10/07/2017

Irado até à cura... (Conto), de Júlio Diniz


Irado até à cura...

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ampla alcova: no armoire-à-glace refletida como outro vasto cômodo...

Rico mobiliário de pau-cetim com incrustações de jacarandá reluzente...

Um leito de casados, e sobre ele, cadavérico, peles e ossos, despojado de carnes, ventrudo, olhar ansioso, o louro Ormindo, lutando com a morte...

É um erro de diagnóstico, rebelde a enfermidade à medicação despropositada.

Junto do leito, uma banca, e sobre esta, além de um termômetro e de um cronômetro, desenvolta frascaria...

Aos pés da cama, fatigada, sonolenta, às vezes, Doca é heroína na vigília: o seu semblante merencório só consegue alguma graça quando Eloy visita o enfermo.

— A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente... Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu mínguo sem cessar...

— Tem fé em Deus, Ormindo.

— Morrerei com ela, sim. A fé! Ela é o facho iluminador da estrada eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a alma cair no vácuo... Ah! não me conformo, porém... Morrer quando tanto preciso é viver... Vou deixar-te na penúria... a braços, por certo, com os créditos da medicina e da farmácia...

— Tu pensas demais.

— Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a côdea endurecida e atrasada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova. Mas de que servirá a tua mocidade sem pão, os teus verdes anos sem um amparo? És bela. Mas de que prestará a tua lindeza se não tiveres um manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bela... na viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?

— A pobreza é um estímulo, Ormindo: saberei trabalhar a fim de haver com honra um pedaço de pão e alguns côvados de fazendas...

— Não te peço nada, e peço-te muito: não macula o nome de teu marido. A erva reverdece a fronde dos vegetais, aumenta-lhes a copa, enobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porém, até ao durano, as raízes assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A árvore cessa de existir com a trepadeira fitócida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve pensar que o bem-estar não é a honra, e que há tranquilidades mais homicidas do que a erva do passarinho... A desonra não provem da pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A desonra é fruto das transigências de alma, e a mulher viúva é a que pode piormente transigir... Que dores!... Ui!...

— Estás vendo: pioras quando falas!

— Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma sorte grande...

— Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o silêncio como um meio de cura, não sabes tirar partido, poupando forças para momentos mais graves...

— Durarei muito pouco.

— Não podes saber mais do que os médicos.

— Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se avizinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É verdade, pois tenho neste momento a visão mais lúcida dos meus primórdios. Que é isto senão que se vai fechar a circunferência de minha traslação em torno do vácuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se, rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a forma de uma espera, é um globo pequenino de vivos, na luta pela existência. Vai arrebentar, latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca me iludi com a esperança da cura? Iludi-me, mas antes de todos...

— Quem está vivo, Ormindo, ainda não está morto, e toda a cura é plausível.

— A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração senti a formação mortífera do mal circulatório, certifiquei-me estar mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cá, que fiz para denunciar que creio na cura? Ao contrário, a minha vida tem sido a chama de uma vela a lutar com o sopro das auras. Não há um instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade. Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa teimosa em torno de uma lâmpada.

— Agravas-te, Ormindo! Cala a boca por piedade! As tuas palavras são outros tantos punhais que me sangram o coração.

— Que horas serão?

— Já é noite.

— E os médicos que não vieram?

— Vieram, sim. Tu estavas dormindo.

— Os médicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a minha existência...

— Não pesas as tuas palavras, Ormindo.

— Já sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de hoje. Estou condenado a horas.

— Descansa um pouco.

— Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e parece-me que foi ontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um sonho às vezes tem existência mais real, porque nos acompanha do momento da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me o ar...

— Assim queres! Falas tanto...

— Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não há rio que não chegue ao mar. Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rápido, se retas consegue... Quatro anos e parecem quatro horas! Tu talvez não te lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso único com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabelos e te banhou luciferamente as espáduas! Meses depois, o casamento... A noite de núpcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre para acordar novas carícias, para fomentar alegrias... A esperança de um filho... O recuo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo principiava?!...

— Não temas a morte: um cérebro que pensa como o teu dá confiança na renascença da vida.

— A alma não morre, Doca! É ela quem esta vivendo agora. Os pulmões fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz arrasta-se, mas o cérebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos os moribundos não pensam? Iludes-te! É a hora de maior pensamento. Só recompor todo o passado a fim de o ligar ao presente e encerrar o círculo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralíticos, os olhos envidrados e fotografavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem! esse homem assim amortecido, repeliu com o gesto brusco de uma perna o suplício de uma injeção nos últimos instantes... Acaso, não pensaria mais aquele cérebro de tanta vontade? Outros há que conhecem até o segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o adeus de um esposo que aí deixa a companheira sem a certeza de um agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerá mais no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?

— Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança iluminar-me o rosto...

— Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os afetos e vontades, a minha cura?

— Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.

— É bem pouco um desejo!

— Duvidas que todas as minhas forças funcionam só na intenção de possuir-te novamente são?

— Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda há pouco, com a prolongação de minha tortura...

— Aborrecer-me eu!...

— E então?!...

— Tens coragem! Só me representa que gravaras na alma uma eterna desconfiança da amizade de tua esposa...

— Isto não!

— Pois parece, Ormindo!

— Neste caso, escutas-me com agrado?

— Sim.

— Posso falar?

— Não.

— Ah! já sei... É a mesma quizília de que falar é um desperdício de forças orgânicas...

— Diz o doutor...

— Nenhum deles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cérebro conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções animais dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa. Virgem, ela tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma realidade; e viúva, ela é uma alma em que se derramam os mananciais copiosos da luxúria humana... Virgem, foste uma criadora; esposa, uma inspiradora; viúva, serás, em nome da honra de teu marido, uma redentora... Ai!... Doem-me os pulmões... Morrerei, porém, com todas as sensações...

— Não morrerás, Ormindo!

— São os teus votos?

— Duvidas de mim, dos meus afetos, dos meus afagos, do meu amor, inda no instante derradeiro?

— Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.

— Pois então?!...

— Dá-me a tua mão...

— Estás frio!

— É a gelidez da morte... Não tardará... Fazes-me um favor?...

— Se o faço...

— É para depois de minha morte...

— Juro-te.

— Mas, responde franca e precisamente, para que eu não sucumba com uma dúvida...

— Pede o que quiseres... Pede... não!... ordena!

— Estou acabado. Lutou comigo a morte, que, se não me derrubou de vez, vai invadindo-me com o gelo de seu hálito das extremidades para o coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquilidade, que te cases, imediatamente, a fim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o último sacrifício em prol do teu defunto...

— Intranquilizas-me, Ormindo.

— Não há razão para isso.

— Se tu mandas...

— Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?

— Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?

— É isso...

— Pois bem! O que tu propões já estava assentado entre nós outros...

A ira irrompe brutalmente na alma do traído moribundo, que faz um grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do mioma desconhecido, do assassino erro de diagnóstico...

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