sábado, 14 de outubro de 2017

Notas biográficas do novo Deputado (Conto), de Alcântara Machado


Notas biográficas do novo Deputado
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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O coronel recusou a sopa.

— Que é isso, Juca? Está doente?
O coronel coçou o queixo. Revirou os olhos. Quebrou um palito. Deu um estalo com a língua.
— Que é que você tem, homem de Deus?
O coronel não disse nada. Tirou uma carta do bolso de dentro. Pôs os óculos. Começou a ler:
Excelentíssimo senhor coronel Juca.
— De quem é?
— Do administrador da Santa Inácia.
— Já sei. Geada?
— Escute. Excelentíssimo senhor coronel Juca. Respeitosas Saudações. Em primeiro lugar Saúdo-vos. V. Ecia. e D. Nequinha. Coronel venho por meio desta respeitosamente comunicar para vossa excelência que o cafezal novo agradeceu bastante as chuvarada desta semana. E tal e tal e tal. Me acho doente diversos incômodos divido o serviço.
— Coitado.
— Mas não é isso. O major Domingo Netto mandou buscar a vacca... Ó senhor! Não acho...
— Na outra página, Juca.
— Está aqui. Vá escutando. Em último lugar, vos communico que o seu comprade João Intaliano morreu...
— Meu Deus, não diga?!
—...morreu segunda que passou de uma anemia nos rim. Por esses motivos recolhi em casa o vosso afilhado e orpham Gennarinho. Pesso para V.E. que me mande dizer o distino e tal. E agora, mulher?
Dona Nequinha suspirou. Bebeu um gole de água. Mandou levar a sopa.
— E então?
Dona Nequinha passou a língua nos lábios. Levantou a tampa da farinheira. Arranjou o virote.
— E então? Que é que eu respondo?
Dona Nequinha pensou. Pensou. Pensou. E depois:
— Vamos pensar bem primeiro, Juca. Não coma o torresmo que faz mal. Amanhã você responde. E deixe-se de extravagâncias.
Gennarinho desceu na estação da Sorocabana com o nariz escorrendo. Todo chibante. De chapéu vermelho. Bengalinha na mão. Rebocado pelo filho mais velho do administrador. E com uma carta para o Coronel J. Peixoto de Faria.
Tomou o coche Hudson que estava à sua espera.
Veio desde a estação até a Avenida Higienópolis com a cabeça para fora do automóvel soltando cusparadas. Apertou o dedo no portão. Disse uma palavra feia. Subiu as escadas berrando.
— Tire o chapéu.
Tirou.
— Diga boa noite.
Disse.
— Beije a mão dos padrinhos.
Beijou.
— Limpe o nariz.
Limpou com o chapéu.
— Pronto, Nhãzinha. A telefonista cortou. Chegou anteontem. Espertinho como ele só. Nem você imagina. Tem nove anos. É sim. Crescidinho. Juca ficou com dó dele. Pois é. Coitadinho. Imagine. Pois é. Faz de conta que é um filho. Já estou querendo bem mesmo. Gennarinho. O quê? É sim. Nome meio esquisito. Também acho. O Juca está que não pode mais de satisfeito. Ele que sempre desejou ter tanto um filho, não é? Pois então. Nasceu no Brás. O pai era não sei o quê. Estava na fazenda há cinco anos já. Bom, Nhãzinha. O Juca está me chamando. Beijos na Marianinha. Obrigada. O mesmo. Até amanhã. Ah! Ah! Ah Imagine! Nesta idade!... Até amanhã, Nhãzinha. Que é que você queria, Juca?
— Agora é tarde. Você não sabe o que perdeu.
— O Gennarinho, é?
— Diabinho de menino! Querendo a toda força levantar a saia da Atsué.
— Mas isso não está direito, Juca. Vou já e já...
— É. Direito não está mesmo. Mas é engraçado.
-...dar uns tapas nele.
— Não faça isso, ora essa! Dar à toa no menino!
— Não é à toa, Juca.
