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6/24/2019

Camunhengue (Conto), de Valdomiro Silveira




Camunhengue
Um belo dia, sem mais esta nem aquela, pegaram a aparecer pelo rosto do Zeca Estevo umas grossuras, uma vermelhidão, uma pressama que ninguém sabia como explicar. Engrossavam-se-lhe as asas do nariz, iam-se-lhe sumindo os olhos sob a carne tumefeita, que os vencia por todos os lados, recrescente, e as pestanas principiaram a fazer-se-lhe ralas, esfiapadas, ao mesmo tempo que a cabeça se despovoava de cabelos e uma quase contínua fraqueza lhe bambeava as pernas, para baixo dos joelhos.
Às primeiras mensagens daquela doença incompreen­dida, que, aliás, passava por nada na opinião de todos da casa, não se alvoroçou nem se fez diferente o Zeca Estevo, acostumado como estava a tudo quanto é bom e quanto é ruim na terra- Mas, depois, quando se acentuaram os sintomas; quando deram os vizinhos de dizer que "aquela empige vinha braba"; quando notou que os estranhos já o olhavam com desusada mostras de reparo e quase de asco: foi então que entendeu de cuidar de si, rebuscar "u'a mezinha com qualquer curandeiro ou surjão dos arredores."
Lá pelas covancas do Guaçu, numa tapera escanga­lhada e cheia de mato, assistia o Cabeludo, um prático de fama, que era a última palavra nestas moléstias desconhecidas. O Zeca Estevo preparou-se com todo o cui­dado, mandou arrear a melhor besta de sela que tinha, escolheu o melhor rapaz do sítio para camarada na viagem (porque tinha com que, o Zeca Estevo), e riscou chão u'a madrugada, nem bem o galo pipuíra, que lhe moiava em frente da janela, acabou de bater as asas e cantar pela terceira vez.
Não se podia ler ainda urna carta e, além de tudo, caía uma neblina muito fria, embora fosse tempo de milho verde. Mas em riba dos espigões, que mal se divisavam através daquela cortina opaca, um grande vulto cor de cinza-clara se movia já do chão para o céu, ligeira mente, e era a manhã que rompia.
O Zeca Estevo despediu-se da mulher com duas palavras apenas, porque a demora seria pouca e a saudade que levava era muita. O filho mais novo, de cinco anos, que era a menina dos seus olhos, como dizia, ainda teve jeito de lhe pedir um piquira lazão de crina brama, bonito e manso como o do Candinho, o irmão mais velho, que andava pelos oito anos e era pouco menos que um domador. Ele ouviu o pedido, respondeu que sim, que o piquira havia de vir, — como não havia? — e passou a ferramenta pelo vazio da mula, que se descanhotou logo, estrada a fora, violenta e macia no trote de cão.
Lá se foi o Zeca Estevo, alegre e confiado. Houve outros que partiram também confiados e alegres à pró cura do Cabeludo, mal lembrados do horror que levavam dentro de si, no peito ou no coração, e que não puderam voltar, entretanto, e acharam melhor, decerto, deixarem-se ficar esquecidos e descansados, nalgum recanto de cemitério, em lugarejo sem nome ou sem fama...
Mas, o Zeca Estevo não concordava com esse abandono de vida longe dos seus: ou tudo ou nada, falava na véspera da viagem. Ou sararia e a volta havia de ser urna festa; ou teria o desengano, e ainda assim tornaria ao sítio, morto e já desmanchado que fosse!
Não era coisa a que se pudesse chamar bonita, aquela tapera onde assistia o Cabeludo. Ao fundo dum angola praguejado, em que a unha-de-gato, o cipó-caboclo e a japecanga se entrançavam, caindo dos maricás ou dos ceboleiros, escurentada e escondida por um maracujazeiro de árvore, aparentava o jeito de uni gato mourisco assa­nhado, que se encolheu e vai saltar de súbito à cacunda tremente do xintã. Toda a gente sabia, contudo, que um mundão de romeiros cheios de fé vingava diariamente aquele rincão, em busca do milagroso experiente que dis­tribuia a vida e a saúde a troco de uns sacos de manti­mento ou de umas poucas cabeças de galinhas ou leitões...
O Zeca Estevo escolheu a ocasião boa: chegou à tapera ao fechar a tarde, quando já ninguém de fora lá estava e os urus gargarejavam seu canto profundo e selvagem nos esgalhos das pindaíbas e dos cedros, ali perto. Salvou logo do terreiro; e como visse que o Cabeludo não se apressava a recebê-lo, entretido a tostar sobre as brasas uma cobra engraxada de manteiga, fez chorar no saco da garupa os dois marrõezinhos mais gordos que criava no chiqueiro e lhe trouxera, como presente especial, antes da cura. O Cabeludo, nesse ato, virou-se para ele, vagaroso e solene.
Medo, terror, foram tolices que nada conseguiram do Zeca Estevo, nunca na vida. Mas agora, àquela hora duvidosa do lusco-fusco, naquele ermo, um irreprimível pavor se lhe foi apoderando pouco a pouco do espírito, à medida que o morador da tapera lhe respondia à sal­vação e lhe perguntava pela saúde, com voz pausada e um tanto rouca, em que havia muito de tempestade longínqua e também de rugir contido e ferocíssimo de tigre. Sentiu curvarem-se-lhe os joelhos, uma corrente de água gelada passar-lhe pela medula, porem-se-lhe a pino todos os fios de cabelo do corpo e, juntamente, uma ânsia tão forte, de tal modo sufocadora, que lhe cons­trangia a garganta e lhe fazia correr um suor frio nas palmas das mãos e entre os vãos dos dedos.
