quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Surpresas (Conto), de Medeiros e Albuquerque


Surpresas...

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O trem da 1 hora da tarde parou na pequena estação do lugarejo e dele desceu o único passageiro. Era Raul.

Como não tivesse prevenido ninguém, ninguém o esperava. Sabia, porém, haver perto da estação um sujeito alugador de cavalos e foi em sua procura.

O sujeito o conhecia. Admirou-se de vê-lo. Mostrou-se, entretanto, com isso muito alegre.

— Ao senhor eu não alugo nada. Escolha qualquer cavalo e leve-o. Depois mandarei à fazenda buscá-lo ou o senhor manda trazê-lo.

E falara um pouco da morte do pai de Raul, o Dr. Edmundo, que sucumbira menos de um mês antes e era o proprietário da maior fazenda dos arredores.

O homem admirava-se de ninguém ter vindo esperar o Dr. Raul. Mas este lhe explicou desejar fazer uma surpresa a sua mãe e não a ter por isso prevenido de sua chegada. Todos a ignoravam.

Aceitou o cavalo emprestado e seguiu.

O pai de Raul tinha sido um grande engenheiro. Quando, muito moço, quis casar-se, a família da noiva opôs-se. Claramente o pai dela lhe deu a entender considerá-lo um caçador de herdeiras ricas. Porque Irene, a moça por ele desejada para esposa, teria quando o pai morresse, trezentos ou quatrocentos contos.

Edmundo, ao perceber o motivo da oposição, especificou bem claramente só casaria com separação de bens e administração distinta. Disse mesmo ao futuro sogro que aconselhasse a filha, indicando quem ela devia consultar sobre essa administração, porque em hipótese alguma ele interviria nisso, mesmo com a mais simples opinião.

E foi assim que afinal se fez o casamento.

Nesse tempo, Edmundo era um engenheirinho de valor muito secundário. Ganhava pouco. Mas atirou-se ao trabalho com um ardor febril e rapidamente foi subindo de cotação, empreitando obras cada vez maiores até fazer uma fortuna colossal.

O sogro morreu. A mulher herdou perto de quatrocentos contos. Várias vezes tentou consultá-lo sobre o emprego desse dinheiro. Mas ele se recusava sempre formalmente.

Beijava-a, abraçava-a, mas respondia-lhe haver tomado o compromisso de não intervir jamais na administração dos bens dela. O pai não lhe havia indicado a quem recorrer para isso? Ela confirmava o fato. E Edmundo concluía:

— Eu ignoro e quero ignorar quanto você possui. O essencial é você em hipótese alguma precisar recorrer aos seus bens para satisfazer suas necessidades e até os seus caprichos.

E, de fato, ele lhe satisfazia mesmo os desejos de mais despropositado luxo.

Alguns anos depois do sogro morrer, ele veio a saber ter a mulher dissipado tudo. Ao dado por ele, ela juntava o excesso de joias caras. O que não gastou nisso, perdera em transações infelizes, indicadas pelo conselheiro a quem o pai lhe dissera recorresse, na administração de seus bens.

Tinham tido um filho, o Raul. O pai encaminhou-o para o estudo de engenharia, e o moço fez um curso brilhante.

Infelizmente, quando o terminou, o pai estava paraplégico.

Viviam então na Capital. Habitavam grande casa no centro de um admirável jardim. O edifício tinha à altura do primeiro andar uma larga varanda. De manhã, os criados ajudavam o velho engenheiro a sentar-se na espreguiçadeira em que passava os dias, lendo e cismando.

A vida da mulher se transformara muito. Pouco parava em casa. Quando parava, grande parte do tempo consumia-a ao telefone.

Edmundo, quando o filho terminou o curso, quis que ele fosse fazer um estágio de doía anos nos Estados-Unidos. Parecia-lhe que esse era um remate necessário para qualquer curso de engenharia.

Raul partiu, triste. Ele sentira nos últimos tempos uma mudança evidente no caráter do pai. Lembrava-se mesmo que certa ocasião, quando o criado anunciou a visita do comandante Gabriel à mulher e que este partira, sem entrar, porque ela não estava, o velho agitara frenético, num gesto de furor e de ameaça impotente, o braço direito.

Não vira o filho que entrara pela parte da varanda a que voltava as costas. Raul ainda o encontrara com o punho cerrado e o rosto verdadeiramente demudado de furor.

— Que é isso, papai?

O velho não respondeu. Raul perguntou em vão a si mesmo o que poderia querer dizer aquele acesso de cólera paterna. Que lhe fizera o visitante?

Depois, forçado pelo pai, partira para os Estados Unidos. Em Chicago, quatro meses após haver chegado, encontrara o lacônico telegrama da mãe anunciando a morte do marido e pedindo-lhe que ou viesse ou mandasse procuração para que ela o representasse. Ele respondeu que voltaria o mais depressa possível.

E voltou imediatamente. Não quis, porém, prevenir ninguém. Para quê! Causaria à mãe uma surpresa agradável.

Chegado num dia e sabendo que a mãe fora para a fazenda, para lá partira no seguinte...

