quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Noite de finados (Conto), de Marques de Carvalho


Noite de finados

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O cemitério de Santa Isabel estava cheio de visitantes, todos vestidos de preto, caminhando compassada e vagarosamente por entre as sepulturas. Eram oito horas da noite sob um céu trevoso como a tristeza daquelas pessoas que ali se recordavam com saudades pungitivas dos parentes e amigos para sempre ocultos debaixo da terra, sobre a qual compridas filas de velas acesas lançavam uma claridade intensa, que ia esbater-se ao fundo, na escuridão do matagal.

O ar estava impregnado do perfume das flores — piedosamente depostas em cima das sepulturas por mãos amigas,— e do cheiro místico da cera queimada.

Ao longe, à direita da ermida, uma banda de música executava plangentemente uma funeralesca marcha em tom menor, cujas maviosidades lúgubres faziam suspirar as velhas beatas,— aspirando a uma outra vida desconhecida, além daquele firmamento negro, no lugar onde a onipotência incondicional da Divindade lhes parecia dominar em toda a sua majestade.

Entretanto, de espaço a espaço, grandes ondas de povo invadiam o cemitério. Este, aquela hora, mal podia contê-las; por isso, as pessoas que receavam um atropelo, saíam enfadadas, murmurando indecências.

À porta, do lado exterior, cocheiros desbocados conversavam livremente com as pretas sentadas em frente das bandejas de doce alumiadas pelas lanternas que estavam sobre a baeta encarnada. Mendigos repelentes, de vestes sujas e mal cheirosas, plangiam súplicas, tentando demover em seu favor a caridade dos visitantes piedosos.

Alguns vadios encostados a um rico mausoléu de mármore asseteavam olhares torpemente libidinosos às moças que entravam seguidas de suas mamães, num andar assustadiço e saudando um ou outro conhecido com um meneio de cabeça. Mais adiante, num canto escuro, uma roliça mulata, com o vestido muito decotado, murmurava amabilidades a um preto de fisionomia horrenda empertigado num fato novo e com a cabeça coberta por um descomunal chapéu alto. Como contraste, não muito longe, estava uma senhora pobremente trajada, com os cotovelos pousados à grade ferrugenta duma sepultura mal alumiada por duas velas em castiçais de vidro.

Dos olhos dela, que estavam fixos em uma coroa de perpétuas roxas, corriam lágrimas, que das faces resvalavam-lhe para as delgadas folhas do capim que vegetava entre as junturas dos azulejos desbotados...

Era sem dúvida alguma viúva que pagava à memória do finado marido alguns anos de amorosa e suavíssima coabitação na terra...

À esquerda, contemplando uma fitografia em miniatura encerrada em negro caixilho e suspensa ao centro da cruz duma sepultura pequenina e toda coberta de jasmins, trevos, japanas e madressilva, via-se uma senhora de cabelos grisalhos, imóvel, calada —como evocando passadas cenas de prazer — sem ouvir as plangências da orquestra, que prosseguia no funeral tristonho...

O céu, no entanto, enchera-se duma luz suave e esbranquiçada. Grandes nuvens escuras retalhavam-se no azul-ferrete do firmamento, para as bandas da cidade. Um vento frio e murmuroso como um soluço d'almas penadas fazia farfalhar a mata próxima, causando arrepios de mal-estar às supersticiosas moças que estavam no cemitério... Agora calara-se a orquestra.

Subira um pregador para um púlpito armado ao ar livre, sob uma árvore de grande coma sombria, e recitava em voz cavernosa e com largos gestos trágicos, uma homilia contristadora sobre a transitória felicidade mundana e a perene bem-aventurança celestial.

As mulheres,— mães, filhas, esposas,— que o ouviam, ficavam caladas, muito sérias, com os olhos grandemente abertos fixos em seu rosto bronzeado; no íntimo, porém, no fundo da consciência, levantavam um brado de maldição aquela felicidade que lhes roubara a companhia dos entes queridos e amoráveis.

Um homem de cabeça encanecida, que vagueava levando pela mão uma criança de tenra idade,— um lindo e pálido orfãozinho,— voltou-lhe costas nervosamente, soluçando, e fugiu para junto de um pobre túmulo tranquilo, em cuja grade se lia este lancinante poema de uma só frase: — À minha esposa...

No céu, as nuvens afastavam-se, evolavam-se como alegrias fugitivas ou prazeres expulsos, erguiam-se nuns grandes rendilhados fantásticos de miragens variadas.

A lua apareceu, como uma saudade enorme e cruciante, numa serena majestade tumular, que impôs vago sofrimento ao coração de todos. Os brandões e velas perderam o brilho, ficaram como pirilampos lantejoulando os sepulcros sob o luar diáfano, a cuja claridade continuava o pregador a recordar a onipotência de Deus.

Os bondes estacionados na praça encheram-se de passageiros. Minutos depois seguiam pela estrada da Independência, repletos de homens, de senhoras tristes, com fisionomias de sofrimento.

Chegando ao largo de Nazareth, apearam-se muitos homens. O largo estava iluminado festivamente, cheio de adornos alegres. Era aquela noite a penúltima da festa anual.

Então, os mesmos homens que estavam rendendo há poucos minutos uma saudade à memória de um amigo, dum irmão, dum pai, desciam agora ao centro da festa popular, procuravam as conversas ruidosas, invadiam as casas de jogo,— propelidos pela fascinação demoníaca e terrível da roleta!

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