Entrou na tapera, apesar de tudo. Contou sua vida ao outro, largamente, e acalmava-se à maneira que a narração lhe ia fugindo dos lábios para os ouvidos do curandeiro atento. Fora, sob o maracujazeiro, o cama­rada assobiava enternecido uma tirana das derradeiras funções. E aquela tirana, casada agora ao chiado monó­tono de uma cigarra já invisível, foi fazendo que o Zeca Estevo de todo volvesse em si, ganhando outra vez a paz de espírito de sempre, a calma que em todos ui casos lhe servira de máxima fortuna.
O Cabeludo, porém, tirara com a mão esquerda n lampião de azeite, de um mancebo ao meio da casa e, com a direita, examinava-lhe suavemente as faces, que se arrepanhavam grossas por sobre os zigomas, donde pareciam debruçar-se para as maxilas como bambinelas rubras e extravagantes. Indagou-lhe dos pais e dos avós; se nunca tinham tido mal de gálico, se nem uma mulher na família quebrara resguardo de parto, por onde lhe tivesse vindo a doença triste que faz a mão ficar de vaca a perder as unhas. E o Zeca Estevo, escutando semelhantes interrogações, para ele desnecessárias e estúpidas, entrou de novo a possuir-se de um enorme susto e pânico, entremetido de raiva e de fúrias, durante as quais deixava de esganar o feiticeiro (parecia-lho naquele instante), só porque acreditava bem na certeza do tratamento.
Houve uma pausa embaraçosa e embaraçadora nas palavras do velho: foi a um canto da casa, ao pé do jirau em que dormia, puxou uma gamela, pôs-se a lavar as mãos com uma orelha de timburi e já voltava pai u o Zeca Estevo, num passo ondulado e mole, quando este quis saber o nome da doença:
— Antão, meu patrão velho, o que é que eu tenho? O Cabeludo olhou-o de frente, com os olhos parados e inexpressivos:
— O mal.
— O mal? Vancê tá caçoando!
— Caçoando tá você, menino! Pois antão você, quando veio aqui, não sabia já que tava camunhengue? E olhe que é jareré dos graúdos, é dos brabos! Tome conta disso, antes que ele tome conta de você!
O Zeca Estevo tinha o gênio desabrido: vieram-lha repentes de sacar o punhal e matar no mesmo instante aquele bruxo desgraçado. Mas, conteve-se:
— E o que é que eu bebo pra sarar?
— Não beba remédio, que pra isso não tem remédio, não hai mezinha. Coma carne de capivara sem sal, por todo feitio, e a da onça, que tá são. Mas largue do sal, se quer mesmo ficar como dante!
Anoitecera de todo. Um fantasma apavorante cami­nhava entre as nuvens, serenamente, e no andar caden­ciado e como que fraco imitava o do curandeiro, que, entretanto, mudo e sombrio, se agachara encostado ao fogão, onde recomeçava a tostar a cobra apetecida. O Zeca Estevo olhou-o, olhou depois aquilo que caminhava terrível entre as nuvens: sentiu-se aniquilado, transido de verdadeiro medo e ia gritar pelo camarada, quando as nuvens se abriram, enchendo o arruinado casebre de uma claridade azulega de lata nova, e reparou que aquele fantasma era a lua cheia, com seu São Jorge muito entu­siasmado ao alto e algumas tênues fumaças brancas e enrolaram-na como numa túnica.
Desamarrou os sacos' trazidos, pô-los à porta da tapera, e montou a cavalo:
— Temo lua boa, seu Chico: de madrugada tamo em casa: bamos embora!
Houve um forte e rápido rumor na estrada; se não fosse tão rápido e tão forte, poder-se-iam ouvir os ge­midos do Zeca Estevo, homem que nunca tinha chorado na vida, de serra abaixo pra cá, tal qual se diz na moda velha.
Não era tão tarde assim, que o Zeca Estevo não tivesse lado de torcer um pouco da estrada e procurar o sítio dum conhecido antigo, um criador em cujo potreiro vira ao passar, com sol alto ainda, um poldro lazão de crina branca e palmatória, bonito e manso como o do Candinho, e bem ao modo do que lhe fora pedido pelo José, a menina de seus olhos, a quem não podia negar esta alegria tão fácil. E foi preciso mandar cam­pear o petiço, àquela hora velha e pelo cultivado úmido de orvalheira, porque o José lhe estava a aparecer diante, todo risonho e satisfeito, ao ver que a promessa fora cumprida.
Depois, quando se fez novamente ao caminho, entre um e outro voo de pássaros no turnos, que lhe causavam singulares vibrações de nervos, e ao pensar naquela criança pequenina e querida, para quem levava o cava­linho adestrado, uma inefável piedade de si mesmo quase o fez soluçar e carpir-se: via-se repudiado de todos, porque o negro mal-de-lázaro iria de mal a pior, não o duvidava, e o José lhe seria companheiro de sempre, apesar de imenso infortúnio, porque tinha uma alma afetuosa e cheia de bondade. E a mulher, sá Januária, que fora o anjo da guarda de sua mocidade turbulenta e rixosa, ia-se-lhe apresentando à memória vagamente, aureolada de uma luz admirável, como as santas das oleografias.
A marcha troteada da mula soava pela estrada clara, num ritmo acelerado e uniforme. E era tão sagaz, tão esperta, tão valente, que mal o sol apontava da multidão de montanhas distantes, quando o Zeca Estevo abriu a porteira do pátio, onde a criação renhia pelo milho ati­rado de pouco. Sá Januária surgiu espantada da varanda, trouxe logo o café com rapadura, e não chegou a per­guntar-lhe a razão da volta tão apressada e o que dissera o Cabeludo, porque logo o Zeca Estevo lhe foi contando:
