sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Lima Barreto, Leon Tolstói e o Ideário Anarquista (Tese)

Zélia Ramona Nolasco dos Santos Freire: “A concepção de arte em Lima Barreto e Leon Tolstói: divergências e convergências”. (Tese de Doutorado - Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista). Assis/SP, 2009.
Lima Barreto, Leon Tolstói e o Ideário Anarquista

A aproximação do escritor Lima Barreto a Leon Tolstói se dá pelo viés da problemática social, principalmente através das ideias libertárias, ideias essas que estão diretamente ligadas à concepção de arte de ambos. Um dos fatos principais que os une é o fato de eles conceberem a literatura como elemento fundamental para a transformação social, pois a manejavam como uma arma afiada contra a sociedade burguesa, principal inimiga do indivíduo, na visão dos autores.

Tanto Leon Tolstói como Lima Barreto são vistos como anarquistas. Conforme Errico Malatesta (1853-1932), pensador e militante anarquista italiano, a palavra Anarquia era, geralmente, entendida no sentido de desordem, confusão; ainda hoje, ela é entendida nesse sentido. A distinção entre a palavra e o conceito se faz primordial para a compreensão.

É importante ressaltar que a palavra Anarquia vem do grego e significa sem governo, estado de um povo que se rege sem autoridade constituída; ela pode “[...] ser usada para expressar a condição negativa de ausência de governo, quanto à condição positiva de não haver governo, por ser ele desnecessário à preservação da ordem” (WOODCOCK, 1983, p. 8).

Assim, anarquia, anarquismo, anarquista são palavras que comportam um sentido denotativo e outro conotativo, sendo necessário recorrer ao contexto em que estão inseridas para determinar-lhes o significado. Errico Malatesta enfatiza que o erro não depende da palavra, mas da coisa em si, e a dificuldade encontrada pelos anarquistas na propaganda não depende do nome que eles se dão, mas do fato de que seu conceito fere todos os preconceitos arraigados que o povo cria da função do governo ou, como se diz, ordinariamente, do Estado (MALATESTA, 2001, p. 14). O anarquismo defende a ideia de que o Estado não só faz mal ao indivíduo, como também é absolutamente desnecessário e, portanto, dispensável. Errico Malatesta diz que tudo que o “[...] governo faz é [...] dominação, e ordenado para defender, aumentar e perpetuar seus próprios privilégios e aqueles da classe da qual é o representante e o defensor” (MALATESTA, 2001, p. 29).

Leon Tolstói e Lima Barreto são anarquistas por professarem essas ideias, podendo ser tachados de “niilistas” e panfletários. Isso, porém, ocorre muito mais no âmbito do discurso do que propriamente da ação. Não se faz necessário enfatizar que, para escritores de atitude, tal qual Leon Tolstói e Lima Barreto, a ação é o próprio discurso. “Niilista” diz-se da pessoa partidário do niilismo, enquanto que “Niilismo” significa a redução a nada; absoluta descrença; sistema que tem partidários na Rússia, que visa à destruição radical da ordem social estabelecida. Já, panfletário, conforme consta no dicionário, significa: adj. Relativo a panfleto; próprio de panfleto; (fig.) que emprega linguagem violenta; s.m. aquele que faz panfletos; panfletista. Neste caso, se refere aos escritores no sentido figurado, isto é, aquele que emprega linguagem violenta. Os atributos que ambos recebem podem refletir-se de modo positivo tanto quanto negativo, o que dependerá do receptor. Caso tenham o Estado, como receptor, ou melhor, os representantes do governo, automaticamente, terão uma recepção que refletirá o sentido negativo.

