domingo, 8 de outubro de 2017

O casal (Conto), de Júlio César Machado


O casal

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I
Aqui vai uma história entre dois copos de conhaque.

Quando principiou a contar-ma, encheu o primeiro dos dois, e: — Ouviste-a no teatro, muitas vezes — disse-me ele —, e cuido lembrar-me ter-te encontrado num entreato, no seu camarim. Nem da sua voz, nem da sua beleza, precisas que eu te fale. Quem, depois de a escutar uma vez, esqueceria o tom mavioso e melancólico do seu canto? — alguma coisa de triste e poético como um raio de luz por entre uma chuva de lágrimas! Quando ela conversava, quando desprendia a prosa humilde dos mortais, em frases mais ou menos graciosas, não reparaste nunca que o órgão da sua voz conservava a mesma melodia do canto, ainda que frouxa e débil? Depois, se nos dizia um segredo ao ouvido, o bichanar daquela voz prestigiosa, que ainda na véspera enchera o teatro com o ruído esplêndido das suas volatas, era tão meigo e tão suave, que parecia encostar-se o som melífluo e encantador do adejar de uma pomba ou de uma fada! Pois bem, meu amigo, essa mulher perdeu-me, e perdeu-me quando me salvou! Nunca mais poderei amar. O seu caráter foi sempre para mim um segredo: ainda hoje o é. No verdor da vida e das esperanças, ele não tinha mesmo às vezes um sorriso para pagar à glória os sorrisos que ela lhe dava; noutras ocasiões, por qualquer nada, era uma alegria, um capricho de ideias, um frenesi de gargalhadas! A crença mais louca não faria metade. Tudo então a entretinha, tudo lhe parecia sedutor e azul. Esperavam-se instantes e voltava a inquietação, o espírito triste, a distração quase insultadora. Perguntava cada um a si mesmo, nessa hora, se haveria apenas fantasia naquele humor caprichoso, ou se eram os desvarios de uma imaginação febril e doente? Fui-lhe apresentado por um amigo que lhe disse não ter ela em Lisboa um mais fervoroso admirador do que eu. Isso não era verdade então, mas foi verdade depois: por que, não sei; o certo é que depois desse dia perguntei maravilhado a mim próprio, sempre que a aplaudia num frenesi de entusiasmo, se ela era apenas uma grande artista, se uma mulher que eu amava!

O amor tem o quer que é de crime; ou uma pessoa ama como quem se perde, ou não sente o amor. A minha consciência principiava a ter medo; mas para dizer a verdade, havia uma força oculta que me impelia para pensar naquela mulher, ao passo que um recato inexplicavelmente melindroso sabia impedir-me de falar nela aos indiferentes. Todos os dias a visitava, e passávamos horas a conversar de música; ela gostava de me contrariar nas minhas predileções, e quanto mais eu insistia, mais ela teimava, dando-se o ar de amuo de uma criança ofendida nos seus caprichos. A noite, como tinha sempre o seu mundo de cortesãos a adorá-la em casa quando não havia teatro, era-me impossível alcançar do seu espírito a original confiança de ideias que só sabia dar à intimidade; conservava-me ali como os outros a conversar de futilidades que se repetiam cada hora, e que quase sempre, como é vulgar aos artistas, tinham por assunto as intrigas do palco. Eu não conhecia nenhuma das outras cantoras dessa estação, a Verenzi, ou a Giannoni; mas, a poder de ouvir falar delas, já eu próprio descrevia e analisava os atos mais particulares da sua vida como se me interessasse pela sua existência e vivesse entre a gente de sua condição. Amar uma prima-donna tem isso de mau, amigo; identifica-se um homem com aquela natureza e destinos, e principia a sentir-se cantor, exceto a voz! As Leonoras, as Lúcias, as Safos da cena lírica deixam ficar no camarim a alma, a poesia, e o gênio; em casa, são umas afáveis criaturas, que entretêm com as visitas longas dissertações sobre os segredos da veneziana polenta, ou sobre as astúcias de caráter da cantora rival, que alcançam da empresa óperas que lhe não pertencem; é um mundo de coisas aviltantes e penosas, onde a calúnia de Basílio marcha num crescendo impiedoso. Dizem tudo com uns ares adoravelmente apaixonados, maneiras tentadoras, ondulações de gata namorada, suspiros flauteados, e atitudes melancólicas; chega-se a considerá-las vítimas ignoradas; grandes gênios que os empresários não entendem! e indignamo-nos contra as outras cantoras, acusando-as de desafinarem! de terem três amantes! de serem tísicas como visões! ou, se são gordas, de terem pernas que parecem pés de elefantes, com meias! de não saberem dizer a frase! de terem dentes postiços! de haverem sido lavadeiras de um maestro que as fez cantoras! de serem mais feias fora da cena do que Medusa com a cabeleira de víboras!

