quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A respeito de Liza (Conto), de Salomão Rovedo


A respeito de Liza

Se eu quiser contar a história de Liza eu conto. Se não quiser, não conto. Porque é uma história banal, bem ao jeito daquelas que nunca saem diariamente nos jornais e noticiários da TV. Faz parte da vida cotidiana, desse mistério que nos cerca na cidade grande, uma lógica que jamais daria fonte para um inventor de histórias policiais, que tira tramas misteriosas até do nada absoluto. Apesar de quê, não se trata de modo algum de uma história policial. Por isso estou aqui nessa indecisão: conto, não conto. Conto? Não conto.

Primeiro vão me dar licença para pôr um disco na vitrola. Tem um Quinteto, um Sexteto e uma Sonata de Brahms para violoncelo e piano que ganhei e preciso escutar. Lembro o tio de cabelos escassos, alvos, sempre cuidando dos velhos discos long-play, passando cera, acarinhando-os com uma flanela umedecida com vinil líquido, até que todos ficassem brilhando sem um fio de poeira. E porque ficou viúvo me deu os discos de presente. São uns LPs velhos mas, tirando aquele chiado irritante, vê-se a música lá no fundo...

Voltemos ao que pode ser uma história... Vinda de uma cidade pequena do interior, Liza sempre acompanhou com terror incontido as horríveis histórias de assassinatos de moças que, como ela, chegavam à cidade grande em busca de realizar um sonho, de ter uma vida semelhante às que se vê nas novelas de TV e no cinema. Aliás, já trouxe na bagagem os medos e temores incutidos, com muita razão, pelos parentes desde a despedida até nas cartas e bilhetes constantes. A ilusão de obter tudo com facilidade, porém, logo se desvanecia, mas a firmeza de alcançar o objetivo não. E seguir em frente, não se entregar, mandar notícias de progresso, sobreviver enfim, se transformava no objetivo maior.

Contava, porém, com a proteção das rezas e orações dos amigos e parentes. Assim, se as más notícias não apavoravam, faziam-na se armar de cuidados levados a exageros tais que aparentavam traumas. Era jovem e seguia em frente, buscando fazer mais leve uma vida que passava pelo estudo na faculdade, se diplomar na profissão dos sonhos, encontrar um trabalho que lhe traga satisfação, o progresso necessário para conquista das pequenas ambições: comprar um carro, morar sozinha num apartamento de preferência seu. E principalmente fazer novas amizades e conhecer o grande amor da sua vida.

Quantas vezes todos já viram ou ouviram coisa igual? Milhares, com certeza, mas quantas vezes isso já ocorreu bem embaixo dos seus narizes? Bom, aí já é outra coisa. Liza tinha pesadelos com gente que a convidava para grandes aventuras, passarelas, fotografias, uma ponta na TV, passeios em iates, fins de semana em ilhas douradas cheias de praias e de gente cuja fotografia saía semanalmente nas revistas de pessoas famosas. Tinha pesadelos menores com jantares em restaurantes refinados, com peças teatrais, shows de cantores que jamais imaginaria um dia assistir, concertos sinfônicos no Teatro Municipal.

Falei do chiado dos velhos discos, mas quando se ouve Brahms a música toma conta do ambiente de tal forma, que nem quando o telefone chama não vou atender. Os especialistas escreveram muitas coisas sobre os últimos Quartetos de Beethoven – sim esse mesmo Beethoven do qual algum colega (Liszt?) decretou que foi iluminado pela surdez – porque o silêncio isolou-o dos modismos musicais deixando-o livre para a aventura da música moderna. Pois dá pena saber que a vida não é um moto contínuo, porque quem afirmaria que o velho Beethoven não gostaria de ouvir seu compatriota Brahms e sorrir ao saber-se, enfim, compreendido?

E todo dia acordava para a realidade botando o pé no chão, de olhos bem abertos, sentindo o perfume da fumaça do ônibus, se comprimindo no vagão cheio do metrô, cumprindo as obrigações no trabalho e frequentando a faculdade no fim da tarde. Para enfim chegar à sua casa e poder, exausta, tomar um banho e comer uma fruta antes de dormir, ela dividia a carona com dois colegas, rateavam a gasolina e outras despesas. Arrumava ainda suas coisas, preparava a aula do dia seguinte, respondia alguma carta ouvindo o rádio baixinho para não perturbar os demais, ritual que não antes da meia noite liberaria o corpo cansado para o colchão macio, para enrolar-se no lençol no qual pingava umas gotas de colônia de alfazema para sentir-se refrescada, recuperada.

