quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Jeromo (Conto), de Pedro Rebelo


O Jeromo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Correu uma gargalhada de ponta a ponta do meio-círculo, rápida, rebentando de todas as bocas, como se fosse o estopim de uma girândola. O Jeromo, ainda de cócoras, firmou-se num braço, para se levantar do tombo; e, de novo, estatelou-se no chão. Nova gargalhada explodiu, de súbito, como o lépido levantar de asas de uma revoada de pombos...” Paga prenda! paga prenda!” gritavam. Tia Micaela, a um canto do sofá, com as duas mãos na cintura, pedia que não a fizessem rir tanto, por causa do fígado. E seu Rodrigues, um caixeiro da corte, que andava por fora, em cobranças, veio logo, chapéu na mão, todo sorrisos, para receber a prenda do carreiro.

“Paga prenda! paga prenda!” O Jeromo resistia à intimação. Não pagava. Caíra ao querer ajoelhar-se muito depressa, mas não rira, nem ao menos começara as palavras do jogo: “Meu senhor São Roque, eu aqui estou a vossos pés, sem me rir, sem chorar...“ Não pagava. “Paga prenda!” insistiam... E a Margaridinha, a filha de tia Micada, de joelhos sobre uma cadeira, gritou-lhe também que pagasse. — “Pague, seu Jerônimo... É pra não parar o jogo.” O Jeromo pagou, com um botão de punho. O caixeiro da corte voltou para o seu lugar, todo sorrisos, “Minhas senhoras, vai continuar o jogo! O senhor S. Roque é a senhora d. Margaridinha.”

Fora, o luar banhava todo o jardim plantado de esponjas, desenhando na rua a ramagem crescida da cerca de espinhos. A estrada, tortuosa, toda de areia, refulgia ao clarão da lua. Longe, no silêncio da noite, latiam cães... O Barradas, “amigo de seu barão”, suando em bicas, viera para o jardim e encostara-se à cancelinha da porta, a fumar. O jogo continuava, lá dentro, na sala. Ouvia-se a voz do caixeiro da corte. “Que se há de fazer ao dono ou dona desta prenda?” E viam-se sobre os aparadores os dois grandes lampiões de querosene, trazidos pelo Barradas da casa de seu barão, para aquela festa de anos da tia Micaela,

O Jeromo era carreiro lá do alto, da fazenda do dr. Chico Pena. Mais pra baixo ficavam as terras de seu barão — barão de Santa Maturina. Aí é que o Barradas punha e dispunha, como dono da casa, comendo à farta, bebendo ainda melhor. Português esperto, muito insinuante, começara auxiliando o administrador da fazenda. Um dia — ia para três anos — o administrador vira-se, de súbito, posto no meio da rua. O barão, colérico, cheio de raiva, não lhe consentia que se justificasse. O homem não fizera nada. O Barradas foi nomeado para o seu lugar.

“Bom administrador tenho eu!” — costumava dizer o barão, Carreiro é que não tinha, tão bom como o Jeromo. Certa vez, Jeromo ia entrar em casa, empurrava já a porteira, quando retiniu este grito — “Eh lá, ó Jirônimo!” Era o Barradas. O outro não o ouviu. O português chicoteou mais a besta em que vinha, enterrou-lhe bem as esporas... Depois, repetiu o chamado: — “Eh lá, ó Jirônimo!” O Jeromo demorou-se a esperá-lo, com a mão ainda sobre a porteira. E, ao brusco choque das esporas, a besta trotou mais depressa, até junto da cancela. Ficou aí, sem parar, ao mesmo tempo avançando e recuando a apertar as pernas do Barradas de encontro às duas ripas pregadas em cruz.

— Manhosa como ela só! — achou, sorrindo, o Jeromo.

O Barradas apeou-se, tirou as rédeas de sobre o pescoço do animal, passou-lhas da cabeça para fora, por cima das orelhas, e foi prendê-las adiante, a uma das pontas da cerca. Demorou-se ainda um bocado, a enrolar um cigarro. Por fim, abordou a questão. O Sr. barão mandava perguntar ao Jirônimo se não queria ir lá trabalhar pra fazenda. O Jeromo estava que não cabia em si da surpresa.