A índole de Angiolina não era essa, todavia; habituara-se a ser assim, como eu me habituei a ela também; um gênio imprudente e franco, é o que ela era; conhecia-se isto nas suas predileções, nos seus caprichos, nos seus ímpetos ao acaso; é a única italiana que eu tenho visto gostar de touros! Mas, gostar de que forma, com que entusiasmo, com que ardor! Já de véspera um inquieto frenesi a agitava: — Amanhã! — dizia-me ela —, amanhã! Oh! que o dia esteja esplêndido como a festa! Que o sol doure a praça! Que um céu azul sorria por cima das nossas cabeças! Que tudo seja belo e grande nesta tarde que vale um dia, neste dia que vale um ano! a turba se precipite em torrentes, e encha até as trincheiras falsas! Que ninguém chegue a um lugar qualquer sem se estribar nas mãos, nos pés, nos cotovelos! Que uma liberdade inquieta e nervosa dê à festa a sua feição de tumultuosa alegria! Que todos falem, gritem e apostrofem, esmagando-se uns aos outros com um solene desprezo pelas leis físicas! Que morram amanhã, que morram!

— E ria como louca, e como louca pulava, tiroteando um trecho de ária, depois uma serenata de gondoleiros, depois alguma cançoneta melancólica de umas que ela sabia, que eu nunca ouvi a mais ninguém. A tristeza, assim como a alegria daquela rapariga, tinha o quer que é de fantástico; muitas vezes me lembrei, a olhar para ela, dos talismãs das lendas; tinha entre outros artifícios, o segredo de quebrar a sua tristeza quando queria, e ficar alegre e risonha, como se atirasse ao mar em vaso fechado com o selo mágico, que nenhum espírito quebra, o gênio da melancolia, que os pescadores das Mil e Uma Noites deixam escapar da entreaberta urna em turbilhões de fumo negro!

O primeiro passo dado na carreira dos meus amores foi mudar a hora de fazer visita a Angiolina. Pobre anjo, tinha tão pouco tempo para poder conceder-me, que era preciso que eu pela minha parte estivesse à mira dos instantes que lhe não fizessem falta. Como repartia ela o dia? Oh! Parece um milagre, para o quanto ele lhe chegava! O seu maestro ia procurá-la todas as manhãs para uma lição de exercício; das duas às quatro horas, ia passear; jantava às cinco, e os ensaios ou as récitas tomavam-lhe a noite; — que tempo podia ficar para mim em toda esta marcha incessante, senão a rápida hora em que ao voltar do seu passeio dispunha de alguns minutos antes de ir para a mesa? Por esses minutos, alterava eu o meu dia inteiro muitas vezes...:

Houve neste ponto uma pausa, e ele encheu o segundo copo.

