quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A Feiticeira (Conto), de Ana de Castro Osório


A Feiticeira
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
---
La peur qui met dans les chemins
Des personnages surhumains
La peur aux invisibles mains qui revet l’arbre
D’une carcasse ou dʼun linceul
Qui fait trembler comme un aïeul
Et qui vous rend, quand on est seul,
Blanc comme un marbre.
MAURICE ROLLINAT
De todos os rapazes da aldeia era o Manuel da Clara o mais querido das raparigas.
Fora sempre um belo rapaz de afugentar rivais, mas, desde que viera da tropa e de lá trouxera aquele ar desdenhoso de feliz D. João, aprendido no convívio dos camaradas presunçosos e mulheres de vida airada, parece que as enlouquecia.
Acostumado a ajustar a farda, como apertava bem a cinta de lã preta ou carmesim, que parecia trazer espartilho, o demo do rapaz!
Os sapatos com o lustro bem puxado, que pareciam de verniz; o chapéu garbosamente descaído sobre a esquerda; a ponta do cigarro atrás da orelha; e o lenço, com flores e uma legenda bordadas a cores vivas, a sair da pequena algibeira da jaqueta, as mais das vezes levada ao ombro; o Manuel era na verdade a nata da rapaziada do lugar.
No meio dos outros, com as suas caras rapadas de lorpas, valentes mas sem a elegância dos gestos disciplinados pelo exercício regular, o seu pequeno bigode de cidadão retorcia-se aos domingos com uma petulância irresistível.
Nas feiras e romarias, firmado no varapau metido debaixo do braço, toda a vaidade satisfeita a brilhar-lhe nos inquietos olhitos garços, desafiava toda a concorrência desagradável. Às raparigas iam-se-lhes os olhos nele, e mediam-se com o rancor de rivalidades latentes.
E valentão!? — como aquilo poucos! E, como sempre, era a superioridade material da força e da coragem o que mais o fazia valer aos olhos de primitivas fêmeas, oferecendo-se orgulhosamente ao vencedor, ao macho forte e soberbo.
Quando o Manuel, com um rápido piparote atirava para a nuca o chapéu mole de largas abas, dava um passo atrás, fazia girar o varapau em sarilho sobre a cabeça, e torcia a boca espumante num esgar de raiva... podiam fugir dele!
Contavam-se na aldeia as valentias do Manuel com o mesmo entusiasmo e ufania com que se contariam as de um herói da história, um herói autêntico, de que a tradição nos deixasse o nome e a memória de largos feitos.
Uma vez era todo o povo de Infias que se juntara para o desafiar, raivosos por uma questão de mulheres de que o Manuel era afortunado protagonista, e que ele enfiara pela serra abaixo — que até parecia que o vento os levava.
— Ó Manuel, lembras-te?...
— E daquela vez na romaria da Senhora dos Verdes?...
— E na feira, quando foi da compra dos meus bois?!...
As perguntas, as respostas, as diferentes versões e comentários, envolviam o Manuel num coro de louvores, que ele recebia mal disfarçando a vaidade num meio sorriso modesto enquanto ia enrolando o cigarro entre os dedos fortes onde brilhava um anel de cobra, o encanto e a inveja dos mais rapazes.
No jogo da bola, ao domingo, no terreiro da igreja, nenhum o excedia, como ninguém era capaz de o vencer numa partida de chinquilho ou no jogo do pau. Um valentão, um rapaz às direitas, sempre pronto a fazer um favor, riso franco, coração nas mãos para os amigos; ninguém enfim mais digno da estima dos seus patrícios e ninguém que de fato fosse mais estimado do que o Manuel da Clara.
Além de todos estes merecimentos físicos, que o superiorizavam, ainda era senhor de algumas belgas, e único herdeiro da meação da mãe, a viúva do Rezadeira, que ajuntara o seu peculiozito na casa dos fidalgos. E era uma mulher de trabalho, a velha Clara do Rezadeira, que só tinha olhos e coração para o filho, o seu enlevo e orgulho. Primeiro do que ninguém, como o galo da manhã, saltava da cama, onde a asfixia dum coração emperrado mal a deixava sossegar, e começava a labuta de todos os dias: amassando o pão, chegando ao forno a prevenir a forneira, cozinhando a vianda para os cevados, chamando a gente para o trabalho, despachando serviço, ralhando com um, combinando com outro, e sem nunca perder de vista a panela onde se coziam as batatas para o caldo verde que o seu Manuel havia de comer antes de sair, na sua tigela bem meada de broa. Mal ele aparecia, ainda espreguiçando-se e os olhos mal abertos mas já risonho e feliz como soberano que se julga credor de todos os afetos e homenagens, a velhota aprontava tudo num ápice, rindo e ralhando num visível contentamento de quem se revia no rapagão, que era o seu filho.
É claro que não havia rapariga na aldeia e arredores à qual não agradasse a ideia de poder vir a ser a mulher estimada do Manuel, a senhora do seu coração e do rico bragal de linho que a velha mãe guardava avaramente nos grandes arcazes de madeira de fora, grosseiramente chapeados de ferro.
