quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Bocó-de-Mola (Conto), de Valdomiro Silveira


Bocó-de-Mola

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Bem se diz que casamento com parentage dá sempre mau resultado. Pois ali estava aquele casal tão unido – o Joaquim Chico e nhá Loriana, primos entre si −, que teve a infelicidade de ver no meio dos outros um filho tapera duma vez, a quem deram o nome de Teófilo. O ribeirão grande inteiro tinha dó dos coitados, por vista disso: o que não proibiu certa gentinha de pouco mais ou menos botar no triste de songa-monga o apelido de Bocó-de-mola.

Ora, aquilo pegou como bichas, e só com esse apelido é que o conheciam nas redondezas. Os catatauzinhos de longe gritavam, quando o viam: − ó Bocó-de-mola! − e o rapaz irava que nem um tigre, chegava a enchouriçar o pescoço e rugir umas ameaças de abalar céus e terra: os catatauzinhos fugiam numa disparada, se aquele vulto estrangolado dava de correr pro lado deles; e se percebiam que a coisa estava com jeito de amargar, abrandavam a voz e diziam, entreparando:

— Ó Teórfo! Pra que tamanha zanga?

Ele sustava a carreira, também com aqueles olhos enormes granados nos provocadores, e vendo que eles não tinham no semblante expressão de caçoada, voltava. Mas não lhe bulissem mais, em seguida, que então perdia as estribeiras e voava em riba dos tais, cego e fungando de raiva: e derrubava cada paulada de criar bicho, a ponto de ser necessário, às vezes, que Joaquim ou nhá Loriana acudisse ao que gemia uns pescoções, caía e levantava-se, recolhia, e ficava a um canto da casa, mudo como um peixe: sabe Deus que craminholas se remexiam naquela cabeça!

O Joaquim Chico, assim que o menino agarrou os doze anos, reinou, reinou, para descobrir um meio de acabar com tanto disparate. Afinal, a paciência dum homem não é de mesma largura e fundura que o rio pardo, e um dia se esgota: e era preciso dar um paradeiro a semelhantes desatinos! Onde é que já se viu agora um manguarão de doze anos correr encambulhado com os outros, vestido de camisola e mais vadio que bicho-preguiça? Foi castigo do céu, decerto, mas pra tudo se dá remédio, menos pra morte −, e o Joaquim, depois de muito excogitar, descobriu que o remédio ali era a perova e o tala: havia da endireitar o filho a poder de couro e pancadaria velha.

Se bem pensou, melhor fez. Toda manhã, logo que o sol apontava, ia cutucar o Teófilo com uma guaçatonga fina, clamada que aquilo não era hora de tamanho bezerro estar no lugar quente, e se apinchasse do catre e fosse trabalhar, que quem não trabalha tem o que comer.

O Teófilo esbugalhava mais brutos olhos, cujo branco parecia tocada de azul, e pulava meio caído, quase sempre: engolia às carreiras uma tigela de café com leite misturado com farinha de milho, e seguia pra um rocio que o pai andava fabricando, dali a umas trezentas braças: e se seguia, era porque o pai lá o ia repontando.

Os outros, louvado Deus, davam conta do eito, porque tinham bom natural e medo da guasca: mas o diabo do samonga a modo que cada vez emperrava mais, cada vez ficava mais perrengue e mamparreiro. O tala e o pau cantavam-lhe em riba: qual! – aquilo era mesmo castigo que viera do céu ao Joaquim Chico e à nhá Loriana, porque do contrário já teria havido alguma arrumação! – e o rapaz beirava o quinze anos sem que, que melhorasse, ao mesmo um pouco do juízo, nem tivesse propensão pro serviço. Houve noites áfias que eles gastaram só em falar no filho e fazer cada lamúria capaz de esmoer o coração da gente que os ouvisse: e nhá Loriana aconselhava sempre ao marido não batesse tanto no desgraçadinho do menino, que afinal não tinha culpa de ser assim.

O Joaquim concordava, arrependia-se, prometia não cometer mais tão grande malvadeza; ao romper do dia tratava de acordar então o Teófilo, porém com toda a brandura, dava-lhe um cuietê cheio de leite com farinha de moinho (de munho chamada), e entregava-lhe a ferramenta: ele pegava-se, que a tudo uma pessoa se acostuma neste mundo! – troteava pro rocio, tropicando aqui, tropicando acolá, caindo mais longe, até que o Joaquim ficava pelas turinas e já o fazia apresar-se a pontapés e cachações; − e no eito era um nunca mais acabar! Os outros, bendita fosse a providência! – continuavam destorcidos como dantes.