— O "home" lá me disse que tou sofrendo do mal. Mas a Januária também não quis acreditar:
— Não é capaz, isso é poaiage sua!
— Verdade, mulher: o diabo inté me receitou capi­vara e onça.
Sá Januária duvidava sempre: olhou-o, remirou-o com todo o sossego, convencida de que tudo aquilo não passava de uma cuca que o Cabeludo lhe botara no marido, para ganhar molhadura melhor. E o Zeca Estevo, banzativo, escorara-se a um catre desmantelado, donde olhava para a mulher com ares muito alheios e remotos; por fim, como já pelos vãos das telhas coasse no chão a claridade crua do sol, disse a modo de distraído, como quem não quer:
— Só se ele cuida que é por causa deste inchaço que eu tenho há tantos dias nas orelhas.
Foi como se todo o mundo viesse abaixo! Ela reparou-lhe então nas orelhas, que se haviam tornado intensamente escarlates, como queimadas do sol, empipocadas e grossas, pendentes para as faces num revira­mento assustador dos bordos. Sá Januária teve um arrepio de terror e um estremecimento fundo de com­paixão: mas conteve-se logo, desviando a conversa com pedir a Zeca Estevo a ajudasse em passar pelo pescoço de uns franguinhos pipuiruçus uma pena de galinha, por livrá-los da pigarra.
Vieram daí por diante os dias negros da tristeza e da desconfiança. O Zeca mandava a lugares longes, por mantas de capivara e carne fresca de pintada, tomava chá de raiz de inhame, todos os dias, fugia do sal, corria da chuva e do sereno, mas cada vez piorava mais. Corajudo ainda aparecia, de quando em quando, a bater u'a mão de truque ou pontear uns toques novos na viola paranista. E, por mal de pecados, chegara o tempo das águas, com uma ventania nunca, vista e um poder de tempestade todo santo dia.
Agora, com um bandão de desculpas aumentativamente apertadas, sá Januária mudara de cama, dormindo com o José num quarto pegado ao do Zeca Estevo, donde, " noites inteiras, ouvia-o roncar e queixar-se de mil apoquentações e outras tantas dores. Fizera-se ele irritadiço e mau de gênio, esbordoava os pevinhas à toa, botava chumbo nos leitãozinhos tatus mais estimados, que se aventuravam até a varanda. Um dia que matara a um de brinco, a sá Januária lho censurava entristecida, ele respondeu rindo num riso rasgado e amargo:
— Ora, eu também tenho brinco, e, se eu morrer, ninguém me sente!
Ao ver que todos, pouco a pouco, iam-no abando­nando ou, quando nada, deixando, também um poderoso desejo de absoluta solidão o tomava, mesclado de raiva dos homens e desamor aos seus. Chegou a dizer a sá Januária, quando ela lhe explicava, certo dia, por pala­vras travessas, o motivo da separação:
— Eu aqui já não valho nada, todos me largam ao deus-dará, como se eu fosse um trapo velho. Há de chegar o tempo de eu romper sem rumo por esse deses­pero de mundo! Você verá!
E voltava-lhe um calor da valentia da mocidade;
— Hei de sair, inda que seja pedindo esmola de casa em casa por esses barrocos e serras. Quem não me der esmola eu quebro de manguara, porque ninguém não tem coragem de me ponhar a mão e o chumbo em mim já não pega. Cama, eu faço em qualquer fundo de mato, em qualquer beirada de corgo, inda que a força das inxorradas me carregue c'o escuro da noite!
A chuva estiara de todo, certa manhã de dezembro. O Zeca Estevo mandou que o Candinho lhe ensilhasse a besta picaça quatrolha, u'a mula velhaca e arengueira, para dar uma volta pelos arredores. Disseram-lhe que, doente assim, não devia montar naquele inferno de mula: foi tempo perdido, quis porque quis, e fez o que resol­vera. Antes, porém, de montar a cavalo, chamou o José com todo o carinho:
— Venha cá, meu filho, quero-lhe dizer uma coisa.
O José refugava-o desajeitadamente, com os olhos baixos, de respeito e de medo. Não se lhe chegou para o pé:
— Pois antão inté você, meu filho, tá me pondo de banda?
O José custou a responder, mas por último falou com voz sumida e trêmula:
— Diz que vancê tá macotena, nhô pai.
— Era isso mesmo que eu esperava. Ai! meu São Bom Jesus de Pirapora, já não tenho mais ninguém por mim neste mundo! Fique pra lá pró seu canto, José, que eu já não lhe digo mais nada, não tenha susto.
Montou a cavalo:
— Agora falta só as purungas e a baciinha, pra mim cumprir o meu fadário!
Sá Januária chamava-o desesperada. E ele pergun­tou-lhe de repente:
— Eu volto, sim, eu volto: você quer que eu dei li na sua cama? Ah! Não quer, pois antão? O mundo é mesmo ansim!
Recomeçara a chover miudamente, o sol passava frouxo e sem quentura pelas cordinhas d'água, quando o Zeca Estevo bateu a tala nas ancas da mula e disse com voz em que havia uma tristeza infinita e um deses­pero inenarrável:
— Adeus, antão, meu povo dalgum tempo!
Voltou a ventania, primeiro quase mansa, depois furiosa e uivante. E, enquanto ele se sumia na revira­volta do caminho, a chuva engrossava, pouco a pouco, até se fazer outra vez um poder de tempestade.
— ... Ai! meu São Bom Jesus do Pirapora!