Ele ria-se com todas, o patife, querendo gozar o mais possível a sua situação de desejado, sem até aí mostrar preferências comprometedoras por nenhuma.
Mas, entre todas, havia duas que nos últimos tempos mais preocupavam o Manuel, com grande contentamento da mãe que ansiava por o ver casado com rapariga que fosse do seu calhar: — só assim morreria descansada, pois uma cabeça alevantada como a dele precisava bem do arrimo duma boa mulher de trabalho.
Por felicidade, as duas raparigas que o Manuel trazia debaixo de vista agradavam por igual à velha Clara — assim tinha liberdade para à vontade consultar o coração.
Uma, Maria Teresa — a Teresinha, como lhe chamava quando acertava de a topar no seu caminho — era afilhada da fidalga e lá pelo palácio se tinha criado com mimos e delicadezas que as outras não conheciam. Era com uma graça toda senhoril que punha os olhos no chão e enrubescia como romã bem madura quando ele a fitava de frente, bem de frente, como fazia às mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas fazê-las explodir em jucundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado dava um realce de elegância exótica ao seu corpo delgado de anêmica, flor tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a única que na terra sabia ler, eram também os seus os únicos olhos que na missa se não levantavam do livro para andarem em leilão pela igreja à procura dos rapazes, que lá de longe, e de soslaio, não perdiam o grupo buliçoso da raparigada.
A madrinha queria-lhe muito, era o que todos afirmavam, e se não tivesse morrido nem a Teresinha saía do palácio, onde era respeitada como filha da casa, e, talvez, se a morte não fosse repentina, tivesse ficado senhora daquela fortuna, quem sabe!?... Tem-se visto coisas mais raras. E melhor teria sido para a terra, pois a casa dos fidalgos, que fora sempre abrigo de miseráveis como consolação de desgraçados, mal a senhora morgada fechara os olhos fechara-se também à pobreza, com uma crueldade que revoltava toda a gente.
Os herdeiros, uns primos em último grau legal, souberam da sua morte sem testamento e acorreram de Lisboa em marchas forçadas. Mas, tudo liquidado à pressa, apartaram gulosamente, para figurarem nos salões da capital, as preciosidades que enchiam e decoravam o velho solar. Durante alguns dias não se ouviu senão o martelar dos carpinteiros fazendo e pregando caixotes e não se via senão a moderna condessinha, muito prática em antiqualhas preciosas, abrir portas e armários, percorrer os salões e os sótãos, dar volta às paredes e às bojudas cômodas de floreados embutidos, que seguiram com os candelabros, as joias, os quadros e os Sèvres ricos como os incontáveis Chinas para o sorvedoiro de Lisboa. Depois, mal o conde, com o seu ar mais chique de fadiga, deu por terminadas as contas e entregues as propriedades ao feitor trazido das lezírias ribatejanas como pessoa de inteira confiança, fugiram atemorizados pela tristeza pesada e úmida que ressumbrava o casarão quase desabitado havia anos, desde que a fidalga se tolhera de todo e passava os dias nos aposentos mais ensoalhados onde fizera a sua habitação e a da Teresinha, que lhe lia os autores prediletos e a arrastava na cadeira de rodas pelas ruas ensombradas pelos buxos seculares do jardim.
Verdade seja que a senhora condessa, sabendo o amor que a velha prima dedicava à afilhada e a docilidade e o desinteresse com que ela a servira e cuidara até ao fim, ofereceu-lhe o lugar de sua criada de quarto e obrigou o marido a pôr em seu nome algumas propriedades arredadas ou a arbitrar-lhe o seu valor em dinheiro, coisa duns cem mil réis, para os seus alfinetes, o que a tornaria na aldeia uma pequena morgada.
A Teresinha agradeceu cheia de reconhecimento a generosa munificência da condessinha, a quem serviu, como ela nunca fora servida, até à última hora que se demorou no palácio. Depois, quando se viu fora do ninho onde a sua alma se emplumara e o seu corpinho débil de criança pobre crescera e se tornara de mulher perfeita, sentiu-se como que isolada num vasto campo deserto.
Mas, séria e ponderada como era, tomou logo a mais acertada resolução: indo viver com a tia, a Zefa do Padre, uma que fazia belos doces e fora por muitos anos ama do velho abade. E para encher os dias, tão longos agora quanto lhe pareciam pequenos dantes a rodear de cuidados a madrinha paralítica, metera-se a tecedeira. Em breve era a melhor, sem favor, que havia na terra.
O seu tear, no monótono bater do pedal e correr da lançadeira, só parava aos domingos e algumas horas da noite.
Aquela vida de reclusão mais lhe amaciava a pele e dava um tom ligeiramente empalidecido às suas feições miúdas.
— Mas era alegre dantes!... Agora, dês que o Manel da Clara veio de soldado e entrou de atentar nela, é que de mais em mais se vai definhando, que nem já parece a mesma. Louvado seja Deus, que só trabalhos e desgostos me chegam pro fim da vida.
