quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Casa de adultério (Conto), de Pedro Rebelo


Casa de adultério

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Trinta anos há que isto foi... E daí, há talvez trinta e cinco ou quarenta. A casa era na rua do Núncio, mais para a dos Ciganos do que para a do Visconde do Rio Branco. Por aquele tempo ainda esta não era do Visconde do Rio Branco. Era mais fidalga e mais simples; — do Conde, sem mais nada. A nova denominação veio depois, com o Ventre Livre, com as festas de 71. Já por aí se vê que foi há mais de trinta anos. Mas não importa; a casa era na rua do Núncio.

Agora, de onde seria quem a habitava? De São Paulo, diziam; mas também se dizia que era do Rio Grande. Outros asseguravam que era de Santa Catarina, até pelos modos, quanto mais pelos olhos pretos e pelo moreno do rosto. Seria ou não. Havia divergências em toda a rua do Núncio, na própria rua do Conde. Uma noite, no vizinho do lado, paredes meias, brigou-se por causa de d. Senhorinha Duarte. Foi na casa das Machado, velhas ambas, solteiras as duas. Mana Melinha teimava que a moça era de Porto Alegre.

— Qual Porto Alegre! Aquilo é paulista; é cara da Aparecida...

Mana Júlia conhecia o Paulo. Teimaram; acabaram por não se falar mais. A história não cogita de coisas mínimas; se cogitasse, haveria de mencionar que, para as Machado, nunca mais lhes chegou o momento da reconciliação.

De onde era d. Senhorinha Duarte? Da travessa das Partilhas. Nasceu lá, por uma tempestuosa noite de março. Restos de verão; últimas trovoadas secas... O pai assustou-se muito, não naquele dia; o susto veio-lhe duas semanas antes. Culpa da folhinha de Ayer. Lá estava o aviso, muito miudinho, nestas quatro palavras, ainda mais ameaçadoras do que miúdas:

Fortes trovoadas ao Sul

A semana passou sem trovoadas, só com o susto. Veio outra; Ayer já não cogitava de relâmpagos, nem de trovões. Que muito é que também o pai de d. Senhorinha não cogitasse deles? E passavam os dias. Mas, numa bela noite, lá aparecem os relâmpagos. A trovoada vinha, estrondeante, atordoadora. D. Senhorinha veio com ela, muito pequenina, envolta nuns tênues panos bordados.

O pai de d. Senhorinha ainda o não fora de ninguém mais. Tomou-a nos braços, beijou-a na boca, nos olhos, na testa... Beijou-a muito, ao acaso. Tinha os olhos úmidos, não dizia nada. Olhava para a filha, beijava-a, tornava a mirá-la outra vez.

— Está bom, agora deixe ela dormir... Olhe, faça favor de mandar-me dar a alfazema.

— Ah! sim... A alfazema.

E repetia “A alfazema, a alfazema”. Só. “A alfazema, a alfazema”. Deu uns passos, deixou-se cair no sofá. O dia ia clareando. A comadre esperava pela alfazema. Esperava; não vinha coisa nenhuma. E foi buscá-la ela mesma. O pai de D. Senhorinha ficou sozinho, a dormir.

Eis aí como, por uma tempestuosa noite de março, veio ao mundo a bela rio-grandense da travessa das Partilhas. Cresceu, esteve no colégio, teve namorados e casou. Há aí um episódio de viagem, não em solteira, mas depois de casada. Viagem a Pelotas... Porque, no fundo, uma das Machado não deixava de ter a sua pontinha de razão. D. Senhorinha esteve em Pelotas. O marido era conferente da mesa de rendas; ou por outra, foi conferente mais tarde, depois das núpcias, talvez dois anos depois. Antes era escriturário, 29 ou 39. E d. Senhorinha veio de Pelotas para a rua do Núncio.

Chegaram cedo; as Machado já estavam à janela, cumprimentaram sorrindo, muito amáveis; e ficaram a ver entrar a mobília. Tão disparatada, tão velha! Já lhes parecia que devia ter sido comprada em leilão.

Talvez, d. Senhorinha teve saudade de Pelotas; mas, se as teve, deveu-as ao marido. A princípio, Duarte era um marido modelo; ia de casa para a alfândega — estava adido à alfândega — e saía da alfândega para casa. Mas numa certa, frígida tarde não veio; veio à noite, às sete horas. Tinha ficado com o ministro; negócios urgentes, relatório, o diabo! Era uma quarta-feira; no sábado foi pior. Ficou toda a noite na rua. O ministro era incansável, parecia de ferro. Que se lhe havia de fazer? D. Senhorinha chorou, mas não disse nada. Duarte viera às seis horas da manhã, com o dia claro. E o relatório continuou.

O relatório morava na rua do Hospício. Tinha cabelos castanhos, meio louros; pescoço comprido, emergindo de rendas largas e caras. Duarte viu-o uma vez, de volta da repartição. Sorriu; o relatório sorria também. Coitado! Sorrira já tantas vezes, para tantos conferentes adidos... Mas Duarte chegou há meses de Pelotas. O relatório sorria; ele foi até o canto da rua da Vala, voltou, fez um sinal... No dia seguinte mandava lá um moleque; três dias mais tarde ele e o ministro começavam a trabalhar juntos, pela noite adiante. O país ia ver o que era um relatório de fazenda!