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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/23/2019

Truque (Conto), de Valdomiro Silveira



Truque
A candeia lançava sobre os jogadores uma luz amarelada, muito trêmula, e a fumaça, levada para to­dos os lados pelo vento agudo que passava, tinha um cheiro atordoador de mamono ainda verde. Ao redor da mesa de jacarandá, que a velhice deixara bamba e toda negra, viam-se Antônio Cuba e o Venceslau, o Craro e o Chico Prequeté, cada qual mais tupina e mais prosa no truque. O Antônio Cuba, dono da casa, dizia, a cada passo, que até sentia vexame de dar sova tão grande, como ia dar, no Prequeté e no Craro, mas que, enfim, quem entra na chuva é para se molhar. E o Prequeté, seco-na -paçoca para um falseio, roncador que nem cõi-cõi, res­pondia-lhe, muito sério, que quem vai dar leva saco.
Antes de começar a primeira mão, o Cuba gritou à filha, a Ismena (aquilo é que era caboclinha linda!)
— Traga uma luz aqui, minha filha, aquela garra­fa branca! Senão esta gente desconfia duma vez comigo, que nunca mais me deixa estribar!
Veio a pinga, uma pinga zangada, de trazer água aos olhos e um pigarro teimoso à garganta. E, enquanto a Ismena acendia o fogo para o café e a queimada, cor­reu-se a primeira mão. Não houve coisa de maior: o Cra­ro e Prequeté ganharam no empate, com jeito frio, sem uma palavra ao menos.
Mas já na segunda mão principiou o calor, dizendo o Venceslau:
— Ora, o premeiro milho é dos pinto'...
— É dos pinto'? — perguntou o Prequeté. Pode ser também dos galo'!
A vaza foi do Cuba, que matou um três com o sete-ouros.
— Eu sou pé, e não sou qualquer! Agora, aguente o repuxo, parceiro!
Na outra vaza, apareceu logo um dois do Prequeté:
— Eu sou todo seu tou-lhe ajudando já, seu Craro! Mas o Venceslau cortou o dois de golpe:
— Aqui não passa cachorro magro!
O Craro bradou entusiasmado para o Cuba:
— Componha a sua casa, p'ra mim dar uma diligên­cia!
O Cuba, entretanto, prudenciou:
— Bamos embora, Venceslau? Trucar de falso, cha­mar com elas!
O Cuba foi mão.    E enchouriçou o pescoço:
— Vocês já tenham a primeira e a segunda, e tão ganjentos, não é? Pois eu vou acabar c'o seu gaz de re­pente! Lá vou eu, seu Chico, e vou tinindo! Reboco de igreja velha! Esteiro de bexiguento! Espirro de lam­bari! Já tá c'a pacuera batendo?
O Prequeté afastou o banco:
— Ué! tou esperando o baque! Se você tiver corage, e não quiser topar c'a ronda, fale! Bamo Ver quem é que tem mais peito!
— Pois antão truco mesmo!
— Caia!
A carta do Cuba era a espadilha. E o Prequeté er­gueu-se, bateu o chapéu na testa, arrastou os pés no assoalho, fez um barulhão:
— Você já sai coiração-de-negra, e bufa de mão, só p'ra abichornar a gente? Antão é tudo ou nada: 'tava seca a manilha, seo poaia? Ora, vá com seis!
— Agora é lá p'ra diante — disse o Cuba. Eu fui adonde vão os bom, p'r'além não posso! Como é, compa­nheiro, você quer ver os home 'inda mais perto?
O Venceslau afiançou que o Chico era baixo para estourar a espadilha:
— HomÉ, quer saber o que mais? Eu, por mim, chamava.
— Se o meu parceiro chama, eu não deschamo — concluiu o Cuba: derrube essa frieza de carta!
Era uma sota! Mas o Cuba e o Venceslau ficaram meio murchos, porque a sota do Craro era guia de sete-copas no corte passado. E não houve picana, tudo foi na ordem: só se tivesse acontecido algum extravio não se achariam mais juntos aqueles dois perigos! O Venceslau pôs na mesa uma carta branca, a do Prequeté foi um ás vermelho, e entrou precedido de licença. Cuba voltou com um seis, o Venceslau apertou o Prequeté com um dois, o Prequeté desceu um três, o Cuba cortou de zápete.
Houve uma flauta por parte dos contrários: — Aquele três rançou tudo, não, seo Cuba? E com que dor de coiração! Lá se foi tudo quanto Marta fiou! E o zápÉ rompeu sem brado de arma!
O Venceslau, entretanto, afirmou de cabeça levan­tada:
— Antão? Mostraram uma cara deste tamanho, não mostraram?
O primeiro jogo foi do Craro e do Prequeté. E o Cuba fez zombaria:
— Se pinto come primeiro pirÉ pode comer também o premeiro prato! Depois é que vocês vão ver que birimbau não é gaita!
O baralho estava com o Venceslau, que traçou as cartas e o entregou ao Craro. O Craro cortou de soco, mas uma carta desprendeu-se, virou de costa, apresentou à companhia a cara barbuda do rei de paus. E o doador de cartas galhofou às direitas:
— Pingou, perdeu! Inda mais que você buliu certitinho nas veneneira 'toda'! Pode ajuntar a troxa, que aí vem chuva! Eu inté nem quero ver as minhas; a mó' que já 'tou passando a mão no zápe e na sete-ouro', e o par­ceiro na sete-copa' e na espadilha!
O Chico Prequeté bateu um três com força, e ainda andou esfregando pelas mãos do Cuba, que pegou a rir-se:
— Ora venha onte'! Isso não é chuva p'ra quem tem ponche! Arrecolha esse três e jogue coisa que sir­va!
— Você não pode co'êle; 'ta fazendo grandeza à-toa, agora! Se você for gente, pise adiante desse três!
— Olhe que eu piso e piso bem!
— No frigir dos ovos é que se vê a manteiga que sobra.
— À vista dos autos, truco! Adiante e atrás! Diga por que não quer!
O Craro disse de golpe: 
— É bom.
E o Cuba apresentou a espadilha. Mas Craro ficou desacochado, bem se lhe percebeu o encalistramento no modo por que falou ao Venceslau:
— Seis adiante!
O Venceslau arrastou um surrão danado:
— Seu Craro, não se atreva a ponhar cuca num home' sacudido que nem eu. Repare que eu sou pé e não sou de capim! P'r' amor de o desaforo, quero mais três milho: vá com nove!
Mas os tentos eram de ôlhos-de-cabra. O Prequeté mostrou coração alegre:
— Se fosse milho mesmo, «eu chamava de topo, por­que p'ra vocês dois basta o peito, não percisa carta. Mas p'ra fazer pouco causo ansim de nove sementes bonitas como esta, isso eu não faço.
O Venceslau convidou então o Cuba:
— Jogue p'ra mim, parceiro, que essa gentinha não presta.
E apontaram todas as manilhas entre os dois, coisa que fez o Craro andar pelas turinas e armar um perequê medonho:
— Ota, caiçarada ruim! que p'ra jogar com dois são' e sarado' ver eu e o seu Chico tem que fazer potrinha, senão perde na certeza! Vocês não tenham sangue na cara, taperada?
Tudo se acalmou em poucos instantes. O Craro deu as cartas, e o Venceslau não quis cortar o baralho, man­dou apenas queimar três. O Cuba deu de cantar entre dentes a moda do truque:
Zape' matou sete-copa',
menina, falai comigo na horta;
sete-copa'  matou  espadilha,
menina, falai comigo  de dia;
espadilha matou sete-ouro',
menina, os seus olhos parece' besouro':
sete-ouro'  que mata um três,
menina, falai  comigo  outra vez;
um três que mata um dois,
menina, falai comigo  despois:
um  dois  que  mata um  ás,
menina, comigo  não fala mais