Dizia isto a Zefa do Padre à Gertrudes Zarolha, velha conhecida dos longínquos tempos da mocidade, assentadas à porta, com a roca à cinta e o fuso girando e torcendo o linho cuspinhado pelas suas bocas palreiras.
— Mas então aquele desaustinado não diz nada cá à nossa cachopa?!...
— Qual história! Que eu saiba, ainda não lhe disse fala prò bem nem prò mal.
— Que desaforado! O que ele precisava sei eu!... Uma rapariga como a nossa Teresinha!... Credo, santo nome de Jesus! Mal empregada é ela para tal libertino, que veio mesmo perdido da tropa!...
— Lá isso, ó Gertrudes, mau rapaz não é ele, e tem o seu bocadinho...
— Ah, mas tem uma cabeça mais leve! No nosso tempo parece que não eram assim, ó senhora Zefa! Quando algum pretendia duma rapariga, dizia-lho, e estava acabado, iam pra igreja os banhos!...
— Ora, eu sei lá! Haveria de tudo. Estas coisas esquecem muito, e o nosso tempo já lá vai há tanto!...
— Ai eu cá lembra-me perfeitamente, que o meu home assim fez. Foi até numa cava; calhou eu ficar ao pé dele, e fomos ao desafio. Como eu é que ganhei, ele então deu-me um abraço muito grande e disse-me assim: — Ó Gertrudes, és uma mulher duma cana; amanhã se tu quiseres vou falar ao senhor abade e vamo-nos a botar os pregões. E assim é que foi...
— E eu que ainda me lembra do senhor abade vir pra casa a rir muito e a contar o caso à minha tia — que Deus haja! Ainda ela então andava rija e fera, coitadinha.
— Mas vossemecê já lá estava, pois não estava?
— Pois estava, desde a idade de oito anos que fui pra companhia da minha tia até à idade dos cinquenta em que aquele santo rendeu a alma a Deus! Ficou-me nos braços...
— Coitadinho! Tão bom homem, tão sério, era como o nosso pai de todos. Veja lá se tudo não vai a pior! Olhe-me para o desatino em que este anda por aí, com as raparigas e as mulheres donas de sua casa, atrás, sempre em cantorias, e em rezas novas, que nem podem agradar a Nosso Senhor...
— Já o dizia o senhor abade: a religião deve ser a consolação da nossa vida e não o seu único fim. Mas essa jesuitada entrou por toda a parte com este rapazelho do seminário — e bem mal têm já feito e hão de fazer às famílias!... O senhor abade bem dizia, bem dizia... E bastantes desgostos teve nos últimos tempos, que lhe amarguraram o resto dos dias... Coitadinho! Assim Deus lhes perdoe, que eu não posso tragá-los. Até me custa ouvir a missa daquele avejão — Deus me perdoe se peco!
— E o que me diz às amizades dele com os feitores da fidalga?! ela toda trinques, caminho da missa logo de madrugada; as filhas de goelas abertas com as tais onzenices de cantorias na igreja, e mais florinhas pra aqui, e mais rendinhas novas nas toalhas do altar, confissão a cada passo... Eu nem sei, eu nem sei!...
— E o marido? Vossemecê há de ouvir alguma coisa — está ali à beirinha da casa...
— Ora o marido!... também gosta muito daquelas coisas, e reza e canta e leva o padre pra casa a jantar e a tomar o chá, as mais das vezes.
— Eia! — vivem como fidalgos!
— Aqueles grandes excomungados! No tempo da fidalga, graças a Deus ninguém batia àquela porta com fome que não trouxesse uma consolaçãozinha; agora nem um chavo! Tudo querem para eles, aqueles ladrões!... Parece que ainda estou a ver a Teresinha ir a correr contar à fidalga e vir logo com uma abada de pão ou de fruta, ou umas batatinhas, ou uma tigelinha de papas e o bocadinho de carne!...
— Pobre Teresinha, tão mimosa foi da madrinha e agora tão triste a vejo!
— Mas aquele maroto não lhe dizer nada é o que me dá no goto!...
— Ele passa por aí às tardes, e ri-se para ela... Quando vai a alguma romaria sempre lhe traz uma prenda e um cravo com um verso bem calhante, mas nada mais! ela então é uma tola pelo rapaz! Mas quando o vê faz-se encarnada como um pimentão, põe os olhos baixos, e nem sequer o salva.
— Ora essa! Tem sua graça, tem!
— Eu nem posso explicar isto. Que a minha Teresa — não é por ser minha sobrinha — não é de enjeitar... é a melhor cachopa cá da terra.
— Ora isso, nem se fala! Compara-se lá! Basta saber ler e ter a inducação que teve. É a florzinha da nossa vila.
— Pois isto dá-me cuidado, dá! E não é pouco... A pequena só me tem a mim no mundo, e eu estou velha e cansada; queria-a ver arrumada antes de fechar os olhos. E com o Manel da Clara do Rezadeira gostava, lá isso gostava: a mãe é rapariga do nosso tempo, e ele tem alguma coisa de seu, e no fundo não é mau rapaz. Mas então!... Parece bruxaria.