— Por esses minutos alterava eu o meu dia inteiro muitas vezes, é certo — continuou ele —, e corria ávido a pedir-lhe um sorriso, em troca de fazer esperar um amigo, em troca de esquecer um negócio, em troca do jantar com minha mãe, que eu lhe sacrificava a ela. Tudo isto era acolhido entre duas volatas, recebendo-me pelo Vieni, Arturo! dos Puritanos, despedindo-me pelo Addio do Rigoleto: um recitativo entremeava estes trechos. Quando eu saía de lá, não lhe tinha dito uma única palavra do que havia feito tenção de dizer-lhe; era ela que conduzia a conversação, e guiava-a tão loucamente, que nunca eu sabia do que se tratava; falava-me do seu passado, dos seus amores de infância, das carruagens de Lisboa, do nariz do Mercadante; perguntava-me se eu era forte ao florete, quantas mulheres tinha amado, de quantos jornais era assinante; fazia-me cantar bocados de ópera, ria como uma criança, depois suspirava triste, ia para o piano em seguida, depois para a janela, depois para a mesa!

Uma ocasião demoramo-nos mais tempo a conversar, e a sua mão esqueceu-se entre as minhas. Falava-me de sua mãe, a quem deixara aos 20 anos, trocando as serenas felicidades do lar pelas ambições da independência, pelo sonho dos triunfos, pela visão da glória; principiamos ambos a falar de família, contamos um a outro as reminiscências da nossa infância, fizemo-nos de novo crianças pelo pensamento, e fechando os olhos para ver melhor na alma, corremos de mãos dadas para trás até encontrarmos a nossa primavera morta! Nessa tarde o seu olhar fixou-se por momentos no meu, e uma nuvem passou entre nós como afugentando uma ideia superior à sua razão e à sua vontade. Angiolina desviava de repente a vista, e parecia querer retirar a mão de entre as minhas; eu segurava-lha com ânsia e estremecíamos ambos; continuávamos outra vez a trocar a confidência das nossas recordações ou dos nossos sonhos, do que tínhamos visto, ou do que havíamos querido ver, e, à proporção que falávamos do passado, íamo-los esquecendo; levei a mão dela aos lábios, e beijei-a; ela disse-me apenas:

— Estamos ambos numa hora melancólica; tenho medo destas conversações meio tristes ao cair da tarde; vá, adeus; deixe-me só. Vejo-o amanhã à noite no teatro? Nos entreatos quero tê-lo no meu camarim! Vou apresentá-lo à minha corte como pretendente mais perigoso. Parta; adeus!

Na noite imediata, ela cantou a Favorita. Que impressões acordou na minha alma, Deus meu! como a sua voz era doce, afetuosa e divina! que meiguice sedutora, que frescura, que êxtase, que céu! O seu tipo não era bem o da mulher formosa, mas o da mulher insinuante; não era uma rosa, mas um lírio; não era um sorriso, era um suspiro, mas de felicidade e de amor. Cantava e representava a sua parte com um tão grande sentimento dramático, que nunca errava uma intenção nem descuidava uma frase. Tão moça como era ainda, que presciência tinha dos segredos da dor que tão bem os reproduzia pela arte! Os seus olhos negros atiravam por vezes numa vista um poema sublime de sentimento. O seu método não era o dos ornatos e dos enfeites no canto, mas ninguém melhor do que ela sustentava a inteligência, a paixão, a cor da música, dando à parte de Leonor o seu tríplice aspecto, pela alegria, pelo sentimento, pela angústia, de amante, de mulher, e de mártir! Oh, eu namorava-a nessa noite com um entusiasmo, com a admiração, com o frenesi de um idólatra! Toda me parecia bela como eu nunca encontrara mulher no mundo. Os seus cabelos negros e magníficos molduravam-lhe o pálido semblante com um encanto indizível; ela tinha os beiços tão longos mas tão inflexíveis, tão lânguidos, tão brandos, que as notas ao roçarem por eles adoçavam-se como um suspiro de anjo, ou um beijo de irmã!