Malhou em ferro frio o Joaquim, porque lucrou tanto como coisa nenhuma: o entendimento do Bocó-de-mola parecia piorar cada vez mais; ultimamente se fizera no costume de resmungar pelos cantos, abrindo um bocão terrível, donde os dentes rompiam chatos escuros como os de um animal erado: e ninguém podia compreender aqueles resmungos e o que significava aquele abrir de boca com tamanha ferocidade. Tão feio se tornava ele, em tais ocasiões, que a própria irmandade pegava chão, quando o outro principiava com semelhante esquisitice.

Aí então é que o cacete trabalhava às deveras. O cacete e uns três metros de fumo dobrado e trançado, pois chegou pra todos a convicção que o diabo entrara no corpo do sarambé. Morava na ilha grande uma benzedeira por nome a macaca: essa foi chamada, olhou o sintoma da cara, correu cruzes pelo peito do endemoninhado, de cima pra baixo, de baixo pra cima e nada conseguiu. O tio Procópio, um negro escangalha que assistia na mumbuca e tinha fama de meio feiticeiro, passou a mão em quanta veinha havia no Teófilo, e ficou tudo na mesma, no ora veja.

O Joaquim começou a desesperar. E não era pra menos: um pai de oito famílias, que precisava fazer hoje o que vestir e comer e beber amanhã, atrapalhado com um imbecil em casa, que além de imbecil vivia com o rabudo dentro de si, é brinquedo? A coitada da nhá Loriana, essa ajoelhava a nossa senhora da conceição, rezava, chorava, chorava mais, rezava mais, puxava terço, fazia promessa, que era até da gente sentir um nó na garganta e uma quentura nos olhos!

Tentaram todo remédio que lhe aconselharam, toda raiz importante, chás de arruda de erva-cidreira, infusões de palma benta, beberagens de noz-vômica e de losna: pregavam-lhe ao pescoço uma penca de rosários e cruzinhas, mãos de coral, orações encobertas, um dilúvio de miuçalhas! Mandaram-lhe que lavasse de joelhos uma temporada comprida, persignando-se de minuto em minuto, olhando a cruz de nosso senhor morto: e pediam misericórdia por ele, que não sabia pedir – mas tudo dava em três vezes nada, nada é.

Nhá Loriana fez companhia ao marido: ficou tão cheia de esperanças como um sapuvuçu bem seco está cheio de folhas... E então era só um chorar aqui e outro chorar mais além, numa demasia que chegava a ser uma lástima.

Apareceu na vila, por esse tempo, um doutor de quem diziam maravilhas: que tinha posto são de tudo um caboclo tantã há muitos anos, o Zeca Piramboia, o qual endoideceu p’r amór da fugida da mulher; que curou os ataques bravos dum menino já deste porte, o Antoninho, filho do Chico Trombeta, que residia em São Pedro; que tirou o mau olhado duma criança muito bonita, lá pros lados do criciumal: e uma infinidade de milagres mais.

Foi um próprio buscar o doutor, um dia que rapaz amanheceu mais esquentado e com os olhos vermelhos. O doutor veio, examinou-o, perguntou se no meio dos tios ou dos avós não tinha havido nenhuma gente que sofresse de gota-coral ou de convulsões fortes; se ele era assim desde pequeno: e por último pediu que o fizessem caminhar um bocado, pra ver se não trocava ou não bambeava as pernas.

Depois o doutor tirou uma carteira do bolso, tirou um quarto de papel, tirou um lápis e escreveu uma receita com uns nomes arrevesados, uns brometos de potássio e outras drogas desconhecidas; ensinou que era preciso todo o cuidado com o doente; que o doente devia passear, distrair-se, dormir bem, ter alimentação direita e muita vigia em riba dele; porque a doença não deixava de ser perigosa e nalgum momento podia vir um acesso furioso.

O doutor foi-se embora, gabado como um santo, por mostrar ser tão bom curandeiro, que até indagava da vida dos outros, dos pais e dos avós dos outros una moda que ninguém usara ainda por todo este matão desgrenhado. E a esperança, voltou cheia de fortidão, alegrando a casa inteira: porque eles, a dizer verdade, queriam bem demais ao Teófilo.