— Ai senhora Zefa, não ponha mais na carta. Isso há de ser, há de! E não é mais nada senão coisas daquela atrevida da Maria do Próspero! Aquilo sempre foram de má raça. Até o pai... há de saber! Não?! Pois eu lho conto. Credo, santo nome de Jesus! Cada vez que me lembra até os cabelos se me põem em pé. O que aquele malvado disse de mim, que sempre entrei em casa da fidalga, que Deus tem, com toda a franqueza!...
— O que foi então?
— Ai não sabe?! Aquele grande diacho, Deus me perdoe! Então não disse ele que eu é que chupara o morgadinho, o filho da senhora fidalga!? Aquela avantesma!... Nem que eu não soubesse!... Bom, calo-me, que é melhor...
E mudando de tom, muito confidencial e amigável:
— Posso dizer-lhe de certeza: a Maria do Próspero conversa com o Manel e parece que o traz enfeitiçado. Olhe que lhe ouvi eu dizer — que primeiro estava ela, que já o namorava há muitos anos, ainda antes de ele ir para a tropa, e que nunca a lesma da Teresinha o havia de apanhar! Desculpe, senhora Zefa, aquilo é uma atrevida, uma doida!... Pois de que raça ela é!...
— E o que é certo é que vai levando avante o seu intento; tem artes do demônio!...
— Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hão de voltar o Manel, oh se hão de!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e dizia a oração... É coisa certa.
— A Teresinha tem um lenço que ele lhe deu, mas fosse lá falar-lhe nisso!... Toda se zangava, não acredita nestas coisas...
— Pois são bem verdadeiras...
— O outro dia ensinei-lhe que cruzasse as pernas mesmo de pé quando a atrevida da Maria passar por ela... Desatou a rir!
— Ah, isso é uma coisa certa para livrar do mau-olhado de quem nos quer mal. Sabe o que era muito bom? Era fazer à pequena um defumadoiro com ervas colhidas na manhã de S. João... É o alecrim, o funcho, a dedaleira, o rosmaninho, o sabugueiro... Se quiser, eu tenho lá.
— Muito obrigada. Assim ela quisesse!... Bem se fazia um defumadoiro que a livrasse daquele enguiço.
Assim continuaram em conversa larga, cheia de combinações e reticências, que muito as interessava, enquanto a Teresinha dentro de casa trabalhava na teia branca, que parecia sempre a mesma, eterna como as suas mágoas.
O tear monotonamente fazia subir e descer os pentes com um barulho seco e igual, enquanto ela levantava a sua vozinha agradável de soprano numa toada melancólica:
Eu hei de amar uma pedra,
Deixar o teu coração;
Uma pedra não me deixa,
Deixas-me tu sem razão.

E ao dizer a quadra, que parecia sair-lhe do próprio coração, os olhos enturvecidos de lágrimas fitavam a estampa ingênua que ele lhe trouxera da Senhora do Castelo, a grande romaria de Setembro.
Todos os anos lá ia — era o costume — e também a Maria do Próspero, que punha nos ranchos um contínuo esfuziar de gargalhadas terçando galhardamente com os mais afamados piadistas as armas perigosas da chalaça e da resposta à letra.
Cantavam ao desafio, ela e o Manuel. Tinham fama por todas aquelas redondezas, e, mal as suas vozes se trocavam num princípio de duelo, os auditores cercavam-nos e apertavam-nos num círculo de admiração excitando-os com risos e apartes.
Também era o par certo em todas as romarias — talhados um para o outro!
A Maria era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fora brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A boca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras, e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delícia no pão de milho, sua única escova.
As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a cabeça como uma touca de veludo negro.
Quando punha o cachenê vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o xale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para arrebanhar admiradores.
Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos sadios, vividos em plena natureza.
Nas ceifas, ao ardor dos sóis caniculares, mangas arregaçadas mostrando os braços trigueiros e musculosos; ou no gesto mecânico de juntar as paveias e sobraçar os molhos, tinha a harmonia escultural e grave duma Ceres fecunda.
Nas vindimas, era a primeira dos ranchos, vermelha do mosto que corre como sangue generoso, a boca escancarada em risos e cantigas... Tinha um aspecto quase trágico e uma beleza perturbante e assustadora de bacante.
Pela apanha da azeitona, quando os campos amanhecem brancos da geada que toda a noite caíra manso e manso, tudo uniformizando sob a sua alvura de sudário, e o frio corta as mãos, que se engatinham, e entorpece os dedos que mal se podem dobrar, ela motejava de todos, sempre na frente, cantarolando e rindo, enchendo de ânimo os mais desanimados, encorajando os mais entanguecidos pela friagem.
Sempre pronta para o trabalho, a Próspera, em todas as sáfaras e com todos os tempos!
Mas, também, não faltava às romarias e às feiras das cercanias, com o seu lenço berrante, o casaquito branco engomado a capricho, e a sua alegria saudável, que fazia bem ver.
