domingo, 8 de outubro de 2017

Salvador e Madalena (Conto), de Júlio César Machado


Salvador e Madalena

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

---

Madalena e Salvador não se encontraram senão duas vezes. Neste intervalo reside o romance de toda a sua vida!

Ao avistarem-se, da primeira vez, tudo parecia dizer esperança; ao separarem-se, parecia tudo dizer amor! Ai de mim! Da segunda vez que se juntaram, quase um ano depois, já se sentia o desgosto no olhar lutuoso que acompanhou as raras frases que trocaram, e, ao apertarem-se — desta vez, que foi a última —, havia tristeza no ar, e respirava-se morte!

Esta história é a mais singela, a mais inocente, a mais natural do mundo, e todavia a mais inacreditável dele: é a história de dois amantes, em que nenhum deles era enganado pelo outro!

Erro infinito de amor, que se esquece às vezes de ser inverossímil, descuidando-se até o sublime!

Nos fins do inverno de 58, num dos últimos bailes do clube, Salvador, que principiava a enfastiar-se, resolveu dançar. Formava-se uma quadrilha, e o mancebo espalhou a vista pela sala, com a característica expressão dum homem perplexo. Ouviu então uma voz possante e nervuda, duma afetação requebrada, presumida e ridícula, que lhe disse:
— Procura-me, Sr. Salvador?

O mancebo inclinou-se diante da baronesa de Vila Marim, senhora de 30 anos, se é que não tinha 50; destas mulheres sem idade, cujo tipo viril desmente o encanto do sexo amável: alguma coisa de masculina Safo, sem o olhar inspirado da poetisa de Lesbos: fisionomia dilatada, difusa... prolixa: pele bexigosa, como uma carta geográfica: ares presunçosos duma criatura que nasceu burguesa e donzelona, que a fortuna procurou debalde tornar aproximável, e que se fez beata, dando-se a Deus por não achar pecador a quem se desse! Salvador estremeceu, à ideia de ir dançar com este enxerto de tambor-mor!

— Procurava-a sim! — respondeu, aproveitando uma inspiração. — Ia pedir-lhe para fazer companhia à minha prima, durante esta quadrilha, que vou dançar com minha irmã!

— Impossível! — retrucou a virago, no seu tom intrépido. — Estou acompanhando esta minha amiga, que se obstina a não dançar esta noite!

Salvador volveu a vista para uma senhora, que se achava, efetivamente ao lado da sua interlocutora e, Deus santíssimo! dir-se-ia que renasceram nesse instante as paixões súbitas, que com as xácaras e baladas pareciam haver fugido da terra! O seu olhar fixou uma pálida fronte de mulher, cuja fisionomia, de expressão serena e poética, prometia à alma um mundo ignorado de expressões e segredos!

— É a senhora condessa de Foyos, a quem tenho querido apresentá-lo tantas vezes! Lembra-se? — disse a granadeira com os seus ares pomposos... de guarda de honra!

Salvador, sacrificado por esta grosseria, mordeu levemente o bigode:

— Senhora condessa — disse depois —, sinto agora o que houve de imprudência, em não ter adivinhado mais cedo de que prazer seria para mim ganhar o conhecimento de vossa excelência!

A condessa inclinou levemente a fronte, com uma expressão delicada, suave e afável. Era uma fisionomia de mulher que sofre, em que se desencerrava uma alma expansiva que tinha necessidade do infinito, devorando-se em sonhos febris e perigosos no centro desta sociedade de cifras, que só cuidava de lhe averiguar a fortuna!

Salvador trocou com a condessa algumas simples frases. Que foram simples, é certo: se triviais, não sei; é de crer que não, porque ambos eles — diga embora o leitor que isto é absurdo, falso, incrível! —, porque ambos num rápido sentimento de atração adivinharam que iam amar-se. E as palavras, por estas ocasiões, são de um valor, de um alcance, de um futuro, Deus piedoso! E a tíbia hesitação do amor, que não nos deixa nunca dizer tudo, e refere mais do que tudo que disséssemos! A cada frase balbuciante e tênue, não respondem então os olhos, mas o coração... E não é a curiosidade, e não é o desejo... E a esperança! é o exórdio do amor!

