quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Quem pode saber? (Conto), de Salomão Rovedo


Quem pode saber?

Quem pode saber quando a morte chega? Preciso contar isto. Desde uns tempos para cá tenho sido acordado de madrugada ouvindo pancadas na porta. Levanto-me e vou ver se é alguém que saiu sem levar chave (isso acontece muito com Patrícia, que prefere bater na porta porque sabe que acordo mais tardar na segunda batida, em vez de tocar a campainha e despertar todo mundo e dessa maneira só eu acordava).

Enfim, vou até à porta, espio pelo olho mágico e não há ninguém. Geralmente eu me deito de novo e volto a dormir. Ultimamente até nem mais perdia tempo para ver se havia alguém: ficava na expectativa de ouvir uma nova batida para levantar. Como não acontecia nada, voltava a dormir.

Da última vez que isso aconteceu (foi agora em janeiro), despertei e em vez de ir até à porta fiquei pensando no que estava acontecendo. O que significava essa batida? Que porta era essa? Quem e por que batiam na porta? Aí pensei muito e eu mesmo concluí que a porta é a minha porta. Uma porta que está fechada. É a porta da minha vida. A porta da minha vida está fechada.

Eu mesmo fechei a porta da minha vida. Algum dia, por algum motivo. Eu mesmo fechei a porta da minha vida. Deixei muitas coisas de fora. E agora os meus amigos, os que me conheceram alegre, brincalhão, feliz e sempre com uma perspectiva positiva de tudo que a vida traz, mesmo nos momentos mais difíceis, agora as pessoas que me amam estão batendo na porta, mandando um sinal para que eu abra de novo a porta da minha vida e deixe entrar tudo aquilo que tive juntado comigo todo tempo. Eu mesmo abrirei a porta da minha vida.

Jamais pensei em maldade ou que fosse outra gente que tivesse feito isso comigo. Fui eu mesmo que fiz essas coisas. Eu que sou o dono da minha vida e da minha porta. Depois de pensar isso tudo e refletir ali deitado enquanto a manhã chegava, eram 4 horas da madrugada, pouco mais já começava a clarear.

Na próxima vez que eu ouvir as pancadas na porta – pensei comigo mesmo – mesmo sabendo que não haverá ninguém, abrirei a porta bem escancarada e deixarei entrar tudo de bom que sempre tive, tudo que, por minha própria natureza, sempre me pertenceu.

Não vou deixar mais fora de mim a alegria, não serei um carregamento de tristeza, vou namorar de novo a esperança, pensar as coisas boas que sempre pensei e, principalmente, vou acreditar que, apesar de tudo, existe a felicidade para ser usufruída. Foi isso que pensei...

[Oito horas da manhã. Está a Quarta Sinfonia de Mahler para ser ouvida.

Da janela vejo no quintal do vizinho uma pata e sua ninhada. Dois pintos foram chocados entre os patinhos. Eles não largam à mãe-pata e andam em fila indiana atrás dos patinhos. Será que vão se recusar a nadar no tanque de água?... Lembro-me de separar alguns discos que comprei para Pedro, o Músico. Aproveito para escrever:]

Puxa! Agora me lembro que tenho de fazer algumas perguntas a Pedro (e algumas respostas em forma de perguntas ou em forma de poemeto imusicável, para que ele não se anime a solucionar as coisas). Senão tudo estará perdido. Então vamos lá.

Pedro, qualquer tonalidade baixa é anti ou contra?

O baixo e contrabaixo são música ou contra música (antimúsica)? Idem, idem, significa ritmo ou contrarritmo (antirritmo)?

Idem, idem, idem, podem ser harmonia, contraponto ou contra (anti) ambos? Existe um solo de tons baixos?

Estes são os instrumentos de sons baixos? Metais: tuba, trompa, trombone? Madeiras: sax baixo, fagote?

Cordas: contrabaixo, violoncelo? Percussão: tambores, canhões?

E agora? Pode-se transpor para o dia a dia da vida? Quais são os sons baixos da vida?

Toda antivida é um som baixo?

O baixo da vida é o sofrimento (antivida)?

Idem, idem, é o ato de cair ou o fato de levantar-se a cada queda (antirritmo)? Sofrer, cair, levantar-se dolorido é contraponto, harmonia?

Perder (alguém, algo)? A sensação de perda é? Sofrer (dor, queda)? Sofrer por outro (outrem)?

Ver tudo negativo (destruição, fome, guerra)? Ruído de bomba, tiro, canhão, tambor, tuba? Qual o solo musical da vida?

As imagens transportam a dor, a cor? O som transporta o solo da vida? Existe um ritmo na vida?

Um bip, uma linha?

[Como o sinal eletrônico do coração paralisado?--------------------- 

— Ppppppiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii].

Dever de casa: compor um gráfico de qualquer música. Idem, idem de qualquer exemplo de vida. Comparar o resultado. Concluir: a vida pode ser também um gráfico sonoro? (introdução, desenvolvimento – improvisos, variações livres [intromissão de elementos alienígenas, maléficos, demoníacos] – fecho)?

Concluir outra vez: a vida é um tema contínuo? A permanência na lembrança é o vetor da eternidade? Concluir mais uma vez: a alma tem som? (alto, baixo, inaudível)?


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Fonte:

Salomão Rovedo: O Sonhador. Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2016. (Imagem: Páginas pessoal do autor)

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