quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mortos não deixam gorjeta (Conto), de Salomão Rovedo


Mortos não deixam gorjeta

“Os segredos também são gente: nascem, vivem e morrem”, disse Armando encerrando uma conversa a que foi chamado. Diariamente às 11 horas da manhã ele chegava de braços dados com dona Yzolina, se despediam com uma troca de beijos, ela seguia por mais um quarteirão até a igreja de Nossa Senhora Aparecida, Armando ficava parado mais um momento olhando a mulher se afastar, atravessar o sinal de pedestre do cruzamento, subir a escadaria, até sumir lá dentro da igreja – e só então ele entrava no bar.

Por duas razões coisas Armando conquistou a deferência se ser recebido sempre por Zezinho, gerente e filho do dono da casa. Primeiro porque conheceu seu pai – com quem ficava horas e horas conversando – que retornou a Trás-os-Montes após anos e anos de trabalho ali, quando o restaurante ainda se chamava Adega dos Solitários. Segundo porque só bebia um tipo de cerveja, a preta de alta fermentação, em fase de desaparecimento, que Zezinho, por tradição herdada do pai, comprava especialmente por causa daquele consumidor. Ainda existe gente assim...

Armando sentava-se, desdobrava o jornal para ler enquanto esperava ser servido da cerveja preferida, em tulipa que exigia gelada. Servia-se deixando pelo menos dois dedos de espuma, olhava o borbulhar através da cevada queimada e enfim bebia. Em média consumia uma ou duas garrafas da cerveja preta, dependendo da disposição física... e do calor lá fora. Bebericava a cerveja com prazer e só desviava a atenção do jornal para cumprimentar um, receber abraço de outro, um bom dia, outro até logo. O Bar e Restaurante Ponte da Barca – nome novo que ganhou após a reforma – era normalmente frequentado por gente por demais conhecida, do bairro, portanto não havia ninguém que desrespeitasse aquele ritual extremamente particular.

Ele de jeito e feições era simples, parecia estar sempre sorrindo, o que leva todos se aproximar com muita facilidade, certos de serem bem recebidos.

Chegavam também a sorrir, como se fosse um cartão de apresentação: parecia pecado chegar até Armando de cara amarrada. Quando se resolvia era de receber bem, largar o jornal, de dar toda atenção a quem se chegava. Outras vezes o jornal caía-lhe ao colo grudado à mão – Armando tinha alguns rasgos de cochilo. De qualquer forma, não obstante a idade que o separava da maioria dos frequentadores, foi assim que se fez benquisto, era alguém da turma. Quando se dispunha a sair o sinal era deixar uma nota de um real sobre a mesa como gorjeta: logo vinha a conta

De dona Yzolina se dizia erroneamente que era carola devota por demais. Longe disso. Casaram-se sabendo que Armando era ateu e nem por isso deixou de frequentar a igreja, as atividades sociais promovidas pela paróquia, de acender para os espíritos velinhas num pires com água todas as segundas-feiras. E mais: nas raras ocasiões que ela era convidada a participar de atividade que exigisse a presença do casal, lá ia Armando de braços dados, comportado, molhando os beiços de saudade da cervejinha preta cujo sabor só iria degustar algumas horas depois. De passagem pelo bar dava uma olhada de soslaio, imperceptível.

Para Armando, frequentar a igreja era um sofrimento moral. Ver as pessoas piedosamente devotadas, absortas numa oração na qual tinham fé de resolver algum problema, era apenas um dos motivos pelos quais renegava a religião. É verdade que tinham esperança, mas quantas não foram desperdiçadas caminhando entre o desespero, a fé e a desilusão? A relação religiosa com a mulher passava por tais conversas íntimas, mas nunca Amando pensou ou mesmo sugeriu que ela abandonasse a devoção. Quando muito é certo que um e outro imaginasse trazer a ovelha desgarrada para seu rebanho.

Se não conseguiam, porém, não era motivo para revoluções.

– Yzolina – dizia ele sem elevar a voz – contadas todas as horas de agonia que aquela gente de fé esbalda nas igrejas e altares, quantos milênios se somam? Quanto tempo e energia perdem ali, quando deveriam estar economizando forças para enfrentar as dificuldades, tanto as naturais quanto as que os governos impõem? A fé é ilusória como um feitiço, fé enganadora como a alegoria do carnaval. 