No outro dia, outro dia. Bom, não exatamente no outro dia. Mas um dia qualquer Liza encontrou uma alma gêmea na faculdade. Bem, alma gêmea só que com uns anos a mais. Liza sempre imaginou que iria encontrar um rapaz da sua idade, temperamentos parecidos, mas os colegas que apareciam eram quase sempre imaturos, não querendo saber de conversa que significasse compromisso. No entanto para eles isso sim era maturidade. E sabe que de algum modo tinham razão? Pois. Só poderia aparecer algum maduro, que fazia faculdade para completar um curso que fosse do interesse da empresa da família. Sabe como é? Desses já arranjados que tiram uma porção de diploma só para fazer currículo.

Quando Beethoven sentiu que não havia mais estradas a percorrer e que ele próprio teria que abrir as picadas através do mito, quando finalmente ele gritou de si para si – É preciso! – e anotou a decisão para que não pudesse esquecê-la jamais, foi para sempre construída a ponte musical entre ele e Bach. Mas sabe qual é o mistério maior? Quem será que iluminou Bach, quem o picou para que pudesse estender esta música que trespassa os cosmos como roupas num varal? Depois de Bach a música se elevou do chão, mas depois de Beethoven ganhou o espaço sideral.

Enfim, foi esse tal de Jayme Bonjardim que ouviu Liza com atenção e a fez ouvir, discutir os temas que ela queria discutir – e não ficar ali numa rodinha de estudantes conversando fiado só para fazer hora. Com Jayme ela guardou o equilíbrio e adquiriu segurança para tomar decisões. Ele se transformou em sua fonte de consulta, em parâmetro para guiar suas decisões e, tirante os fins de semana, saía frequentemente com ele para festas, encontros com amigos nos bares, coisas assim.

Enfim, num desses fins de semana em que os dois saíram juntos, chegou a hora de se separarem (para não perder o hábito, Jayme tinha que ir à Búzios com amigos e parentes), de repente ele disse:

– Por que você não vem comigo?

O mais interessante de tudo é que Liza aceitou pronta e naturalmente, mas sem demonstrar alguma surpresa. Era assim, tudo o que diziam e faziam vinha com a maior naturalidade, funcionava algum tipo de comunicação em que as coisas se sucediam sem maiores formalidades – e também sem a interferência daquele Destino sobrenatural que fadas, deuses e bruxas desenham especialmente para cada ser humano, como fato pré-determinado.

Jayme e Liza formaram o casal do verão. Para ela principalmente, foi como um milagre, porque de repente se viu tratada de modo especial, num ambiente cuja paisagem era típica de reportagens sociais, pano de fundo para enredo e estrelas de novelas, no meio de gente que só via em revistas. Praias famosas, locais que só gente muito especial tinha acesso, as praias e lagos do norte, o mar excessivamente verde e límpido da baía de Angra dos Reis, ilhas paradisíacas muito particulares com aeroporto próprio, jatinhos, iates, refeições servidas em bufês.

Nem precisa dizer que foi apenas questão de tempo e em pouco o casal estava vivendo juntos, dividindo um apartamento que não era de nenhum dos dois, mas só porque Liza cismou de não morar na casa de Jayme. De certo modo o ambiente dizia que ela tinha alguma razão: se vivessem na residência própria de Jayme a balança invisível que mede o peso do relacionamento iria pender para o lado dele. E isso ela não queria, como também não aceitava o contrário. Ambos concordaram tão rapidamente que nem chegou a ter alguma discussão. Jayme certamente estava se divertindo ao resolver morar só com ela, mas sobrava também uma sensação de liberdade que ele nunca tinha experimentado. Ali nem a sua família nem os amigos iriam chegar de surpresa entrando de supetão como faziam em sua casa. Havia necessidade de um telefonema prévio, recados na secretária, combinação antecipada, coisas assim que agora soava a ele como uma risada de independência.

Vocês devem estar pensando que Liza sumiu, desapareceu. Que Jayme Bonjardim se transformou no principal suspeito, que a família vive lançando apelos desesperados pela TV – toda essa matéria que sai nos jornais diariamente. É bastante compreensível que pensem assim, ainda mais quando se vive numa cidade como São Paulo, Nova York ou Xangai e nunca se tem tempo de ouvir Brahms... Mas, acreditem, não foi nada disso. Pelo menos até agora nada de grave ou anormal ocorreu: eles estão casados e lá se vão seis anos, sem dar mostra de que vão se separar. Quem os vê juntos, quem se relaciona com o casal, velhos e novos amigos, todos, todos acabam por se entregar à simplicidade, à alegria e muitos passam a crer absolutamente que a felicidade existe. É uma religiosidade como outra qualquer, como ouvir Beethoven, por exemplo... Ou Brahms, sabe lá!

Ora...


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Fonte:

Salomão Rovedo: O Sonhador. Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016. (Imagem: Páginas pessoal do autor)

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