— Oh! — dizia eu a mim mesmo, ao contemplar o noviço despedindo-se apaixonado e melancólico do seu convento de São Tiago de Compostela, por não poder já com as tristezas do claustro, e sentir que já não lhe bastava Deus! — Oh! pobre alma aflita, que trocas a religião pelo amor, é ainda a fé, debaixo de uma nova face, que te anima e te impele! Feliz, ah! feliz se ainda crês! feliz se amas! feliz se esperas! Podias tu ter evitado oferecer-lhe a água benta, e os teus dedos roçarem pelos dela? Tens tu hoje a força, pobre saudoso, de afugentar da tua imaginação, tu, que já não podes rezar e te devoras na aspiração a outra vida? Pois se dessa visão só vives, dessa imagem desse anjo que encontraste aos pés do altar orando a Deus, — se a julgas pura e nobre como é bela, que voz fatídica irá dizer-te a rir, que amas a amante do rei, uma cortesã, uma mulher perdida que se vendeu mais cara do que as outras, mas que se vendeu! que é beijada por um rei, mas que é beijada por um homem que não é seu pai e que não és tu! Oh! canta! canta ainda! canta e sofre! Deixa o velho frade, ancião desconfiado da felicidade e do amor, lembra-te a fragilidade das paitões e da incerteza das coisas humanas! Io l’amo! dizes. Mio padre, io l’amo! E nisso dizes a sorte, a esperança, a providência, a fatalidade, o destino! Oh! canta e ama! Se um dia a excomunhão pesar sobre a tua cabeça, irás sobre o anátema de Deus pedir-lhe o teu perdão a esse mesmo altar de onde foges hoje!

E a bella del Ré, que adoraste na vida faustuosa do palácio, virá pedir-te a ti, pobre, andrajosa e maldita, o mesmo perdão que tu estiveres pedindo a Deus! E perdoar-lhe-às, tu! tu, sim; Deus é que não te perdoará a ti, talvez, porque ainda tentarias fugir-lhe de novo, se a morte não viesse tocar com os seus pálidos dedos a fronte da favorita!

E nisto bebendo ele outro gole de conhaque, houve uma pausa...

II
Depois: sofria naquelas noites de teatro como um louco. Se não aplaudiam Angiolina, tinha acessos de cólera indomáveis; se lhe davam palmas, tinha ciúmes do público, da glória, e da facilidade! A proporção que ela desempenhava uma ópera, ia tornando-a impossível a outra cantora.

Era um talento privilegiado, único. Quando era Norma, e aparecia coroada de verbena, deixando perder o olhar no argênteo clarão da lua; quando era Gema, e o ciúme lhe contraía o rosto numa expressão de raiva e de martírio; quando era Marta, e, na feira, com o seu disfarce de camponesa, sorria aos galanteadores que queriam levá-la no seu carro; quando era Safo e dedilhava a lira, soberba de gênio e de desgraça — aquela interessante cabeça, como esculpida pelo Fídias, erguia-se, nobre, sobre ombros de mármore, e a máscara, admirável, de pureza, de correção, e de vida, que paixões violentas não conseguiam alterar, conservava-se bela durante as agonias dramáticas!

Uma grande amargura devia pesar mais tarde ou mais cedo na minha alma; um dia, enfim, chegou, e horrível; veio pelo ciúme.

Habituado aos devaneios simples e serenos das afeições de namorado, ou dos caprichos de amante em regiões temperadas, encontrei-me, subitamente, num mundo que não me era conhecido e para o qual o meu coração não havia sido criado. A cada hora vinha um acontecimento, por mais leve, por mais insignificante que parecesse aos outros, acordar-me na imaginação a ideia dolorosa de que o meu amor não era compreendido na sua elevação, nem compensado na sua lealdade.

O caráter imprudente e leve de Angiolina despertava-me a todo o instante desconfianças, hesitações, sobressaltos; uma palavra dela, um erguer de olhos ao céu, um movimento de ombros, como quem diz que lhe não importa, um simples gesto de quem se sente inocente bastavam todavia por me dispor em cólera contra mim próprio.

Tudo devia perdoar-se àquela rapariga, pelo talento, pela imaginação pitoresca e devaneadora, pelos acasos de um espírito inquieto, pelas fantasias inocentes do seu caráter sonhador. Quando era afetuosa, dedicada, terna, nunca o amor cuidou ter tanto poder na terra: a sua mesma melancolia tornava-se condão para me seduzir de entusiasmo e de respeito por aquele destino singular e triste, tão cheio de glórias como de tristezas. Ela sofrera e conhecia a vida.

