10/25/2017

A pesca do Deodato (Conto), de Marques de Carvalho


A pesca do Deodato
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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O tenente-coronel Fernandes salivou com estrépito para longe, a fim de salvar a esteira que se estendia por baixo da maqueira e, ajeitando no longo taquari pintalgado a cabeça de barro topetada de tabaco legítimo do Acará, prosseguiu:
— É como lhes digo. A desobediência aos preceitos da igreja traz sempre após si a necessária e indefectível punição. Bem o afirma o ditado: — Deus castiga sem pau nem pedra. É certo que, quase sempre, a consequência lógica da culpa atrasa-se tanto, que o pecador impenitente prolonga uma existência criminosa no meio da mais impassível tranquilidade, como se possível fosse à justiça do céu esquecer. Muitas vezes, porém, a pena sucede-se à culpa sem notável intermissão e, em todo o caso, o espírito prudente só tem novo ensejo para arrenegar do instinto maldoso do homem e colher no exemplo nova convicção da sabedoria celestial.
Calou-se, pigarreou, fitando com tenacidade, de um modo quase severo, o auditório resumido e conspícuo: o Antônio Narceja, português enriquecido num barracão à entrada do furo do Pajé; o Dr. Policarpo Varela, juiz de direito, cuja recente remoção para Salinas filiava-se a memoráveis façanhas eleitorais, nos confins do Paraná, ao expirar a situação conservadora, havia poucos meses e Felix Jacaré, um caboclo muito republicano, sapateiro de ofício, avô do pequenito que dormitava-lhe ao colo, esgaravatando maquinalmente o nariz com o dedo titubeante, a cara suja, os lábios breiados de açaí, como breiado estava o peito do camisão de riscadinho azul e branco.
Bateram nove horas num relógio pendente da parede caiada. Fora, bramia o mar. Pela janela aberta entravam, com a brisa, exalações salinas e esse burburinho confuso e melancólico das noites em plena roça. No teto de vigamento visível, trilavam grilos. E, por intercadências, a luz do candeeiro de porcelana pestanejava de leve, como se também por ela passasse o arrepio misterioso das coisas trágicas que ali se falava ou se o apavorasse o tom soturno das considerações filosóficas do tenente-coronel Fernandes.
— Tem muita razão, acudiu Antônio Narceja, oferecendo obsequiosamente um fósforo aceso ao Dr. Varela, que sacara um cigarro de tauari.
— Conforme... obtemperou o Jacaré, cujo espírito de contradição era conhecido na vila.
— Vou dar-lhe um exemplo, compadre, retorquiu Fernandes, risonho e sereno.
Pigarreou de novo, tornou a salivar. Depois, ajeitando-se na rede, enquanto os companheiros aproximavam curiosos os bancos, principiou.
***
Há coisa de uns 25 ou 30 anos, vivia no Magoari um preto corpulento e encanecido, cuja idade ninguém poderia calcular e que toda a redondeza conhecia como sendo o mais ousado e feliz pescador da localidade.
Metódico, não passava um dia sem ir à pesca; afortunado, não atirava a tarrafinha sem depois puxá-la repleta de peixes! Era um assombro, um gosto admirá-lo em ação! Parece que rejuvenescia-o o mar. Qualquer que fosse o estado do tempo, era infalível encontrá-lo todas as noites, pelas duas horas, descendo ao pequeno porto do barracão, a desencalhar a canoa e logo fazer-se ao largo.
E que saúde de ferro tinha ele! Jamais conhecera um incômodo, uma dor de cabeça! Rijo como o acapu, afrontava os temporais com a impavidez do fatalista. E pela madrugada, quem saísse à praia, não deixaria de descortinar muito ao largo, no mar alto, a pequenina luz intercadente da canoa do Deodato.
Era rendoso o ofício. Quando voltava à casa, depois do nascer do sol, o pescador trazia atopetado o fundo da embarcação. Ninguém o vencia na arte da salga, de tal modo que o seu peixe encontrava sempre melhores ofertas do que o dos demais pescadores da costa do Magoari, quando os procuravam os compradores que iam revender em Belém.
