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9/27/2017

Genial ator! (Conto), de Pedro Rebelo


Genial ator!

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Já me não lembra qual era o título da peça que por aquele tempo se representava no São Pedro. Parece-me que era o Demônio do Mal; o Demônio ou a Vilania de Rei. Vá que fosse a Vilania. Belo drama! Os jornais achavam que era uma peça filosófico-sociológico-moral, e acrescentavam — “é mais uma pérola arrancada ao glorioso escrínio do festejado dramaturgo Borbas de Vasconcelos”. O Borbas era também o autor dos Desgraçados que Riem, que já haviam dado uma dúzia de representações. E por tudo isso rejubilava. Quem não rejubilava era o Fabriciano Correto.

Vilania de Rei... O rei era um que por aquele tempo estava no galarim. O Fabriciano fazia de duque duque de Santo Ildefonso. E no 5º ato, brandindo a espada, rangendo os dentes, pálido e trêmulo de raiva, tinha que recitar uma fala enorme, da qual a frase última era, por assim dizer, o maior atrativo da representação.

É preciso confessar uma coisa — o duque de Santo Ildefonso não era papel para as forças do Fabriciano. Ele nunca fora homem para indignações, nem para gritos. Se lhe houvessem distribuído um tipo de homem pacato, dado a conselheiro, amigo da humanidade, teria feito um sucesso... Mas não lho deram. De modo que o pobre diabo do Mamami lá se arranjou como pode. Se não chegou a fazer um brilhareto não foi por falta de ensaios. Quinze dias antes, já ele brandia a bengala e berrava como um doido no seu quarto da rua de Riachuelo.

Ah! o Mamami! O tal que por aquele tempo estava no galarim dizia dele que “era de gloriosa memória”. Outros achavam-no apenas um pobre-diabo de burguês. O Borbas, o próprio Borbas, dissera dele, encolhendo os ombros: — “É um pedaço de blasé”. O Fabriciano não compreendeu o blasé, mas zangou-se, deu o cavaco. E maior cavaco dava ainda quando lhe chamavam o Mamami. Mamami era um resto do Mamã-mi-qué-ovo com que uma vez o haviam alcunhado no colégio. Meio tate-bitate, danado por ovos, o Fabriciano pedia-os assim, na na sua meia língua: — “Mamã-mi-qué-ovo”. E o Mama-mi-qué-ovo ficou.

Quando a Vilania foi à cena a crítica inteira acudiu ao teatro. Já pela manhã os jornais tinham anunciado que “um brasileiro de talento, o Sr. Borbas de Vasconcelos, fizera mais uma tentativa em favor do nosso depauperado teatro nacional”. O Borbas torceu o nariz ao “senhor”, mas achou agradável o “brasileiro de talento”. À noite, ao ver o teatro cheio, sorriu, esfregou as mãos, e foi para os bastidores, para animar a rapaziada.

Subiu o pano. O primeiro ato da Vilania passava-se num jardim do real palácio, “por uma plácida, por uma perfumosa noite de luar”, como lá se dizia na peça. O Fabriciano ainda não entrava; se entrasse não haveria motivo para a sua indignação do 5º ato. Quem entrava era a duquesa — a honesta Santo Ildefonso! O rei também entrava, apressadamente até. E das revelações de semelhante encontro, e de todo o apaixonado diálogo de ambos, resultava que os Santo Ildefonso ficavam moralmente obrigados a baixar a cabeça ao peso daquilo tudo.

O caso não se complicava muito por isso. O rei fazia ao nobre Santo Ildefonso a honra insigne de lhe conceder o pariato...” por amor dos seus grandes serviços e dos da ilustre dama, a virtuosa duquesa...“ Talvez que principalmente por estes últimos. E daí, pode ser que não. “É mais um para nossa família!” — exclamava um velho Santo Ildefonso, ao saber da boa nova. “E é a ti que eu o devo!” — gritava o duque, reconhecido, atirando-se de braços abertos para a sua cara mulher.

Acabava aí o 19 ato. Não é preciso dizer que a Vilania foi um acontecimento. Pelos corredores, durante o intervalo, não se fazia senão comentar o sucesso do Borbas. “Aquele ladrão tem talento como o diabo!” — achava um rapazinho metido a coisas de literatura. Mas o Teodorico Valente, dramaturgo como o Borbas, tinha diversa opinião. No seu entender a Vilania era uma formidolosa estopada.

Num ponto estavam todos de acordo — na frieza com que o Fabriciano dissera a frase final. Toda a gente esperava que ele se reabilitasse dali por diante. Veio o 29 ato, desenrolaram-se mais dois outros, chegou o último, onde se rompiam as cataratas do ludibriado Santo Ildefonso. Era aí que ele tinha de brandir a espada, trêmulo de ódio, fulo de indignação. Mas o pobre do Fabriciano não era homem para essas coisas; esforçou-se, gritou a valer... À toa! Por pouco que não compromete o papel.

Entretanto, a Vilania de Rei fez barulho. O Borbas chegou a ser por alguns dias uma celebridade. Falou-se em dar-lhe um banquete, pediram-lhe uma cena cômica para o benefício do tal que estava no galarim; e ao mesmo tempo que pelos a pedidos do Jornal, num longo entrelinhado, Um Espectador lhe deprimia o mérito para salientar o do Teodorico Valente, em Maxambomba fundava-se o Grêmio Dramático Borbas de Vasconcelos.

O Borbas estava radiante. O Fabriciano, porém, desesperava-se com o não ser aplaudido, nem ao menos na cena do 5º ato. Para os outros palmas flores, para ele nada. Num belo dia houvera lá pelas galerias um certo ruído muito inquietador. Valeram-lhe uns bruscos psiu! atirados dos camarotes para o alto. Mas a tempestade podia desabar, lá se iria tudo quanto Marta fiou. O Fabriciano punha-se de novo a ensaiar a grande fala, no quarto da rua de Riachuelo, brandindo ameaçadoramente a bengala, berrando como um possesso. Coitado do Fabriciano!

O suplício durava-lhe desde as notícias da primeira representação. O Globo logo no dia seguinte, afirmava: “O Sr. Fabriciano estava evidentemente deslocado no seu papel”. O Jornal dizia: “... O Sr. Fabriciano quase que sacrificou a bela cena com que termina o 5º ato”. A Gazeta, então, chegava a fazer um trocadilho. “O Sr. Fabriciano Correto é que não foi correto nem nada.” O Fabriciano não fez escândalo porque não era homem para indignações. Veio-lhe, porém, a ideia de arranjar uns aplausos também para si. Como diabo os havia de arranjar? O Fabriciano não sabia, mas havia de ver. E pôs-se a pensar e a matutar no caso. Afinal parece que tomou uma resolução. Parece. Ele não a comunicou a ninguém, nem ao empresário, quando lhe foi pedir, pela manhã, “que fizesse o favor de lhe adiantar cento e cinquenta mil-réis”.

À noite, o São Pedro regurgitava. Pudera! “Hoje, maior sucesso da época, 18ª representação da Vilania de Rei!” — tinham apregoado os jornais. À porta, um grande cartaz anunciava para o dia seguinte ainda “o maior sucesso da época”. O Fabriciano, perto, ensinava a uns sujeitos onde era a subida para as gerais.

Pano acima, começou a Vilania. O jardim do 19 ato aparecia agora um bocadinho mais escuro, conselho do Borbas, para melhor efeito da lua. E a um lado, sob o caramanchão, o soberano e a duquesa trocavam-se juramentos de amor “por aquela plácida, por aquela perfumosa noite de luar...” 

