sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Modernismo de 1922 e o Comunismo (Tese)

Denise Adélia Vieira: “A Literatura, a foice e o martelo”. (Dissertação de Mestrado - Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora). Juiz de Fora/MG, 2004.
O Modernismo de 1922 e o Comunismo

A proximidade entre o PC e o modernismo parece ocorrer somente pela coincidência temporal da fundação do partido com a explosão do modernismo em 1922. Fora isto e alguns itinerários algo conturbados, os desencontros ou um significante silêncio parece habitar o (não) relacionamento.
(Antônio Albino, 1995)

Observa-se que os participantes mais atuantes da Semana Modernista de 22 não privilegiaram a vinculação do movimento a um ideário político. O interesse pelo comunismo ou pelo marxismo foi preterido pela "orgia intelectual". Em 1942, Mário de Andrade (1974, p. 237-238) fez um balanço do movimento, sublinhando o seu caráter "desinteressado":

Durante essa meia-dúzia de anos fomos realmente puros e livres, desinteressados [...] Isolados do mundo ambiente, cercados de repulsa quotidiana, a saúde mental de quase todos nós, nos impedia qualquer cultivo da dor [...] Ninguém pensava em sacrifício, ninguém bancava o incompreendido, nenhum se imaginava precursor nem mártir. 

Escrevendo em plena Segunda Guerra Mundial, em tempos de engajamento do intelectual, Mário revê com lentes críticas o seu abstencionismo e o dos modernistas de 22:

[...] nós, os participantes do período milhormente chamado "modernista", fomos, com algumas exceções nada convincentes, vítimas do nosso prazer da vida e da festança em que nos desvirilizamos. Si tudo mudávamos em nós, uma coisa nos esquecemos de mudar: a atitude interessada diante da vida contemporânea [...] Deveríamos ter inundado a caducidade utilitária do nosso discurso, de maior angústia do tempo, de maior revolta contra a vida como está. Em vez: fomos quebrar vidros de janelas, discutir modas de passeio, ou cutucar os valores eternos, ou saciar nossa curiosidade na cultura. [...] Eu creio que nós, os modernistas da Semana de Arte Moderna, não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição. O homem atravessa uma fase totalmente política da humanidade. [...] Os abstencionismos e os valores eternos podem ficar pra depois. E, apesar da nossa atualidade, da nossa nacionalidade, da nossa universalidade, uma coisa não ajudamos verdadeiramente, duma coisa não participamos: o amilhoramento político-social do homem. E esta é a essência mesma da nossa idade (Ibid., p. 253-255). 

Oswald de Andrade (1992, p. 37) foi outro modernista de 22 que deixou registrada sua crítica ao desengajamento tanto o próprio como o do movimento. Em 1933, já filiado ao PCB, escreve no prefácio de Serafim Ponte Grande:

A situação "revolucionária" desta bosta mental sul-americana, apresentava-se assim; o contrário do burguês não era o proletário - era o boêmio! As massas, ignoradas no território e, como hoje, sob a completa devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais brincando de roda. De vez em quando davam tiros entre rimas. [...] Com pouco dinheiro, mas fora do eixo revolucionário do mundo, ignorando o Manifesto Comunista e não querendo ser burguês, passei naturalmente a ser boêmio.

Sua boemia intelectual e a dos outros modernistas é exemplarmente descrita por Andrade (1974, p. 237-238), em “O Movimento Modernista”:

[...] E eram aquelas fugas desabaladas dentro da noite, na cadillac verde de Oswaldo de Andrade, a meu ver a figura mais característica e dinâmica do movimento, para ir ler as nossas obras-primas em Santos, no Alto da Serra, na Ilha das Palmas... E os encontros à tardinha, em que ficávamos em exposição diante de algum raríssimo admirador, na redação de "Papel e Tinta"... E vivemos uns oito anos, até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história artística do país registra.

Oswald de Andrade (1992, p. 38) também lamentou o fato de que em viagem pela Europa em 1912, "tinha passado por Londres, de barba, sem perceber Karl Marx." Termina o seu mea culpa, criticando o persistente desengajamento de Mário de Andrade, com quem havia rompido, e confirmando a sua "profissão de fé" ao Partido Comunista:

Enquanto os padres, de parceria sacrílega, em São Paulo com o professor Mário de Andrade [...] cantam e entoam, nas últimas novenas repletas do Brasil:
No céu, no céu
Com "sua" mãe estarei!
eu prefiro simplesmente me declarar enojado de tudo. E possuído de uma única vontade. Ser pelo menos, casaca de ferro na Revolução Proletária (Ibid., p. 39).

Mário morreria em 1945 sem jamais ter se filiado ao PCB. Somente mais tarde, em 1933, respondendo a um questionário que lhe foi encaminhado pela editora Macauley and Company, manifestou robustas esperanças no socialismo como idéia. Já Oswald abandonaria o PCB no mesmo ano após uma militância apaixonada em prol dos ideais comunistas.