Os imbecis que a rodeavam não sabiam pressentir quanto era conhecedora do mundo aquela mulher em quem apenas viam uma artista e uma criança.

Tinha sobretudo, como nunca vi, os delírios e êxtases da felicidade. O olhar iluminava-se-lhe de uma luz divina, como se a alma se lhe debatesse no frágil invólucro que a encerrava, sequiosa de mais dois mundos.

Há mulheres de quem se gosta como quem se atira a um abismo; eu sentia a fatalidade a pesar sobre mim, e não tinha ânimo de me separar dela, em vez de a fazer infeliz com a minha própria infelicidade. Ela mesma me disse que adivinhava desgraça; nas horas mais doces do nosso amor, nunca se esquecia até ao ponto de supor a eternidade dele.

São tristes os amores assim, mas são, talvez, os únicos que prendem. Conheces umas flores, que há no campo, da cor da primavera, mas núncias do outono? Nem perfume, nem verdura em redor da haste; e, na corola, um ponto escuro, que parece estar de luto pelos dias bonitos do verão. A Angiolina fazia lembrar estas flores; a sua alma saudosa não sabia ter esperanças, nem dá-las entrava na vida com o sorriso de quem se despede; o meu amor poderia servir de bálsamo para aquele coração ferido por ignorados golpes, mas — ainda por cima! — uma secreta raiva do afeto levava-me à atormentá-la.

Entramos num paraíso e converti-o num inferno. Foi horrível. Tão depressa a abraçava em êxtase, como tinha horror de a olhar. Chorava encostando a cabeça ao meu ombro, e um beijo acabava tudo. Sorriam depois da minha loucura... Mas, assim se ia quebrantando a confiança, o entusiasmo, a estima mesmo, talvez.

A inquietação, a febre, a insônia, ia-me devorando lentamente a razão e a vida.

O frenesi da minha desgraça aumentava na proporção do amor de Angiolina; maior era a luz da felicidade que ela me dava por instante, maior depois e mais densa a sombra dos meus receios.

A nossa existência era doce, mas triste; muitas vezes os seus beijos vinham banhados em lágrimas, sem causa e sem razão; a nossa alegria mesmo era melancólica, e a ideia de que havíamos de separar-nos minava-nos de desventura.

O seu retrato, que eu costumava ver, nas horas em que não podia vê-la a ela, e em que o sono não queria nada comigo, produzia-me uma impressão fatal, que não soube nunca explicar-me; aquela invariabilidade dada a uma criatura que não se conservava um momento a mesma afligia-me como uma mentira. Queria fechar por instantes aqueles olhos, sempre abertos como os dos sonâmbulos, que me seguiam sem me ver.

A datar desse período de efervescência, de exaltação, de ansiedade, nada mais sei ao certo. Contam que, numa noite, uma congestão cerebral me tornou louco.

A minha família, por conselhos dos médicos, enviou-me para um casal que temos perto de Bellas. Ali, numa tranquilidade toda bucólica, sem que pudesse avistar senão campo, sem que pudesse ouvir senão os pássaros, esperavam que, com o tempo, a razão e a paz volvessem à minha alma. Dizem que pouco falava, e que, na ocasião dos acessos, apenas algumas palavras soltas, ou um trecho de música revelavam que me lembrava ainda das noites do teatro.

Aquele casal perdido entre oliveiras tomou subitamente um caráter poético. Dir-se-ia o local da expiração do amor! Das minhas sinceras afeições, dos meus votos, das minhas ideias, das minhas crenças, formara eu a fogueira que houvesse de consumir-me. Enchia tudo de terror, à roda de mim. Ora me consideravam a ponto de ser salvo, ora me davam por perdido.

Uma alegria no íntimo gozo, uma aspiração poderiam valer-me; mas como?