O Manuel não resistia àquela força que chamava a sua força, àquela exuberância de mocidade que atraía a sua mocidade. Quando a via, nem sequer pensava na Teresinha, que se ia finando lentamente ao compasso triste e monótono do seu tear caseiro.
E, no fim de contas, para falar a verdade, a Maria era também uma boa rapariga, que nunca tivera outro conversado. Nem havia língua danada de velha de soalheiro que se atrevesse a debicar nos seus créditos. Alegre, sim; rir com todos, vá! Mas atrevimentos não os consentia a ninguém. E tinham-lhe respeito — que a sua mão era lesta, e um sopapo da Próspera não era brincadeira!
Só o Manuel gozava da sua confiança e só com ele tinha as suas graças e brincalhotices mais livres, o que mais o afervorava naquele amor crescente que o ia conquistando dia a dia.
À noite, nas esfolhadas, quando o luar é morno e as flores têm um perfume mais intenso, corriam um atrás do outro, batiam-se fortemente, e caíam às vezes sobre a palha ainda quente do sol, com um cheiro seco que entontece.
As gargalhadas seguiam-nos de todos os lados da eira, as chalaças cruzavam-se no ar como morcegos de pesado e estonteado bater de asas:
— Eh lá, Maria, vê se tens mais força do que ele! Isso é que era um riso, o valentão deixar-se bater por uma mulher!...
— Talhados um para o outro — isso é que não havia dúvida, nenhuma!
— A Zefa do Padre que se deixasse de querer casar a sobrinha com o Manuel.
— Boa rapariga, lá sobre isso não havia duas opiniões; mas a Maria é que estava a calhar para um homem de trabalho, uma mocetona daquelas que era capaz de voltar um campo sozinha.
Os homens votavam pela Maria, bela mulher para tudo e forte como uma torre. As mulheres, essas eram pela Teresinha, delicada e amável, pondo sorrisos de aquiescência onde a outra só tinha ruidosas gargalhadas de troça.
Era ela que lhes talhava e cosia à máquina, sem paga, as chitas pobres, mas apesar disso tão dificilmente compradas, e lhes ajustava os coletes de linho grosso que tão irmanados lhes erguiam os seios até á raiz do colo: — Ora, sempre era outra louça! Podia lá comparar-se! Bem se via que tivera outra criação, lá em casa da fidalga, que a tratara como filha.
— Que ele gostasse dela, vá! Agora da Maria, uma cachopa como as outras!...
O Manuel, ainda indeciso, mas já a inclinar-se para a Maria, irritava as mulheres que se ofendiam com a insolente alegria da rapariga, que andava radiante com o seu ar de triunfo certo.
A velha Gertrudes Zarolha vivia sobre brasas, nos últimos tempos.
Com meias palavras ou redundâncias enigmáticas conseguia sobressaltar o coração do rapaz, mas não desviá-lo duma paixão que se harmonizava inteiramente com o seu modo de ser moral e físico.
— Casar com a Maria — dizia a velha à boca cheia — era até um pecado!... — e benzia-se com gestos de apavorada, que não explicava mas punha de sobreaviso as consciências timoratas.
Por uma noite de Verão, sinistra pelo negrume de nuvens carregadas de eletricidade e prometedoras de fortes aguaceiros que toldavam o céu, voltava o Manuel da Clara da vila próxima onde assistira à feira.
Um calor asfixiante pesava como chumbo no abandono pungente da paisagem lúgubre. Os pinheiros esguios tinham um murmúrio mais triste e vago, como soluços suspensos de almas em pânico, e o olival verde negro destacava-se no fundo, apertando como num cilício doloroso a pobre terra que se dependura de fraguedos rudes, sempre ameaçada pela montanha que a cavalga e lhe limita o horizonte, cortando-lhe toda a esperança de se expandir por ali, como o pecado vela e corta toda a esperança da alma piedosa...
O Manuel, que tinha ficado um pouco para tarde, conversando com uns amigos na taberna do Jeitoso, vinha assobiando alegremente, caminhando despreocupado e sem grande pressa.
Ao passar pela Fonte do Inferno... diabo!... que ouviu ele?! Um rumor confuso de gargalhadas, que aflavam no ar como grasnar longínquo de corvos...
Medo?.... ele não tinha medo, mas desde que acontecera aquela história da casa dos Carneiros... Credo! Abrenúncio!
— E não se benzeu, o Manuel, como lhe cumpria fazer, ao lembrar-se de coisas daquelas!... A tropa é que estraga os rapazes, está visto...
Agora, as gargalhadas já soavam mais perto... diria mesmo que ouvia a Maria do Próspero.
— Mas naquele sítio, àquela hora!... Quem se atreveria?!...
— Em casa dos Carneiros, — lembrava-se involuntariamente — aquele barulho de cadeias a arrastar, os ferros em brasa que vinham cair aos pés da gente da família, o vozear sinistro que se escutava em toda a aldeia e trazia apavorados os mais valentes... Deus do céu, que terror fora na terra toda! Já ninguém dormia nem descansava. Muitas mulheres tiveram então espíritos que os padres e os bentos esconjuravam, e se batiam com eles como forças iguais.