Mas tinha um defeito o Deodato: — era um ímpio. Deveria possuir a alma igual à cútis, porque desprezava as leis de Deus e zombava impertinente de todos os mistérios da religião e de todos os atos do culto católico.
Em balde buscara algumas vezes o padre Simplício — conheceram? — trazei-o à reflexão e demovê-lo ao respeito pelo Senhor. De tudo escarnecia o infeliz e, o que é mais revoltante, possuía frases curiosas, sofismas fustigantes, objeções irrespondíveis, para combater os conselhos do sacerdote. Tudo era inútil. Não havia razão que o impedisse de ir à pesca ao domingo e dia santificado como em qualquer outro de trabalho.
— Você há de acabar mal, — avisava o padre, entre carinhoso e recriminativo.
— Milhor p'ra mim, — retorquia o herege, sarcástico.
***
Ora, uma tarde, era véspera de não sei que dia santo grande. Creio que a Igreja rendia culto à Virgem sob a invocação de Senhora de Belém. Fazia um calor enorme. O céu estava claro, limpo, muito azul e tranquilo, como tranquilo estava o mar. Na praia arenosa, as ondas vinham desdobrar-se preguiçosamente, numa languidez inefável. Mas, ali perto, nos matos, estalavam os galhos, causticados pelo sol. E muito ao longe, na linha do horizonte, alguns pontos sombrios, a custo avistados a olhos nus, pareciam nuvens vagabundas no espaço ou podiam ser barcas de pesca paralisadas à míngua de brisa.
No barracão, Deodato, seminu, fumava, destrançando as redes. De vez em quando, assomava a cabeça à porta, a inspecionar o céu.
Com a grande prática que possuía, adivinhava, pressentia calma quase completa para toda a noite. Era isto decerto que lhe dava esse pequeno rictus à comissura dos lábios e lhe encrespava levemente a retinta fronte. Maior trabalho seria o seu, pois far-se-ia necessário o remar por longo tempo. Enfim, nem tudo podia ser feito à mercê dos desejos humanos... E volvia à faina, de todo absorto, fumando sempre.
À boquinha da noite, apareceu um visitante inesperado à porta do Deodato:
— Pode-se entrar?
Era o padre Simplício.
Sob o pretexto de uma visita casual, pelo fato de passar ali próximo, ao regressar da roça do Xico Sete, o sacerdote penetrava com o intuito de verificar se o pescador iria aquela madrugada entregar-se ao costumado trabalho.
A ocupação do Deodato mudou-lhe a suposição em certeza.
— Não faça isso, homem de Deus; olhe que a festa é da padroeira da cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará a falta de respeito...
— Ela bem que se importa com a minha vida! — respondeu o preto, com um encolher de ombros que também poderia significar ao padre Simplício o fastio que as suas observações lhe causavam.
— E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse à minha missa, em vez de ir amanhã à pesca; se eu invocasse a nossa amizade, a fim de ser atendido...
Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla polpa dos lábios os largos dentes alvos e disse com uma convicção profunda, com um tom sarcástico e decidido:
— Eu ia mesmo, sim, senhor!...
Não houve razões lógicas, pedidos, ameaças de penas eternas que o demovessem. O negro era teimoso. Retirou-se o padre amuado, quase colérico, benzendo-se repetidas vezes no meio da escuridão do caminho, tauxiada de pirilampos loucos e murmurosa do longínquo coaxar de rãs, nos lameiros.
***
Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o lábio, lançou contra o padre a reprovação tácita de um gesto enérgico dos braços. O diabo do padreca que tratasse dos seus negócios. E esta!
Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada e logo atirou-se à rede, vencido pelo sono.
Aquela alma de incrédulo estava entorpecida inteiramente. Do contrário, teria tempo de refletir nas observações do sacerdote e quiçá algum sonho o prevenisse da sorte que aguardava a sua irreligiosidade. Mas o infeliz dormiu como uma pedra até que os galos das roças próximas soltaram no ar sossegado os seus cantos da madrugada, despertando-o.
