quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Vê-la e amá-la (Conto), de Medeiros e Albuquerque


Vê-la e amá-la

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Às 8 horas da manhã as empregadas estavam chegando ao escritório de Carvalho, Bentes & Cia. Limitada. Era todo o quarto andar de um arranha-céu bem vasto. Chegavam e iam para a sala de toilette.

Bentes, o diretor de todo o serviço, era um velho rabugento. Bom e generoso, mas de forte misoginismo. O pessoal feminino da casa estava sujeito a regulamento muito apertado e cheio de extravagâncias.

Apertado, porque o velho não transigia no capítulo da pontualidade.

Devia ser estrita, matemática:

— Quem quiser pôde chegar um mês antes, um mês ou um século, mas não pôde chegar um minuto depois — explicava o velho Bentes.

No escritório não trabalhavam homens. Cada empregada, ao entrar, devia enfiar um overall de brim pardo e pôr um bonezinho, igual para todas. E quem viesse pintada devia lavar o rosto. O velho rabujava:

— O Carnaval tem tempo certo. Não quero aqui gente pintada. Quando tiverem de sair, pintem-se à vontade, já que a polícia admite gente mascarada fora da época. Aqui dentro, não há disso.

As moças desesperavam-se. Era monacal. Diziam mesmo: "Vamos para o convento!" Mas, bem vistas as coisas, valia apena fazer parte do pessoal do escritório de Carvalho, Bentes & Cia. Limitada. O ordenado era bom, pago pontualmente, e, se alguma caía doente, o médico da firma ia vê-la. Não se lhe descontava nada e o velho mandava dar os medicamentos.

Além do chefe, o único homem que trabalhava no estabelecimento era o filho dele, o Alfredo, belo rapagão de 30 anos, atleticamente forte. Juntava a isso ser muito bonito. As moças chamavam-lhe assim de longe — porque nem ele dava, nem tomava confiança com nenhuma.

De veras, mesmo a única com quem falava era Margarida, a secretária do pai. Ela trabalhava na sala deste, contígua à do filho.

Margarida era bonita. Mas não se dava por isso, sob a indumentária forçada da casa. Com aquele uniforme, a Vênus de Milo, a Gioconda, qualquer outra beleza célebre — todas ficariam mediocrizadas, enfeadas, grotescas.

Quando Margarida entrou para o escritório de Carvalho, Bentes & Cia., o pessoal feminino a recebeu com verdadeira hostilidade. Começava pelo posto mais alto, por todas cobiçado. Fora, porém, recomendada pelo outro sócio da casa, o maior capitalista da sociedade. Apelidavam-no por gracejo "o Companhia", porque a ele se referia aquela designação da firma. Dissera "o Companhia" ao Bentes:

— Você experimente a rapariga como secretária, por dois ou três meses. Se não prestar, dê-lhe outro serviço.

Mas prestou. Prestou admiravelmente. Apreendia tudo, à primeira vista. Acabou mesmo conquistando a simpatia de todas as colegas, para cada uma das quais tinha uma frase de agrado, uma amabilidade. Redigia muito bem. Era uma datilografa perfeita.

Às vezes, quando o velho Bentes chegava, já Margarida tinha aberto a correspondência, segundo a autorização dada por ele e preparado respostas a todas as cartas. Algumas destas só podiam ter uma solução: ela a tinha dado. Outras, porém, eram casos duvidosos. Margarida fazia várias respostas, uma afirmando, outra negando e uma terceira propondo condições especiais.

Ao velho Bentes bastava apenas escolher a solução preferida e assinar. Por isso dizia:

— Antes desta moça vir para aqui, eu levava três ou quatro horas para fazer meu serviço. Agora, faço-o em meia hora.

E o elogio não era excessivo.

O velho punha grande empenho em fazer ler tudo ao filho, para ele estar a par de todos os negócios da casa.

Margarida tinha uma amiga muito rica: Maria Teresa. Amizade de colégio, íntima e profunda, prolongada pela vida a fora, com toda a sinceridade. Alguns meses antes de entrar para o escritório onde estava, ela fora visitar essa ex-colega e tivera a surpresa de achá-la doente. Encontrou precisamente à porta, despedindo-se, o médico — o velho médico da casa — dizendo a D. Rita, por todos chamada "a viúva Santos Brandão", mãe da sua amiga:

— Não se pôde esconder: o caso é gravíssimo, mas não de todo desesperador: depende, sobretudo, de muito cuidado. Eu vou mandar-lhe uma excelente enfermeira.

Margarida não sabia de nada. Apesar disse, colhida assim de surpresa, ao ouvir as últimas palavras do facultativo, não teve um momento de hesitação. Segurou-o pelo braço embora não o conhecesse e ali mesmo declarou:

 — O Dr. não vai mandar ninguém: a enfermeira sou eu. Não saio daqui, enquanto Teresinha não estiver boa.

D. Rita e o médico insistiram, para Margarida desistir desse propósito; mas ela não cedeu:

— D. Rita, ou a senhora me manda pôr fora, à força, por seus criados ou eu não consinto mais ninguém se ocupe com Teresinha.