De que falaram eles? Para que dizê-lo, se falta o olhar e a voz que o estilo não pode dar! Disseram qualquer coisa. Frases do baile: frases em que o intervalo é tudo; porque o silêncio, então, diz mais ainda. Que olhos, sedutores de luz e de fogo, os da condessa! Que cabelos negros e magníficos, em roda da sua máscara de mármore! Que nobreza no perfil distinto e altivo dessa fronte graciosa! Pálida e serena, fixava a vista naquele turbilhão de gente ávida de Lanceiros, de sorrisos, de apertos de mão, de diálogos de instante — felicidade, que ao primeiro alvor da madrugada empalidece como a luz do gás! Depois baixava ainda mais o olhar, pregava-o vagamente num e outro objeto, com a expressão sincera de uma alma melancólica que se esquece das vaidades do mundo. Desconfio muito dos olhos que à falta do céu, procuram o teto e se contentam com o fixar!

A música devia produzir-lhe alguma grande comoção porque parecia fasciná-la mergulhando-a no sonambulismo; as feições iluminavam-se-lhe por uma luz interior, e os seus lábios encetavam num vago sorriso, como uma boca adormecida que sorri às visões de um sonho... Creio que nessa hora o mundo desaparecia para ela, se a sala do clube se devorasse num incêndio, continuaria a arrolar-se nas ondulações da harmonia, até que a chama viesse queimar-lhe o gaze das suas mangas...

A concorrência era extrema. Estava reunida ali a elegância mais pura à nobreza mais antiga. Realezas acatadas pela beleza, ou pelo espírito: celebridades de todos os gêneros: ilustrações, cujo direito de império nasce do brilho dos olhos, do alvejar dos dentes, do negrume de cabelos, da airosidade de formas, do encanto de conversação, ou da melancolia insinuante de um silêncio que se deixa adivinhar. Um paraíso de mulheres, de música, e de flores!

No meio deste baile a aparição da condessa tinha alguma coisa de singular. À semelhança das flores de um buquê, as senhoras num baile, quando a concorrência é imensa, não podem todas ser vistas de improviso: mesclaram-se os lírios e as rosas, ainda que a palidez de uns perto da rubra cor das outras deva engrandecer-lhes a beleza. E todavia a condessa distanciava-se e era vista. Seria por frequentar raramente a sociedade, por viver afastada dela, e alcançar nessa noite os primeiros triunfos da novidade? Acusava o vestuário dela as pretensões excêntricas da província, quando tenta fazer-se notar em Lisboa? Ou era a sua beleza de um tão especial assombro, que prendesse o olhar, atraindo-o, no instante em que a fixavam?

Não sei se era mais formosa; sei que era diferente das outras; sei que havia especialidade, originalidade, singularidade naquela fronte que recordava o gênio grego!

Dois anos antes dessa noite, a condessa sofrera o dúplice golpe da morte de seu pai e de uma irmã. Sob o peso de um desgosto profundíssimo, fora procurar refúgio para a companhia da marquesa de Eiras, que ainda era sua parenta, e amiga constante da sua família. A casa da marquesa era em Miragaia, e a condessa deixou Lisboa desesperando talvez de encontrar jamais a felicidade! Durante a vida de seu pai, Madalena sacrificara à obediência filial a sua existência e o seu destino, que o egoísmo paterno afastara de todos os afetos que não se concentrassem na família. Esta vida torturada, sufocada, aflita disfarçara-se aparentemente pelas graças de uma amabilidade de índole, que lhe dava o aspecto de uma criatura feliz. As lágrimas do desconforto e da angústia soltavam-se-lhe apenas nas longas noites de insônia em que, a sós com Deus e a sua consciência, parecia pedir perdão à sua alma da amargura a que tentava condená-la!

No dia em que expirou seu pai, Madalena tinha 25 anos, e, se para o espírito há idade, o seu espírito tinha 30!