– No entanto – Yzolina não deixava por menos – justamente por isso, quem é capaz de nos convencer do contrário? Onde estão as provas de que a fé é vazia assim como você diz? Por outro lado, são inúmeras as fórmulas de felicidade, milhares as respostas positivas. Livros e mais livros de testemunho histórico, santos e mais santos se fazem pelos milagres antes mesmo de serem canonizados. Graças são alcançadas a cada minuto. Para você não tem explicação, mas para quem tem fé o milagre é uma fotografia. 

Bem que ele lutava por conseguir espaço, mas enfim entregava os pontos. Contra aquela cabeça, já santificada pelo tempo, nada podia. Na realidade o ateísmo de Armando nada tinha de político ou filosófico, por mais que se esforçava por mantê-lo nesse nível. Para alguns nem era ateu e sim agnóstico, desses que preferem não se meter na vida de Deus nem contestar-lhe a onipresença e eternidade. Achava simplesmente que a vida começava e acabava aqui mesmo e com esse pensamento simplista buscava viver uma vida pacata, sem apoiar maldades, contrária às guerras e revoluções, mesmo que estas se limitassem ao bairro em que morava ou na vizinhança suburbana que optara por levar a vida. Por essa e por outras com certo orgulho dona

Yzolina sentenciava às amigas:

– Ele diz que é ateu, mas conheço bem esse tipo de ateu que carrega na alma e no coração toneladas de bondade cristã. É um santo e não sabe! Um dia uma chama se acende e finalmente entrega a alma a Cristo. É ter paciência...

Então era assim mesmo. Como que para corroborar o que ela dizia, o falso ateu Armando quando tinha de ir à igreja comportava-se exemplarmente. Não se via nele nenhum cenho franzido, não faltava aos presentes um sorriso, nem um abraço ou uma palavra ainda que fosse das mais curtas. Cumprimentava todos aqueles que a mulher apresentava, alguns já conhecidos de outras ocasiões, quando reconhecia algum parceiro de bar esvaziando a despensa da alma de alguns pecadinhos. No íntimo divertia-se com a liturgia, pensando filosoficamente o quanto os homens eram ingênuos em acreditar em fatos tão irreais quanto fadas e gnomos de floresta. Fora isso, apreciava a arte sacra: os vitrais cuja mágica iluminação provocava efeitos impressionantes, quando varados pelos raios do sol da manhã; as pinturas imitando quadros renascentistas; as imagens de gesso tipo barroco; o canto gregoriano.

Mas esse era um momento raro. A sua igreja era a mesa do bar, onde ele se sentava e tinha prazer de estar sozinho. Pela popularidade, porém, em seu redor nenhum espaço ficava vazio por muito tempo. Tinha sempre alguém querendo saber alguma coisa, tirar uma dúvida, esclarecer quem tinha razão numa discussão. E lá ia Armando deslindar a história de modo tal que havia de dar razão a um sem tirar a do outro: por instinto era de agir diplomaticamente. Não tendo o pecado daqueles que matam e morrem por uma opinião, propagava, principalmente nos mais jovens, que estimulassem entre si a dissensão, a dúvida, o contraste, a rebeldia. Para dar ênfase, repetia a frase de Nélson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra.”

Quando concluía uma questão jamais chamava para si o mérito, preferia creditá-lo a outrem mais famoso e assim costumava encerrar as discussões, o conselho ou o que quer que fosse fazendo uma citação qualquer tirada sabe-se lá de onde. Se o debate perdia o rumo e saía do senso, taí uma coisa que o deixava aborrecido a ponto de estragar o dia. Intervia imediatamente: – Êpa!

Calma, calma. Na minha mesa não. Encerrava de imediato o entrevero lançando o ditado que aprendeu dos pais: – Não brigam dois quando um não quer. E se dois não querem não briga nenhum. Assim mantinha o respeito, delimitava as fronteiras da intimidade. Talvez se devesse a coisas assim o fato de ser conceituado até pelos que dele discordavam.

Lá pelas tantas, que podia ser duas ou três horas mais tardar, dependendo das atividades de dona Yzolina, que não se limitava a assistir à missa, mas também participar das reuniões comunitárias, Armando pagava a conta, levantava e se dirigia à porta onde, por questão de segundos, como se tivessem ensaiado a cena durante muitos anos, receberia de novo a esposa no braço e seguia para casa. Era um movimento tão cronometrado que ninguém reparava quando acontecia. Somente então os últimos frequentadores do bar acostumariam seus olhares com o lugar vazio, a nota de um real deixada à mesa.