Lima e Leon Tolstói foram assim classificados devido à disposição desses escritores em combater as instituições que consideravam pervertidas, tais como a literatura, a arte, o jornalismo, a política, a república, a igreja ortodoxa, a burguesia, o Estado e tudo o mais que os desagradasse. Daí a associação de ambos ao ideário anarquista. Enfim, a definição adequada do termo, relacionada à postura dos escritores, sempre oscilou entre: anarquistas, comunistas, socialistas, libertários; embora esses termos estejam interligados, pode-se dizer, então, que “revolucionários” os definiria melhor. Contudo, ressalta-se que nenhum dos dois escritores gostava de ser assim denominado, conforme veremos a seguir.

No que se refere a Lima Barreto, as palavras de Francisco de Assis Barbosa (1952), biógrafo do escritor, embasam tal definição: “É ele o anticonvencional. É o antiacadêmico. É ainda mais do que isso: é o revolucionário” (BARBOSA, 1975, p. 240). Se, por um lado, Lima Barreto se posiciona, praticamente desde o início de sua carreira literária, de maneira anarquista, o mesmo não ocorre com Leon Tolstói. Membro da aristocracia russa proprietária de terras, juntamente com Kropotkin e Bakunin, compunha o trio mais ilustre dos teóricos anarquistas (MAGNONI, 1998, p. 57). Leon Tolstói não se considerava um anarquista, mas um cristão. Anarquistas, para ele, seriam aqueles que procuravam transformar a sociedade utilizando-se da violência. Porém, sua rejeição ao Estado, à propriedade, à violência das leis, e o fato de ser favorável a que os homens dispusessem sobre suas próprias vidas lhes credencia à tradição libertária.

No Brasil, por volta de 1900, emerge uma literatura social, cujo aparecimento coincide com as primeiras greves no Rio de Janeiro. Esses romances e contos de conteúdo social representam, na verdade, a expressão de ideias novas, que vinham da Europa, através de livros franceses e de correntes imigratórias. Entre lavradores e operários, principalmente italianos, desembarcavam, também, os anarquistas, muitos deles já acostumados ao trabalho de agitação política. Exatamente nesse período, conforme nos informa Brito Broca (2004, p. 169), constata-se que “[...] a voga de Tolstói no Brasil conjugou-se com as atividades anarquistas e socialistas aqui verificadas nas duas primeiras décadas do século XX” e, ao contrário do que se esperava, o anarquismo, em sua maior parte, se ateve à literatura. Conforme constatou Antônio Cândido (2000, p. 130), “[...] diferentemente do que sucede em outros países, a literatura tem sido aqui, mais do que filosofia e as ciências humanas, o fenômeno central da vida do espírito” e ainda, a literatura “[...] preencheu a seu modo a lacuna, criando mitos e padrões que serviram para orientar e dar forma ao pensamento” (CANDIDO, 2000, p. 131).

Para Brito Broca (2004), na ficção, o resultado das obras produzidas a la anarquismo ou ainda a la tolstoísmo não foi grande coisa. Nesses moldes, constam: “Regeneração” (1904), de Manuel Curvelo de Mendonça (1870-1914); “A vitória da fome”, de Pausílipo da Fonseca, publicado em folhetim de outubro a dezembro de 1911; “O cravo vermelho” (1907), de Domingos Ribeiro Filho, entre outros. No geral, apresentam uma inspiração libertária e tolstoiana. Ressalta-se que os romances de cunho anarquista, basicamente, constituem-se de três elementos: a descrição de uma sociedade burguesa, a apresentação e crítica das contradições dessa sociedade e a projeção de uma sociedade utópica baseada nos preceitos do ideário anarquista (FENERICK, 1997, p. 7).

Segundo Curvelo de Mendonça, os escritores, a começar por ele mesmo, Fábio Luz, Domingos Ribeiro e Elísio de Carvalho, eram os “discípulos de Tolstói” e seguidores de “Kropótkine”. Ao falar do movimento socialista, no Brasil, no capítulo das influências, cita, desde Jesus de Nazaré a Karl Marx e Kropotkin, passando por Babeuf, Cabot, Fourier, Proudhon, Ruskin e Leon Tolstói. Aos “discípulos de Tolstói” e seguidores de “Kropótkine” se junta o escritor Lima Barreto, pois, ao iniciar-se nesse período nas letras, já demonstra estar a par dessas leituras, pois as cita tanto nas obras de ficção quanto nas crônicas e artigos para os jornais. E elas constam no relatório da Limana, incluindo a Revue des Deux Mondes, Mercure de France ou a “última brochura de Félix Alcan”.