Ignorava absolutamente o estado dos negócios do pai e da mãe. Pois que o pai morrera, a esta contava dedicar-se e, embora na amargura de não mais ver o seu maior amigo, tinha um certo prazer na consolação de achar-se de novo perto da mãe. É bem verdade que ultimamente não era tão carinhosa como outrora; mas não tinha dela queixa alguma. Estava ainda forte e formosa, e ele quereria ter o orgulho de trabalhar a seu lado, levando-a por toda parte, mostrando-a perto dele.

Seguiu para a fazenda. Fazia um sol abrasador Sebes de espinheiros ladeavam o caminho. Os arbustos estavam desfolhados, secos. Secos, mirrados, queimados pelo sol estavam os capinzais. Longe via-se um morro, despido de vegetação. Parecia que alguém o raspara cuidadosamente: era um bloco de granito. No calor formidável daquela hora canicular, a tremulina das partículas de pó fazia parecer que se via o ar vibrando. A cada passo que o cavalo dava, levantava nuvens de poeira.

No caminho ele encontrou um preto, bem encostado a uma sebe de espinheiro, dormindo, de papo para o ar, meio descomposto. Devia estar embriagado. Corria-lhe um fio de baba da boca entreaberta. Moscas pousavam nele. Era nojento...

Quando Raul se aproximou da cancela da fazenda, cães avançaram, mas reconhecendo-o começaram a saltar, festejando-o.

Amarrou o cavalo a um tronco de árvore e entrou em casa. Esta era um sobrado de um andar. Em baixo, havia a sala de visitas e a de jantar, enormes, a cozinha e acomodações para criados. No primeiro andar, estava o quarto dos pais, o dele e o destinado aos hóspedes.

Uma criada, precisamente a criada que costumava servir a mãe, reconheceu-o e teve uma expressão de terror.

Raul gracejou:

— Ó rapariga, eu não sou uma alma do outro mundo! Onde está mamãe?

A criada indicou que estava no primeiro andar e ia precipitar-se para preveni-la, quando Raul a segurou vigorosamente e obrigou-a a retroceder.

— Fica quieta! Eu sei o caminho. E subiu. Subiu, devagarinho.

A casa parecia morta e desabitada. Ele viu que a porta do quarto da mãe estava apenas encostada, a do quarto dos hóspedes aberta. Espiou primeiro para este e viu que se achava vazio. Alguém, entretanto, ocupara o leito, porque ainda estava desarrumado.

Quem podia ter sido?

Abriu então, devagarinho, a porta do quarto da mãe. Gozava de antemão a deliciosa surpresa, que ia fazer-lhe. Àquela hora, segundo o costume, devia ela estar dormindo a sesta. Acordá-la-ia com um beijo. Quantas vezes o tinha feito!

No momento, porém, em que a porta semiaberta lhe permitiu ver o largo leito dos pais, gelou-o um assombro. A mãe dormia. Mas ao lado dela, dormindo também, havia um homem, cujo braço estava passado por baixo do pescoço dela. Era o comandante Gabriel.

O seu primeiro Ímpeto foi sacar do revólver, que tinha no bolso, e liquidar os dois. Uma nuvem de sangue passou-lhe diante dos olhos Mas a reação veio logo. Que direito tinha ele, agora, de impedir os amores da mãe? Lembrou-se, é certo, do gesto de furor do pai, gesto por ele surpreendido. O caso vinha, portanto, de traz. Mas si, estando o pai vivo, teria talvez o direito de ir até o assassinato de quem lhe manchava o lar, agora, não. A mãe era livre.

E foi recuando, descendo devagarinho a escada.

Na véspera, nas poucas horas que estivera na cidade, soubera que o testamento paterno o constituía herdeiro universal.

O sogro do velho engenheiro morto tinha querido o casamento da filha com separação de bens, para protegê-la. A medida se voltava agora contra ela. O marido, com pleno direito de fazê-lo, a deserdara completamente.

Raul, ao saber disso, se admirara. Pareceu-lhe que o pai deixara o caso a seu cuidado e não teve dúvida alguma em que repartiria com a mãe, meio a meio, toda a grande fortuna que ia receber.

Mas, agora, diante do que vira, recordando o gesto de furor impotente do pai, não tinha dúvida que, antes de morrer, este já sabia o que se passava. E bem provavelmente isso devia ter apressado a sua morte.

Resolveu que aceitaria a herança tal qual — e faria doação da metade a algum estabelecimento pio. Responderia assim aos que atribuíssem o seu procedimento à avidez.

Quando chegou ao sopé da escada, segurou pelo punho colericamente a criada da mãe, ordenando-lhe que o seguisse. Tomou então um cartão de visita, escreveu num canto "a despedir-se" e recomendou à rapariga que o entregasse à mãe; mas só quando ela acordasse. Não fosse acordá-la para isso. Era uma coisa sem importância.

Minutos depois o seu cavalo voltava a galope. Pôde apanhar o trem que passava naquele instante e dois dias após voltava para Nova-York. Quando a mãe lhe escrevia, ele lhe devolvia as cartas, com a declaração: "O destinatário recusou-se a abrir". Mais nada.

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