Levantou-se o negro e, acendendo o farol, saiu com direção à praia.
Trilavam grilos, como neste momento em que lhes falo. Na noite calma, rebrilhavam estrelas, espelhando na superfície lisa do mar as suas cabecinhas irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as árvores do matagal. Coaxavam sempre as rãs, enquanto os sapos cururus dialogavam com entusiasmo. E, ao longe, dominando esses mil arruídos da noite, vibrava ainda o cantar dos galos, com um não sei que de profundamente triste, numa plangência de alma condenada.
Instantes depois, a canoa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sopro de brisa. A calmaria era completa. Ele, desde a tarde, esperava aquilo mesmo.
Mas, apesar da idade, tinha ainda bons músculos o velho pescador. Remava à direita, remava à esquerda e o seu barquinho a pouco e pouco se afastava, impávido, cortando a vaga indolente.
À popa, como de alcateia, velava o farol, ia deixando pela esteira da embarcação um rastro luminoso, que se prolongava desmesuradamente, em direção à terra.
Além deste, nenhum outro sinal de vida poderia enxergar-se mais em toda aquela extensão de costa nem sobre a linha do horizonte, do lado do mar alto. Quem se atreveria a ir pescar na madrugada do dia festivo consagrado à padroeira de Belém?
Disto mesmo deveria recordar-se o Deodato, quando se achava já a mais de duas milhas de distância, porque, fazendo meia volta ao corpo, olhou para traz e teve no rosto renegrido uma suprema expressão de ironia sorridente.
— Tolos! — rosnou, volvendo logo a remar com fúria, cravando a vista nas redes colhidas ao fundo da canoa.
***
Meia hora depois, algumas pequenas nuvens sombrias tinham-se erguido lá muito ao longe, escalavam o céu, vinham galgando distâncias, desdobravam-se assombrosamente. Fitou-as o pescador, desconfiado.
— Ué! — exclamou. Vento ou trovoada?
Apesar da incerteza, ergueu o mastro, preparou a diminuta vela de muruxi. E estava contente, porque já não precisaria de empregar maior esforço. O remo já começava a cansá-lo, que diabo...
Mas convinha aproveitar o tempo. Levantou-se ainda, tomou uma das redes e, com um gesto largo e fácil, fê-la descrever um círculo por sobre a cabeça, lançando-a depois à distância que reputou conveniente.
Colhendo-a, sentiu-a leve sobremaneira e não tardou em verificar que a estreia fora de todo improdutiva. Não viera um só peixe!
Era estranho, porque aquele sítio já tinha fama de rico em cardumes.
Longínqua fulguração de relâmpago fê-lo erguer o olhar. As nuvens tinham subido ainda mais, haviam-se estendido em quase dois terços do espaço, pareciam agora as pesadas colgaduras de uma câmara ardente. Segundo relâmpago, muito distante, cintilou então. E uma pequena aragem soprou fresca do lado do poente.
Decididamente, ia cair a trovoada. Não podia Deodato perder um segundo: içou a vela, manobrou no sentido de aproveitar o vento. E assim afastou-se ainda mais de terra. Iria experimentar o mar a meia milha dali.
Quando, depois de lançar a rede em outro sítio, se dispunha a puxá-la, pareceu-lhe estar extremamente pesada. Um sorriso de alegria entreabriu-lhe os grossos lábios. E então? Ele bem sabia que aquilo era infalível!
Mas imaginem o seu assombro quando, depois de longos esforços, conseguiu trazer à flor da água a rede que julgava repleta e de repente sentiu-a tornar-se completamente leve, encontrando-a logo de todo vazia, sem uma única pescada!
Deodato não era homem para impressionar-se, porém não deixou de achar bastante estranho semelhante fato.
Nesse momento, o espaço iluminou-se com um grande relâmpago, seguido do estrugir medonho do trovão.