Os escritores Fábio Luz, Domingos Ribeiro Filho e Curvelo de Mendonça, representantes da chamada Literatura útil, de caráter libertário, participaram da criação da revista Floreal, da qual Lima Barreto foi o maior responsável. Como se vê, a aproximação entre esses escritores não é gratuita, ocorre por compartilharem interesses e ideias voltados para o social. Interesses e ideias que estão explícitos na apresentação da revista Floreal:

Não se trata de uma revista de escola, de uma publicação de “clã” ou maloca literária [...]

Não se destina pois a Floreal a trazer a público obras que revelem uma estética novíssima e apurada; ela não traz senão nomes dispostos a dizer abnegadamente as suas opiniões sobre tudo o que interessar a nossa sociedade, guardando as conveniências de quem quer ser respeitado. É uma revista individualista, em que cada um poderá, pelas suas páginas, com a responsabilidade de sua assinatura, manifestar as suas preferências, comunicar as suas intenções, dizer os seus julgamentos, quaisquer que sejam. (BARRETO, 1956, v. XIII, p.181-182).
  
O lançamento da revista Floreal deu-se em 1907, e essa postura crítica, franca e livre, Lima Barreto apresentará tanto na ficção quanto na vida pessoal. “Dizer abnegadamente as suas opiniões sobre tudo o que interessar a nossa sociedade”, “com a responsabilidade de sua assinatura”, “manifestar suas preferências, comunicar as suas intenções, dizer os seus julgamentos, quaisquer que sejam”, estas são regras de compromisso, de seriedade, principalmente, de sinceridade. Apesar da revista Floreal não ter passado da quarta edição, Lima procurou seguir essas regras à risca em seu projeto literário. Embora se expondo e comprometendo-se por defender suas ideias, nem sempre vistas com bons olhos, Lima, ainda assim, resguardava-se, e só depois de ter se aposentado do serviço de amanuense da Secretaria de Guerra é que se sentiria livre para dizer tudo o que queria.

Mesmo assim, não deixou de criar romances notadamente com uma preocupação social. O estigma da cor marca toda a obra de Lima Barreto e, conforme Monteiro Lobato, Lima introduziu, em nossa literatura, a “crítica social, sem doutrinarismos dogmáticos”, o que, de certo modo, aproxima-o da ficção da década de 1930. Ou melhor, Lima adianta em suas obras a preocupação com o social, tema que, somente depois, será retomado pelos romancistas.

Já a adesão de Leon Tolstói ao ideário anarquista, ou melhor, sua revolta contra o Estado, torna-se explícita e toma um caminho sem volta, em 1857, por ocasião de sua estada em Paris, quando assiste, no dia 25 de março, a uma execução pública na guilhotina e, a partir de então, vê o mal que o Estado pratica em nome da ordem. Em carta a V. P. Botkin, escreveu: “Lei do homem - que absurdo! A verdade é que o Estado é uma conspiração designada não só a explorar, mas acima de tudo a corromper seus cidadãos... Eu nunca vou servir qualquer tipo governo em lugar algum” (SHIRER, 1996, p.53). Esse fato perseguiu Leon Tolstói o resto de sua vida. Em suas Confissões, vinte e dois anos mais tarde, o escritor retomou essa recordação e, imbuído de suas preocupações morais, tornou-se mais enfático: “Compreendi, não pela razão, mas por todo o meu ser, que nenhuma teoria sobre a racionalidade da ordem existente e do progresso poderia justificar tal ato” (TOLSTÓI apud ZWEIG, 1967, p. 31). Conforme Stefan Zweig (1967, p. 15): “Do pesquisador nasceu um crente, do crente um profeta, e do profeta ao fanático não há mais do que um passo”.