Das coisas que ninguém sabia eram as particularidades da vida de Armando. Homem de uma só namorada, uma noiva única, um só casamento, o casal não tinha filhos. Que era aposentado todos sabiam, mas a verdade guardada a quatro chaves é que Armando era realmente reformado e não aposentado. A existência na caserna foi apartada da sua vida exatamente no dia em que saiu a publicação de que estava reformado como coronel paraquedista. Iria para a reserva com patente de general se não tivesse se manifestado abertamente contra a quartelada de 1º de abril de 1964. Por isso, quando se mudou da casa da Vila Militar para um apartamento no Cachambi, Armando trouxe diplomas e medalhas, mas lá deixou a farda e a memória.

A única lembrança, da qual não se conseguia apartar, era um pé de movimentos tolhidos, resultado de uma fratura num salto em que o paraquedas se enroscou e ele teve de recorrer ao reserva. O demais morreu enterrado numa pasta que guardava recortes de jornais, revistas, fotografias que contavam aquele fato desde o dia em que foi para os Estados Unidos participando da Segunda turma de voluntários para apreender os mistérios do paraquedismo mais moderno e trazê-los para o Brasil. Na volta seria já oficial paraquedista e ministraria cursos para formar o primeiro batalhão de paraquedistas do exército brasileiro.

Fora isso não tinha segredos e primava em fazer da aposentadoria um prazeroso pôr de sol. Além das obrigações normais que lhe eram impostas por Yzolina, somente outro motivo era capaz de interromper o estado luminoso que Armando encontrava diante da tulipa de cerveja preta: era quando algum jovem vinha tirar uma dúvida insanável, um ponto de discussão. Ali estava em seu elemento. De caladão tornava-se falador, sem altercar a voz. Como o sabiam leitor de vastos conhecimentos, julgavam que ninguém além do Armando poderia encontrar a solução, a busca resultante de um problema histórico cujas raízes somente o saber multifacético de que era possuído poderia estilingar. Não aceitava, porém, discutir política nem religião:

– Imagine este governo. Quem mais poderia governar sabiamente do que um sociólogo poliglota, pós-graduado na Sorbonne e em Yale? Mas, para decepção da intelectualidade contemporânea, a mesma que com ele foi exilada, que se sentou nos mesmos bancos e defendiam as mesmas ideias, não, à primeira citação de uma obra sua declarou peremptoriamente:

“Esqueçam o que escrevi. Esqueçam o que falei... ” E ao se comprometer a levar o país à modernidade, danou-se a vender todo o patrimônio nacional cujo lucro era parte do orçamento do país. Depois de dois mandatos tem a coragem de vir a público dizer que o governo não fabrica dinheiro, o governo vive de imposto. E tome a sobrecarregar a população mais carente – porque só pobre paga imposto – com taxas e mais taxas, impostos e mais impostos. Arre! Por isso não me fale em política nem em religião.

Tinha mais prazer de enveredar pelos caminhos da história e buscar atender os clamores de conhecimento da juventude. Nessas ocasiões nem mesmo a presença imponente de dona Yzolina – e ela sabia disso – era suficientemente poderosa para interromper a sequência de pensamentos que caminhavam no rumo da solução da ciência que lhe havia sido proposta, minimizadas todas as dificuldades, desmistificados todos os senões, até que finalmente não sobrassem nenhumas dúvidas. Ou assim ou dizia logo que desconhecia a matéria – Pé de jaca não dá maçã, decretava – isso não sei e ponto final. Os rapazes, é claro, gostavam dessas altercações entre um copo de cerveja e outro, mas algumas vezes achavam Armando muito do passado e riam dissimuladamente quando os rasgos e a euforia tomavam conta da discussão, levando o tema a idades que nenhum deles conhecia.

– De religião, como disse, também não falo, nada. Vocês são conscientes e não podem deixar de perceber a história: durante todo o governo militar que assolou nosso país por mais de uma geração a Igreja se omitiu totalmente. O nosso último Arcebispo, já colocado aqui sob pressão dos militares junto à cúria romana – o direito de ser indicado seria de dom Hélder Câmara – além de calar-se ante a prisão ilegal de vários oposicionistas (prisão, em seguida tortura e morte), abandonou de vez os pobres e marginalizados. As favelas multiplicaram-se, a distância entre ricos e miseráveis aumentou. Enfim, calou-se também ao apoiar a eleição e reeleição de um presidente declaradamente ateu. Não que eu tenha nada contra esse fato, mas ele, sim, por dogma é obrigado a opor-se. Mas sobre religião não falo e pronto.

