sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A bordo do "Livádia" (Conto), de Virgílio Várzea


 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Este interessante episódio de uma das viagens de D. Pedro II à Europa foi narrado, tal qual aqui se acha, pelo ilustre almirante Joaquim Raimundo de Lamare, visconde de Lamare, ao seu íntimo amigo, o preclaro escritor e cientista Dr. Gama Rosa.

A tarde descambava, fulva e resplendente ao vivo sol de verão, sobre as margens altas e curvas do Mar Negro, destacando-se, numa angulosa barra recuada a oeste, a ponta proeminente do Quersoneso, por detrás da qual se divisava ainda, esbatido e quase sumido no horizonte, o recorte extenso e alvo do famoso baluarte de Sebastopol.

Uma seca ventania de procela sublevava as águas — e o Livádia, o grande iate de guerra do imperador da Rússia, cabriolava no cimo alto das ondas, não obstante a sua poderosa marcha a vinte nós por hora.

No tombadilho, onde se aglomerava, a numerosa comitiva imperial, rebrilhando na profusão dos dourados das fardas e dos capacetes marciais, só logravam manter-se de pé os veteranos do mar, em meio dos quais, gigantesco e de pernas abertas, à maneira dos marujos em alto mar, equilibrava-se contra os grandes balanços o tzar Alexandre III.

Era um verdadeiro colosso esse homem robustíssimo, espadaúdo, membrudo, de amplo e possante tórax e volumosa cabeça, cujo rosto tinha uma elevada e serena majestade, longas barbas bondadosas e esse expressivo olhar azul, nostálgico, dos Romanoff. Achava-se na estação média da vida, com uma saúde viva e plena, representando um perfeito e raro organismo e lembrando, pelo conjunto do seu todo musculoso e potente, um esplêndido gladiador dos antigos tempos da Grécia ou de Roma.

À sua direita um velho, adamastórico como ele e de longas barbas brancas como o Tempo, firmava-se aos balaústres metálicos das amuradas, meneando de momento a momento e desordenadamente o largo tronco às caturradas bruscas do iate na vaga, mas sem interromper a conversação em que vinha com o forte monarca europeu nesse tom de voz franzino, delgado e penetrante, que tanto o caracterizava. Era D. Pedro II, Imperador do Brasil.

Completava o grupo destacante e seleto, além dos grandes dignitários da corte da Rússia, uma outra figura de porte gigante, um velho magro, porém musculoso, de alentada cabeça e fisionomia a traços fidalgos, austeros, tendo a barba em colar, tradicional nos embarcadiços britânicos e lusitanos. Era o almirante de Lamare.

O vento de leste, sem chuva e com céu azul e límpido como sucede às vezes no Mar Negro, continuava rijo, pela proa, aumentando, com o desmaiar vesperal no dia, os escarcéus explosivos das ondas. O Livádia jogava formidavelmente, tendo-se passado cabos de vaivém de vante à ré para a marinhagem manobrar no convés. O capitão de fragata Macaroff, chefe da casa militar de Alexandre III e já então afamado como um dos mais notáveis marinheiros de guerra russos, fora para o passadiço dirigir em pessoa a navegação com a sua admirável e inexcedível perícia. Na coberta, à vasta bateria corrida a todo o comprimento da galeota, a artilharia grossa estava jungida às amuradas com travessões e “peitos de morte”. Ao jardim da popa, todo em balaústres de metal reluzente, tal qual as malaguetas, varões do toldo e gaiuta, erguia-se o pau-de-bandeira onde se achavam conjuntamente arvorados os estandartes brasileiro e russo — um, ostentando o seu campo verde, com losango amarelo ao centro, a destacar as armas do grande império sul-americano, descoberto e constituído pelos arrojados e gloriosos Portugueses do ano de 1500; o outro, branco como o gelo da Sibéria, com faixas azuis cruzadas de ângulo a ângulo, a apregoar o predomínio e força de uma das maiores nações ocidentais, fundada e unificada por Miguel Romanoff, insigne guerreiro e rei de cossacos...

Mas os balanços de roulis e tangage mantinham-se terríveis. De instante a instante, os vagalhões que bracejavam ao largo vinham esbarrar e desfazer-se em explosões, aguaceiros e torvelinhos de espuma às bochechas, às amuradas, ao tombadilho, balouçante do Livádia.

O estado-maior russo que acompanhava o Tzar — uma constelação de ricos uniformes em bordaduras de ouro — composto de generais e almirantes de capacetes e chapéus-armados a grandes plumas, não se perturbava jamais, recebendo galhardamente, a pé firme e sem procurar abrigo ou refúgio, as úmidas e contínuas agressões do Oceano em fúria.

De repente D. PEDRO II emudecera, com os olhos tristemente pousados na crista espumosa das vagas. Nesse instante Alexandre III, estendendo os longos braços musculosos para os escarcéus do largo, disse em francês ao visconde de Lamare:

— Almirante, o mar em todo o Brasil, segundo consta geralmente, é sempre calmo e bonançoso; as tempestades são ali muito raras, e isso faz desse grande império da América do Sul um incomparável país de placidez e doçura... Que pensais vós deste seco vento de tormenta e destas ondas revoltas que nos cercam?... Entretanto, como sabeis, estamos numa das melhores monções do Mar Negro...