Constata-se que, de fato, a evolução de Leon Tolstói deu-se de forma gradativa, pois, quando assistiu à execução em Paris, estava com 29 anos. A partir daí, até os 50 anos, época em que, de fato, Leon Tolstói toma consciência do sofrimento da humanidade, ele vive um período feliz com sua família e suas obras. Por volta dos 50 anos, Leon Tolstói passa por uma crise existencial e escreve seu primeiro livro doutrinal, “Minha Confissão”, que é interditado pela censura; e o segundo, “Minha Fé”, pelo Santo Sínodo, o que resulta na excomunhão do escritor. Conforme Zweig (1967, p. 15), “[...] Tolstoi, desde então, dirigiu-se para um caminho que o transforma, irresistivelmente, no inimigo mais resoluto do Estado, no anarquista e no adversário da coletividade mais apaixonado da época contemporânea”. Para Zweig, Leon Tolstói posiciona-se de forma mais contundente que os reformadores Lutero e Calvino, ou ainda, no domínio social, os anarquistas mais audaciosos, como Steiner e os de sua escola. De pesquisador do Evangelho, transforma-se em anarquista radical; se, antes, deixara a Igreja Ortodoxa, agora, abandona moralmente a comunidade do Estado, “o verdadeiro Anticristo” na terra.

A partir de então, destaca-se o Leon Tolstói doutrinário, o profeta de uma nova religião: “o tolstoísmo”, tendo por princípio a “não-violência”. Para Stefan Zweig, o “homem-cristão”, de Leon Tolstói é “O anarquista puro”. Mas como será esse “anarquista puro”?

O que ele pensa e faz? Antes, porém, é necessário recorrer à distinção entre sua revolta religiosa – a de um “cristão puro” – e a atividade dos profissionais da luta de classes, aliás, feita pelo próprio Leon Tolstói.

Quando encontramos revolucionários, pensamos muitas vezes, erradamente, que há pontos de contacto entre eles e nós. Uns e outros, gritamos: abaixo o Estado, abaixo a propriedade individual, abaixo a injustiça e muitas outras coisas. No entanto, uma grande diferença nos separa: para o cristão não existe Estado, enquanto eles querem aniquilar o Estado. Para o cristão todos os homens são iguais, enquanto pretendem destruir a desigualdade. Os revolucionários combatem exteriormente o governo, enquanto o cristianismo não o combate de nenhum modo mas sim destrói os fundamentos do Estado, interiormente. (ZWEIG, 1967, p. 21).

“O homem cristão” de Leon Tolstói e os “revolucionários da luta de classes”, embora tenham os mesmos objetivos – a luta contra o Estado, contra a propriedade individual, contra a injustiça e a desigualdade social –, divergem, devido à forma de ação e reação praticada por eles, ser diferente. A revolução religiosa é bem mais perigosa, porque “destrói os fundamentos do Estado, interiormente”. Para Leon Tolstói, é mais importante a passividade do que a violência coletiva dos revolucionários, pois ele visa uma revolução de almas e não de punhos. Leon Tolstói acredita que, para mudar a ordem do mundo, primeiramente é necessário que os homens se modifiquem a si mesmos.

O “homem cristão” Leon Tolstói, que reflete sobre a importância da arte e escreve “O que é a Arte?” (1898), texto no qual apresenta suas novas ideias e atitudes para com a criação literária, é o grande influenciador de Lima Barreto. É justamente nesse “homem cristão” e em sua concepção de arte que se encontram fortes indícios de aproximação à concepção de arte de Lima Barreto e Leon Tolstói. Ver-se-á, porém, em primeiro lugar, a aproximação que ocorre entre ambos através das ideias libertárias. Isto é, algumas preocupações manifestadas pelo escritor Lima Barreto que fazem parte também das reflexões de Leon Tolstói, “o anarquista puro”.