— Só depois que o senhor Vigário velho se resolveu a sair, de capa de asperges, para benzer a casa endemoninhada, é que tudo sossegou...
O Manuel já não assobiava, e ia olhando de soslaio para o Camborço, pedraria escalvada suspensa por milagre sobre o abismo e que a toda a hora parece desabar e soterrar as pobres casas de pedra solta tisnadas pelo tempo.
Um ventito picado e quente levantou-se então, trazendo o rumor distinto de vozes, gritos surdos e gargalhadas abafadas...
O Manuel era destemido; apesar da má fama do sítio, tido como lugar de maléficas reuniões diabólicas, resolveu-se a transpor o pequeno muro que separava o caminho da Fonte do Inferno, a propriedade de mais estimação dos velhos fidalgos.
Primeiro, não viu nada; depois, vaga e confusamente, luzinhas que saltavam e atravessavam-se corriam e perseguiam-se, juntavam-se e tornavam a afastar-se...
Um calafrio lhe percorreu o corpo e sentiu na espinha dorsal uma sensação desagradável que o fez tremer. O Manuel era valente, — nisso não podia haver dúvida! — mas é que aquilo que via tão realmente como se à luz do sol olhasse as suas próprias mãos eram as feiticeiras, tal qual a sua mãe as tinha visto também quando em pequenino esteve ameaçado de ser chupado por elas...
Entre curioso e medroso — já agora não sairia dali sem ver o que aquilo era.
Acercou-se da eira onde a ronda sinistra era mais febril... — Jesus, que coisa horrível! — Olharapos corriam vertiginosamente, que mais pareciam voar, na noite negra, com o seu único olho flamejante no meio da testa, lanterna mágica das profundezas do averno!...
Um lobisomem passou a galope, no seu fado triste, procurando alma cristã à qual pudesse, antes da meia-noite, entregar a sua cruz martirizante. Se ele o tivesse topado!... Até os cabelos se lhe punham de pé.
As luzinhas continuavam correndo alígeras, voando na escuridão dura da noite.
Sorrateiramente foi-se aproximando da eira onde chamejavam em alucinado rodopio... A pouco e pouco ia-as distinguindo na sua forma humana, girando buliçosas e gárrulas.
No meio da roda — cruzes! como podia aquilo ser?!... — o Diabo passeando altivo, vestido de encarnado e de chapéu guizalhante, pousando os pés de forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente.
Dessa vez o Manuel não pôde deixar de rir, tão patusca lhe pareceu a cena.
Ah! mas quando ele viu com os seus próprios olhos — tão certo como haver a luz do sol que nos alumia! — adiantar-se uma das luzinhas e, tornando rapidamente à sua figura de mulher, aparecer-lhe a Maria do Próspero, tal qual ela!... E quando a viu chegar ao pé do homem vermelho, estender-lhe os fortes braços roliços e trigueiros, abraçá-lo com ardor, não pôde reter um surdo grito de raiva.
Aqueles braços, que só o pensar neles lhe fazia febre; aquela mulher, que o trazia preso havia tanto tempo e com a sua honestidade alegre e simples conseguira o seu respeito e o seu amor, estava ali em frente dele abraçando outro! E esse outro — Deus do céu, que até a sua alma tremia! — esse outro era o próprio Diabo em pessoa!
Tremia de desespero e horror por essa criatura, que não passava afinal duma feiticeira.
Uma tremura nervosa e um frio de gelo o faziam vibrar todo. O sangue subia-lhe à cabeça, punha-lhe zoeiras nos ouvidos, alucinando-o.
As luzitas recomeçaram a dança, numa farândola de sabbat, correndo e saltando, num delírio de gargalhadas frias como entrechocar de ossos numa dança macabra.
Ao Manuel parecia-lhe que tudo dançava à volta dele, que ele mesmo se sentia voar num rodopio de entontecer. Agora o Diabo, sentado num trono luminoso de feiticeiras, os pés de bode torcidos e negros a descansar sobre o formoso corpo de Maria, como se fosse um estrado, lia um grande livro de capas encarnadas. A cada folha que voltava, saía uma nuvem de diabitos fantásticos, saltitantes, folgazões como garotos ao sair da escola, que iam juntar-se às feiticeiras, e tudo corria, voava, num cabriolar estonteante e doido.
Uma das luzes aproximou-se então do Manuel, que ficara empedrado na contemplação da cena que o atordoava e lhe tirava toda a sensação da vida, e rapidamente se fez mulher. Ficou boquiaberto, pois a bruxa era nem mais nem menos do que a Gertrudes Zarolha, a velha amiga e confidente da Zefa do Padre.
Se tivesse pensado melhor não se teria espantado tanto, pois essa era tida e havida por tal desde que o compadre Marques, o alfaiate, a encontrara feita galinha, lá para as bandas da vila, arrastando após si uma ninhada de frangas, as discípulas que ia exercitando pela noite alta. Admirou-se: — uma galinha tão tarde fora da capoeira!? — e dando-lhe com o metro partiu-lhe uma asa. Logo a Gertrudes tornou à sua forma natural e lhe pediu que se calasse, pois em paga do seu silêncio lhe daria todos os anos uma camisa nova.
