quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O cemitério da floresta (Conto), de Marques de Carvalho


O cemitério da floresta
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Ontem pela tarde o meu espírito confrangeu-se inteiro perante inesperado espetáculo, cuja reminiscência me faz pensar ainda e arrasta-me trêmula a mão, na tarefa de consigná-lo no papel.
Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração sentiu naquele instante de íntimas reflexões magoadas.
Cortada em rápido declive sobre a beira da água, em meio à floresta densa, abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa clareira era um cemitério, um pequeno campo santo solitário e melancólico, — simpático todavia, — salpicado de cruzes toscas e negras!
A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o ouro refulgente do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas. Ninguém parecia atentar nesse triste sítio de repouso, sobre o qual a tripudiante passarada das matas volitava cheia de inconsciência, garridamente estrepitosa e jovial.
Alargava-se o rio ali defronte, muito sossegado, todo brunido das reflexões solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata fundida.
E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemitério e ao fundo, fechando o horizonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia entoar a langorosa monotonia de uma surdina risonha do prazer, sacudida em amplas vibrações de volúpia.
Entretanto, o meu espírito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza empolgou-o forte e minha alma deslizou para as mudas divagações dos sonhos acordados, das reflexões abstratas em que os olhos voltam a força objetiva para o interior e, eliminando o seu poder observador do mundo externo, nada compreendem do que vem, porque só o cérebro trabalha dentro da matéria e o seu meio de ação aniquila-se perante o vigor do espírito.
De quem aqueles despojos materiais ali inumados, longe dos centros de povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos à vaidade dos homens, entregues à terra com toda a simpleza das grandes devoluções pungentes, restituídos à obscuridade do nada para sempre, para sempre furtados à última recordação marmórea que lhes lembrasse o nome na derradeira falsidade dos epitáfios campanudos?
Quantos heróis ignorados se não ocultariam naquele recinto, sob a leve camada de terra às pressas lançada pelos vivos por cima de seus cadáveres meio decompostos?
Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pesar, com o recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas cidades, onde até a inumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido infiel, respirando enfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe o alvedrio, não viria ali mais uma vez insultar com uma dor não sentida a lamentável memória da doce esposa traída, nem a jovem viúva leviana, já com o espírito ocupado por amorosos pensares — adultério póstumo! — apareceria a ostentar o fingimento de uma paixão que não possuía e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piegas ao primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte irônica.
Ali, sim, ao homem honesto e severo, à mulher virtuosa e amante, à inocente criancinha levada ao descanso perenal após breve aparição na terra, grato, gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar alfim, descuidosos na eterna imobilidade dissolvente da última pacificação, — separados de toda a fantasia efêmera e das convenções banais da falaciosa hipocrisia social.
Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um mármore a reproduzir o nome de um ser cuja existência o tempo consumiu, — candeia extinta, apagado fanal do pélago da vida? Recordar o nome de um morto, perpetuá-lo petreamente, é ainda uma forma de insulto, é uma violação que põe o finado na emergência de se lembrarem dele os maus, os pérfidos, aqueles que não o compreenderam em vida e que mais uma vez negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu espírito.
Estais bem aí, desconhecidos heróis do labutar quotidiano, ó mártires das privações no meio dessa esplêndida orgia de verduras amazônicas! Tão bem vos acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemitério escalvado na rápida ribanceira.
A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes à terra na modesta elaboração de um ato naturalíssimo e a vida que fermenta entre as raízes dessas belas e grandes árvores viridantes vai buscar nos vossos cadáveres aquilo que lhe podeis dar: — a cada minuto um átomo de seiva, tirado à tépida fermentação da vossa carne, outrora palpitante, porém banal, agora repousada, mas operadora do benefício que a lei natural do transformismo obriga-vos a prestar-lhe.
Apraz-me sentir que o meu espírito se consolaria quando, após à extinção da minha vida, algum ente querido, depois do último beijo, enterrasse-me o corpo em vossa companhia, ó eternos moradores do cemitério da selva! Julgar-me-ia feliz, com a satisfação e o orgulho deste último capricho realizado.
Teria, como vós, o supremo réquiem dos trilos dos pássaros, do farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes nestas longínquas regiões do Madeira e dos murmurosos beijos do gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, ora envolto no denso veludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas amplas disseminações de prata fundida que o sol por cima dele parece lançar às vezes, quando o céu, sempre misericordioso, não verte sobre vós, lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos prantos pluviais.
Salve, desconhecidos mártires da família amazônica, eternos habitadores do cemitério da floresta!

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