O vento aumentara, passava agora sibilando nas cordas do pequeno mastro, enfunando a vela com raiva, arrastando a canoa numa fúria, numa vertigem, à luz dos relâmpagos sucessivos, no meio de coriscos que esfuziavam caprichosos por todos os lados.
Compreendeu o negro que a trovoada ia ter maiores proporções do que as que lhe atribuíra ao princípio. Nada mais poderia fazer nessa noite. Aquilo era praga do Simplício, pensava. Bem descontente, resolveu regressar. Quis passar o pano para bombordo, porém não teve a precisa ligeireza e o vento, já de todo impetuoso, quase invencível, arrancou-lhe das mãos o chicote da espia e num momento arrebatou a vela em farrapos, num redemoinho sibilante pelo espaço.
Só lhe restava o alvitre da resignação. E ele, habituado às inclemências, afeito a mil e uma tempestades, sentou-se sereno à popa, depois de abaixar o mastro: resolvera esperar o desenlace da crise.
O que presenciou então foi horrível. Choviam raios à direita, à esquerda, por toda a parte. O céu estava negro, agitado de ribombos infernais, a cada minuto iluminado tetricamente, deixando a descoberto as grossas massas das nuvens fugidias.
E o preto, longe de assustar-se, ali estava na barca, de braços cruzados, sorrindo com cinismo. O mar tinha um aspeto que se casava com a atitude hostil do espaço. Por toda a parte erguiam-se compactas colinas líquidas, escancaravam-se horríveis, hiantes vales fosforescentes. Não chovia ainda, mas o vento, que zunia aos ouvidos do negro incrédulo, cuspia sobre ele milhares de gotas salitrosas tiradas às ondas frenéticas, trementes.
De súbito, a amplidão toda se convulsionou, vibrou num estrepito pavoroso, repercutindo um som inominado, jamais percebido pelo Deodato em situações idênticas. Avermelhado clarão iluminou tudo, revelou aos olhos do negro toda a majestade daquela cena para a pintura da qual, meus amigos, não tenho senão palavras inexpressivas e frases sem colorido.
Ficou estarrecido o pescador. Sentira que a frágil embarcação era com vigor sacudida! Mas a força que assim operava não vinha decerto do embate das ondas. E a canoa tremia toda, rangia, vibrava incessantemente, como se um braço de Adamastor a agitasse nuns empuxões ciclópicos e intermináveis.
— Que diabo é is...
Não pode continuar. Diante dele, rodeado de uma auréola de chamas, tresandando a enxofre, emergia Satanás! Levantou-se indizível alarido: os raios duplicaram o faiscar, ribombos estalaram mais cavernosos. Por seu turno, o vento engrossou ainda mais as vagas, que chegaram quase a cobrir o barquinho.
Porém só durou um segundo o estupor de Deodato. Qualquer outro homem sucumbiria de medo. Ele, entretanto, como envergonhado desse instante de susto que tivera há pouco, arrastou-se com esforço, ergueu a meio o corpo ensopado e transido. Depois, levantando o olhar e o punho para o céu, proferiu, ou antes bramiu feroz imprecação satânica.
O diabo, — porque era ele em pessoa que assim surgira do mar, — empunhara uma espia e, correndo, cabriolando por cima das ondas loucas, entrou a puxar o batel para o lado de terra.
Aquela corrida frenética durou um momento. Dali a pouco, barco e tripulante desfaziam-se de encontro às pedras de uma enseada, perto da capelinha do lugar. Viram os meus amigos a ação da justiça de Deus?
Calou-se o tenente coronel Fernandes. Estava ofegante, com os lábios secos, o olhar animado.
Mas ressoou no aposento uma gargalhada estentórica, que despertou o molequito no colo do avô.
Era este próprio, o Felix Jacaré, quem zombara daquele modo. Logo, com entonação escarninha, ponderou:
— Não creiam nessa balela de seu c'roné. O tar Deodato não foi pescá, ficou na rede muito sossegado e despois sonhô essas coisa, 'hi 'sta. Seu padre Simprício, antão, arranjô o resto...

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