O Craro zangou-se por em cheio:
— Quando acabar a cantoria, diga, que é p'ra en­trar em lenda como boi ladrão!
Contraveio-lho, porém, o Venceslau, casquinando uma risada de machucar:
— Apanhar? Que! Qual é o caborjudo que bateu em home's como eu e o Cuba? Na terra! Vocês podem falar, o fazer é que é nove! Eu inté nem quero outra vez olhar as carta': não olho mesmo. Saracura é bicho feio, tem cabelo até no joelho...
E trucou de flor, o Venceslau.
Mas o Prequeté não esteve pêlos autos, achou que era de mais:
— Só se você fez algum maço! Quando não, 'tá frito. Ora bamo, ver c'o que foi que você trucou!
O Venceslau ergue as cartas da mesa, mostrou-as uma por uma: cinco, sete à-toa, valete.
— Parceiro dum anjo! desta vez eu 'tou que de louça nem um pire'! Sou a sua vergonha, desta vez.
O Cuba, entretanto, não quis entregar a rapadura com a palha e tudo:
— Agora deixe correr, que você não 'tá sozinho no mundo! Jogue a pior!
Preparou um pé de três e de zápete, fez o corpo mo­le, aceitou a chamada de seis, ganhou o jogo.
Mas, no desempate da queda, a sorte principiou a declarar-se pelo Prequeté e pelo Craro. Chamavam com qualquer carta, pouco trucavam, iam fazendo um jogo manso e razoável. E cachaça passeava de um lado para outro, numa toada. Quando já tinham nove tentos, o Venceslau fez um escarcéu temeroso:
— Eu gosto que me esquentem premeiro, despois sou destemido mesmo, sou um teba sem rival: vou tru-car nos tentos desses pamonhas. Truco, tapera, quem foge não espera! Eu corro atrás de quem corre!
O Prequeté pôs-lhe medo:
— Não vem não, laranja azeda, que eu te chupo! E o Craro segundou a ameaça:
— Não chega não, cachaça braba, que eu te bebo! Decidiram, porem, fugir:
— Nada!    Nós 'tamos alto'!
Correu em silêncio a outra mão, e a décima inda. Quando o Cuba, já meio tomado, perguntou:
— HomÉ, em que mão estamo?
O Craro respondeu-lhe, pegando no baralho:
— Nas onze, e o baralho na mão do bronze!
Deu cartas, consultou o parceiro, não mandaram. Os outros apenas tinham quatro tentos. E afinal ganha­ram a queda.
Ao romper da segunda queda, que também ganha­ram, o Antênio Cuba exclamou, um tanto passado:
— Eu 'tou sentindo que você 'tá c'ua meia catinga de égua, parceiro. Ou sou eu que 'tou? Isto é a falta da queimada. Ismena, traga aqui a do gengibre, bem quente!
Não lhe deram resposta. Pediu segunda vez a quei­mada, quando ia jogar a terceira queda, e o mesmo si­lêncio continuou no interior da casa. Só então veio um compadre dizer, meio choroso:
— Você não viu a hora em que houve um tropel de cavalo aqui mesmo na porta? Foi o Mane Roxo que rou­bou a Ismena.
Todos ficaram assustados, porque o Cuba era um ca­boclo brigão e sacudido: acercaram-se dele. Mas o Cuba tinha entrado por demais na branca, estava bem afian­çado: levantou-se com os olhos muito arregalados e ver­melhos, jogando o corpo, encanou as cartas, puxou-as até a um lado do peito e gritou furioso:
— Pois já que 'tá tudo perdido mesmo, truco!