Não era a mulher que conhece a vida, mas a mulher que a divisara através de um véu de lágrimas! A desgraça é uma doença cruel, que tem o ímpio condão de nos fazer adivinhar tudo que lá na existência de triste e de miserável! A condessa, que não conhecia o mundo, adivinhou-o e criou-lhe medo: no dia em que seu pai lhe faltou, ela perguntou à sua alma o que desejava, e a sua alma calou-se! A velha duquesa disse-lhe uma vez, entre dois abraços:

— E de recear para mim, que a tua companhia pouco tempo me dure! Tens 25 anos, e a sociedade acha-te formosa! Quem te merecerá, Madalena?!

A condessa sorriu com um leve ar de melancolia e um gesto desdenhoso e altivo pareceu responder: — Ninguém!

Que significava isto, pois? Era porventura uma alma fria que desconhecia o amor, uma alma aflita que renegava dele, ou uma alma prudente que procurava fugir-lhe? A duquesa dispôs debalde de toda a vasta perspicácia do seu fino instinto de fidalga velha; ao fim de dois anos de intimidade, apenas alcançara a convicção de que Madalena tinha pelos homens uma medíocre estima, senão antipatia absoluta!

— Em que tempo vivemos! — ponderava a si própria esta nobre dama, que florescera no reinado da senhora d. Carlota Joaquina. — Em que tempo vivemos, para as meninas de 25 anos terem os olhos vivos e a alma extinta!?

Uma carta da baronesa de Vila Marim instou muito com a condessa, nessa ocasião, para vir passar um mês em Lisboa na sua companhia. A instâncias da marquesa, que esperava que esta estada na capital desse ao espírito de sua sobrinha um novo curso de ideias, e uma feição nova de caráter, Madalena veio de visita à sua amiga baronesa, com quem o leitor a avistou no baile.

— E parte, decididamente amanhã? — disse Salvador à condessa, continuando um diálogo.

— Impreterivelmente!

— Tenciona, porém, voltar no inverno próximo?

— Não sei!

Foram estas frases trocadas num tom rápido, como acusando que conheciam ambos a necessidade de as dizer depressa. Depois, com voz humilde, o mancebo acrescentou confuso, indeciso, ansioso:

— E permitir-me-á vossa excelência escrever-lhe, a informar-me respeitosamente da jornada que vai tentar?

Madalena respondeu com uma simplicidade extrema.

— Por que não?

Nesse momento, Salvador viu sua irmã, que por um aceno mostrava querer falar-lhe: o mancebo despediu-se por um instante das duas senhoras e foi ao encontro dela.

— Que tens tu estado a conversar tanto tempo? — perguntou-lhe Maria Carolina, uma menina de 16 anos, que aparecia nesta noite pela primeira vez em sociedade. — Quem são aquelas senhoras?

— A baronesa de Vila Marim! — respondeu Salvador, preocupado.

— A baronesa de Vila Marim não é duas senhoras: quem é, pois? a outra?

— Dois olhos magníficos!

— Dois olhos... que se chamam?

— A condessa de Foyos!

— Uma fidalga de província?

— Uma senhora, para toda parte!

— Estás namorado, Salvador?

— Estou tonto, Maria Carolina!

— Precisas dançar. Aproveita esta valsa! Dá-me o teu braço.

— Achas que faz bem ao coração dançar, Maria Carolina?

— Acho que faz bem ao coração... fazer dançar sua irmã, Salvador!

— Tens razão! E olha, é uma valsa de Strauss! A dois tempos!

— Ainda bem!

Salvador, no fim da valsa, volveu a vista para o sítio em que se achava a condessa, mas os lugares das duas senhoras estavam desamparados. Haviam deixado o baile.