Os intelectuais e o comunismo na década de 1930

LEITURAS

Procurei aqui em São Paulo, alguns livros de Marx, como O Capital e não pude encontrar. Ninguém nas livrarias sabia o que era isso. O Brasil nesse sentido estava longe do resto do mundo. Importei os livros da Europa e comecei a ler (Caio Prado Junior, 1991)

No final da década de 20, no Brasil, ocorre a tomada de consciência ideológica de intelectuais e artistas então seduzidos para a política e para o PCB. O crescimento da imprensa comunista atuante desde 1922, contribui para essa conversão.

Publicações fazem-se notar, tal como a da revista Movimento Comunista, que surge como um eficiente meio de propaganda e difusão do comunismo. A edição de livros no Brasil noticiada pela revista e sinaliza o esforço de alterar o quadro de quase inexistência de literatura comunista entre nós. Mesmo após a Revolução de 30, a situação não muda muito no que se refere aos livros de Marx. Mas sabe-se que Os princípios do comunismo, de Engels, e ABC do comunismo, de Bukharin, são dois livros que têm grande influência nesses anos.

A década de 30, portanto, apesar de se iniciar sob o signo de forte repressão ao PCB, vai aos poucos desenvolvendo um clima cultural propício à divulgação de livros comunistas e de textos sobre a União Soviética. Nessa altura, começam a ser discutidas as noções de "luta de classes", "espoliação", "mais-valia", "moral burguesa", "proletariado".

O comunismo se faz notar nos textos de vários ensaístas, sociólogos e, especialmente, de ficcionistas que se deixam contagiar pelas idéias revolucionárias. Forma-se então um relativo público leitor e um mercado de livros e periódicos no país. Na revista, Boletim de Ariel, a partir de 1930, registram-se importantes debates político-culturais, como aquele centrado no socialismo soviético e o que se volta para a literatura proletária.

O comunismo veio a ser finalmente divulgado entre os intelectuais brasileiros, ainda que Marx permanecesse quase um desconhecido, tal como confessa Jorge Amado, em entrevista a Raillard (1990, p. 74): "Eu nunca lera Marx, não sei se muitos dentre nós o leram [...] mas a maioria dos líderes do PC sem dúvida jamais o leu."

FILIAÇÃO

Das leituras, alguns intelectuais passaram de fato à filiação ao PCB. Se no resto do Ocidente este engajamento já estava se dando desde a Revolução Russa de 1917, no Brasil foi sobretudo a partir da Revolução de 1930 que ocorreram efetivas adesões ao partido. A Revolução de 17 certamente sensibilizou os intelectuais brasileiros; contudo, o ano de 30 foi notoriamente o marco para que o comunismo ascendesse nos debates nacionais.

OBREIRISMO

As adesões de intelectuais ao PCB acontecem no momento em que o Partido se "bolcheviza", submetendo-se mais rigidamente às ordens e regras da III Internacional Comunista.

Desde fins de 1929 até meados de 1934, o PCB empreendeu o programa de proletarização do Partido que desembocou no obreirismo, uma versão que incitou "desprezo" pelos aliados de classe. Seguiu-se o afastamento dos militantes intelectuais que ocupavam postos de direção, os quais passaram a ser ocupados por militantes de origem proletária.

Esta política se caracterizou pela valorização do modo de vida proletário, em detrimento do intelectualismo burguês, apontado então como responsável pelo imobilismo do Partido. Aqueles militantes de origem intelectual que pretendessem continuar nas fileiras do Partido deveriam experimentar o modus vivendi do trabalhador e exaltar as virtudes proletárias. O programa testaria assim as escolhas partidárias dos intelectuais.

Ao centrar as suas propostas em torno da proletarização, o PCB pretendia uma revisão das funções assumidas pelos intelectuais até então representantes da burguesia. O intelectual que desejasse ingressar no PCB tinha de passar por vários testes para mostrar que poderia fazer parte do proletariado, provando assim afinidades com esta classe.

Além disso, "travestido" de operário, o intelectual poderia transmitir nos seus escritos, de modo mais "verdadeiro", as experiências adquiridas com o mundo do trabalho. Defendendo o obreirismo, Amado (1946, p. 11) afirma:

Indomável partido do proletariado! E dos sábios e dos escritores! Onde iríamos nós caber, pôr acaso, senão dentro deste partido que é do povo? Só nas fileiras poderemos fortalecer, ao contato com o proletariado e o povo, a nossa capacidade de criação artística e científica.
  
Contudo, dado o peso excessivo de obrigações impostas aos militantes, foram muitos os que não acolheram o obreirismo, em sua prática, com o entusiasmo de Amado, ainda que acolhessem o "proletariado" como tema em seus escritos.



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Notas:
  • A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. 
  • As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. 
  • Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. 
  • Disponível em: Domínio Público

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