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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/21/2019

Última carpa (Conto), de Valdomiro Silveira



Última carpa
O cancã não fugiu do trato: fez, no talhão marcado, as duas primeiras limpas, com trabalho horrível porque a trapoerada e o marmelada estavam altos, o picão florescido, o caruru de semente, e o ora-pronobis com grande viço de fartura e de sombra. O administrador não teve incômodos: antes do romper do sol escutavam-lhe a voz entre as ruas do cafezal, e o anúncio da noite já era bem negro no céu, quando aquela voz cessava.
A tempo e hora, foram feitas as replantas; os cafeeiros aparados tiveram ligeira poda; aos mais velhos foram tiradas as saias; e, por último, o Cancã chegou terra a cada pé, quebrando galhos secos, amassando ramagens e folhas. A não ser a galinhada de sua cria, e algum tizio ou patativo assustado, quando não um bando errante de papagaios curraleiros, não tinha companhia no serviço.
Afizera-se bem à vida solitária: vivia em qualquer rancho de sapé, com a purunga de água e as vasilhas de mantimentos, anos e anos, aturando empreitadas desconformes, pouco se lhe dando das festas que faziam na capela. Agora, como a terra ajudava, teve licença de plantar no café novo, e arranjara um pouco de tudo: feijão e milho, mangarito e abóbora, mandioca e gergelim.
Mão abençoada era aquela! O feijão, que por toda parte andava sofrendo o rigor da seca, e mal embainhara e granara, chocando lamentavelmente, viera-lhe às mil maravilhas, enrodilhara bem, alastrara pelo chão, pesado de vagens cheias; as bonecas do milho davam bom jeito; o mangarito enfeixara-se todo, como um pequenino capão; e até a mandioca vassourinha, que todos diziam ser novata por aqueles cantos, frondejava em rica vitória de força e frescura.
O administrador, que era cabroche enjoado e intiquento, varava horas e horas o olhar para as plantas do Cancã, entusiasmado, chegando a dizer-lhe frases de meia adulação:
— Home! Você tá suparado p’ra temperar um chãozinho! Jugou as sementes e deitou as ramas, e não teve batimento nem um de pacuera, porque tudo rompeu dereito, que foi uma boniteza!
o Cancã tratava de atenuar os gabos, muito modesto:
— Qual nada! Daqui p’ra deante é que é o feio! Um pé de vento pode ainda derrubar o cateto; uma tempestade de muitos dias é capaz de estragar o mulatinho; o gergelim não tá livre de estorar fora do tempo, co’este solão que tem havido; a abób’ra ás vez fica um horror, de aguada...
O administrador apartava-se, contemplava de longe o porte, a verdura do milharal, andava um tanto, voltava-se outra vez, desaparecia para tornar no dia seguinte, menos por tomar fé no estado do talhão que por se entreter com a roça do empreiteiro. O Cancã era um simples, um largado; mas não faltou quem o advertisse:
— Olhe, que o Veríssimo tá aguando p’ro amor de as suas plantas. E fique sabendo que aquilo é um gaudério dos mais piores que Deus ponhou neste mundo: um larifo excumungado, que tem fel no logar onde os outros tenham o coiração!
Para o Cancã, tudo era nada: não lhe passava pela mente que o Veríssimo fosse capaz de cobiçar-lhe as posses, quando tinha de seu, a par com a fazenda do patrão, um sítio encantado, de bom. A inveja é para os fracos; é para os que não acham encosto nem valedouro em ninguém; é para os que muito querem e nada podem... Não atentava nos ditérios e conselhos dos outros parceiros ou camaradas: ia enfiando os dias, calmo e confiante, à espera da quebra do milho e do malhar do feijão, das mais tardias feituras do polvilho azedo e da farinha de beju.
Aproximava-se a lua da última carpa do talhão. O Cancã cuidou do que relevava na própria roça, porque não tivesse de interromper a limpa do café para olhar pelo que era de casa, afiou as enxadas, encabou-as de novo, esperou. Houve uma chuva atrasada, que se prolongou por dias e, depois, calor de fornalha. Parecia levantar-se da terra, às horas mais quentes, fumaça clara com vivos de fogo, que tremia e dava tonturas; os coleirinhos, que de manhã esvoaçavam pela erva em bandos turbulentos, aquietavam-se entre as árvores das capoeiras, cansados e silenciosos: e era tão áspero, na transparência dos ares, o rouquejar dos caranchos, que se imaginava estar ouvindo a cada instante, uma trovoada longínqua.
Certo dia, por volta de uma da tarde, o Cancã teve que abrir mão do eito: doíam-lhe os olhos, um forte peso nas costas o arcava para a frente, sentia frouxas as pernas e os braços bambos. Deu parte da doença ao administrador:
— Seo Veríssimo, vim-lhe dar definição de um causo que me sucede. Hoje eu arreio um tiquinho: tou morrinhento, não sei do que, mas porém me representa que panhei um ramo de influência: preciso de beber um café com limão e suar algum pouco. Vou p’ro rancho.
O outro mostrou-se compadecido:
— Ora já se viu só que infalência tão sem graça, esta agora, quando a gente véve apurada duma vez, por via do patrão que tá chega-não-chega! Não há de ser nada: cuide premeiro do corpo, depois vigie os tratos.
Retirando para o ermo, a um lado do talhão, junto já da capoeira, viu o Cancã que um curiango dos grandes se desmanchou no carreadouro, debatendo as asas longas, e abriu o voo curvo para a escureza de u’a moita de mamoneiros. Entristeceu-se:
— Não mal-agoure um pobre, pass’o triste! Eu não quero bater o trinta e um ainda: tou muito moço, coitado de mim!
Entrou no rancho, ingeriu a xapoeirada, acomodou-se. As ripas da cumiada estreitaram-se, baixaram, entrançadas de sapé muito escuro e muito quente, abafaram no com o peso. Onças irosas miaram pelos arredores. Jaguariaivas malcriados ladraram ao doente, ensurdecendo-o, atormentando-o. Um desconhecido sacou de uma azagaia, com feições ferozes, e ia cravar-lh’a no peito, quando, a romper-lhe o delírio, veio dizer o administrador:
— Antão, como vai essa quitanda? A mó’ que já tá cuo semblante mais sussegado!
O Cancã levantou-se num dos quadris:
— Agora, louvado Deus, tou tendo u’a melhorinha! Aminhã garro cedo no serviço.
Não mancava nem torcia nas promessas: logo ao alvorecer, de feito, achou-se no talhão da empreitada. Mas havia gente a fazer aquela última carpa, e ele admirou-se:
— Como é, seu Veríssimo? Pois este talhão é meu ou não é meu?
O Veríssimo olhou-o de alto, muito sério, duramente:
— Já foi seu: como houve apuro, e você teve sua manha, entreguei p’r’outro.
— E as minhas plantas, seu Veríssimo?
— As plantas do empreteiro que larga o serviço, de quem é que são? São do que manda na terra!
O Cancã fez-se lívido e pegou a tremer. Contem- piou demoradamente, com amor e quase já com saudade, a verdura tenra dos arbustos. Funda tristeza principiou a tremer-lhe o coração e os olhos. Levou-os ao céu, que se ria todo azul e sem nuvens, e, caindo na crueldade do mundo, implorou com humildade de cachorro, que rasteja e lambe os pés do senhor:
— Por tudo quanto é sagrado, patrão, não me tire as minhas plantas! Ao menos me dê licença p’ra mim fazer a colheira: eu acupo só por mais uns dias o rancho, e depois mexo!
Mas o Veríssimo fechou-se no dito. E houve tanta lágrima, e tanta queixa, e tanta importunação, que mais tarde, como já desse de pretejar a barra do céu, e a teima não cessasse, foi preciso chamar uma escolta de seis soldados, que mandou sair aquele vagabundo, desaforado e cabeçudo, para além das porteiras da fazenda...