E durante quinze dias foi enfermeira, foi criada, foi tudo da amiga. Foi principalmente uma dedicação incomparável e ilimitada.

A doente se levantou e certa vez, estava agradecendo ao médico tê-la posto boa. Este lhe respondeu, apontando para Margarida:

— Você deve tudo é a esta moça. Sem ela todas as Drogas da minha medicina não valeriam nada. E falta acrescentar: sua amiga pôde gabar-se de ter curado a mais insuportável das doentes.

Quando o médico saiu, Teresinha disse à amiga:

— Eu não sei si este homenzinho imaginou estar fazendo modéstia; mas ele não disse senão a verdade: tu foste a minha salvação.

E, ainda uma vez agradecida, beijou Margarida, impedindo os seus protestos.

Depois disso mais de um ano passara.

Um belo dia, Margarida recebeu um pedido telefônico de Maria Teresa para ir vê-la, quando saísse do emprego.

Esperava-a a maior das surpresas. A amiga tinha uma assinatura de teatro para uma temporada de opera. Assinatura de camarote. Mas a mãe não se sentia bem. Não podia acompanhá-la.

— Você vai comigo.

— Mas é impossível. Eu não tenho vestidos para isso.

Maria Teresa lhe explicou o caso. Não indo a mãe, ela podia convidar alguma das numerosas primas: era, disse, gênero abundantíssimo provido na família. Nenhuma, porém, lhe agradava. E se convidasse qualquer, criaria logo grave conflito doméstico: as outras se queixariam. Decidiu, portanto, ir com Margarida.

Havia o problema dos vestidos. Mas esse era o mais fácil de resolver porque Maria Teresa podia emprestar ou dar todos quantos Margarida quisesse. Tinham exatamente o mesmo corpo. O caso serviria a Teresinha de pretexto para fazer à amiga muitos presentes desse gênero. Em nada teria maior prazer. Sabia ser agradecida.

Aceito o convite, começou para Margarida um período delicioso. Ao sair do escritório, ia para a casa da amiga fazer-se pentear, vestir-se a capricho, transformar-se, ou como ela dizia: "ser promovida a gente" Quem a visse à noite, bem vestida, bem penteada, com um soberbo colo à mostra, não reconheceria decerto a empregadinha de overall de brim pardo, com uma coifinha ridícula, os lábios e as faces pálidas. Era uma transformação completa.

Ademais qualquer dos vestidos arvorados por Margarida valia, decerto, mais de um mês de vencimentos de secretária do velho Bentes. Isso aumentava ainda a dificuldade para qualquer pessoa identificá-la com a espectadora do teatro.

De como a transformação merecia bem o qualificativo de completa houve entre outras provas a fornecida por um amigo do Bentinho. Rapaz rico. O pai fingia ocupá-lo em qualquer coisa, mas de fato, ele só se ocupava em divertir-se. Esse rapaz, o Guilherme Loureiro, costumava ir buscar o Bentinho à hora do almoço. Tomavam-no sempre juntos, em um hotel.

Quando Margarida surgiu à primeira vez no camarote, ao lado da amiga, o Loureiro, da plateia, onde estava, assestou o binóculo para ela e pareceu cair em êxtases. Tê-la-ia reconhecido? De modo algum. Mirava-a e remirava-a infatigavelmente.

No dia seguinte, ele entrou no gabinete do Bentinho quando Margarida aí estava. A moça tremeu: dir-lhe-ia ele qualquer coisa? Não disse. Era positivo não suspeitar nada.

E foi assim em outros dias.

Em um deles, porém, quando entrou, viu-se interpelado pelo Bentinho, gracejando:

— E então como vai a paixonite aguda?

— Ou eu descubro quem é aquela pequena ou dou um tiro nos miolos.

— Isso é impossível.

— Por quê? perguntou o rapaz, formalizado.

Você não me acha com coragem para fazer saltar os miolos?

— Coragem talvez você tenha; faltam-lhe, porém, os miolos. Não salta nada.

— Em última análise, abro a porta do camarote da viúva Santos Brandão e pergunto à pequena se quer casar comigo. À queima-roupa. Ou vai ou racha!

— E se ela aceitar a proposta?

— Eu caso.

— Pobre moça! comentou rindo o Bentinho. Não a conheço, mas lastimo-a! Triste sorte a espera!

Margarida estava quase a rebentar de riso, traindo-se. Saiu um pouco da sala, combinou qualquer coisa com o criado do gabinete e voltou para o seu lugar. Obedecendo à ordem recebida, o criado entrou e anunciou em voz alta, falando à moça:

— Da casa da viúva Santos Brandão mandam dizer que a senhora, podendo, telefone para lá.

O Loureiro deu um pulo:

— A senhora conhece a viúva Santos Brandão?! Como não dizia?

— Eu não tenho o costume de intrometer-me nas conversas alheias.

— Mas este é um caso de assistência pública, um caso a demandar socorro imediato.

 E a gracejar, aproximando-se dela:

— Moça perversa, moça malvada, sabe quem é a pessoa de quem eu estava falando?