Lima Barreto, na crônica “Homem ou boi de canga?”, manifesta-se contrário ao serviço militar obrigatório, não aceita que, em nome da defesa da pátria, milhares de homens sejam levados aos campos de batalha a dar tiros uns contra os outros, colocando suas próprias vidas em risco, sem terem a mínima noção do por quê estavam ali. Nessa crônica, narra que, em 1893, aos doze anos de idade, quando do episódio da Revolta da Armada, soube pela boca de seu pai que um dos homens indagara o motivo da contenda entre Floriano Peixoto e Custódio de Mello. Esse acontecimento marcou-o profundamente:

Esse pequeno fato, que podia passar completamente despercebido, feriu-me imensamente naquela fraca idade que eu tinha então. Nunca pude imaginar que um homem arriscasse sua vida sem saber porque, nem para que. Pareceu-me isto estúpido e indigno mesmo da condição de homem. Um ato desses, de jogar a própria existência devia ser perfeitamente refletido e consciente. Ficou-me o fato; e, anos depois, muitos anos mesmo, quando fui ler o formidável – Guerra e Paz de Tolstói, encontrei uma cena, não idêntica, mas do mesmo fundo. Não me recordo bem como é; mas dela se desprende que o soldado nada sabe dos motivos por que combate.

E assim é feita a guerra.

As massas de combatentes, homens simples e sem luzes, em geral, não sabem nitidamente porque dão tiros uns contra os outros.

Às vezes, os seus chefes e diretores conseguem instilar no espírito deles vagos motivos patrióticos... (BARRETO, 1956, v. IX, p. 274).

Desse modo, é impossível fazer a leitura dessa crônica sem recorrer à fonte explícita, no texto: Guerra e Paz, de Leon Tolstói; quem já a conhece sentir-se-á contemplado, e quem não a conhece será induzido à leitura. A crônica de Lima Barreto “dialoga” com a maior obra de Leon Tolstói e, ao reafirmar a relevância do que é posto em questionamento – “a condição de homem” – no texto tolstoiano, demonstra sua visão crítica dos acontecimentos históricos. Ao citar Guerra e Paz, embora dizendo “Não me recordo bem como é”, traz à tona toda a essência do texto tolstoiano que se reatualiza na crônica barretiana na qual enfatiza a condição de homem, a crítica à guerra e à filosofia da história, reflexões caras a Leon Tolstói.

Lima Barreto compartilha de um sentimento precioso ao movimento libertário, que, historicamente, sempre se posicionou contra o militarismo, as guerras e o envio compulsório de cidadãos trabalhadores aos campos de batalha. Tal sentimento está presente em Leon Tolstói, que também se opunha radicalmente ao serviço militar obrigatório. A opinião tolstoiana era a de que os governos garantem que o exército serve, basicamente, para proteger o país do ataque de inimigos externos, mas isso não é verdade. Ele é necessário, antes de qualquer coisa, contra os próprios cidadãos, e todos os homens que prestam serviço militar tornam-se, involuntariamente, cúmplices em atos de violência que o governo inflige aos seus súditos. Para Leon Tolstói, o serviço militar obrigatório é “[...] o último estágio da violência que o governo utiliza para manter íntegra a estrutura do poder e é o limite extremo a que pode chegar a submissão. Ele é a pedra angular do arco que mantém de pé o edifício e sua remoção derrubaria todo o sistema...” (TOLSTÓI apud WOODCOCK, 1981, p. 190-191).

Outro ponto, a aproximar Lima Barreto e Leon Tolstói, ocorre através da Revolução Russa de 1917, pois Lima foi um dos primeiros escritores a se manifestar sobre essa revolução, no Brasil. Sua significação histórica e suas consequências para o mundo inteiro foram abordadas, por Lima, em vários artigos. Enquanto Leon Tolstói, na visão de Stefan Zweig, devido a seu radicalismo intelectual, foi o “[...] precursor, o verdadeiro predecessor da revolução russa” (ZWEIG, 1967, p. 25).