Já os primeiros clarões do dia despontavam, e dançava-se ainda no clube. Eram seis horas da madrugada, Salvador, numa das salas pequenas, encostado a uma mesa de wisth sem jogar, sem falar nem ouvir falar, pregava vagamente a vista nos objetos que tinha em frente de si. O dia amanhecera lindíssimo, e suscitou-se ali a ideia de partir do baile para Cintra. Um dos seus amigos instou muito Salvador, para que se associasse; o mancebo procurou debalde recusar, porque ninguém prescindia dele para uma festa em vendo probabilidade de o alcançar! Às sete horas meteram-no numa caleche. Julgaram-no contrariado, ao princípio; triste e enamorado, depois. Ao chegar a Cintra ele exigiu, primeiro que tudo, um quarto: em seguida, desculpou-se com os seus amigos de não assistir ao almoço: finalmente, pediu-lhes também que fossem passear sem ele.

— Mas é então para isso que vens a Cintra?

— Sim — respondeu Salvador, querendo dormir, e entrando para o quarto que pedira.
Então, como os amigos de Salvador concluíssem que ele nem estava triste nem enamorado, porém tinha sono, almoçaram e foram passear sem ele.

Se o leitor ainda não fez 30 anos, adivinhou já que Salvador, tão depressa se encontrou só no seu quarto do Victor, não quis dormir, mas... escreveu. Foi uma extensa carta, das que dez vezes se principiam, dez vezes se riscam, dez vezes se recomeçam. E possível que Camões não fizesse borrão para Os Lusíadas, mas aposto que empregaria este cauteloso processo da epistolografia amorosa na primeira carta que escrevesse a Catarina! Na nossa época mesmo, em que o estilo é o passaporte literário dos escritores sem ideias, tendo visto estilistas, que a nomeada aclama, tornarem-se pálidos de susto ao arredondar o primeiro período de uma declaração amorosa.

E que escrever uma carta de amor é puramente fazer literatura, e literatura da mais difícil! Ser simples é parecer frio; ser verdadeiro é não saber redigir; ser exato é parecer grosseiro! Mentir! Mentir ao acaso! Mentir de propósito! Exagerar ridiculamente, escandalosamente, para ter ares de sincero! Ser charlatão, para aparentar de sublime!

Alguns dias depois, Madalena recebia em Miragaia a carta de Salvador. Era simples, respeitosa, e de uma trivialidade que afetava o tom sincero. A condessa respondeu a esta carta, por algumas vulgaridades também: que o mundo era pequeno, que havia almas infelizes, que a ideia de Deus era aqui a única esperança, etc., etc., etc... A estas cartas seguiram-se outras; seguiram-se muitas. O tom menor do estilo de Salvador principiou a avultar, e algumas flores retóricas medrando. Ao fim de dois meses de uma correspondência curiosa pela arte de ataque do mancebo, e arte de defesa da condessa, Salvador numa carta permitia ao seu estilo este período gravemente arriscado:

“E para mim uma coisa decidida e segura que há algum misterioso influxo que me vence e me conduz para si!” Madalena respondeu que queria fugir-lhe, porque a sua alma abatida e exausta não tinha que dar ao amor. — “Diz-me que tens sofrido!” — ponderava o mancebo em resposta a isto. — Mas se eu não lhe tivesse lido nos olhos e nas faces, pensa porventura vossa excelência que me haveria interessado assim? A nobreza da existência é os sofrimentos. São, por assim dizer, ‘diplomas de vida’!”

Havia desde muito tempo entre Madalena e a baronesa de Vila Marim, uma correspondência constante e ativa. A proporção, porém, que da parte da condessa aumentou a efetividade de correio para Salvador, diminuiu para com a sua amiga. Há apenas um ciúme mais violento e mais danado que o de uma mulher por um homem, é o de uma mulher por outra mulher! A baronesa teve ciúmes de Madalena, e conseguiu saber que era Salvador quem lhe roubava os extremos dela. Foi uma luta surda e implacável, desde esse instante, e eu faço votos para que Deus defenda o leitor de conhecer um dia as sensaborias de tal situação, se cair no abismo de ter por concorrente ao coração de uma senhora... outra senhora!