O almirante de Lamare voltou-se respeitosamente para Alexandre III e respondeu também em francês:

— Sim, Majestade. O Brasil é um país de placidez e doçura nas suas costas do norte, mas nas do sul, particularmente nas províncias de Santa Catarina e do Rio Grande, o mar está sempre inquieto e, no inverno, varrem-no procelas desfeitas, suestadas, lestadas irresistíveis e até mesmo ciclones que são causa de constantes naufrágios, afundando navios ao largo ou arrojando-os às suas cestas e cabos... Lá, como aqui, as borrascas são das mais horríveis do globo... No entanto, ainda não foi possível organizar-se ou montar-se, em nosso vasto litoral, um só dos grandes Postos de Salvatagem tão comuns em todas as costas perigosas da Europa, e sobretudo na Inglaterra...

D. PEDRO II, percebendo que falavam do Brasil, despertara da vaga rêverie em que se achava absorto diante das ondas revoltas do Mar Negro e, recordando-se da viagem que fizera ao sul do Império em 1868, por ocasião da guerra do Paraguai, comprovou plenamente as informações do almirante de Lamare, acrescentando que, efetivamente, essa parte do litoral brasileiro só tinha como rivais em todo o mundo, no tocante a ventanias e tormentas, as costas continentais ou insulares do Mar das Antilhas, do Oceano Índico, do Mar do Norte e da Biscaia...

O Tzar acudiu, a sorrir:

— Alteza, pode ajuntar também a essas quatro famosas regiões geográficas este meu pequeno Mar Negro...

E lembrou, eruditamente, que já dos mais remotos tempos o Mar Negro era universalmente assinalado pelas suas tremendas borrascas. Assim, os Gregos haviam-no chamado mui caracteristicamente de Axenos, inóspito...

Houve uma pausa na conversação. Agora parecia sentir-se mais nitidamente o ranger geral do navio, a zoeira da mastreação dançando ao vento e o esfrolar atroador das vagas embatendo no casco.

Anoitecia. Já três faróis ardiam a pleno esplendor no Livádia — um, a meio mastro de proa, e dois às enxárcias de bombordo e de estibordo, sendo um de luz vermelha, o outro de clarão verde. E, ao mesmo tempo, a câmara e a tolda apareceram súbita e profusamente iluminadas a grandes lâmpadas elétricas.

O iate, deixando a região do alto mar, aproava então para a costa, em demanda do porto, a toda a possança das suas máquinas da força de dez mil cavalos e a toda a velocidade das suas vinte milhas por hora.

A travessia que vinha de fazer no Mar Negro, longa de duzentos e cinquenta quilômetros mais ou menos, desde Sebastopol à bela cidade da Livádia, tocava agora ao fim. O imperador do Brasil regressava da visita que empreendera, a convite do Tzar, à célebre praça de guerra da Crimeia.

Ambos os monarcas e suas comitivas tinham partido para ali na véspera à noite e, durante todo aquele dia até à hora de deixar Sebastopol, D. Pedro II, na sua constante e insaciável curiosidade, percorrera miudamente, com o soberano amigo, as invictas baterias que, em mais de meio ano de cerco, sob as ordens do príncipe de Gortschakoff, comandante em chefe do exército russo e sob a direção particular do insigne general Todtleben, resistira admiravelmente às extraordinárias forças de terra e mar da França e da Inglaterra. Assim estivera ele no local onde existira a famosa torre de Malakoff — chave da medonha cidadela — por onde começara a tomada da até então inexpugnável praça forte, bem como nos sítios das terríveis baterias casamatadas de Alexandre, de Paulo, de Constantino e de Nicolau. Conhecera, enfim, toda a Sebastopol que, agora reconstruída mas sem as proporções e disposições passadas, mal relembrava o seu formidável poder bélico de outrora...

O iate, não obstante a escuridão e a névoa que sobreviera com a noite, singrava, ao momento, mais serenamente e já desafogado das ondas grossas do largo.

Em pouco, o farol e as outras luzes menores do Castelo Imperial — uma das residências de verão dos soberanos russos — fulguravam astralmente à proa, meio veladas na bruma. E a galeota, como um leviatã, entrou ruidosamente na ampla doca de cantaria e ferro do palácio.

Alexandre III e seu hóspede, seguidos dos respectivos séquitos, saltaram então, por entre densas filas de soldados da Guarda Imperial formada; e, ao triunfante estrugir dos hinos russo e brasileiro, penetraram nos altos pórticos de mármore da suntuosa habitação, sumindo-se nas amplas e ricas salas douradas, tapetadas e iluminadas feericamente...

Ao jantar — um ótimo banquete imperial russo — os dois Soberanos, como as suas luzidas comitivas, falaram ainda da viagem e, generalizadamente, das viagens de Mar, cheias de perigo, sem dúvida, mas em geral de surpresas e sensações inefáveis...

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