Mas o que é certo é que toda a gente soube do caso, sob segredo, e ele nem por isso deixou de receber anualmente a boa camisa de pano de linho.
A Gertrudes quedou-se diante do Manuel: feia e engelhada, a boca vazia de dentes, o cabelo esbranquiçado e crespo a fugir do lenço de chita, uma cavidade vermelha no lugar do olho direito perdido não se sabia por que desastre.
— Ai, Manuel, pobre rapaz, desgraçado!... Se o Senhor te visse, estavas perdido neste mundo e no outro!...
Ele olhava-a emparvecido, numa confusão labiríntica de ideias, que não explicava nem compreendia.
— Ouves, Manuel? — continuava a velha bruxa. — Eu sou tua amiga, não te quero ver perdido. Olha, escuta, toma sentido no que te vou dizer: o Senhor vai perguntar quem corre mais, para lhe entregar a caldeirinha que veio hoje do Inferno para a nossa missa. Tu hás de dizer que corres como o pensamento, agarra nela, e foge. Corre quanto puderes! Só estarás em segurança agarrado à corda do sino da igreja, depois do galo preto romano cantar pela terceira vez depois da meia-noite. Corre, corre quanto puderes, e livra-te de olhares para trás, ouças o que ouvires, sintas o que sentires. Ainda que te chamem pelo teu nome, não olhes nem pares, — olha que depende daí a tua salvação e a tua vida!
Afastou-se saltitando, outra vez luzinha, a misturar-se com as outras na dança macabra.
O Manuel ficou estarrecido, mas o próprio medo lhe deu energia bastante para responder com segurança à pergunta que o homem vermelho fazia em voz tão formidável e soturna que toda a natureza estremeceu de pavor e os corvos no vizinho cemitério grasnaram agourentamente.
Tendo gritado, no meio de vozearia geral, como lhe ensinara a Gertrudes Zarolha, —"corro como o pensamento!" — agarrou na caldeirinha mágica que estava no meio da roda e desatou a correr com quanta força tinha, em direção à igreja, cujo campanário singelo donde pendia a corda do sino era agora a sua única esperança de salvamento.
Mas, fosse porque o conhecessem pelo andar ou fosse por penetração diabólica e subtil, o que é certo é que, logo que voltou costas, uma grita ensurdecedora lhe chegou aos ouvidos. Sentiu-se perseguido por toda uma canalha de demônios, fúrias vesgas e feiticeiras esguedelhadas, pequeninos trasgos e enormes gigantes, que ardendo em sede do seu sangue e da sua alma cristã lhe corriam no encalço.
Via-se quase perdido, sentia-se quase agarrado por enormes braços descarnados e com unhas aduncas e enclavinhadas, que se lhe cravavam na carne como tenazes... Chamavam-no pelo seu nome, ouvia coisas pânicas, e ora o insultavam com palavras que se desprendiam como pedradas de funda, ora o seduziam com promessas tentadoras.
E dizia mesmo que essas vozes sedutoras, que se misturavam às outras brutais e agressivas, eram ditas pela boca vermelha e fresca da Maria...
Mas, fiel à recomendação da Gertrudes, corria numa ânsia ofegante, num desespero de loucura. Na cabeça enfebrecida duas únicas ideias se lhe espetavam, como navalhas agudas: — a Próspera abraçando o Senhor, como lhe chamara a Zarolha, e o campanário humilde onde estava a sua salvação.
Não compreendia nem via mais nada, e nada mais lhe interessava no mundo. Mas chegaria a tempo de poder agarrar a corda do sino antes do galo preto romano cantar pela terceira vez à meia-noite?!...
Já as pernas lhe fraquejavam, a cabeça andava-lhe à roda, e os gritos satânicos, que mais e mais se avizinhavam, davam-lhe a certeza do seu triste fim, se não conseguisse chegar.
Mas já estava perto — num último arranco, estava salvo!
Se fosse vinte passos mais longe não poderia resistir. Quando deitou a mão à corda do sino, que deu na noite negra uma badalada lúgubre, o galo preto romano soltava pela terceira vez a sua voz clara e sonora de espancar visões e pesadelos.
Um gargalhar surdo e um rumor de maldições e pragas perderam-se no ar, enquanto o Manuel caía pesadamente no chão, agarrado ainda à corda do sino que tremia nas suas mãos crispadas. Ao lado tombara a caldeirinha tilintando numa vozita escarnicadora.
Para quem duvide do caso, lá está ela na igreja matriz, da pequena terra triste, cortada na rocha bruta, estrangulada entre pinhais melancólicos e oliveiras de folhagem eternamente sombria.
Lá anda ela, cheia de água benta, tilintando sempre a sua vozinha escarnecedora e fantástica, acompanhando enterros de cavadores tisnados que na terra encontram o seu único repouso, e criancinhas frágeis que vão para o Céu aspergidas com a água benta da caldeirinha infernal...