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Pesquisa, digitalização e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

11/21/2018

Natal no Lourenção (Conto natalino), de Valdomiro Silveira



Natal no Lourenção


Foi debaixo de uma chuvinha persistente e mangueira que o Neca Alves voltou do capoeirão, ao fechar da tarde, carregado de palmas de guaricanga e de folhas de samambaia das miúdas. Um ameaço de sol doirava o fundo do poente, que logo, entretanto, se acinzentou de novo, até que a barra da noite, menos escura, talvez, que as nuvens do alto do céu, se foi alastrando pela costaria verde-negra das montanhas. Urrou, pelas sofraldas, e voz melancólica e pausada das vacas errantes: e de longe lhe respondeu, vingando o morro todo trêmulo das touceiras de jaguara, o bramido áspero de um touro costa d'África.

O Neca era um mestre dos natais daqueles centros. Em três léguas em volta ninguém sabia pôr a mão num presépio nem puxar uma reza como ele. Catava quanta barba-de-velho pendia das árvores heradas, pelos campos-cobertos; quanta folhagem esquisita nascia à beira dos córregos: e até — coisa que fazia piedade! — os ninhos que podia topar, dos sabiás, joão-de-barro e dos tico-ticos indiscretos. Fazia o jirau a um canto do alpendre, armava um empalizado junto deste, compunha e concertava os musgos e as flores a todo o arranjar, lançava ao fundo a manjedoura, e tinha um jeito todo seu de colocar os clássicos animais que viram, logo ao nascer, a linda criancinha de Belém, que foi Nosso Senhor Jesus cristo.

Assim, pendentes sobre a palha seca e aos lados da cumeeira, com os rostos muito risonhos voltados para o berço rústico, os anjos pareciam mandar ao galo que cantasse, ao boi que mugisse e ao carneiro que balasse brandamente, por não estorvarem o sono plácido do filho de Maria Nazarena. E via-se bem que o carneiro e o boi e o galo não tinham vozes agudas, porque mais se ocupavam em olhar para o doce vulto infantil que tinham diante, cercado de flores agrestes, de mangas, de cajubis, de pingos-d'água e de marmelinhos.

Era um verdadeiro mutirão, o preparo do presépio: cada qual dos convidados trazia uma novidade ou uma surpresa, como rosas raras naqueles ermos, jabuticabas atrasadas, galhos vermelhos de café-murta em pencas. A Risoleta, o pancadão do bairro, alva e engraçada como um lírio de ribeirão, trouxera agora um braçado de tábuas e ramalhetes de bariricó ladeados de maravilhas. O Neca, vendo-a entrar assim, admirou-se:

— Tábua, aqui, siá dona? Eu cuidei que isto só dava na minha terra, p'r'as esteiras que a gente vende nas festas e neste rincão só tinha o piri, que p'ra mim é uma planta cansada!

Ela corou ligeiramente; não tanto como as maravilhas que trazia nas mãos, mas decerto muito mais que o namorado, quando lhe disse tais coisas: que o Neca Alves, um tostado de Serra Acima, era quebra e decidido para pensar e dizer... Começou a ajudá-lo, então: e Nosso Senhor, se pudesse ver, acordando de repente e com olhos que entendem, toda flor e toda fruta que lhe foi posta ao lado, teria de estranhar que na terra de sua natureza pudesse haver uvaias e araçás, oficiais-da-sala e sumbaré.

Num certo momento, encontraram-se as mãos de ambos. Era natural, na continuação do trabalho: e, contudo, a dela tremeu de leve, a maneira de uma juruti que a aragem toca, e ele pediu-lhe desculpas, serenamente, como quem sabe que vai ser logo desculpado. Nada mais que isto: e, apesar de ser tão pouco, a Risoleta já não foi mais, de então por diante, o alvo lírio do ribeirão, porque inteirinha se fez rosada como a flor do pessegueiro. Foram chegando os vizinhos: a manjedoura mais ficou sendo um jardim e um mercado de frutas, que manjedoura, onde havia cordas e trapézios em que brincavam crianças, umas viradas para o menino Jesus, outras sungando a outras.