O Borbas lá estava no teatro, mirando-se na sua obra, deliciando-se com aquele apaixonado diálogo de ambos, como se nunca o tivesse ouvido, nem tivesse escrito ele mesmo. Outrem deixaria de ir ou de assistir ao espetáculo todo inteiro; ele não. Ele e o Teodorico; este último para ver quando diabo começavam as vazantes. Um Espectador, o mesmo dos a pedidos do Jornal, já as anunciara para qualquer daqueles próximos dias.

Nessa noite, o Borbas e o Teodorico estavam justamente a pensar que o Fabriciano parecia agora mais à vontade no papel. Parecia, não; estava realmente; ou fosse que ele se tivesse resolvido a dar tudo logo nas primeiras cenas, ou que já se não incomodasse muito com a grande fala do 5º ato, o caso é que o Fabriciano estava agora mais afinado no papel.

Veio o 5º ato. O Teodorico lá se fora sentar na primeira fila de cadeiras, para não perder nenhum dos movimentos do Fabriciano. E o Fabriciano entrou, braços cruzados, cabisbaixo, abatido ainda pela revelação do adultério da honesta Santo Ildefonso. Estrondeou uma grande, uma uniforme, uma entusiástica salva de palmas. O Fabriciano parou, mirou as torrinhas, atravessou para o fundo, por onde o rei vinha naquele momento a entrar. Nova salva de palmas irrompeu. Desceu ao proscênio. Palmas repercutiram ainda.

E por aquele começo de ato afora foi um nunca acabar de palmas escandalosamente sonoras. Eram palmas por dá cá aquela palha. O rei, o tal que estava no galarim, começava já a desconfiar de tamanha prodigalidade de aplausos. Ali andava por força bandalheira do Mamami. E recordou-se do adiantamento dos cento e cinquenta mil-réis. Uma claque! Ora ali estava para o que servira o dinheiro. O idiota do Fabriciano nem ao menos sabia escolher gente esperta para aquilo. O próprio Fabriciano já se ia enfurecendo com o caso. As palmas continuavam, cresciam sempre. Afinal, começou a grande fala, a célebre tirada do 5º ato. “Que o céu vos valha, senhor; mas ides restituir-me aquele coração que era meu!”

Restituir-lhe o seu coração! O rei estava mas era a debochá-lo, meio virado de costas para o público. Fazia-lhe caretas, fingia que também lhe estava a bater palmas. E, súbito, num ponto da cena, porque tivesse de investir para ele, e valendo-se do barulho que faziam as palmas:

— Eh, Mamami! gritou.

Mamami! O Fabriciano perdeu as estribeiras. Era demais, também aquilo era demais. E atirou-se, espada em punho, para o canalha do rei. O braço tremia-lhe de raiva, as palavras saíam-lhe freneticamente, borbulhando, prenhes de ódio, coruscantes de indignação.

“Mamami! Espera, pedaço de canalha!” — E as palmas cresciam cada vez mais. Agora era a plateia inteira. Ninguém ouvia o que estava dizendo o Fabriciano; viam-lhe apenas a indignação nos gestos, a cólera na fisionomia. E toda a gente achava que aquilo era verdadeiramente magistral.

Era à toa que o ponto berrava os últimos trechos da grande fala...” Por esta espada que tenho vos juro que daqui não saireis vivo, senhor!” — Qual vivo, qual nada! “Mamami é ela, meu grandessíssimo cão!”

O rei não esperou o golpe do Fabriciano para se deixar cair morto no palco; atirou-se de costas, mal a durindana silvara, lúcida, no ar. Desceu o pano, muito devagarinho. Toda a gente batia palmas, delirante, quase doida. A sala inteira vinha abaixo, à diabólica barulhada de toda aquela ovação. Um espantoso sucesso! O Borbas, sôfrego, a acotovelar toda a gente, atirou-se para o camarim do Fabriciano, para lhe agradecer a sua interpretação. E o Teodorico — o Teodorico ele próprio! — teve esta simples, esta eloquente, esta convencidíssma frase:

— Genial ator!

Cão! (Conto), de Pedro Rebelo


Cão!

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Sol a pino; esbraseado, rútilo sol de janeiro...

Tangendo a tropa — de volta do mercado longínquo — o Rufino estacou, de súbito, ao súbito chamado de tia Rita. E à porta da casinha branca, dentre os galhos ásperos dos espinheiros, a figura encarquilhada da velha chamava-o de novo:,

— Eh lá, Rufino!

Sua bênção, tia Rita!

Calor danado, hein?

Parece que não passa sem chuva...

— Nossa Senhora que mande.

Em roda, pelo mato mirrado e seco, secas, mirradas árvores se levantam, ávidas, para o céu. E, por entre a relva queimada, ao acaso dos campos, apenas os longos, áridos caminhos de areia refulgiam ao sol. O Rufino demorava-se um pouco, a arredar as mulas para junto dos espinheiros da cerca; sacudiu o suor, a um rápido passar dos dedos pela testa. E veio, chapéu ao alto, enrolando o cigarro tirado da orelha:

— Forte sempre, hein, tia Rita?

— Não vê! Caco de velha que a maldita nem deixa parar. Mariana já levantou?

— Levantou?! Nossa Senhora que tenha pena dela. De já hoje se foi chamar seu dr. Paixão.

— Eh! Ruim assim?

— Ruim de não tirar a cabeça da cama.

Um corvo pairava alto, voando em círculo. E a sombra negra da ave passou, rápida, por sobre a cabeça da velha. Tia Rita franziu as sobrancelhas:

— Vá longe o agouro! Cuidado com ela, hein, Rufino...

— E eu cá que já vou andando pra casa...

— Deus que te acompanhe!

O Rufino estalou o chicote no ar. E, sacolejando os jacás vazios, a tropa embicou pela estrada fustigada do sol. A casinha de tia Rita ficou para trás, muito alva, com os seus ares de eremitério em meio das roças queimadas — como uma capelinha ao centro de um campo talado pelo incêndio, pela devastação e pela morte. Ao longo da estrada nem mais sombra humana aparecia. Eram apenas, no ar imóvel, folhas imóveis de árvores imóveis. E só de entre duas mangueiras, muito ao longe, num alto, transparecia a casinha do Zé Português — um que, por noites enluaradas, costumava dizer, à guitarra, toda a saudade nostálgica da sua terra.

De novo, lépido, o látego vibrou, estalando, desenroscando-se no ar. E agora, para lá da curva distante do caminho, emergia da massa de troncos das amendoeiras despidas a ponta aguda da torre da Matriz. Em frente, tranquila e pobre, era a casa. E o Rufino apressava a tropa. Do caminho de areia em brasa, ao trote das mulas, subia para o ar uma poeira fúlgida e fina...

Mas — porque ao fim chegassem — o Rufino (cancarou a porteira; e, enquanto a uma chicotada mais forte, as mulas trotavam para o telheiro ao fundo — à cata de sombra e de água — entrou em casa muito rápido, a indagar do estado de tia Mariana.

Então, tia Rosa, e a velha?

— Assim...

Imóvel, sobre a cama de ferro, no quarto de portas abertas para o ar e para a luz, tia Mariana arfava compassadamente. Os finos braços, amarelecidos e magros, mal lhe sustinham o lençol dobrado por sobre a colcha de chita. Nos olhos vítreos errava-lhe o resto de um amortecido clarão. E tia Mariana movia monótona, maquinalmente, a cabeça. Pela porta entreaberta via-se o quarto vizinho. E nele, junto do oratório iluminado, a Úrsula, vinha de fora, ajeitava um galho de flores de espinheiros aos pés finos e brancos da Senhora da Conceição.