— Bom. Então dê. Olhe aqui: eu mesmo dou, sabe? Eu tenho mais jeito.
Um dia na mesa o coronel implicou:
— Esse negócio de Gennarinho não está certo. Gennarinho não é nome de gente. Você agora passa a se chamar Januário que é a tradução. Eu já indaguei. Ouviu? Eta menino impossível! Sente-se já aí direito! Você passa a se chamar Januário. Ouviu?
— Ouvi.
— Não é assim que se responde. Diga sem se mexer na cadeira: Ouvi, sim senhor.
— Ouvi, sim senhor coronel!
Dona Nequinha riu como uma perdida. Da resposta e da continência.
Uma noite na cama Dona Nequinha perguntou:
— Juca: você já pensou no futuro do menino?
O coronel estava dorme não dorme. Respondeu bocejando:
— Já-á-á!...
— Que é que você resolveu?
O coronel levou um susto.
— O quê? Resolveu o quê?
— O futuro do menino, homem de Deus!
— Ahn!...
— Responda.
O coronel coçou primeiro o pescoço.
— Para falar a verdade, Nequinha, ainda não resolvi nada.
O suspiro desanimado da consorte foi um protesto contra tamanha indecisão.
— Mas você não há de querer que ele cresça um vagabundo, eu espero.
— Pois está visto que não quero.
Aproveitando o silêncio o despertador bateu mais forte no criado-mudo. Dona Nequinha ajeitou o travesseiro. São José dentro de sua redoma espiou o voo de dois pernilongos.
— Eu acho que... Apague a luz que está me incomodando.
— Pronto. Acho o quê?
— Eu acho que a primeira coisa que se deve fazer é meter o menino num colégio.
— Num colégio de padres.
— É.
— Eu sou católica. Você também é. O Januário também será.
— Muito bem...
— Você parece que está dizendo isso assim sem muito entusiasmo...
Era sono.
— Amanhã-ã-ã... ai! ai!... nós vemos isso direito, Nequinha...
Até o coronel ajudou a aprontar o Januário. Foi quem pôs ordem na cabelada cor de abóbora. Na terceira tentativa fez uma risca bem no meio da cabeça.
— Agora só falta a merenda.
Dona Nequinha preparou logo. Pão francês. Goiabada Pesqueira. Queijo Palmira.
— Diga pro Inácio tirar o automóvel. O fechado.
A comoção era geral. Dona Nequinha apertou mais uma vez a gravata azul do Januário. O coronel deu uma escovadela, pensativo, no gorro. Januário fez uma cara de vítima.
— Vamos indo que está na hora.
Dona Nequinha (o coronel já se achava no meio da escadaria de mármore carregando a pasta colegial) beijou mais uma vez a testa do menino. Chuchurreadamente. Maternalmente.
— Vá, meu filhinho. E tenha muito juízo, sim? Seja muito respeitador. Vá.
Todo compenetrado, de pescoço duro e passo duro, Januário alcançou o coronel.
A meninada entrava no Ginásio de São Bento em silêncio e beijava a mão do Senhor Reitor. Depois disparava pelos corredores jogando os chapéus no ar. As aulas de portas abertas esperavam de carteiras vazias. O berreiro sufocava o apito dos vigilantes.
— Cumprimente o Senhor Reitor.
D. Estanislau deu umas palmadinhas na nuca do Januário. Januário tremeu.
— Crescidinho já. Muito bem. Muito bem. Como se chama?
Januário não respondeu.
— Diga o seu nome para o Senhor Reitor.
— Januário.
— Ah! Muito bem. Januário. Muito bem. Januário de quê?
Januário estava louco para ir para o recreio. Nem ouviu.
— Diga o seu nome todo, menino!
Com os olhos no coronel:
— Januário Peixoto de Faria.
O porteiro apareceu com uma sineta na mão. Dlin-dlin! Dlin-dlin! Dlin-dlin!
O coronel seguiu para o São Paulo Clube pensando em fazer testamento.

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