Mil meios se empregaram, para impedir o nó desse amor: conselhos, insinuações, denúncias, calúnias... Infelizmente, tudo isso chegou tarde, e já se amavam demais para se abandonarem sem provas! Madalena disse apenas à sua amiga que a dispensava da menor admoestação sobre este assunto; e, tempo depois, numa carta a Salvador, escrevia-lhe: “Da nossa amiga baronesa, tenho tido cartas duas vezes por semana. Pode ser que tu gostes de saber se ela me tem falado em ti: nem mais uma palavra. Eu, que nunca tive segredos para ela, não quero dar-lhe lugar a dizer-me uma coisa menos agradável. Ainda que a fé que eu hoje tenho em ti te proteja no meu conceito, não quero, se a minha ventura se aniquilar um dia, que seja pela minha mão!”

Foi um período de afetos leais, que ambos atravessaram, como raramente é dado experimentar neste mundo. Nos primeiros tempos, Salvador, que não adquirira a convicção de que era amado, e a quem apenas guiava a veemência da sua esperança, sentia-se a cada momento embaraçado pela sua timidez, senão pelo misterioso terror que os homens de imaginação experimentam ao momento da realização dos seus sonhos, e que não é mais do que o receio confuso de se lhes quebrar o encanto! Mas depois! Quando o amor iluminou as cartas de Madalena, que de sensações, que de ansiedades, que inquieta alegria, que felicidade melancólica, única que é doce!

Ele saía muitas vezes para Cintra sem o dizer a ninguém, sem o haver dito a si próprio sequer uma hora antes de partir! Que ia lá fazer, assim de repente, no outono, quando Deus não queria que fosse em plenos dias de inverno? Ora! ia escrever a Madalena, respondendo-lhe a uma carta no meio da triste solidão das tardes do outono no campo: havia sido em Cintra que pela primeira vez o fizera, em nenhuma parte lhe sabia tão docemente à alma escrever de amor como ali! Não o acusem, oh! não o acusem de pueril, porque o amor é, como a natureza, grande principalmente nas coisas pequeninas!...

A distância oprimia-o. Ele sonhava a cada instante com Madalena, e não a via nunca! Teria de ser sua? Eis no que mal pensava, apesar de morrer por ela. O presente era tudo para o seu coração, com as indecisas bonanças de momento. A sua alma ardente precisava sofrer, para sentir que vivia. Pode ser que a felicidade o enfastiasse!

As cartas de Madalena incendiavam-lhe a inquieta aspiração ao impossível, que nenhuma realidade satisfaz. Sentia-se poeta no seu amor, Madalena adorava-o, e era adorada por ele. A sua imaginação empreendia o desenho de mil quadros amenos. Em Cintra, às noites, ao ver cintilar a neve da serra sob os raios azuis da lua, sentia uma devoradora tristeza de não ter Madalena a seu lado como Werther tinha Carlota, para embeberem as suas almas na contemplação da natureza adormecida.

Estavam ambos no mais belo período do amor. A esperança afagava-os com as suas brancas asas! Eram felizes pelo presente e pelo porvir. Confiavam um no outro.

Foi nesta ocasião que Salvador, procurando um jornal antigo, remexeu todas as gavetas, e atirou para cima da sua secretária alguns dos papéis que lhe vinham à mão.

Entre esses papéis uma carta.

Uma carta fechada, mas com o sobrescrito em branco.

Como o leitor não tem muita pressa talvez, não vejo inconveniente em que eu explique que esta carta havia sido escrita, muito tempo antes, a uma prima-donna do teatro lírico, a quem Salvador fizera corte; como havia tido o destino de ser entregue mão por mão, não tinha sobrescrito: e como não chegara a ser entregue, tinha voltado para casa na carteira e fora lançada na gaveta donde agora se tirou. — “Amo-te” — escrevia o mancebo à cantora, que ia partir; “amo-te e não amo mais ninguém, porque só tu no mundo és digna de ser adorada; tu, que és a inspiração, tu que és a harmonia, tu, que és o amor.” E continuava neste tolíssimo estilo, enriquecido de juramentos pantafassudos e melodramáticos!