O dr. Paixão viera de quatro léguas mais adiante. E, mais o Tinoco, o irmão da Úrsula, lhe fora dizer que a mãe do Rufino estava, havia oito dias, com uma febre ruim, pusera pé no estribo da égua e atirara-se para a Areia Branca. A porta, ao saltar, perguntara logo se lhe não haviam aparecido uns vômitos. E fora com um ar compungido que lhe buscara o pulso, tateando-o no braço descarnado e emagrecido da velha.

O Rufino entrou, pé ante pé. E o Tinoco, que andava a rachar lenha por ali perto, veio também, cauteloso, e, logo à porta, depôs no chão a foice afiada para a tarefa. O calor abafava fora. No quarto próximo, a um prenúncio de vento, as velas do oratório estremeciam... Pela alta cruz do Senhor Crucificado — um velho Cristo de jacarandá balsâmico e forte — subia uma espiral de fumaça pardacenta; e, mal o vento aumentava, a chama das velas ia lamber os sangrentos, chagados pés do Senhor.

Tia Mariana movia a cabeça, pausadamente, de um para outro lado. Voltara-se; fincara os pés na cabeceira da cama de ferro. E a pouco e pouco, ia-se-lhe amortecendo o clarão moribundo do olhar. Era como se adormecesse, afinal, depois daquelas tantas, longas noites monótonas de vigília... O dr. Paixão fitava-a insistentemente.

Fora, no espaço, uma nuvem tapara por momentos o sol. Ventava agora. E de todo o côncavo do céu, muito alto, vinha por sobre a terra um ar pesado de desgraça e de morte. Pássaros passavam em fuga. Pela estrada adiante, às bruscas, fortes rajadas do vento, levantavam-se turbilhonando, e iam às soltas, pelos campos, as folhas secas das amendoeiras do largo da Matriz. E súbito, relâmpagos abriram um rápido, largo claro no céu.

O dr. Paixão voltou-se para tia Rosa:

— Mudança de tempo... — fez, baixo.

E com os olhos indicava-lhe a calma brusca de Lia Mariana. Mas o calor aumentava, terrível. O Rufino tinha os olhos presos ao rosto amarelecido da velha. O doutor fizera um sinal à Úrsula; e ela foi esperá-lo perto, no corredor.

— Rum!... Mudança de tempo... — repetia Lia Rosa.

E abanava a cabeça, com um ar desolado. O doutor levantou-se, ficou um pouco, de pé, em frente à janela, a mirar o horizonte longínquo. Assobiava baixinho. Deu uns passos até o aparador onde o lampião de querosene descansava num tapete vermelho, de lã. E sumiu-se pelo corredor adentro.

— Ora aí está; já tardava... — observou tia Rosa. — Aí temos nós a chuva.

Grossos, disseminados pingos d’água caíam agora por sobre a areia em brasa. E, a um relâmpago mais forte, a casinha do Zé Português — longe, num alto, entre duas mangueiras — apareceu num fundo de luz amarela, como num clarão de apoteose. Tia Mariana arfava, de novo. Faltava-lhe o ar... Do fundo da casa, escondendo o quer que era, a Úrsula veio então, chorosa, para o quarto. E, logo ao chegar, disfarçadamente para que ninguém a visse, tirou de uma dobra da saia a vela benta do Santo Sepulcro.

— Ah! É a chuva... Pois mais vale tarde do que nunca... — sentenciou o dr. Paixão, entrando.

O Rufino chegou-se para junto do médico:

— Seu doutor...

E indicava-lhe tia Mariana, inquieta, na ânsia de conservar o ar que lhe ia fugindo:

— Está ruim, não está?

O doutor não respondia. Fitava-o dolorosamente. O Rufino tinha uma coisa a apertar-lhe o coração.

— E agora? — perguntou.

— Agora, só Deus!

“Só Deus!” — Ao lado, no quarto vizinho, a figura aureolada do Cristo — plácido e sereno — refulgia ao clarão das duas velas do oratório... O Rufino fitava o rosto de tia Mariana. — “Só Deus!”

— A santa imagem do Cristo atraia-o como para um sagrado refúgio de fé. E o Rufino esgueirou-se para o oratório iluminado.

— Padre nosso, que estais nos céus...

Caíra de joelhos. E as palavras sagradas da reza borbulhavam-lhe dos lábios, trêmulas e repetidas. “Santificado seja o vosso nome...” E eram padre-nossos por sobre padre-nossos — Agora, só Deus!

“Ave Maria, cheia de graça...” E vinham-lhe ave-marias por sobre ave-marias. “O senhor é convosco, bendita sois vós...” As velas morriam aos pés sangrentos do Senhor.

Mas, no quarto da velha, houve um lúgubre ruído estranho. Parecia que todos se haviam levantado a um tempo. E, para logo — ao surdo baque pesado de um corpo — o grito estrídulo e doloroso da Úrsula estrugiu. O Rufino atirou-se para a cama de tia Mariana. De mãos postas, agarradas à vela benta do Santo Sepulcro, mal sustida pelo Tinoco e pela tia Rosa, a velha, esticada num último arranco, punha os dois olhos vítreos fincados no teto.

O Rufino parou:

— Mãe! — soluçou, num gemido.

— Tenha paciência, Rufino...

E o doutor consolava-o:

— Tenha paciência... Também a minha mãe um dia morreu...

— Morreu!

Não via mais nada, não ouvia mais nada. Os olhos prenderam-se-lhe ao corpo desfalecido da velha, vergaram-lhe as pernas. Ria, de um riso nervoso e trêmulo; chorava, de um pranto sem soluços nem lágrimas. Parecia que lhe rebentava a cabeça.

E um peso enorme oprimia-o, fazendo-o pender para o chão.

Mas, a um relâmpago mais forte, a foice do Tinoco luziu, abandonada, num canto. E, do outro lado, no quarto vizinho, as moribundas velas de cera finavam-se, trêmulas, aos pés sangrentos do Senhor crucificado. O Rufino voltou-se para o Cristo; não tinha um gesto, não tinha uma palavra. Os olhos iam-lhe do crucifixo para o límpido aço da foice; da foice para a imagem sagrada do Senhor.

— Cão! — fez, de súbito.

A foice luzia, de novo, a um rútilo relâmpago mais demorado. O Rufino tomou-a de um gesto brusco, e — mal a apertara na mão crispada e trêmula saltou, num ímpeto, do quarto para o oratório iluminado. Fuzilava-lhe a cólera nos olhos avermelhados e úmidos.

E, a um golpe, loira e fina, a benta Virgem da Conceição voou em pedaços. E a outro golpe, a outros, àqueles desencontrados, doidos golpes sacrílegos, piedosas Virgens santas, e sagrados Apóstolos, e bentos registros imáculos redomoinhavam no ar.

— Cães!

A imagem do Senhor fitava-o do alto, serena e aureolada. O Rufino vibrou-lhe a foice, certeira e rápida. E eram novos golpes, doidos, repetidos golpes certeiros. Mas, porque a foice lhe escapasse, a um gesto mais violento, tomou do crucifixo pelos pés. Vibrava-o agora às tontas, contra as paredes contra os móveis, contra os portais. Tia Rosa, muito pálida, correra para arrancar-lhe a imagem. Mas o Rufino galgara a porta. A chuva caía em torrentes. Rútilos, rápidos relâmpagos cortavam o ar. E como uma cachoeira enorme, o vendaval descompassado bramia por todo o campo em redor.