O dono da casa apareceu afinal, rengo e pesado, arrastando pelo chão socado a sua erisipela doida e barulhenta. Quem o viu, triste e entregue no meio de toda a alegria espalhada no alpendre, ficou logo também triste. Mas houve quem procurasse combater a impressão de mágoa que se ia entranhando no povo:

— Ué, seu Caetano, você ‘tá que nem moça da roça, c’uma perna fina e outra grossa?

Ele voltou-se para o caipira alegre, e seus olhos tiveram um grande olhar de comovida renúncia. O caçoísta ficou sério, aproximou-se, pôs-se a examinar o pé inchado do doente, e concluiu, solene como numa conferência:

— E não é que o home 'stá mesmo c'a erzipa das brabas? Mas porém isso não vale nada: atuche-lhe uma banharada de arve-de-lagarto, uns panos molhados em cozimento de erva-lanceta que numa volta de mão 'tá pronto p'ra outra. Exp'rimente só!

Fazia-se estridente a gritaria dos grilos e dos gafanhotos, fora. Viam-se brilhar no céu, muito nítidas como pregadas num veludo já gasto, as maiores estrelas: que as outras, fraquinhas ou desconsoladas, não se animavam a aparecer na profundeza daquela noite de festa. Levantou-se o tempo, mas a horas que os galos principiavam a bater as asas e a cantar, espaçadamente ainda. E como o Neca se pusesse em frente ao presépio, e ajoelhasse, todos ajoelharam também, numa grande agitação de bancos e prucas arrastados, num forte rugir de saias e de calças cheias de goma.

Começou a reza. O Neca era afiado para aquilo, sabiam-no todos: mas, fosse lá como fosse, não tinha a voz tão segura como sempre, distraía-se às vezes, estava um capelão de meia pataca. Engrolou a maior parte da ladainha, resmungou outra parte, liquidou a obrigação tão depressa como pôde, e sentiu no peito um doce alívio, quando, chegando aos últimos versos da cantoria necessária, ouviu no terreiro o estrondar dos tiros de garrucha e de rouqueira. Ergueu-se, avizinhou-se das Três Pessoas, fez uma reverência ao Menino Deus, beijou-o: e saiu.

Já trilavam as violas, roncavam os violões, e uma animosa sanfona fazia ouvir, da cozinha, o seu repertório fanhoso e curto, quando os convidados se chegaram ao presépio e foram deixando esmolas e retirando frutas e flores: que elas são sempre capazes de fazer feliz a quem quer que seja, nas virações da vida... Como fosse aumentando o movimento nas cercanias do presépio, e crescesse também o rumor, surgiu da noite um macho crioulo, pinhão, muito inhato e rabicó, de piques nas orelhas, e pegou a trocá-las ao pé da porta, contemplando extasiadamente o povo, cheio de bichos e de anjos nos negros olhos pasmos.

Pouco durou, porém, aquela contemplação: os guapecas que andavam cercando a mesa, onde já se viam lourejar os quartos de leitão e os franguinhos assados, saltaram ao pobre do burro, senão quando, e ele de novo entrou na noite, a trote seco, zonzo e meio cadeira. Muito tempo ainda se ouviu, de mistura com os primeiros cantados, o ladrar bravio dos cachorros e a tropeada fugitiva: e tudo se afastou, afinal, até se confundir com a barulheira do córrego do Lourenção, que as chuvas recentes tinham engrossado.

Quem tirou o primeiro coreto foi o Caetano, embora estivesse increnco e pesadão desde já muitos dias atrás:

Aos amigos
um brinde é feito:
reina a alegria
em nosso peito.

E a rapaziada cantava deliciadamente o conhecido estribilho:

Grato licor,
Alegre e jocundo,
Que todo este mundo
Desafia a amor.

Uma velha, rodeada de crianças, contava a história do nascimento de Cristo:

— O galo, antão, cantou por este jeito: "Jesus Cristo nasceu!" E a vaca preguntou-lhe: — Adonde? E o carneiro arrespondeu: "Em Belém".

Mas a festa não ia boa: faltava-lhe o Neca Alves, que era todo enlevos e mimos com a Risoleta. Já lhe chamavam puxa-puxa, coisa com que ele dava um cavacão sem altura; já diziam que tijolo e azeite daquele feitio, era desaforo de mais: e houve um senhor muito saído, que, às escondidas dele e dela, os prendera um ao outro a poder de alfinete de fralda.

E a conversa dos dois era esta, por fim:

— Quando eu lhe vi, nhá Risoleta, est'ro dia, na casa do Carmo, de vestido cor de rosa e cravo branco no cabelo, e tive que vir-me embora, já voltei mais seu do que meu: fiquei logo latejando si havia de lhe pedir por minha boca ou mandar soletrar uma carta, si a carta devêra de ser p'ra você ou p'r'o seu pai.

— Tanto faz, seu Neca: a gente querendo, já vê que ninguém pode contra. Eu queria, não é? Já tava meio caminho andado...

— E adonde foi que você me disse que queria, ou ao menos, me deu a entender essa vontade?

— Quem quer bem adivinha pensamento; era da sua intenção que eu saísse anunciando que lhe tinha amor, ver esses piás que carrega tabuleta de circo de cavalinhos?

Apontava a manhã fresca e rubra. O sol mostrou-se com pouco. Houve tremuras de orvalho na grama-seda do piquete, porque ventava rijo. E o macho pinhão, ao longe, encostado à cerca de canjiquinha, dirigia para a casa de morada um olhar muito repassado de tristeza e saudade. Toda prata da grama foi sumindo, envergonhada, porque todo o ouro do sol deu de roda e pelo chão.

— ...E que casamento bonito, não é nhá Risoleta? Bonito e singelo... feito o Menino Jesus...


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Valdomiro Silveira
A Novella Semana, São Paulo, 25 de junho de 1921.