Fica o firmamento povoado de fogos inextinguíveis em o dia apagando as faíscas do grande luzeiro; mas no céu do pensamento, onde as esperanças são estrelas, o que fica em se ela indo embora! Foi passando tempo sem melhoras para mim. Os médicos começavam a desanimar. A loucura, meu amigo, é doença degradante: ao leproso ninguém se chega; e, do louco, foge-se. Valeu-me o querer a Providência fazer alguma coisa nisso; e a hora chegou.

Angiolina, que nunca mais soubera de mim, voltava numa noite de Bellas, onde havia passado o dia, quando a sua carruagem se quebrou na altura da estrada que conduz ao casal. Era tarde, a noite ia fria, e as precauções da cantora levaram-na a querer recolher-se nalgum sítio resguardado do vento, enquanto não se achasse meio de continuar a jornada. O cocheiro apareceu à porta do casal a pedir agasalho para aquela noite para uma senhora, que, partindo-se-lhe a carruagem em que ia, se encontrava sem saber onde se recolhesse. Angiolina entrou para o quarto do meu enfermeiro, dizendo-se-lhe, apenas, que, não havendo na casa senão dois quartos, e estando ocupado o outro, deveria sujeitar-se a ficar mal acomodada ali. Ela respondeu que não queria deitar-se e que de madrugada partiria. O casal voltou à tranquilidade de um silêncio de sepulcro. Eu nada vira e nada ouvira do que se havia passado. No dia imediato devia ser a festa da Páscoa; do meio da noite em diante ranchos e ranchos de aldeões passaram pelo casal, dirigindo-se a Canecas.

Iam alegres e contentes, respirando esperanças. A noite tornava-se tépida e perfumada; o luar dourava os campos; os aldeões passavam abraçados às namoradas, cantando e beijando-as.

Angiolina espreitou à janela, por entre os vidros, aquele mundo de rústicas felicidades. Levantou depois a vidraça devagar, para incomodar menos o cortinado de hera, e, estática, escutou e olhou.

Iam cantando uma trova, cuja toada ela repetiu logo, dando-lhe pelo encanto da sua voz um poder singular.

De onde partia, donde vinha aquela voz, que havia sido a minha vida, a minha felicidade, a minha loucura até?

Como descrever a sensação que se apoderou de mim?

Corri à janela, como perguntando à noite o segredo deste raio de graça; parecia-me que ouvia as árvores falarem baixinho, e murmurarem de ramo em ramo súplicas, que a minha alma entendia. Angiolina cantava ainda, espalhando na solidão do casal as pérolas e lágrimas do seu canto. A imaginação principiava a criar-me visões como que além desta vida. Via Angiolina em cada raio de lua, como se transformasse a terra na imagem do céu e me convidasse a mudar de pátria.

Abriu a janela e, a cantar, ficou vendo a noite.

Maravilhava ainda mais o canto dela ao ar livre, a acompanhar os sons da água na sombra; era ainda melhor a cantar entre flores, abrigada por árvores naturais, tendo por teto o firmamento, de que em jardins de teatro.

Não pressentia ela sequer que tão perto de si, separados apenas por uma parece, estava este infeliz que o amor tornara louco por ela... Mas, a pouco e pouco, a razão voltava; aquele canto falava-me; era conhecida da minha alma aquela voz: o casal parecia mudado num palácio de encantamentos... — Quando o dia principiava, a voz calou-se.

Apenas, depois, se ouviu a fala do cocheiro. E, em seguida, o rodar surdo da carruagem, e o demorado trancar das portas.

— Angiolina? — gritei. 

A carruagem continuava a rodar, e, o meu grito perdeu-se nas névoas da madrugada.

Um abraço, que me deu o médico, como que me falava de alegrias.

— Que se passou então? — perguntei. 

Ele respondeu-me:

— Sonhou.

Dias depois, já salvo, voltei a Lisboa. A época lírica acabara. Estava fechado o São Carlos. A cantora tinha-se ido embora: criatura de destino errante, prosseguira em procura do futuro, que é o céu dos artistas...

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