— Cão!

O Rufino atirou-se, estrada a fora. Tia Mariana ficara de olhos vidrados, muito hirta, ao centro da cama de ferro. E o Tinoco correra a pôr fora a água tia talha, para não fazer mal. O Rufino subia sempre, galgando a árida estrada, através da tormenta. Agora, revoluteava o crucifixo no ar. Vibrava-O de encontro às cercas, rachava-o de encontro às rochas ásperas, partia-o de encontro aos ásperos troncos nus. E, do alto — alma doida! — vinham-lhe os soturnos gritos roucos, por entre as sombras da tarde que morria:


— Cão!... Cão!...

Mana Minduca (Conto), de Pedro Rebelo

Mana Minduca

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Volto, afinal... Espera-me; irei hoje... Mana Minduca sorriu. De pé, ao lado, o moleque esperava. Era em 80, na velha casa da rua de Riachuelo, ao canto da rua dos Inválidos. “Volto, afinal...” Mana Minduca fitava atentamente os olhos no papel; sofria acaso da dúvida de que aquela não fosse a sua letra... E mirava o detalhe delgado da escrita. Verdade é que não parecia a mesma. Um pouco mais firme... Daí, em doze anos a gente muda de letra. Valha-lhe Nossa Senhora! O moleque esperava, tímido, amarrotando o chapéu entre as mãos.

Bendita carta! E Mana Minduca mirava o talhe delgado da escrita. Agora já lhe parecia que era dele; o corte daquele t, os l...” Volto, afinal...

Era. Mana Minduca sorria; o sorriso derramou-se-lhe por todo o rosto, apareceu brilhando nos olhos. Nem havia mais dúvidas, era dele; Nossa Senhora trazia-o ao fim. E Mana Minduca, olhou em roda. Pareceu-lhe que se alegrava a sala. A mesa redonda, ao centro, coberta de poeira e de livros, era justamente agora tocada de um raio de sol.

Esses que há doze anos lhe falam do rosto pálido, das lágrimas e da voluntária clausura, vissem-na agora! Mana Minduca sorria; nem se lembrava mais do moleque. Se alguém houvesse, que fosse passando pela rua, que surpresa não haveria de ter quando visse que ela abria as janelas. Abriu-as todas; não um bocadinho, como o fazia há doze anos, não como aquela por onde entrou o raio de sol; abriu-as de par em par. Debruçou-se bem para fora, cantalorando. Voltou, sentou-se. O moleque esperava, olhos fitos no chão, amarrotando o chapéu. Levantou a cabeça, olhou timidamente. Mana Minduca relia a carta. Por certo que era dele... Milagrosa Nossa Senhora das Dores!

— Tá entregue?

O amo que fosse ficaria para ali, sem resposta, como o moleque. Mana Minduca estava que não cabia em si de contente. “Volto, afinal...” E aquele “afinal” dizia bem. Doze anos há que o espera. Viram-se no fogo da Lapa. Que festa! Povo assim... Mana Minduca deixava-se levar à toa. Chegou a pensar que aquilo já se ia demorando muito. Mas, de súbito, o coração estremeceu-lhe; quase parou, até... Corou muito. Que tinha? Nada. Não deu mais um passo que se não voltasse para trás; os olhos dela achavam sempre um par de olhos que iam em sua procura.

Doces, bem-aventurados olhos! Não unicamente os dela; os de ambos. Os dele então, foi tamanha a impressão que lhe fizeram, a ela, que ainda agora se lhe destaca a cena da primeira noite (m que os viu. Atenta bem no modo por que ela a faz reviver agora, à simples leitura daquela carta. Parece-lhe que lá vai outra vez pelo meio do largo. Povo, assim... O dono dos olhos lá está, apoiado a um lampião, quase juntinho do coreto. Doze anos passaram já sobre tudo isto, e ela ainda os revê, aqueles doces olhos. Que festa! Mana Minduca demorava o passo. “Anda mais depressa...” — recomendaram. Era o pai. Ela disse que sim: — “Sim, senhor” E voltou a cabeça para o lado do lampião. Daí por diante andou ainda mais devagar.

Tá entregue?

— Ah! Diga que está entregue... Olhe... Diabo de moleque! Diga que venha cedo, ouviu? As seis horas. Passe pela porta que eu estou na janela. Que venha cedo, ouviu?

O moleque batia longe. Deitara a correr pela rua de Riachuelo acima. Em pouco já se não o avistava. Mana Minduca ficou à janela; os olhos vagavam-lhe ao longe. Se ele não viesse... Mas havia de vir. E fechava os olhos, para revê-lo bem. Que figura teria ele agora? Há doze anos era magrinho, com um pequeno buço, mas em doze anos a gente muda. Deve estar gordo; dizem que em São Paulo se engorda, por causa do frio. E ele volta de lá — bacharel em direito.

Levou doze anos a fazer o curso. É muito tempo, mas há tanta contrariedade, anos perdidos, moléstias, um horror! Outros se demoraram mais tempo, e vieram de lá sem diploma. Um vizinho, para amostra — o Quincas, neto do conselheiro Domingues. Levou dezoito anos em São Paulo, e veio com o curso ainda por acabar. Concluiu-o em Pernambuco. Bacharel em direito! Dr. Eduardo de Campos Lustosa. Os olhos viam-lhe já o nome do marido, à entrada da casa, num quadro, assim:

CAMPOS LUSTOSA
ADVOGADO

Campos Lustosa é um nome que fica bem à porta, numa chapa escura, com letras pintadas a ouro... Que depressa que ia o sonho de Mana Minduca! “O dr. Eduardo de Campos Lustosa e D. Carminda de Barros Lustosa participam a vossa senhoria o seu casamento...” 

Pensamento de Mana Minduca, detende-vos! Coisas há em que toda a precipitação é perigosa... Mas vão lá deter o pensamento de uma moça que esperou doze anos pelo noivo e tem-no agora à mão. Vejam com que delícia ela lhe repete o nome, e como o espírito se lhe não afasta das participações de casamento. Dr. Campos Lustosa...” O dr. Eduardo de Campos Lustosa e D. Carminda de Barros...” Aí a dificuldade do nome futuro. Carminda de Barros ou Carminda Viana Lustosa? O pai é Frederico Viana de Barros; Chico Viana, conferente da alfândega. Viana talvez ficasse melhor, ou Viana de Barros. E ei-la que sonha já com os seus cartões de visita lilás, dourado nas extremidades, com uma pontinha dobrada e o nome, em corpo minúsculo — “Carminda Viana de Barros Lustosa.”

Volta, afinal! Doida era ela que se não preparava para recebê-lo. E Mana Minduca correu para o quarto. Abria gavetas, fechava gavetas. Três vezes saiu pronta. O espelho, porém, gritava-lhe que já se não sabia vestir. E Mana Minduca voltou. Destrançou os cabelos, soltou-os, trançou-os de novo. Davam cinco e meia. Valha-lhe Nossa Senhora! Mana Minduca veio para a janela.

Veio para a janela. Santa de que ela é devota, poupai-lhe a dor de ficar ali eternamente a esperá-lo... Fora, ia caindo a noite. Mana Minduca debruçou-se quase toda para as trevas; interrogava o fim da rua, longe. Ninguém; a noite apenas. Mana Minduca mergulhava bem os olhos na escuridão da noite. Um homem passou, lépido, correndo de um para outro lado. Atrás dele iam ficando acesos os lampiões de gás... O frio aumentava sempre; frio de junho, frio que penetra a alma. 