— Julgo já a ter visto algumas vezes, mas não tive a curiosidade de indagar quem era, mesmo porque não a achei assim tão bonita.

O senhor devia mudar de binóculo: talvez o seu tenha algum defeito.

Intimamente, o Loureiro viu naquela afirmação um simples exemplo de inveja e despeito femininos. Perguntou, porém, a Margarida se podia fazer alguma coisa para bem informá-lo. A moça meditou um pouco e fez-lhe estranha proposta:

— Hoje é dia de espetáculo. Vá. Entre o primeiro e segundo ato, arranje-se de modo a ficar parado no corredor. Pôde ser mesmo encostado à parede, mas diante do camarote de minha amiga. Bem defronte da porta.

— E depois?

— Depois? Não lhe digo mais nada. Ver e amar a desconhecida, de longe, a binóculo, foi obra de um instante, mas vê-la, falar-lhe de perto, bem de pertinho e desamá-la — vai ser obra de outro instante.

O Bentinho tendo ouvido a combinação, perguntou se podia ir também. Margarida não só consentiu, como animou: não faltasse.

Os dois saíram, juntos, como de costume, conversando. Nenhum previa qual seria o plano de Margarida. Mas falando dela, o Bentinho disse ao amigo quanto era hábil e inteligente:

— Meu pai lhe faz os maiores elogios.

— E se teu pai os faz, ela deve merecer o dobro ou o triplo: ele não é precisamente amável com o pessoal feminino.

À noite os dois não faltaram.

Margarida tudo contou à amiga. Esta ficou satisfeitíssima. Precisamente, acabava de receber um vestido esplêndido. Era um mimo de luxo e beleza. Maria Teresa fez questão que Margarida o estreasse. Em vão, esta protestou; teve de ceder. Penteada a esmero, calçada a primor, com uma pintura discreta, mas por isso mesmo mais realçadora ainda da sua beleza, Margarida radiava, deslumbrava.

Teresinha pôs todo o cuidado em não haver nenhum defeito no trajo da amiga. Quando esta assomou ao camarote, foi como quando se põe uma barra de imã perto de um maço de agulhas.

As agulhas eram os binóculos: todos se voltaram automática e irresistivelmente para a moça. Entre eles não faltaram os do Loureiro e do Bentinho.

Quando o ato acabou, Margarida deixou passar alguns minutos, deu tempo à plateia esvaziar-se e abriu a porta do camarote. Defronte dela, conversando, mas disfarçadamente atentos, estavam o Bentinho e o Loureiro.

Margarida adiantou-se sorrindo para os dois e lhes disse, estendendo a mão ao Loureiro:

— Está vendo como se dissipa uma ilusão! Mas o Loureiro parecia assombrado, abobalhado, perdida a fala. Um médico daria como diagnóstico ao seu caso: estado de choque. Ele ainda não reconhecera de todo a moça. Com os olhos arregalados, em uma expressão de espanto, lutava entre a evocação da empregada de overall de brim pardo e a formosa criatura que ali tinha radiante de beleza e graça, perante seus olhos.

Margarida o acordou:

— Está custando a reconhecer-me? Sou eu mesma, a Margarida com quem esteve a conversar esta manhã no escritório do Sr. Bentes. Nunca houve outra pessoa no camarote de minha amiga.

Loureiro continuava sem saber como procedesse. Margarida o levou a aproximar-se da amiga, apresentou-os e fê-lo entrar no camarote. O rapaz foi recuperando pouco a pouco o sangue frio. Lembrava-se agora, além do mais, de quanto o Bentinho lhe dissera sobro as altas qualidades da moça. Via que à inteligência, juntava a beleza e o espírito.

Em dado momento, Margarida voltou-se gracejando:

— Não tenha receio: não tenciono cobrar-lhe a declaração explosiva desta manhã. Ia fazê-la, não propriamente a mim, mas a um fantasma, criado por sua imaginação. Já deve estar curado. E não se esqueça de jogar fora o seu binóculo: com toda certeza o defeito a dele.

Loureiro, fascinado cada vez mais com o adorável sorriso da moça, interrompeu-a:

— Mas a senhora está dizendo coisas inexatas. Não estou nem quero ficar curado. Já ouviu esta manhã a minha declaração. Sabe como ela é — e isso me dispensa de repeti-la. Responda, porém, como se a estivesse acabando de ouvir. Diga "sim".

Margarida ficou vermelha como uma papoula. Exclamou assombrada:

— Oh! Não brinque.

— Não estou brincando. É tudo quanto há de mais sério.

Mas a moça recusou-se a dar a resposta ali mesmo, como queria o Loureiro. Ela tinha mais juízo.

No dia seguinte, o velho Bentes, ao sair à hora do almoço, encontrou o rapaz no gabinete do filho. Era um encontro frequente. Margarida também estava. O velho precipitou as coisas sem querer, porque julgava tudo resolvido. Como o filho lhe houvesse contado a cena da noite anterior, ele disse a Margarida, ao passar, sorrindo:

— Ainda não me convidou, mas eu mesmo me convido: o seu padrinho de casamento serei eu.

E foi.

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