carrasco, romperam, a dentes, as cordas rijas e, carregando Steelman, nu e pálido, entraram com ele no povoado, aclamando-o e, com a notícia do caso, apareceram adoradores, houve ideia de exigir-se um templo ao homem da tez rosada, moveram-se, dos mais fundos desertos, peregrinos com presentes e Steelman ficou como um deus, adorado, principalmente pelas mulheres, que lhe pediam fios de cabelos e da barba loura, razão pela qual esse homem admirável é calvo como Sócrates e glabro como um hierofante. 

Nessa terra de trato rude e velhíssimos costumes andou ele, dous anos, representando uma divina hipóstase, e, o que maior tédio lhe punha na alma era não poder caminhar livremente porque, se aparecia nas vielas, com ânsia de ar, logo o povo correndo atropeladamente para forrar-lhe o caminho com as tangas, prostrava-se no pó da terra, seco e imundo, com um murmúrio de reza, beijando-lhe os pés nus, as canelas nuas, todo o seu corpo nu e ele tinha de seguir vagarosamente, rompendo aquela difícil muralha de homens, de mulheres e de crianças, babujado por aquelas bocas, beliscado por todos os dedos que não lhe deixavam um pelo curto nas carnes. 

Só os cães se animavam a fitá-lo, alguns mesmo rosnavam farejando-lhe as pernas e ele voltava à sua choça derreado, com o braço direito pendido e esmorecido de tanto sacudir bênçãos sobre as cabeças devotas, sobre os mirrados campos para que se cobrissem de milho, sobre as águas escassas para que não cessassem de correr e ainda pelos ares para que os não toldassem as nuvens de gafanhotos. 

Fugiu, com ódio e nojo, àquela gente espessa descendo o rio num barco de couro com uma rapariga e, chegando a uma cidade, já inglesa, onde havia gin e polícia, respirou largamente, com satisfação, quando se viu entre as mãos de quatro policemen severos por causa da sua nudez divina, contrária à moral e às leis inglesas. 

Meteram-no em uma prisão sórdida onde passou uma semana, entre um faquir bêbedo e uma velha do deserto, douradora de víboras, que chorava e cantava versos de Firdusé. 

Steelman, na pocilga, não se cansou de render graças a Deus que o livrara daquele martírio da adoração, restituindo-o à vida, com as suas leis exigentes, os seus cárceres sujos, as suas inflexíveis justiças e os seus grogues. 

Na Rússia Steelman comprometeu-se no niilismo aliando-se, em pacto tremendo, aos impulsivos do otchaianié. Fez-se apóstolo da regeneração, adorou o mujique e preparou uma bomba que explodiu à beira da linha férrea dois segundos depois da passagem de um trem imperial e, uma tarde, à margem do Neva, depois de um conflito, foi espezinhado por um esquadrão de cossacos ficando sobre a neve, com o corpo em pandarecos, e uma costela a pedir solda. 

Na Polônia, em Varsóvia, foi do partido dos libertadores e escreveu panfletos com o pseudônimo de Kosciusko. Foi membro da Máfia, na Itália; na Inglaterra alistou-se na “Salmtion army”; em França ateou uma jacquerie, abafada a tempo; apedrejou conventos na Espanha, dirigiu uma greve de cocheiros em Portugal, tentou incendiar o harém de Constantinopla... 

Mas, a sua aventura maior foi em Dakar. Saltando nesse porto com a sua insaciável curiosidade de homens e de paisagens, foi seguindo, ao acaso, por entre choupanas e lixo, repelindo cães e negrinhos, a ver, a informar-se, debuxando no seu álbum trechos da terra seca e misérrima, negralhões em camisolas folgadas, negras de grandes e pendurados beiços, tetas moles e chatas e carapinhas altas como cocares. 

As casas, umas locas, eram acaçapadas, algumas arriavam os muros frágeis fendidos, arrimando-se às árvores. Uma poeira quente embaçava o ar e, do labirinto lobrego daquela imensa arenga, saíam porcos grunhindo, cães gafados, ladrando, lotes de negrinhos nus, aos saltos, rinchavelhando. 