Parece que ainda se não falou aqui do dr. J. Mendes. Tem vinte e sete anos e foi promotor no Rio Grande do Sul. Conheceu lá o Duarte, prestou-lhe obséquios; chegou há pouco, com licença, e frequenta a casa de d. Senhorinha. É, porventura, um dos que lhe dizem com os olhos o que a ela já lhe não é dado ouvir. J. Mendes descobriu o caso do relatório. Não porque visse, mas porque lhe disseram. Aliás, não precisava de que lhe dissessem coisa nenhuma. D. Senhorinha tem agora um par de olheiras que contam tudo o que o marido anda fazendo; e fala com uns ares de mártir dolorosa. Na véspera ainda, Duarte teve de organizar umas tabelas. Serviço delicado, coisa de muita confiança. E nem jantou em casa, nem voltou senão no dia seguinte. Esqueceu-se de que tinha convidado J. Mendes para jantar. J. Mendes é que não esqueceu o convite, e foi. Bateu à porta, meio trêmulo, meio receoso.

— O patrão ainda não veio, mas a senhora está...

— É o doutor... Entre!

D. Senhorinha sorria, ao alto da escada; ela própria vinha abrir. Mais bonita, num amplo vestido de cassa. As olheiras estavam talvez majores; muito pouco, mas estavam. O rosto é que já não tinha nada de mártir, nem a fala. J. Mendes estranhou a mudança; mas não se despediu, não procurou nenhum pretexto para se ir embora. Subiu, muito trêmulo, muito receoso. D. Senhorinha recuou um pouco, para deixá-lo passar. A alma dela devia estar tramando alguma coisa. Foram para a sala. A criada seguia adiante; abriu as janelas, ficou a endireitar umas jarras...

Vá dizer lá dentro que não demorem muito o jantar... Olhe, veja se falta alguma coisa. Seu amo talvez jante fora.

A criada ia embora, mas não foi. Sacudiu umas flores, apanhou uns jornais caídos. Saiu enfim. O Duarte não jantava em casa; J. Mendes achou que se devia admirar.

— Janta fora, o Duarte!?

— Janta, ou não janta. Quem sabe lá o que ele pretende fazer? A mim, disse-me que jantava em casa; mas também o disse ontem...

— E não veio.

— Não veio; veio hoje... Mas quem lhe disse que ele não veio ontem?

— Ninguém... Eu não precisava de que ninguém me dissesse; eu sei...

— Sabe o quê?

— Sei que a senhora... A senhora agora não é muito feliz.

— Não sou? Por que não? O Duarte...

— O Duarte, d. Senhorinha... Escute; a senhora sabe que eu sou muito seu camarada, não é?

— É; o senhor é muito camarada de nossa família.

— Principalmente... da senhora.

— Meu, por quê? Pois não é tão meu camarada como de meu marido?

J. Mendes não respondeu logo. Parece mesmo que a resposta, já a entenderam os olhos de d. Senhorinha. Aquela pergunta veio, talvez, em busca de umas palavras que ela espera desde que o fez entrar. Mas, se J. Mendes não respondeu, ao menos chegou-se mais para ela. Fitou-a bem em face. D. Senhorinha baixou os olhos, corou; ficou assim, contando as tábuas do assoalho.

— A senhora sabe que eu sou mais seu camarada do que dele.

— Não sei nada.

— Sabe, d. Senhorinha.

— Sei por quê?

J. Mendes abaixou a voz; cerrava os lábios, as palavras saíam-lhe através do bigode, ainda perfumadas de brilhantina:

— Lembra-se de quando estava em Pelotas? Me perdoe; eu prometi não falar enquanto ele fosse bom para a senhora. Mas agora não é. Lembra-se do que lhe disse em Pelotas? Nem sabe o que tenho sofrido por sua causa, Senhorinha... Não viu que deixei tudo lá, família, lugar, interesses, tudo? Vim só para poder estar aqui, falando com você, ouvindo o que você diz. Para que há de ficar no Rio, maltratada, esquecida por uma sujeita à-toa? Pensa que o Duarte ainda lhe estima? Há de ver o que ele faz. Olhe, eu tenho um dinheiro junto; vamos viver no rio da Prata. Quer ir, Senhorinha? É a sua felicidade que eu lhe estou oferecendo.

D. Senhorinha ouvia em silêncio; ou não ouvia. Ficara muito séria, cabeça baixa, olhos fitos no assoalho. Talvez nem sentiu que J. Mendes lhe enlaçava a cintura, nem o viu todo curvado para ela. Mas, de súbito, estremeceu; J. Mendes apertava-a nos braços. E os ouvidos de d. Senhorinha ouviram estas doces palavras melífluas:

— Meu bem, meu amor!

D. Senhorinha levantou a cabeça; olhou-o. J. Mendes repetia a frase, e abanava a cabeça. O cabelo dele brilhava; tinha-o aberto em duas pastas, encaracolado, lustroso de óleo:

— Meu bem, meu amor!

Os olhos, as narinas, a boca de J. Mendes, tudo se abria, melífluo e doce. Não sei que coisa passou pela alma de d. Senhorinha. Foram náuseas, se é que a alma tem náuseas. Pelos olhos sei que lhe passou num relâmpago; talvez o mesmo que ela viu ao nascer, na travessa das Partilhas. Deixou J. Mendes de joelhos no tapete; mal o mandou em hora. “Vá embora, me deixe!” E correu para o quarto. Chorou; chorou muito. Não jantou nem dormiu. Duarte, ao voltar no dia seguinte, ainda a encontrou chorando. Perguntou o que era; não sabiam. Talvez doença.

— É possível, é... O Justino que vá chamar um médico.

E ia saindo, mas parou à porta:

— Olhem, hoje não me esperem para jantar.

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