Valha-lhe Nossa Senhora! Mana Minduca distinguiu alguém, longe. Não lhe via bem o rosto, via-lhe apenas o vulto. Vulto de homem. Debruçou-se mais da janela. O homem apoiara-se a um lampião; alguém, perto, dizia-lhe qualquer coisa. Agora ei-lo que metia a mão no bolso, tirou um objeto, deu-o. O outro desapareceu, a correr. Em pouco já se não o avistava. E o homem aproximou-se. Talvez fosse o Lustosa... Não era. Era um sujeito baixo, gordo. A barba inteira cobria-lhe o rosto antipático. Mana Minduca teve vontade de sair da janela. Antes saísse! Mas ficou.

O homem aproximava-se. Quem quer que fosse com certeza que andava à procura de alguém. Demorou-se um bocadinho ao canto da rua dos Inválidos. Depois, veio, devagarinho. Mana Minduca viu-o passar, olhando-a muito. Parecia que o homem tinha vontade de lhe dizer o quer que era. Ela própria julgava que já o vira. Mas onde? Não sabia. O homem foi até mais adiante, e voltou.

Agora, vinha resolutamente. Deteve-se à porta, tirou o chapéu. Que diabo quereria ele? O homem murmurava alguma coisa. Mana Minduca debruçou-se mais, para ouvi-lo.

— O Sr. Viana de Barros?

— É papai; mora aqui mesmo.

O homem levantou a cabeça, fitou-lhe bem o rosto magro. Que olhar curioso! E agora o rosto dele tomava uma expressão de piedade:

— E... E uma sua filha solteira?

Mana Minduca não respondia. O homem não lhe tirava os olhos do rosto:

— E uma sua filha solteira?

— Minduca? Sou eu.

— Ah! É a senhora?

E o homem levou a mão ao chapéu. Santa de que Mana Minduca é devota, dize-lhe que esse que aí está é o mesmo que ela espera há doze anos. Mas o homem levou a mão ao chapéu:

— Ah! é a senhora! Pois, minha senhora, queira desculpar...

E seguiu. Que bem verdade é que doze anos de lágrimas envelhecem a gente. Nessa que aí ficou à janela, quem há que possa reconhecer a moça do fogo da Lapa? O tempo encheu-lhe a face de rugas. Pérfido tempo! A ele a culpa de que esses dois namorados já se não reconheçam ao cabo de doze anos. Vejam como o Lustosa lá vai, a toda pressa, à procura do bonde. Esse não volta nunca mais. E Mana Minduca ficou à janela. Não sabe quem ele é, não compreende nada. Espera sempre, como na véspera, como há doze anos. E a noite aumenta, o frio cresce com ela; Mana Minduca mergulha bem os olhos na escuridão da noite...

A barricada (Conto), de Pedro Rebelo


A barricada

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Passos soaram, não muitos; poucos e mal distintos. Quem era deteve-se, talvez, à porta; mas, se que se deteve, cobrou ânimo e subiu. Dava meia-noite; noite sem luar, escura e úmida. Nasceu daí, porventura, a indecisão de quem vinha. A escada íngreme. Quem quer que fosse, parou ao alto, olhou em roda, bateu palmas, medrosas e tímidas. Ouvia-se-lhe a respiração. O ruído acordou uma voz, dentro:

— Há alguém aí?

— Mandou saber se está melhor, se precisa alguma coisa...

— De onde é?

Dali defronte, do sobrado...

— Ah! Diga que está assim mesmo... Por ora não precisa coisa nenhuma. Diga que fica muito obrigado, ouviu?

Passos soaram de novo, não tímidos, nem medrosos; rápidos, como os de quem tem pressa de sair. Quem era desceu, parou à porta, colheu as saias, atravessou a rua, correndo, e sumiu-se.

Olhos que me ledes, detende-vos; parece-me que por aí anda uma incorreção. O ruído não foi acordar nenhuma voz dentro. Essa que se levantou lá ao fundo, na sala, mudou talvez de assunto; mas nem se calara, nem dormia há três noites. Calou-se agora; outra surdiu, mais baixa, voz conselheira e amiga.

— Eu em seu lugar, d. Adelaide, tratava de procurar bem... A boca do mundo fala muito, mas não fala sem razão. Se seu mano morresse, já a senhora não ficava atirada por aí, sujeita aos outros, precisando morar de favor...

— Se ele tivesse alguma coisa, já tinha dito.

— Podia não dizer. Não é por falar mal, mas a senhora mesmo sabe; ele sempre foi muito apertado. Gastava pouco e ganhava muito. Eu não via, mas meu marido contava. E não era só meu marido, eram os vizinhos todos. Só aquela causa do Mauá quanto não lhe deu? Pra mais de seis contos de réis. E o resto? Dinheiro não se some; quando a gente não gasta, ele fica.

— E há quanto tempo foi isso? Contos de réis também não duram sempre; às vezes, não duram um ano, quanto mais quatro ou cinco. Se maninho tivesse dinheiro ele trazia. Não tem nada, creia. Ontem, antes da senhora chegar, ele me chamou. Eu fui. Estava muito amarelo, com os olhos cheios d’água. Olhou para mim, encarou bastante, depois disse assim: — “Adelaide, seu mano vai embora... eu desatei a chorar; ele pegou-me na mão: — “Você sabe que seu mano não tem nem um vintém para lhe deixar, não é, maninha?” Eu disse que sabia, com a cabeça. Ele tirou-me as mãos dos olhos, puxou-me o rosto para bem perto: “Diga se sabe, Adelaide; eu não tenho nem um vintém, não é?” Os olhos dele estavam espetados nos meus. Ficou olhando, olhando... Eu disse que sabia. E vim embora. Se ele tivesse dinheiro, não fazia isto.

— A vista às vezes engana...

— Na hora da morte, D. Lúcia!

— A senhora é muito moça, não conhece o mundo; eu conheço...

— Por amor de Deus!

— Conheço; a senhora é que não conhece. Há de ver...

Escute.

Havia um rumor, pouco pronunciado, contínuo, não muito longe. Calaram-se ambas. Escutavam. O ruído vinha do quarto, ao fundo. Era como um resfolegar de doente. Gemidos acaso; acaso palavras soltas, sem nexo. O quer que fosse, mal se entendia, através das paredes, das portas cerradas, do longo corredor escuro. Mana Adelaide curvou-se para o lado da sala, pôs a mão em côncavo, bem junto do ouvido. E ficaram caladas, imóveis.

— Parece que está chamando...

— É o vento.

— Vento assim, D. Lúcia!

— Há de ser. Às vezes...

— Olhe.

Gemidos ou palavras soltas, percebia-se que alguma coisa era. Mana Adelaide levantou-se:

— Eu vou ver.

D. Lúcia pôs-se de pé, arredou a cadeira:

— Espere; eu também vou.

A outra sorriu.

Não é por medo, não. A mim não me metem medo os vivos, quanto mais os que estão para morrer. É que eu não gosto. Assim até é melhor; nem eu fico sozinha, nem a senhora vai sozinha também.

Foram. O corredor era longo, longo e escuro.

D. Lúcia levava uma vela. Alçava-a bem, para alumiar o caminho. O vento apagava-a quase. Pararam junto ao quarto. Mana Adelaide abriu a porta, entrou, chamou baixinho:
— Mano Malveiros...