Trato mais bom que o que lhe deram, daí por diante, só no palácio dum rei mouro. Nem bem ele pulava da cama, já lhe traziam chocolates de agrião, ou gemadas de leite, ou caldos de mocotós de vaca; no almoço arrumavam-lhe um prato que era una montanha; no jantar uma sopeira que era um a lagoa, e uma travessa mais empinada que a serra do Jacarézinho, e cada pires de doce mais doce que mandaçaia; de noite, uma terrina de leite, uma dúzia de bolinhos de polvilho, ou um bolão de fubá, ou sonhos de farinha de trigo. Só vendo!

A princípio, notaram no semblante do rapaz uns toques de sangue, umas cores boas que vinham vindo. Mas não demoraram muito as boas cores: apareceram e desapareceram logo. O rapaz afinou e vez de engordar, ficou feito um varapau, de magro; apontaram-lhe por debaixo dos olhos uns riscos azulados, assim a modos de florzinha de criciúma já quase murcha; os olhos, esses então tomaram um tom sem propósito de olhos de filho de Deus. Já daí o desespero cresceu novamente no ânimo do pai e no ânimo da mãe: e como cresceu! – rijo e depressa que era mesmo pra matar se não fosse a ajuda do céu!

Nesse meio tempo o compadre Joaquim João teimou com eles que doença daquele sintoma se cura mas é a varadas de fumo: porque se a coisa é de mamparra, a esfrega esperta o sujeito; se a coisa é produto de artes do demônio, o demônio não resiste às pancadas do fumo.

Este compadre Joaquim João tinha sido sempre muito amigo da casa: e não é que de certo ele estava com a razão toda de seu lado? Assim pensou o Joaquim Chico, já acompanhado por nhá Loriana. Pra encurtar conversas: o doutor o que fez? Contou gronga à toa, umas prosas bonitas que não deram resultados! E de prosas não se vive neste vale de lágrimas.

Foi o Joaquim João falar e o Joaquim Chico ouvir como quem ouve um pedaço de livro santo: no dia seguinte puxou o filho a trambolhões, assim que o dia clareou, pôs-lhe a ferramenta na mão e calcou-lhe pra experiência uma dúzia de varadas. Não, que era necessário levar a tarefa de fio a pavio, e nunca mais com panos quentes. Se fosse uma macacoa passageira, vá lá que se descuidasse, mas com um estado sério não se brinca: às vezes uma defluxão dá pra acabar com a vida dum pobre, quando mais um sofrimento assim, que fazia o rapaz definhar de dia pra dia! O negócio não ia direito, nem um pouco!

E o Teófilo cada vez mais rebelde: não corria como de primeiro, agora; pelo contrário, ia indo pela estrada devagarinho, feito uma formiga, apesar do pai não descontinuar com aquela música.

Todos se assombravam, vendo tamanho sossego no meio de tamanha surra: uns tinham muita dó do infeliz, que um cristão, aguentando toda aquela judiaria, sem boca pra soltar um soluço, é porque tem muita força de vontade; outros ruminavam que tudo não passava de mangação do tal chifrudo que estava escondido lá dentro e tomara conta do corpo com tão grande poder, que o corpo nem não sentiu mais nada do mundo.

Histórias! Pois, a falar verdade, o Teófilo andava quieto a mais não poder; mas quem lhe reparasse no rosto, quando o pai vinha atropelá-lo, veria o rosto mudar de cor duma hora pra a outra e uma placa de chumbo prega-se em cada face, com um jeito que até lhe dava ares de bicho selvage. Tanto, que uma vez nhá Loriana, que se achava perto dele, no já falado rocio, e na ocasião em que o Joaquim Chico ia bater nele, largou um pulo que nem o duma lebre, de ligeiro, só de terror daquela feição desfigurada.

Vida sem assento, assim, não podia durar muito tempo, e já durava demais. Um dia, cruz, credo! Pra aqui e mais pra ali! – o diabo a mó’ que não teve mais pachorra e entendeu de botar as manguinhas de fora.

O admirável é que a barra da madrugada rompeu bonita como um vestido que sea Gertrudes do Ribeirão tem, cor de rosa duma vez. Um centinho manso cochichava com os galhos e com os ramos e os galhos e os ramos pareciam rir, abaixando-se, erguendo-se, encontrando-se uns com os outros. Um dilúvio de urus cantava pelo mato fora. Madrugada que nem essa não é própria pra desastres e esta foi.