Depois de encontrar o jornal que procurava, Salvador enviou-o ao seu destino, e pôs-se a escrever a Madalena. No fim, fechou a carta, remexeu os papéis que estavam sobre a mesa, a procurar o lacre, que finalmente achou; viu diante de si uma carta com o sobrescrito em branco, escreveu: “Excelentíssima senhora condessa de Foyos, Miragaia,” E mandou para o correio.

Decorreram alguns dias, sem o mancebo receber carta da condessa. Ao fim de uma semana, numa noite em que Salvador recolhia do teatro, ao chegar a casa dirigiu ao criado a clássica pergunta de cada noite:

— Veio carta?

— Não, senhor.

— E alguém, veio?

Um moço de almocreve, que trouxe uma caixa.

Salvador entrou no seu quarto, abriu a caixa indicada, e encontrou as suas cartas a Madalena.

Debalde perguntou mil vezes a si próprio: Que significa isto? Procurou entre as dele alguma carta da condessa, mas não vinha uma só letra dela? Esperou alguns dias a explicação deste sucesso, mas a explicação não chegou.

— Não me ama já! Que remédio lhe hei de dar!? O amor é um sentimento involuntário, que vem sem se saber por que, e da mesma sorte foge! Ninguém tem culpa de já não sentir uma atração! Capricho infinito de uma imaginação de mulher! Para que me jurava então amor veemente e santo que me oferecia enquanto eu o quisesse? Quebrar, sem um adeus nem uma saudade! Oh! em amor a coragem... é do que sente menos!

Passou-se mais de um mês nesta ansiedade, até que, de uma ocasião em que estava inventariando os seus papéis, e varrendo a secretária de jornais antigos e cartas inúteis, encontrou uma fechada e com o sobrescrito em branco. Esta circunstância ganhou-lhe curiosidade de ler, antes de a atirar às chamas desse auto de fé. À primeira linha da carta, dizia: “Minha querida Madalena...”

A alma de Salvador assombreou-se, num ruim presságio, de toda a vaga tristeza de alguma grande desgraça.

— Poder infernal do acaso! — exclamou. — Por que me adivinha o coração, que fui eu próprio que criei a desventura de nós ambos?!...

Na situação que o oprimia toda a esperança era inútil; todo o expediente, impossível. A amargura devorava-o implacável, sem que no horizonte da sua existência fulgisse um raio de luz; já não podia aspirar ao amor de Madalena, porque aquela nobre alma julgava-se enganada!

Nem ele procurava vê-Ia preferindo a resolução do Ícaro atirando-se ao mar, ao sentir-se cair do céu, em vez de viver condenado a voar eternamente nas regiões intermediárias!...

Uma carta de um dos seus amigos do Porto preveniu-o, porém, neste momento que a condessa estava ali. Era uma ocasião excelente de se encontrarem, e Salvador não teve ânimo de a perder. Três dias depois chegava ao Porto, indagava notícias da condessa, e alcançava saber, dali a instantes, que Madalena estava nesse momento na rua Cedofeita, de visita à sua amiga d. Piedade. O mancebo teve o tempo apenas de se vestir, e caminhar para lá.

D... Piedade era uma dama de 40 anos: não é um crime: só os anos ficam sempre nos 15, por ser a idade eterna que lhes deu o Senhor. Vivia cercada de amigas; criaturas enfastiadas, que iam entreter o dia com ela, e que diziam num tom presumido e lânguido: — A roda do carro da vida saiu dos seus eixos; em que havemos nós de ocupar-nos?!

Madalena estava mal entre estas senhoras que aspiravam a ter estilo, porque só ela não cuidava disso. O estilo de Madalena eram os seus olhos admiráveis de luz e de encanto, o oval harmonioso da sua fronte, os seus braços elegantes, os seus dedos longos e finos; o estilo de Madalena eram a beleza e a graça; o estilo de Madalena era a doce serenidade do ideal antigo!