Gemidos ou palavras soltas, o que era calou-se de súbito. D. Lúcia levantou a vela, para alumiar melhor. A luz bateu primeiro na cômoda, por sobre a lamparina; passou ao lavatório, parou na cama de ferro. Os lençóis agitaram-se; quem lá estava moveu-se, agarrou-se a eles, virou-se para a parede.

— Maninho está chamando?

D. Lúcia curvou-se para a cama, levantou mais a vela:

— Está chamando, dr. Malveiros?

Malveiros descobriu o rosto, magro, escaveirado, amarelo. Os olhos brilhavam-lhe, muito vivos, muito trêmulos. Ficou olhando, entre desconfiado e severo.

— Não conhece, maninho? É D. Lúcia, a vizinha aqui do canto...

O olhar de Malveiros buscava o de D. Lúcia; o dela é que o não buscava, nem reparara nele. Procurava outra coisa; e daí, bem pode ser que não buscasse coisa nenhuma. Andava da cômoda para a cama de ferro; mergulhava nos lençóis; ia da cama de ferro para as gavetas da cômoda. Traspassou-as, acaso, agudo e fixo que era. Mas, se a alguma coisa buscava, certo é que não a encontrou; voltou da cômoda com uma expressão de desânimo; subiu ao teto, desceu as tábuas do soalho, mirou-se no espelho do lavatório. O espelho disse-lhe porventura que se traía. D. Lúcia compôs o rosto, amorteceu os olhos. Quando Malveiros os encontrou, ressumbravam piedade pelo doente. Mana Adelaide ainda os achou piedosos e amigos.

— Está acabado, não é, D. Lúcia? Quem o viu, há dois meses! Lembra-se daquele jantar dos meus anos? Riu, brincou, dançou... Nem parecia velho! Para hoje estar atirado numa cama.

— Não acho que esteja muito mal, não... Agora, ficar assim no escuro é que lhe não há de fazer bem. Por que não deixa a vela em cima da cômoda?

— Luz forte no quarto! É porque a senhora ainda não viu o que ele faz. Não suporta nem a lamparina; é preciso botar uma coisa adiante, pra não deixar a claridade toda.

— Mas estar assim no escuro não é bom, não.

— É o que ele quer; diz que a luz lhe dói nos olhos...

— Talvez seja por outra coisa.

— Não é por outra coisa; deve doer mesmo. Não viu quando a senhora entrou com a vela, como ele se virou para a parede?

— Enfim, isso ainda pode ser... Mas por que é que não deixa mudar a roupa da cama? Doente nenhum faz isto. E então roupa úmida, como a dele está...

— A senhora sabe; ele quase que não se pode levantar. Já vê que andar de um lado para o outro, para deixar limpar a cama, incomoda. E depois, quando se fica assim, não é um lençol lavado que dá vida.

— Mas não precisava tirar a cama toda, agora parede. Quer ver então que ele está encostado à como é...

D. Lúcia ainda não concluíra, e já o lençol lhe estava seguro na mão; seguro por uma ponta. Puxou-o de um gesto rápido, da cabeceira para os pés. Talvez quisesse deslocar as almofadas; se é o que pretendeu, conseguiu-o. Os olhos mergulharam-lhe abaixo delas; regressaram em breve, deslumbrados, acaso satisfeitos. O lençol é que não veio, nem a mão de D. Lúcia. Malveiros agarrou-a, cravou nela os dedos hirtos. O relâmpago que lhe passou pelos olhos não foi tão rápido que ele o não surpreendesse. E segurava o lençol, com a mão livre, com o peso do corpo. Tremia todo, de raiva ou de frio. D. Lúcia teve medo, abrandou os olhos, deixou o lençol livre. Malveiros trouxe-lhe a mão, presa, até a beira da cama; empurrou-a para fora, para longe. Ela curvou-se ainda para a cama, tranquila a fala, os olhos resignados:

— Não quer, paciência. Mas ao menos é bom tomar alguma coisa quente. Por que não toma um caldo?

O olhar de Malveiros traspassava-a, desconfiado, ríspido. Cravou-se no dela; talvez lhe buscasse ler na alma, que não mente. Os olhos mentiam. D. Lúcia insistiu pelo caldo:

— Tome, que lhe faz bem. Nós vamos aprontá-lo, quer?

Nem esperou pela resposta. O que ela queria, era porventura ver-se fora dali. Tomou da vela, pôs-lhe a mão por diante, para abrandar a luz. Voltou-se para mana Adelaide:

— Não é, D. Adelaide? Vamos preparar um caldinho para ele...

Abriu a porta, saíram. Malveiros ficou só. Os passos de D. Lúcia iam-se calando, diminuindo. Ele ergueu-se na cama, não muito; pouco, com dificuldade. Apoiou-se às almofadas, aplicou o ouvido. Já nem se distinguiam os passos de D. Lúcia. Os olhos e o rosto iam-lhe tomando uma expressão de tranquilidade Não digo que se transfigurassem. A, mudança era lenta, como se ainda lhe sobrassem cuidados alerta. Aplicou mais o ouvido. Não vinha ninguém. Sentou-se na cama; as pernas caíram-lhe para fora do chambre, fluas, muito magras, sem cor. Dentro, na sala, havia um rumor de colheres.

Malveiros olhou em roda, voltou-se para a cabeceira, curvou-se um pouco, estendeu o braço. A mão dele mergulhou na almofada; foi lá ao fundo, voltou contraída e trêmula, menos trêmula do que contraída. Não afirmo o que trouxe, porque já se não conhecia bem. Eram papéis, num maço; oleosos, encorpados e úmidos. A alguns, mal se lhes distinguia um rosto de homem. Talvez nem fosse de homem. Números se que tinham, diversos, pequenos e grandes. Letras também; palavras até, em arabescos, em círculo, mais escuras num canto, mais claras noutro.

O rosto de Malveiros dilatava-se. Súbito, guardou o maço; aplicou o ouvido. Não vinha ninguém. Virou-o de novo, desenrolou-o, pô-lo sobre o joelho. Alisava os papéis; descolou-os depois, com vagar, com trabalho. Ia-os separando, um por um; não em silêncio, alguma coisa se lhe ouvia. Era como se cada papel daqueles lhe arrancasse um gemido. Gemidos ou palavras soltas. Talvez palavras; dir-se-ia que ele contava baixinho, a meia, voz. Talvez estivesse rezando. Mas o que era, acabou. Malveiros leve um suspiro de alívio, de desafogo. Teve-o e ficou sentado, olhando em roda, corno quem procura uma ideia.

Se é que a procurava, a ideia não veio; se é que veio, foi repelida. Os olhos dele iam tomando uma expressão de desânimo, de desespero, de dor. Fitava-os na cômoda, no soalho, no teto; passeava-os vagarosos, pelo chão. Por vezes, aplicava o ouvido. Não vinha ninguém. Ensaiou uns passos; vergavam-lhe as pernas. Meteu os papéis no seio; sentou-se, curvou a cabeça. Dentro, na sala, a voz de mana Adelaide ergueu-se, alta, surpresa:

— A senhora viu, D. Lúcia!

— Se eu vi?! Vi com estes que a terra há de comer...