O Barradas contava com isso. Ah! estava admirado, não era? Tinha de quê. Era uma fortuna que lhe caía do céu. E gabava a fazenda. Que bonita que estava agora! Passava-se muito bem de barriga. Aquilo é que era viver a gente uma vida regalada; comiam-se quatro vezes ao dia! E depois, se o Jirônimo quisesse, dobrava-se-lhe o ordenado, ajuntava-se-lhe uma gratificaçãozinha para os cigarros, e até o Sr. barão ainda lhe havia de dar a sua farpelazinha nova, para os domingos. O Jeromo refletia, via-se que estava a hesitar. Mas, de repente, fez que não, com a cabeça. Decididamente não aceitava. Era tolo, rejeitar assim uma fortuna que lhe caía do céu. Mas que lhe havia de fazer? Tinha amizade à casa, criara-se com os meninos...

O Barradas voltou para a fazenda, a apertar cada vez mais o passo da besta, para repetir ao Sr. barão o que lhe dissera o bigorrilha do Jirônimo. E logo ao chegar, em meio do almoço, tendo muito cuidado em que não esfriasse o bife do Sr. barão, a mandar pelos criados que fechassem bem as janelas da varanda para que o Sr. barão se não fosse constipar, o Barradas contou-lhe o que ouvira do carreiro. “É uma criança...” — deixou escapar o barão. E o Barradas logo, com toda a sua verbiagem de português muito esperto: — “É um estúpido, é o que é... Vossa excelência não o conhece.

É um estúpido e um bigorrilha... Um bigorrilha é que ele é, saiba-o vossa excelência!...

Esmorecia a luz. Manchas de fumaça iam subindo aos poucos pelo interior dos globos, nos dois grandes lampiões de querosene. Tia Micaela queixava-se do fígado, fizera-lhe mal o jantar. O Barradas voltava nesse momento para a sala, mãos nos bolsos, fumando. Vinha de fora, janelas a dentro, cortante e ríspido, o áspero frio da madrugada. Nuvens róseas apareciam pelo céu. “Bons dias, siá dona!” — gritaram da estrada para a Margaridinha que se fora debruçar à janela. O caixeiro da corte ainda quis ver se reanimava a festa. “Minhas senhoras, meus senhores! Vamos agora jogar o cocke da família. Eu sou o cocheiro; d. Margaridinha é quem mais brilha, é a lanterna. O Sr. Barradas é o chicote...” Voltava-se, todo sorrisos, para cada um. Mas a Margaridinha achou que já era tarde. — “Qual, seu Rodrigues! Já é dia... Mamãe está com sono.” Clareava mais. “Agora é cada um pra sua casa!” interrompeu asperamente o Barradas.

Despediram-se, trocando abraços, apertando-se muito sacudidamente as mãos. Tia Micaela distribuía beijos, a torto e a direito, fazendo convites — “Não se esqueçam, hein? Agora é pelo Natal!” O Jeromo chegou a correr, do jardim. Ocultou umas flores no casaco; depois estendeu a mão à Margaridinha, olhando-a bem em face. “Não me esqueça!”

— disse. A moça apertou-lhe os dedos, quase a esmagá-los... E ficou em silêncio. Tinha os olhos cheios d’água. “Venha amanhã!” — segredou a muito custo. O Jeromo disse que sim, com a cabeça. E saiu. Mas, da rua, voltou ainda, como se lhe faltasse alguma coisa; parou indeciso. “Até amanhã, tia Micaela!” — fez depois. Apertou outra vez a mão da Margaridinha. Custava-lhe deIxá-la assim. Desejaria ficar para sempre junto dela ouvindo-lhe aquela música da sua voz.

Partiu; afinal. Levava um grande vácuo no peito. Os olhos umedeciam-se-lhe; tinha uma enorme vontade de chorar... Pássaros cantavam. Do mato em roda, subia um embalsamado, um fresco cheiro de ervas. Gotas de orvalho caíam dos espinheiros; e, pela relva adiante, borboletas iam e vinham, doidas, agitando asas trêmulas, amarelas por sobre as flores amarelas.