Desse casamento, assim ao mesmo tempo unido e separado dogmaticamente, formava de dona Yzolina e Armando um par simples, harmonioso, dedicado às causas comuns, por isso mesmo eram queridos e admirados, muitas vezes consultados para ajudar a resolver querelas domésticas, que incluíam desde desavença de casal até problemas de filhos envolvidos com bandidagem, consumo de drogas, dificuldade financeira, tudo enfim. Absorvidos por essas questões cotidianas se deixavam levar pelo ânimo, pela disposição incontrolável de chegar a uma solução para todos os problemas que fossem trazidos. Nada deixavam sem resolver, nenhuma pergunta sem resposta: os raros casos de abandono aconteceram por absoluta impossibilidade de avançar num terreno onde somente a própria pessoa pode e deve caminhar, sem a respeitosa interferência de quem quer que seja.

Seja como for, o fato é que estranharam a ausência de Armando por quase uma semana. Algo havia acontecido e procuraram saber. Antes que descobrissem, num Domingo desses lá chegou Armando à porta do bar. Chegou só. Antes de entrar parou um momento e ficou olhando a calçada vazia, como se visse a mulher se afastar, parar no sinal de pedestre, atravessar o cruzamento, subir as escadas e desaparecer no interior da igreja. Depois dessa pausa misteriosa, quando então ele resolveu entrar no bar e sentar-se, todos adivinharam o que tinha acontecido: Armando agora estava só, perdeu o braço de apoio.

Ninguém falou disso, é hora em que a notícia tem de chegar sozinha, com o tempo certo, pausadamente, mas quem o via ali sentado tomando cerveja preta com o ar absorto, não duvidaria do que se passou. Fora isso, Armando manteve a rotina, chegar, sentar ler o jornal e conversar com todos.

Retomou o charuto que lhe foi proibido por Yzolina nos tempos de namoro, agora se demorava mais, passou para quatro cervejas, almoçava frugalmente e só saía quando o bar fechava as portas. Um novo ritual criou-se: aqueles que ele costumava deixar ali ainda em conversa animada agora saíam antes dele. Muitos se despediam outros só acenavam, algum que tinha bebido um pouco demais ousava sentar-se e contar alguma mágoa. A mesa solitária, que habitualmente se esvaziava primeiro, agora era a última a ser desocupada. A cédula de um real debaixo da tulipa.

E foi assim. Neste último dia de domingo todos acabaram as discussões de fim de semana, contaram as últimas piadas e comemoraram as decisões que o governo sempre toma a favor dos mais ricos com um copo de cerveja.

Não deixaram de cumprir o ritual de ir a Armando fazer uma ou duas perguntas, tirar uma dúvida ou dar um tapinha nas costas que fosse. Ultimamente até se lembravam de trazer-lhe um charuto e houve quem, com orgulho, transferisse a ele um legítimo Havana ganho de presente. Os empregados passavam e comentavam alguma coisa, geralmente lamentos, queixas. Armando dava também uma palavrinha: “Não é motivo para que perca a vontade de vencer. Esperança, esperança, a esperança é a meninice do mundo”...

O garçom que o servia só para não passar o encontro em branco e para dizer alguma coisa falou das dificuldades da vida, casado com um par de filhos pequenos, difícil de sustentar, alimentos, escolas... Estranhou que Armando não sentenciasse a lamentação com uma frase bonita, mas ele pensou, só para consigo, um murmúrio interno: “Tudo é viver, tudo é vida... e sair deste mundo o mais tarde que se puder.”

Estava a manhã chuvosa e o restaurante sem a frequência habitual, pequeno de gente, sem o burburinho comum. Nesse dia Armando ainda chegou a pedir a terceira cerveja preta. Servida, ficou ali a tulipa de repouso, esquentando, perdendo a espuma, o charuto deitado no cinzeiro soltando a fumaça azul no rumo do teto.

De repente Armando sentiu umas flutuações estranhas no peito e desentranhou aquele silêncio que se fez repentino sem nenhum gesto. Será que todos já se foram? – perguntou para si mesmo. Ainda recordou a frase que não disse: “...viver a vida e sair deste mundo o mais tarde que puder.”

Lamentou que Yzolina estivesse demorando tanto. Sentiu um sono cansado, fechou os olhos, arriou a cabeça. Os garçons limpavam os pratos, secavam as tulipas, outros colocavam as cadeiras sobre as mesas para limpar o chão.


---
Fonte:
Salomão Rovedo: O Sonhador. Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016. (Imagem: Páginas pessoal do autor)

Nenhum comentário:

Postar um comentário