Malveiros alçou a cabeça. Alguma coisa o reanimou, por certo. Prestou ouvidos; a voz de D. Lúcia calava-se, diminuía... Brilharam-lhe os olhos, lúcidos, vivos. Não eram os olhos de há pouco, feitos de desânimo, de agonia; eram olhos enérgicos, plenos de força, cheios de vontade. Levantou-se, trêmulo; firmou-se nas pernas, deu uns passos. Andava. Andou um pouco; os passos eram-lhe mais seguros. Foi até à porta... A porta estava aberta, cerrada apenas. Ele fechou-a a chave, com duas voltas. E veio direito à cama; parou, apoiado à cabeceira.

Olhava em roda. Dir-se-ia que lhe voltava a ideia de há pouco; se é que voltava, ficou; aceita, não repelida. Foi até a cômoda. Pisava melhor, mais firme. Parou, curvou-se, agarrou-a pelos cantos, de um lado. A cômoda era pesada, forte; ele puxou-a a custo. Puxou-a mais, arredou-a um pouco; arredou-a, moveu-a para fora. Passou para o outro lado, arrastou-a, moveu-a daí. O esforço cansava-o; suava de um suor frio. E arrastava a cômoda. Deu-lhe uma volta, pô-la ao longo do soalho; empurrou-a mais, levou-a até a porta, pô-la por trás dela, bem junto. Deixou-a ficar aí, tapando a entrada e voltou.

Agora não hesitava mais; andava como quem tem uma ideia fixa. Foi à cama, arrancou-lhe as almofadas, tirou as cobertas, as colchas. Dobrou o colchão, foi pô-lo sobre a cômoda. Agia rápido com delírio, com febre. Tirou as tábuas, foi encostá-las à porta. Voltou, curvou-se junto à cama; correu-lhe os dedos, trêmulos, rápidos, pela cabeceira. Buscava alguma coisa; achou um ferro, tirou-o. A cama dobrou-se, aberta. Abriu-a do outro lado, fê-la bater no chão, arrastou-a até à porta; deixou-a aí, de pé, ao lado da cômoda, de encontro às tábuas, apoiada ao colchão. Por cima de tudo, as colchas, as almofadas, os lençóis.

Voltava, mas parou em caminho. A vontade dele pretendia por certo ir mais longe; as pernas não foram, dobraram-se-lhe, desfalecidas, quase mortas. Caiu de bruços. A vista ia-lhe ficando trêmula, escura; ergueu-se nos braços, pôs-se de joelhos. Talvez se levantasse; não pôde. Arrastou-se, foi de rastros até o lavatório, pequeno, de ferro; agarrou-o por um pé, trouxe-o assim, arrastado, até a porta. Batiam-lhe os dentes; tinha as mãos geladas, gelados os pés. Um frio de morte, hórrido e lúgubre, apossava-se-lhe do corpo, subia-lhe à cabeça. Arrastou-se mais, aos poucos, para o meio do quarto; mirou a barricada, viu-a pequena e fraca; olhou em roda, à procura, pelas paredes nuas, pelo quarto vazio. Os olhos vagavam-lhe à toa; correram-lhe duas lágrimas. E foi através delas que ele lobrigou alguma coisa luzindo, num canto.

Os olhos trêmulos, a vista escura, não lhe reconheceram aquela escarradeira pequenina, de metal branco; o que ele via ia crescendo, crescendo...

Devia ser de prata, pesada e forte. Malveiros tentou mover um braço. Não pôde; o braço pendia-lhe gelado, morto. Moveu o outro, arrastou-se mais, para perto. O que era crescia, crescia... Ele já não via bem; ia-se-lhe cerrando um véu pelos olhos. Estendeu o braço livre, procurou, não via nada. Os pés inteiriçaram-se-lhe. O olhar dele mergulhou numa noite profunda e espessa. Ficou de bruços, imóvel. Vinha rompendo o dia. O sol entrou, do alto, pelas janelas; bateu sobre Malveiros, banhou-lhe o rosto amarelo, os olhos vidrados; estendeu-se, alagou todo o quarto de ouro fluido. Lá dentro a voz de D. Lúcia falava, conselheira e amiga:

— Deixe ficar o caldo; já não lhe pode fazer bem. O que a senhora precisa, é arrecadar tudo, logo que ele morra. As vezes aparecem parentes de fora...

Casa de adultério (Conto), de Pedro Rebelo


Casa de adultério

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Trinta anos há que isto foi... E daí, há talvez trinta e cinco ou quarenta. A casa era na rua do Núncio, mais para a dos Ciganos do que para a do Visconde do Rio Branco. Por aquele tempo ainda esta não era do Visconde do Rio Branco. Era mais fidalga e mais simples; — do Conde, sem mais nada. A nova denominação veio depois, com o Ventre Livre, com as festas de 71. Já por aí se vê que foi há mais de trinta anos. Mas não importa; a casa era na rua do Núncio.

Agora, de onde seria quem a habitava? De São Paulo, diziam; mas também se dizia que era do Rio Grande. Outros asseguravam que era de Santa Catarina, até pelos modos, quanto mais pelos olhos pretos e pelo moreno do rosto. Seria ou não. Havia divergências em toda a rua do Núncio, na própria rua do Conde. Uma noite, no vizinho do lado, paredes meias, brigou-se por causa de d. Senhorinha Duarte. Foi na casa das Machado, velhas ambas, solteiras as duas. Mana Melinha teimava que a moça era de Porto Alegre.

— Qual Porto Alegre! Aquilo é paulista; é cara da Aparecida...

Mana Júlia conhecia o Paulo. Teimaram; acabaram por não se falar mais. A história não cogita de coisas mínimas; se cogitasse, haveria de mencionar que, para as Machado, nunca mais lhes chegou o momento da reconciliação.

De onde era d. Senhorinha Duarte? Da travessa das Partilhas. Nasceu lá, por uma tempestuosa noite de março. Restos de verão; últimas trovoadas secas... O pai assustou-se muito, não naquele dia; o susto veio-lhe duas semanas antes. Culpa da folhinha de Ayer. Lá estava o aviso, muito miudinho, nestas quatro palavras, ainda mais ameaçadoras do que miúdas:

Fortes trovoadas ao Sul

A semana passou sem trovoadas, só com o susto. Veio outra; Ayer já não cogitava de relâmpagos, nem de trovões. Que muito é que também o pai de d. Senhorinha não cogitasse deles? E passavam os dias. Mas, numa bela noite, lá aparecem os relâmpagos. A trovoada vinha, estrondeante, atordoadora. D. Senhorinha veio com ela, muito pequenina, envolta nuns tênues panos bordados.

O pai de d. Senhorinha ainda o não fora de ninguém mais. Tomou-a nos braços, beijou-a na boca, nos olhos, na testa... Beijou-a muito, ao acaso. Tinha os olhos úmidos, não dizia nada. Olhava para a filha, beijava-a, tornava a mirá-la outra vez.

— Está bom, agora deixe ela dormir... Olhe, faça favor de mandar-me dar a alfazema.

— Ah! sim... A alfazema.

E repetia “A alfazema, a alfazema”. Só. “A alfazema, a alfazema”. Deu uns passos, deixou-se cair no sofá. O dia ia clareando. A comadre esperava pela alfazema. Esperava; não vinha coisa nenhuma. E foi buscá-la ela mesma. O pai de D. Senhorinha ficou sozinho, a dormir.

Eis aí como, por uma tempestuosa noite de março, veio ao mundo a bela rio-grandense da travessa das Partilhas. Cresceu, esteve no colégio, teve namorados e casou. Há aí um episódio de viagem, não em solteira, mas depois de casada. Viagem a Pelotas... Porque, no fundo, uma das Machado não deixava de ter a sua pontinha de razão. D. Senhorinha esteve em Pelotas. O marido era conferente da mesa de rendas; ou por outra, foi conferente mais tarde, depois das núpcias, talvez dois anos depois. Antes era escriturário, 29 ou 39. E d. Senhorinha veio de Pelotas para a rua do Núncio.

