quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Castelo Encantado (Conto), de Bento Serrano


O Castelo Encantado ou:  O Monte do Castelo das Fadas (Tradição Prussiana)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ao pé do rio Memer, e não longe da cidade de Tilsit, levanta-se um monte alto e redondo que se chama o monte do castelo. Há muitos e muitos anos houve ali um grande castelo, como ainda hoje se pode ver pelas ruínas das paredes, e por um fosso muito fundo e duas linhas de muralhas que estão de redor. A quem pertence e quem agora lá mora, é coisa de que ninguém sabe dar notícia, mas corre na terra uma tradição que reza que ele se aluiu de repente, e ainda hoje se mostra no cume do monte, mesmo no meio dele, um largo e escuro boqueirão, cujo fundo ainda ninguém pôde achar com cordas: diz-se que deve ter sido a chaminé do antigo castelo. Nesses muros derribados reza a mesma tradição que é guardado um tesouro imenso por um porteiro, velhinho de cabelos brancos, que já tem sido visto muitas vezes pelos viajantes que sobem ao monte, e que ninguém até hoje tem podido ir aproveitar-se dele.
Um dia andavam muitos rapazes de uma aldeia próxima de Tilsit a pastorear gado no monte do castelo. O dia ia em mais de meio, o sol queimava e os rapazes deitaram-se à sombra de um roseiral bravo e puseram-se a contar histórias. Entre outras coisas falaram no muito ouro que estava no monte por debaixo deles, e mostraram desejos de que lhes aparecesse o porteiro do castelo para irem atrás dele e deitarem mão ao tesouro. Mas mostravam esse ânimo por ser dia claro, porque nenhum deles era capaz de se deixar ficar só no monte do castelo depois de escurecer.
— Sim, dizia o mais novo, fazia-me boa conta o ouro, e ainda mais a minha mãe que está velha, corcovada e trôpega e ainda se assenta à roda de fiar, ganhando assim com muito trabalho mas honestamente o escasso pão de cada dia; que alegria não seria a dela se eu pudesse levar-lhe para casa uma boa mão cheia de dinheiro! Mas eu não quero nada com o tal fantasma do homem pequenino.
— Tolo! disseram os outros, ele não faz mal a ninguém; provavelmente descansaria e não lhe seria preciso andar a vaguear pelo monte, se alguém achasse o tesouro, porque então não teria mais que guardar.
Assim palravam eles até que um se lembrou de irem todos ao boqueirão e atirarem pedras para baixo. Mas por maiores que fossem as pedras que arrastassem até ao buraco e lançassem dentro, não ouviam cair nenhuma no fundo.
— Se houvesse uma corda bem comprida, disse Fernando que era o mais velho, e rapaz forte e animoso, poderia um de nós descer um bom pedaço, e ver se acharia alguma porta ou coisa semelhante que fosse dar onde está o ouro.
— Em casa de meu amo, disse outro, há um poço, e está uma corda no guindaste que com certeza é duas vezes tão comprida como este monte. Querem que a vá buscar? Em casa não está agora ninguém porque meu amo e minha ama saíram para longe para um batizado.
A proposta foi bem recebida por todos, menos pelo pequeno Teófilo.
— Nós, disse Fernando com os olhos afogueados, podemos talvez ser ricos com pouco custo, não precisando mais de guardar gado pelo ardor do sol; podemos mesmo comprar casa e campos e ter moços para o gado, se enchermos bem os bolsos lá embaixo. Vai buscar a corda, depois tiraremos à sorte quem há de descer à cova; os outros ficaram a segurar a corda em cima, e o que descer será içado logo que dê sinal puxando por ela.
Todos estavam muito contentes, menos o pequeno Teófilo, que como medroso se opunha aquela resolução, mas foi escarnecido pelos camaradas. Quando chegou a corda e foram lançadas as sortes, a quem tocou a vez foi justamente ao timorato Teófilo, que bem fugiria dali para longe se os camaradas não o segurassem e não o atassem à força com a corda. Gritando e bracejando, com grandes risadas dos companheiros foi lançado no boqueirão redondo e descido devagar. A ponta da corda foi atada com muita segurança ao tronco de uma árvore, e pouco a pouco foram os rapazes deixando ir cada vez mais para o fundo o seu pequeno camarada. Passados alguns minutos curvaram-se na borda do buraco e disseram: “Que vês lá embaixo, Teófilo?” Mas Teófilo só pedia que o puxassem para fora.