Steelman ia seguindo, a olhar, mas, amolecido pelo bochorno, sentindo as pernas vergarem-se, já se decidia a voltar quando viu, por entre as árvores, alvejar uma casa, à cuja frente uma latada verde cobria de sombra duas mesas toscas e dois compridos bancos mal acepilhados. 

Um homem de rotundo ventre, barbudo e sardento, fumava à porta. Steelman adiantou-se e percebeu, com alegria, que a casa era uma tasca: lá estavam as garrafas, as latas de conservas, pencas de frutos e, no seboso balcão, uma pipinha de Cristal com aguardente. Pareceu-lhe aquilo um oásis providencial e logo, dirigindo-se ao gordo homem, que era francês, pediu cerveja e charutos — só havia cerveja e infame; Steelman resignou-se e, abancando a uma das mesas, tirou o casaco, arregaçou as mangas da camisa e bebeu, depois estirou-se em um dos bancos e adormeceu. Quando acordou a luz era branda, cantavam cigarras, e uma brisa, cheirando a florestas, sacudia as palmas dos coqueiros. De repente, pálido, de olhos arregalados, boquiaberto, Steelman ficou como se houvesse avistado um leão ou uma serpente — é que uma ideia irrompera, súbita como uma pontada: o paquete! Ergueu-se assustado, pagou a cerveja choca e deitou a correr seguido de cães que ladravam e de moleques que riam, chegando à praia esfalfado justamente quando a lua, imensa e amarela, como de cera, subia pelo céu vazio: o paquete era um pequenino ponto no horizonte que logo desapareceu ficando no seu lugar, à flor das águas, uma estrelinha a brilhar. 

As muitas e arriscadas aventuras deram a Steelman uma resignação invejável — duas pragas surdas e um leve encolher de ombros e o grande homem retrocedeu lamentando apenas a falta de charutos e o seu inseparável Homero. 

Caminhando pelas ruelas apagadas onde começava o despejo, chafurdando em Iodo, pisando flácidas imundícies que se esparrimavam molemente sob os seus pés, chegou ao albergue onde o francês, na doçura da noite morna, com o cachimbo nos beiços, já bêbado, afagava a carapinha de uma negra lúbrica. 

Entrou, contou a sua desgraça e pediu ceia e cama. A negra, num assomo de pudor, encolheu-se toda, escondendo nudezes e o francês, com um espanto grande no carão barbudo, pôs-se a resmungar — que fora mesmo uma desgraça aquela partida do paquete e que, para ceia, se podia arranjar umas bananas fritas em azeite. Steelman comeu as bananas e dormiu num catre, forrado de palha, num quarto contíguo ao do alberguista de onde, até adormecer, revoltado com aquela molície, ouviu a negra gemer e o homem fungar como um suíno no lodo. 

Cedo, ainda escuro, Steelman saltou do catre, escancarou a porta e saiu à procura da água — não havia água, tudo era secura e miséria. As árvores pareciam cobertas de cinza, a terra era todo um cineral, as mesmas casas pareciam feitas de cinza amassada. Rugiu com ódio e, numa assanhada revolta, responsabilizando a França por aquele desconforto, jurou, no seu íntimo, tirar uma desforra tremenda conflagrando a negrada da Senegambia contra o governo da grande República que assim deixava uma das suas colônias sem água para um banho e sem um charuto. 

Efetivamente, recolhendo ao albergue, meditou um vasto plano de conspiração que, numa hora de matança e de fogo, acabasse com a dominação francesa. Redigiu a proclamação e os primeiros decretos, lançou as bases de uma constituição liberal na qual, como legislador supremo, permitia a poligamia e a nudez e, com as suas notas no bolso, saiu a tramar. 