Chegaram cedo; as Machado já estavam à janela, cumprimentaram sorrindo, muito amáveis; e ficaram a ver entrar a mobília. Tão disparatada, tão velha! Já lhes parecia que devia ter sido comprada em leilão.

Talvez, d. Senhorinha teve saudade de Pelotas; mas, se as teve, deveu-as ao marido. A princípio, Duarte era um marido modelo; ia de casa para a alfândega — estava adido à alfândega — e saía da alfândega para casa. Mas numa certa, frígida tarde não veio; veio à noite, às sete horas. Tinha ficado com o ministro; negócios urgentes, relatório, o diabo! Era uma quarta-feira; no sábado foi pior. Ficou toda a noite na rua. O ministro era incansável, parecia de ferro. Que se lhe havia de fazer? D. Senhorinha chorou, mas não disse nada. Duarte viera às seis horas da manhã, com o dia claro. E o relatório continuou.

O relatório morava na rua do Hospício. Tinha cabelos castanhos, meio louros; pescoço comprido, emergindo de rendas largas e caras. Duarte viu-o uma vez, de volta da repartição. Sorriu; o relatório sorria também. Coitado! Sorrira já tantas vezes, para tantos conferentes adidos... Mas Duarte chegou há meses de Pelotas. O relatório sorria; ele foi até o canto da rua da Vala, voltou, fez um sinal... No dia seguinte mandava lá um moleque; três dias mais tarde ele e o ministro começavam a trabalhar juntos, pela noite adiante. O país ia ver o que era um relatório de fazenda!

Parece que ainda se não falou aqui do dr. J. Mendes. Tem vinte e sete anos e foi promotor no Rio Grande do Sul. Conheceu lá o Duarte, prestou-lhe obséquios; chegou há pouco, com licença, e frequenta a casa de d. Senhorinha. É, porventura, um dos que lhe dizem com os olhos o que a ela já lhe não é dado ouvir. J. Mendes descobriu o caso do relatório. Não porque visse, mas porque lhe disseram. Aliás, não precisava de que lhe dissessem coisa nenhuma. D. Senhorinha tem agora um par de olheiras que contam tudo o que o marido anda fazendo; e fala com uns ares de mártir dolorosa. Na véspera ainda, Duarte teve de organizar umas tabelas. Serviço delicado, coisa de muita confiança. E nem jantou em casa, nem voltou senão no dia seguinte. Esqueceu-se de que tinha convidado J. Mendes para jantar. J. Mendes é que não esqueceu o convite, e foi. Bateu à porta, meio trêmulo, meio receoso.

— O patrão ainda não veio, mas a senhora está...

— É o doutor... Entre!

D. Senhorinha sorria, ao alto da escada; ela própria vinha abrir. Mais bonita, num amplo vestido de cassa. As olheiras estavam talvez majores; muito pouco, mas estavam. O rosto é que já não tinha nada de mártir, nem a fala. J. Mendes estranhou a mudança; mas não se despediu, não procurou nenhum pretexto para se ir embora. Subiu, muito trêmulo, muito receoso. D. Senhorinha recuou um pouco, para deixá-lo passar. A alma dela devia estar tramando alguma coisa. Foram para a sala. A criada seguia adiante; abriu as janelas, ficou a endireitar umas jarras...

Vá dizer lá dentro que não demorem muito o jantar... Olhe, veja se falta alguma coisa. Seu amo talvez jante fora.

A criada ia embora, mas não foi. Sacudiu umas flores, apanhou uns jornais caídos. Saiu enfim. O Duarte não jantava em casa; J. Mendes achou que se devia admirar.

— Janta fora, o Duarte!?

— Janta, ou não janta. Quem sabe lá o que ele pretende fazer? A mim, disse-me que jantava em casa; mas também o disse ontem...

— E não veio.

— Não veio; veio hoje... Mas quem lhe disse que ele não veio ontem?

— Ninguém... Eu não precisava de que ninguém me dissesse; eu sei...

— Sabe o quê?

— Sei que a senhora... A senhora agora não é muito feliz.

— Não sou? Por que não? O Duarte...

— O Duarte, d. Senhorinha... Escute; a senhora sabe que eu sou muito seu camarada, não é?

— É; o senhor é muito camarada de nossa família.

— Principalmente... da senhora.

— Meu, por quê? Pois não é tão meu camarada como de meu marido?

J. Mendes não respondeu logo. Parece mesmo que a resposta, já a entenderam os olhos de d. Senhorinha. Aquela pergunta veio, talvez, em busca de umas palavras que ela espera desde que o fez entrar. Mas, se J. Mendes não respondeu, ao menos chegou-se mais para ela. Fitou-a bem em face. D. Senhorinha baixou os olhos, corou; ficou assim, contando as tábuas do assoalho.

— A senhora sabe que eu sou mais seu camarada do que dele.

— Não sei nada.

— Sabe, d. Senhorinha.

— Sei por quê?

J. Mendes abaixou a voz; cerrava os lábios, as palavras saíam-lhe através do bigode, ainda perfumadas de brilhantina:

— Lembra-se de quando estava em Pelotas? Me perdoe; eu prometi não falar enquanto ele fosse bom para a senhora. Mas agora não é. Lembra-se do que lhe disse em Pelotas? Nem sabe o que tenho sofrido por sua causa, Senhorinha... Não viu que deixei tudo lá, família, lugar, interesses, tudo? Vim só para poder estar aqui, falando com você, ouvindo o que você diz. Para que há de ficar no Rio, maltratada, esquecida por uma sujeita à-toa? Pensa que o Duarte ainda lhe estima? Há de ver o que ele faz. Olhe, eu tenho um dinheiro junto; vamos viver no rio da Prata. Quer ir, Senhorinha? É a sua felicidade que eu lhe estou oferecendo.

D. Senhorinha ouvia em silêncio; ou não ouvia. Ficara muito séria, cabeça baixa, olhos fitos no assoalho. Talvez nem sentiu que J. Mendes lhe enlaçava a cintura, nem o viu todo curvado para ela. Mas, de súbito, estremeceu; J. Mendes apertava-a nos braços. E os ouvidos de d. Senhorinha ouviram estas doces palavras melífluas:

— Meu bem, meu amor!

D. Senhorinha levantou a cabeça; olhou-o. J. Mendes repetia a frase, e abanava a cabeça. O cabelo dele brilhava; tinha-o aberto em duas pastas, encaracolado, lustroso de óleo:

— Meu bem, meu amor!

Os olhos, as narinas, a boca de J. Mendes, tudo se abria, melífluo e doce. Não sei que coisa passou pela alma de d. Senhorinha. Foram náuseas, se é que a alma tem náuseas. Pelos olhos sei que lhe passou num relâmpago; talvez o mesmo que ela viu ao nascer, na travessa das Partilhas. Deixou J. Mendes de joelhos no tapete; mal o mandou em hora. “Vá embora, me deixe!” E correu para o quarto. Chorou; chorou muito. Não jantou nem dormiu. Duarte, ao voltar no dia seguinte, ainda a encontrou chorando. Perguntou o que era; não sabiam. Talvez doença.

— É possível, é... O Justino que vá chamar um médico.

E ia saindo, mas parou à porta:

— Olhem, hoje não me esperem para jantar.