Entrou em casa. Atirou-se à cama, para ver se esquecia aquela ideia da Margaridinha. Talvez dormisse... Não dormiu. Aquilo era como se lhe houvessem arrancado do peito, na festa, alguma coisa que lhe fazia muita falta. Voltava-se para a parede, fechava os olhos, apertava-os bem, para não ver coisa nenhuma... E para logo se lhe deparava outra vez a sala do jogo de prendas. Era ainda o caixeiro da corte quem as ia a pouco e pouco recolhendo no chapéu; o jogo é que já não era o mesmo; não era o Senhor São Roque, era uma coisa parecida. E o Jeromo via-se de joelhos aos pés da Margaridinha — “Minha santa Margaridinha, eu aqui estou a vossos pés, sem me rir, sem chorar, sem me rir. Eu aqui estou a vossos pés...

O Jeromo voltou no dia seguinte à casa de tia Micaela. Voltou depois ainda, e no terceiro dia, e mais tarde. A Margaridinha vinha buscá-lo à cancela, toda de branco. E subiam, mãos dadas, almas felizes, acompanhados desde a porta pelo vigilante, bondosíssimo olhar da velha.

Mas, num dia, tia Micaela veio, ela própria recebê-lo à entrada. O Jeromo parou, surpreso, indagando com os olhos. E tia Micaela explicou o que havia. — “O Leopoldo, aquele magrinho, que estivera lá no dia dos seus anos... Ah! não conhecia? Pois, coitado! Fora-se... Bexigas...” Bexigas! — “É verdade; bexigas!” Era o sexto, numa semana. O Jeromo estremeceu de terror; dominou-se, porém. “Mas, e a Margaridinha?” Tia Micaela tranquilizou-o. Estava no sítio do Leopoldo. Fora pela manhã, para ajudar a gente de casa. Era preciso haver lá quem tivesse um bocado de sangue-frio. Os outros, coitados! tinham perdido a cabeça.

O Jeromo despediu-se, voltaria depois. — “Sábado, ela já há de estar aí. Tenha paciência!” Teria paciência. E foi embora. Luzes brilhavam longe.

Anoitecia. O Jeromo levava como um pressentimento no coração.

Não voltou mais. A Margaridinha chegou logo na sexta-feira, à tarde. Esperou-o até alta noite. Nada. Esperou-o no sábado, dia inteiro, noite inteira. Nada. Apenas, naquela noite lúgubre, tia Micaela veio da rua a chorar. Talvez chegasse no domingo. Esperou-o. Rompeu o sol; veio a tarde, frígida tarde de inverno. E nada. A Margaridinha esperava à porta, apoiada à cancela.

Nuvens pardacentas iam-se amontoando pelo céu. Peneirava um chuvisco. E súbito, do alto, dentre barrancos, aos solavancos pelo tortuoso caminho — violentamente puxada por duas bestas e forcejando por ganhar a estrada, branca de areia — surgiu uma antiga, uma arruinada caleça, sem toldo. De um a outro lado, sobre os assentos, estremecia, oscilava um caixão. Oleados resguardavam-no do tempo. E logo atrás, vinham, a galope, dois cavaleiros.

O céu fez-se mais negro. Chovia agora. A Margaridinha sentiu que alguma coisa se lhe enroscava no coração. Era como uma cobra má que o tivesse agarrado de súbito.

Estalava o chicote no ar. O carro galgou a estrada, de um pulo. As rodas chiavam na areia, rápidas, ao rápido trote das bestas. Homens descobriam-se ao vê-lo. E tia Micaela, que vinha a entrar da rua, ajoelhou-se religiosamente.

— Coitado do Jeromo! — disseram, na casa vizinha.

A Margaridinha apoiou-se mais à cancela:

— Ah! meu Deus! — soluçou, dolorosa, angustiadamente.

Só. Faltava-lhe o chão. A garganta subiam-lhe, num bolo, toda aquela mágoa, toda aquela agonia, toda aquela dor. O carro passou. Do caixão mal fechado, evolava-se, ficava um mau cheiro espalhado pelo ar.

— Siá dona, reze por ele! — gritaram.

Chovia mais forte. Lágrimas rebentavam em fio, das árvores sobre a areia. A Margaridinha ficou, apoiada à cancela, com um trêmulo, nervoso ricto nos lábios, sem se rir, sem chorar, sem chorar, sem se rir...

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