Conforme Astrojildo Pereira, em “No ajuste de contas...”, artigo datado de 1º de maio de 1918, Lima Barreto faz uma espécie de manifesto político, tornando público seu programa revolucionário, no qual “[...] expõe com franqueza as suas idéias e propõe uma série de medidas, que a seu ver viriam resolver os problemas políticos, econômicos e sociais colocados na ordem do dia” (PEREIRA, 1961, p. 15). Questões pertinentes e coerentes com o pensamento de Lima, que, ao se referir a nossa “burguesa finança governamental”, critica-a por aumentar os impostos e cortar o quadro de amanuenses e serventes para equilibrar os orçamentos; chama o presidente à responsabilidade de coibir os arroubos administrativos de cada ministro, alerta para a “pesada massa de impostos” que recai sobre os gêneros de primeira necessidade e, principalmente, recai “sobre a quase totalidade da população brasileira que é de necessitados e pobríssimos”. A crítica à política e ao desenvolvimento econômico de São Paulo vem à tona, pois o escritor observa que ele “é guiado pela seguinte lei: tornar mais ricos, os ricos; e fazer mais pobres, os pobres.” Apesar da crítica aos políticos, procura não generalizá-la, ressaltando que, muitos deles, assim agem por “mero vício de educação”. Como não poderia deixar de fora, refere-se também à “abolição da escravatura negra”, na qual, segundo Lima, ocorreu fenômeno semelhante, pois, embora muitos se dissessem abolicionistas, eram, antes, escravocratas e tinham a propriedade como algo inviolável e sagrado.

Lima, tal qual Leon Tolstói, posiciona-se contra a propriedade, a Igreja e o Estado, observando que os fundamentos da propriedade estavam passando por uma revisão. Para Lima:

A propriedade é social e o indivíduo só pode e deve conservar, para ele, de terras e outros bens tão-somente aquilo que precisar para manter a sua vida e de sua família, devendo todos trabalhar da forma que lhes for mais agradável e o menos possível, em benefício comum. (BARRETO, 1956, v. IX, p. 90).

O escritor critica a atuação do Estado em relação aos “atrozes impostos” que esmagam os que nada têm; manifestando-se, devido a isso, contra a monopolização de terras por parte da Igreja, “meia dúzia de sujeitos espertos e sem escrúpulos”, “em geral fervorosos católicos”; propõe reformas que, a seu ver, seriam a solução: “[...] uma revisão draconiana nas pensões graciosas, uma reforma cataclismática no ensino público, suprimindo o ‘doutor’ [...]; a confiscação de certas fortunas, etc., etc.” (BARRETO, 1956, v. IX, p. 96). Estende sua critica à atuação da Igreja frente à situação da escravidão, pois acreditava que ela não influenciava seus seguidores tanto quanto deveria. Lima sempre se demonstra preocupado em respaldar seus pontos de vista e suas opiniões, citando os teóricos lidos, como forma de dar credibilidade ao que diz e, até mesmo, de auto-afirmação. Nesse mesmo artigo, “No ajuste de contas”, cita Bastiat e sua obra Mélanges d’Économie Politique, “[...] porque foi sua leitura que me fez considerar e analisar melhor certos fatos e não ficar como o grosso do povo preso ‘ao que se vê’, sem procurar a verdadeira explicação no ‘que não se vê’” (BARRETO, 1956, v. IX, p. 91). Enfim, posiciona-se abertamente contra a política, o Estado, a Igreja, para finalmente confessar que sua inspiração para o artigo partiu da Revolução Russa.