Afinal já não se entendia o que ele dizia: a corda, que era mais comprida do que a altura da torre da igreja de Tilsit, estava já a chegar ao fim, e ainda se sentia retesada e pesada, sinal certo de que Teófilo ainda não tinha chegado ao fundo. Mas de repente viu-se que estava bamba. Os moços do gado deram gritos de alegria, vendo que por fim estava Teófilo em terra firme: estenderam meio corpo por sobre a borda do boqueirão; chamaram e puseram-se a escutar, mas o silêncio era de mortos. Assim esperaram muito tempo, uma hora e ainda mais; agora, diziam eles, já Teófilo tem tido tempo de ver tudo e de encher os bolsos com ouro e prata. Puxaram a corda para cima, mas a corda não trazia nada. Como esperassem ainda uma hora e outra hora sem que a corda trouxesse alguma coisa acima, começaram a afligir-se e a inquietar-se. Depois correram muito pesarosos à aldeia, e com medo de castigo disseram à velha mãe doente do seu camarada perdido que Teófilo tinha trepado sozinho às ruínas do monte do castelo e de repente tinha desaparecido.
Foi grande a angústia da pobre mãe do rapaz, cuja alegria única era o seu Teófilo. Chorou e gemeu toda a noite, não houve sono que lhe fechasse os olhos, e bem quisera ela morrer para ir ter com seu filho ao céu, porque ele decerto tinha caído no fundo do boqueirão do monte do castelo, e lá estava despedaçado e morto.
Quando na manhã seguinte Fernando e os outros moços do gado levavam outra vez os rebanhos para o pasto da véspera, ainda aflitos pelo que tinha acontecido, correu Teófilo ao encontro deles na raiz do monte. Todos os seus bolsos, e o barrete, e mesmo as mãos, estavam cheias de ouro, e ele com grande alegria contou aos camaradas como tudo lhe tinha corrido bem. Disse ele:
— Logo que me senti em chão firme e que me desatei da corda, vi uma porta diante de mim e por ela entrei em uma cozinha muito grande. Ardia no lar uma grande fogueira que não fazia fumo nenhum, e em toda a parte não se via senão coisas de ouro e de prata. De repente veio direito a mim um velhinho pequeno, pegou-me na mão com muito bons modos e me disse que não tivesse medo porque me assegurava que não havia ali ninguém que me fizesse mal. Então perdi o medo, e atravessei com o bom velho muitas salas cada vez mais bonitas, onde havia montes de ouro. Então deu-me o castelão diferentes iguarias muito boas para comer, e mostrou-me uma cama em que eu podia dormir. O vinho muito doce que bebi pesou-me na cabeça, e eu dormi como um morto até que o mesmo velho pequenino me foi acordar. Então encheu-me de ouro o barrete e os bolsos tanto quanto podiam levar, e disse-me: “Guarda isto em lembrança do porteiro do castelo e trata de tua velha mãe.” E pegando-me em uma mão, abriu uma porta pequena, e quando pus os pés fora, vi o céu azul e o sol da manhã, e ouvi o sino da aldeia que tocava às ave-marias. Ele não saiu, disse-me adeus com a mão, e desapareceu. A porta por onde tinha saído não a tornei a ver. Graças a Deus, tudo foi bem até ao fim. Como minha mãe vai ficar contente!
E Teófilo correu logo à aldeia, sem dar mais ouvidos aos seus camaradas que bem queriam ouvir contar mais alguma coisa.
— Agora, disseram eles uns para os outros quando viram as grandes riquezas com que Teófilo apareceu, devemos ir também ao bom porteiro velho e trazer alguma coisa do seu tesouro. Vamos ver a quem por sorte caberá a vez de ir lá abaixo.
— Para que há de ser à sorte? disse Fernando; eu sou o mais velho de todos, e hei de ser o primeiro a descer. A quem não estiver pelo que digo, provarei que está do meu lado o direito do mais forte.
Os camaradas resmungaram, mas não se atreveram a resistir ao robusto rapaz, e por isso foi Fernando descido ao boqueirão, depois de ter primeiro tirado o seu pão da sacola pastoril, para ter onde deitar muito ouro que esperava receber do porteiro do arruinado castelo. De novo se mostrou a corda retesada quase até ao fim, e os outros a colheram sem que trouxesse nada, mas não esperaram que o camarada saísse para fora naquele mesmo dia, porque sabiam que ele tinha lá embaixo boas coisas para comer e uma cama bem fofa para passar a noite, e que lhes apareceria de manhã muito alegre, como o pequeno Teófilo, ao pé do monte. A ausência de Fernando foi pouco notada na aldeia; os companheiros levaram-lhe a casa o gado, e ele não tinha uma mãe que o chorasse.
Na manhã seguinte todos os outros cheios de impaciência saíram com o gado mais cedo do que costumavam, mas não encontraram Fernando. Esperaram um pouco, depois correram ao alto do monte, deitaram a corda ao boqueirão, e inquietos chamaram o camarada pelo nome. Mas não houve resposta. Depois ninguém tornou a ver Fernando, nem apareceu ninguém que tivesse ânimo para descer ao fundo do monte do castelo, e apanhar o tesouro que lá está enterrado.

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