Sabendo, por velha experiência, que não há povo, na face da terra, que se não julgue oprimido, Steelman dirigiu-se ao primeiro negro que encontrou, agachado junto a um poço, coçando as pernas; chamou-o com mistério e expôs-lhe a sua ideia. O negro, pasmado, esfolava, escalavrava as pernas com as unhas sem perceber palavra e foi necessário que o grande homem lhe dissesse claramente — que era preciso acabar com os franceses, queimar as casas dos franceses, não deixar na terra negra memória alguma dos franceses, juntando às palavras, como se as ilustrasse, a mímica mais precisa e feroz, para que o “comedor de carne de porco”, saltando e ululando, lhe atirasse os braços ao pescoço, comovido. E logo saiu a concitar os companheiros e, em pouco, toda a população, reunida num bosque, ouvia a leitura da proclamação sediciosa. 

Facas reluziram, fimbos entrechocaram-se e, com um juramento solene, todos comprometeram-se a dar cabo dos brancos antes que outro sol luzisse e uma negra, com louvável patriotismo, rasgando a saia, que era de riscas vermelhas, ofereceu um trapo para bandeira. Steelman foi aclamado salvador da Senegambia e senhor absoluto de terra e mar, desde as carvoeiras do porto até as minas do sertão. 

Infelizmente, porém, um negrote mais entusiasta ou mais bronco, sem paciência para esperar a hora propícia da meia noite, logo à tardinha, com um facalhão afiado, vociferando contra a França despótica, saiu à procura de franceses. Foi preso e, ante ameaças de torturas e de morte, denunciou a conspiração sem omitir a leitura da proclamação e o episódio da bandeira. 

Steelman, vendo-se perdido, ganhou a floresta e, durante noventa e tantos dias de trabalhos e sustos, de misérias e dores, caminhou pelas brenhas, ouvindo silvos de serpentes e frémitos de tigres, nutrindo-se de frutos e de raízes, desalterando se em pântanos até que alcançou uma feitoria portuguesa de onde pôde passar a terras da Europa, como cozinheiro num brigue. 

Esse homem raro que conhece toda a terra e que nela tem sido tudo, encontrando-me, nas vésperas da sua repentina partida, disse-me, com verdadeiro terror: “Meu amigo, só agora ao fim de trinta e tantos anos largamente vividos neste vastíssimo e descontente planeta, que tenho percorrido, como aquele herói do conto suábio, “sem conhecer o medo” vim tremer neste ponto superior da terra onde as árvores são sempre verdes e os homens sempre amarelos. 

“Fui adorado por um povo forte e guerreiro que, antes de queimar resinas a meus pés, tentou arrancar-me a cabeça dos ombros; fui pastor de camelos, curtidor de couros, rás de uma horda niilista, socialista, anarquista e tudo mais que acaba em ista e que procura destruir a ordem social; preguei num templo, passei um mês num túmulo, tentei sublevar povos, fuzilei homens e leões, pisei constituições e serpentes, cavalguei príncipes e zebras, fiquei tostado aos sóis africanos, tiritei em covas de esquimós, combati na China por uma religião desconhecida e defendi os cristãos na Armênia, gemi em cárceres, três vezes a corda deu volta ao meu pescoço, fui tatuado, estive para sofrer uma operação decisiva que me desclassificaria e resisti a tudo sem empalidecer. Confesso-lhe, porém, que não me atrevo a ficar neste país excelente onde vim conhecer o que me parecia uma palavra vã — o medo. Saio daqui com medo, meu amigo, varado de medo”. 

— E por quê? Perguntei. 

— Por quê?! Pois não sabe que, seduzido por um homem, consenti em alistar-me e sou hoje eleitor? Francamente lhe digo — os que me admiram, os que andam a escrever louvores à minha coragem, não sabem que há políticos e eleitores nesta terra ou, se sabem, ignoram como aqui são feitas as eleições. Com uma cédula eleitoral, recebi uma caixa de armas, dois cunhetes, uma camisa de malha, o recibo que me garante sete palmos de terra no cemitério do Caju... e outros papéis. Não! antes a fera e os bárbaros. 

E o intrépido Steelman tomou passagem para o Amazonas, constando que vai viver entre antropófagos. Os jornais, anunciando a sua partida, subordinaram a notícia ao título: “Um audaz”. Um audaz... Pois sim!