Em outro artigo, datado de julho de 1918, intitulado “Vera Zassúlitch”, retoma a Revolução Russa como tema de suas reflexões e demonstra sua avaliação ao dizer que “[...] a Revolução Russa abala, não unicamente os tronos, mas os fundamentos da nossa vilã e ávida sociedade burguesa” (BARRETO, 1956, v. IX, p. 72). Acrescenta, ainda: “Não posso negar a grande simpatia que me merece tal movimento; não posso esconder o desejo que tenho de ver um semelhante aqui, de modo a acabar com essa chusma...” (p. 72). Mais uma vez, ressalta que “Precisamos deixar de panacéias; a época é de medidas radicais” (BARRETO, 1956, v. IX, p. 73). De certa forma, Lima quer reafirmar suas sugestões de reformas manifestadas no artigo citado anteriormente. E continua avaliando os acontecimentos políticos na Rússia: “Não há quem [...], não lobrigue nele uma profunda e original feição social e um alcance de universal interesse humano e de incalculável amplitude sociológica” (p. 73). Nesse mesmo artigo, Lima demonstra-se defensor de Vera Zassúlitch, uma militante russa que, além de ser encarcerada, foi designada como louca: “[...] o que nos interessa, é o caráter dessa mulher, é a sua abnegação, é o seu sacrifício em prol do sofrimento de outrem que ela absolutamente não conhecia” (BARRETO, 1956, v. IX, p. 77). Mais uma vez, Lima demonstra estar a par dos acontecimentos políticos e sociais da Rússia e avalia-os sempre como situação paralela à do Brasil.

Em, “Sobre o maximalismo”, artigo datado de março de 1919, Lima reafirma a defesa da Revolução de Outubro e levanta polêmica com o famoso escriba Azevedo Amaral, editor de O País, órgão conservador e oficioso. A seu ver, Azevedo Amaral era protegido pela fama, até certo ponto merecida, mas que já estava extrapolando, pois falava coisas sobre a revolução russa que não condiziam com os fatos. Questiona e contrapõe-se ao fato de Azevedo Amaral ter chamado Jean Jacques Rousseau de “[...] anarquista, ou que o anarquismo tinha origem na ‘filosofia sentimental e chorosa’ do autor do Contrato Social” (BARRETO, 1956, v. IX, p. 157). Lima Barreto, assim como Leon Tolstói, era admirador e leitor extremado de J. J. Rousseau, ambos nutriam muito mais que admiração pelo escritor, além de professarem a ideia roussoniana de que o homem é bom e quem o corrompe é a sociedade. Esses autores, em suas respectivas obras, fizeram um pacto em prol do homem simples, do povo, como sendo modelo a ser seguido e cultuado. Leon Tolstói chegou, inclusive, a usar um pingente com a foto do mestre, que carregava ao pescoço como um talismã, já Lima Barreto almejava escrever uma grande obra, confissão, essa, feita por intermédio de seu personagem Gonzaga de Sá: “Se eu pudesse, se me fosse dado ter o dom completo de escritor, eu havia de ser assim um Rousseau, ao meu jeito, pregando à massa um ideal de vigor, de violência, de força, de coragem calculada, que lhes corrigisse a bondade e a doçura deprimente” (BARRETO, 2001, p. 615).

Em, “Sobre o maximalismo”, reafirma as quatro medidas sugeridas no artigo “No ajuste de contas”: supressão da dívida externa, confiscação dos bens das ordens religiosas, extinção do direito de testar e estabelecimento do divórcio e reafirma que “[...] todo o mal está no capitalismo, na insensibilidade moral da burguesia, na sua ganância sem freio de espécie alguma, que só vê na vida dinheiro [...]” (BARRETO, 1956, v. IX, p. 163).

Buscou-se, aqui, demonstrar o cruzamento de ideias entre Lima Barreto, Leon Tolstói e o ideário anarquista, concretizada no cruzamento de vozes. A julgar pelo teor de seus escritos, é possível dizer que a firme resolução de ambos de colocar em prática os respectivos desejos e vontades, principalmente a de autoafirmação, independe de fatores externos, e, sim, constitui uma característica imanente dos escritores, pois eles fizeram da literatura uma permanente arma de combate.


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Notas:
  • A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. 
  • As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. 
  • Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. 
  • Disponível em: Domínio Público

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