O Joaquim Chico de certo acordou com elas suspendidas: rolou da cama tal e qual um embrulho, vestiu-se às carreiras, pegou a vara de fumo e um rabo-de-tatu desta proporção −, e correu pra cama do Teófilo, enfiando-lhe a ponta duma azagaia no braço direito, até que ele deu acordo de si, assustado e tremendo. E o Joaquim Chico buzinou de raiva, porque Teófilo deu de coçar o corpo, que tinha mais fim nem acabamento: por último o rapaz saiu, quase Maio arrastado, com os olhos papudos do sono e o corpo mole-mole ainda.

O café não tardou, que nhá Loriana percebeu loguinho os azeites do marido: e mal o café rodou pela garganta abaixo do Joaquim Chico, o Joaquim Chico segurou a enxada e os instrumentos da pancadaria, e fez caminho, tangendo o filho. Os restantes seguiam mais de longe, conversando em voz abafada; e um deles, o caçula, toda hora estremecia, falando baixo: − faça florescer as pedras! – porque era a morte que estava toda hora passando por ele. Chegaram a pôr sentido em tanto estremecimento do Joaquinzinho; mas o cultivo mostrou a cara no rasgão da mata-virge e ninguém mais pensou naquilo. Com certeza era friage.

Até a umas cinco braças de sol o serviço correu sem atrapalhação, bem cerrado como sempre. Era uma quebra de milho que precisava ser feita quando antes, porque os queixadas andavam saindo na roça, e quando saem numa roça vai tudo raso. Tinham já derrubado uns oito carros, e o Teófilo ajudava, quando o Joaquim Chico mandou destampar o almoço, que a fome dissera umas novidades lá no estômago dele. Procuraram uma aguada anexa à plantação, estenderam uma toalha à beira mesmo, e cada um puxou sua colher pra fazer pela vida.

A fome do Teófilo – ê! fome! – parceira fome canina! Aquilo foi só abrirem a toalha e já ele cair com as mãos abertas em cima da marmita, com uma violência que nem se pode dizer. Um pobre de estrada, bem miserável e sequinho, que tivesse passado três dias em jejum, pela certa não havia de fazer tão má figura como aquela! E o Joaquim Chico irou, mordeu os beiços de tanta fúria, passou os dedos abertos pelos cabelos, largou uns gritos danados:

— Por que é que você está com tamanha esganação, ô diabo?

E trunfou-lhe a vara de fumo às direitas, descanjicou as costas do desgraçado assim como quem malha feijão.

Pois foi nesse momento que a paciência do Teófilo não pôde mais aturar. Um pote embaixo da bica, meio em falso, fica de pé até certa proporção, mas quando se enche de todo, cai por força: a paciência do Teófilo rodou por este feito. Ele garrou um cacete de guaiuvira que servia de bastão pro Joaquinzinho, frenteou com o pai, e descarregou-lhe o pau a risco de vida. A rapaziada, presenciando uma coisa tão impossível, ganhou rumo do mato-grosso: e ninguém pôde valer ao Joaquim Chico em tal inficionado pedaço.

As bordoadas caíam a torto e a direito, pela testa, pelas orelhas, pelo nariz, pela boca, pelos ombros, pelos braços, com um vigor que nem tinha mostra de ser de gente da terra: e o Joaquim Chico uivava de dor, caído no chão e torcendo-se, ensanguentado a toalha e a aguinha com tanto desperdício de sangue, que chegou um instante em que só se via correr mesmo sangue em lugar de água.

Quando ele desfaleceu, então, o Teófilo, com os olhos escancarados e os dentes unidos, botou-lhe um joelho no peito e enfiou os três dedos maiores de cada mão numa brecha do alto da cabeça; puxou, que puxou, com quanto tutano tinha; vendo que não arranjava nada, pegou uma lasca de lenha, para servir de cunha, e rebateu-a com a guaiuvira; depois tirou-a, botou de novo as mãos na brecha, sacou dos dois lados, e a cabeça partiu-se de meio a meio: escorreu um chorinho vermelho, de entre os miolos, e o Teófilo agachou-se ainda, chupou-o, pra logo em seguida gargarejá-lo fora; meneou o corpo pro corgo e sentou-se junto da sangueira, falando com um porte de voz que semelhava rugido sobre rugido:

— Agora ‘ocê não me judia mais! Agora ‘ocê não me judia mais! Agora ’ocê não me judia mais!

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