No momento em que o criado anunciou o nome do Salvador, ela procurou debalde ocultar a impressão que sentira. O mancebo, pela sua parte, traiu-se no momento de a fixar. Também em que estado encontrava ele a condessa! Os olhos pareciam ter perdido o brilho, e nos seus olhos já não resplandecia a fresca púrpura de outrora! Extenuada, abatida, e de uma palidez sepulcral, Madalena era ainda bela, mas bela como o anjo da morte; a sua magreza era tal, que um diadema lhe serviria de cinto: ao vê-la mudar de atitude, cuidava a gente que ela ia quebrar-se toda! Era a segunda vez que se encontravam, e — como eu o disse ao leitor no primeiro período deste conto — havia tristeza no ar, e respirava-se morte!

D. Piedade, depois de apresentar Salvador às suas amigas, dirigiu a conversação acerca de Lisboa, e pediu notícias dos espetáculos e bailes da capital.

— Oh! imagine vossa excelência — respondeu o mancebo — que eu não vou aos teatros há perto de um mês e aos bailes há perto... de um ano!

As senhoras entoaram um grito de horror shakespeariano.

— Lembro-me bem — continuou Salvador, dirigindo-se a Madalena, que permanecera grave e séria — que foi justamente no último baile em que apareci que eu tive a fortuna de fazer conhecimento da senhora condessa!

Madalena estremeceu ligeiramente.

Ah! conhecem-se de Lisboa? — exclamou d. Piedade.

— Sim! — respondeu a condessa, erguendo-se — encontrei este senhor no clube.

— Que fazes? Partes já?

— Sim, minha amiga; a mágoa deve ser toda minha de não poder ficar mais tempo.

— Um instante, apenas! Um simples instante!

— Não! Não!

D. Piedade olhou de lado para Salvador, que não despregava a vista da condessa, e disse-lhe com um sorriso de intenção:

— Olhe, Sr. Salvador, quer ver o que a minha cara Madalena me fez a graça de escrever no meu álbum?

A condessa procurou impedi-la mas d. Piedade prosseguiu:

— Eu pedia-lhe um desenho, mas isso fatigava-a muito e preferiu escrever.

— E escreveu? — perguntou Salvador.

— Uma simples frase! — acudiu Madalena, tomando o álbum de cima da mesa e estendendo-o cautelosamente. — Queres fazer-me arrepender da minha imprudência, Piedade?

— Imprudência! Como, imprudência! Uma frase linda, menina! Uma frase linda, que hás de consentir que eu leia!

A condessa, cedendo, entregou o álbum.

— Depois de eu partir! — disse ela.

Apenas Madalena saiu da sala. Salvador travou do álbum, procurou a folha em que ela escrevera, e leu, trêmulo, estas duas linhas:

A desgraça tem conservado vidas, que a felicidade teria extinto!

O mancebo não pôde impedir que os seus olhos se umedecessem de lágrimas, e ficou por instantes contemplando estático a triste frase da condessa.

Quem sabe se a tornaremos a ver — disse d. Piedade, espiando que impressão produziam em Salvador estas palavras.

— A condessa vai partir? — perguntou ele ansioso.

— Embarca amanhã. Os médicos aconselham-lhe ficar algum tempo na ilha da Madeira, na esperança de a salvarem ainda da afecção pulmonar que a devora!

O mancebo conseguiu apenas reprimir o grito de angústia que lhe exalou do peito.

— Oh! pobre Madalena! — disse ele à sua alma. — Pobre Madalena!

Salvador procurou a condessa nessa tarde, mas não foi recebido. Escreveu-lhe, mas devolveram-lhe a carta. Foi a bordo, na esperança de lhe falar, mas Madalena recusou-se a vê-lo. O espetáculo das suas lágrimas distraiu d. Piedade, que voltou a bordo no mesmo bote que ele contemplando com curiosidade a angústia devoradora que o oprimia. Era uma senhora de espírito que se contentava em avistar nos outros as paixões, as manias, e as misérias da existência civilizada. Os horrores para ela eram a melhor das suas distrações, à semelhança de certos casos raros e monstruosos, que fazem a alegria dos naturalistas!

Nenhum comentário:

Postar um comentário