Lá anda, muito serena, orgulhosa do seu metal desconhecido forjado nas profundezas ardentes do mundo sobrenatural, a acompanhar o senhor vigário na visita anual em dia de Páscoa alegre e florida: — Boas festas, boas festas, santas festas!, sorri no seu arzinho petulante.
De madrugada, quando os homens iam para o trabalho, encontraram o Manuel ainda desmaiado, agarrando-se à corda do sino como náufrago a tábua salvadora.
Levaram-no para casa, alvorotando toda a vila com o extraordinário caso. A Clara de Rezadeira, — coitada! — mal viu o filho, o seu Manuel, estendido como um cadáver sobre o leito de cabeceiras embutidas, para onde os homens o atiraram já cansados da caminhada com semelhante peso, ia morrendo também, sufocada pelo sangue cujos ímpetos o pobre coração mal podia regular.
Mas o mestre barbeiro afiançou a cura para breve, dando uma picadelazita no braço do rapaz — que era de humor muito quente, e apanhara algum golpe de sol lá pela feira.
A febre sobreveio e teve-o entre a vida e a morte, dias e noites ardendo num fogo de que o delírio e a agitação eram o corolário lógico. O que ele via, os sonhos e os pesadelos que lhe enchiam a pobre cabeça enfebrecida, mal o compreendiam os seus enfermeiros. E todo aquele mal se agravava e a agitação chegava ao delírio furioso dum louco se por acaso a Maria do Próspero chegava à porta, a pedir notícias ou a querer ajudar a tia Clara nos arranjos domésticos.
Ninguém podia compreender tal horror à rapariga, nem ela, que se consumia e chorava sem consolação por ver a mudança brusca do seu Manuel.
Quando se levantou estava pálido, cambaleava, e uma tristeza profundíssima lhe encovava os olhos.
No primeiro dia em que saiu, o seu cuidado foi logo ir procurar a Gertrudes Zarolha, que encontrou sentada à porta da casa, fiando e conversando com o gato preto gordo e pesado, seu único companheiro e amigo.
O Manuel não esteve com cerimônias, foi direito ao fim. Contou à velha tudo quanto tinha visto na Fonte do Inferno quando viera tarde da feira, e exigiu explicações completas sob a ameaça duma sova se ela não quisesse dizer a verdade.
Ao princípio a Gertrudes indignou-se, pôs as mãos no peito, jurou a sua inocência e negou que fosse feiticeira.
— Na Fonte do Inferno?!
— O Manuel que não sonhasse em tal — credo! cruzes, canhoto! fora aquele patife do Próspero que levantara aquela calúnia e dizia a quem o queria ouvir — que fora ela quem chupara o filho da fidalga...
Mas o Manuel atalhou: — não negasse a Senhora Gertrudes; tinha-a ele visto, ora essa! Querer dizer-lhe que não era verdade uma coisa que ele mesmo vira, com aqueles mesmos olhos que a terra havia de comer?!... Demais, não tinha nada com a sua vida nem o contaria a ninguém, pois até lhe estava muito agradecido por o ter ensinado a livrar-se de tamanho perigo. Agora o que queria saber era a verdade — sobre a Maria do Próspero. Seria ou não certo tê-la visto abraçar o Senhor?... Seria ou não certo o ser ela feiticeira a valer?! Podia ter-se enganado... podia-a ter confundido com outra... Às vezes, e como foi ao longe...
Era a última esperança, e a ela se agarrava com todo o afinco de quem não quer perder uma doce ilusão.
E pensava, horrorizado, que aquilo poderia ser verdade e teria que deixar de pensar na Maria, agora que a paixão por ela chegara ao alucinamento, hesitante entre o amor e o ódio.
Quanto daria para que a Gertrudes lhe desse a certeza de que os seus olhos o tinham iludido, quanto daria!... Tornar a ter na Maria a confiança que tinha dantes; podê-la levar para a sua casa, como ainda na véspera lhe dissera a mãe, que morria pela rapariga — tão trabalhadeira, tão desembaraçada e boa... Não tinha nada, mas isso o que importava? ela, a Clara do Rezadeira, não se importava nada com isso e aconselhava-lhe a que escolhesse antes uma rapariga de trabalho do que uma com dinheiro, que nada vale quando dá em mãos que o não sabem guardar nem aumentar.
Como ele esquecia, evocando a formosa rapariga, a pálida Teresinha, que lentamente se ia definhando e morrendo aos poucos, ao compasso surdo e monótono do seu tear!...
Mas a Gertrudes foi impiedosa. A pouco e pouco começou a dizer tudo; primeiro timidamente, tenteando o assunto, depois entusiasmando-se, contando detalhes, dizendo coisas que arrepiavam e indignavam o Manuel.
Era certo e mais que certo ser a Maria feiticeira! Havia pouco tempo que aprendera, mas já a consideravam das mais finas e das mais queridas do Senhor.
— O lobisomem que tinha visto — mas isso em grande segredo, porque tinha medo de levar alguma sova — era o Próspero velho. Andava com o fado há tantos anos! Não tinha sorte nenhuma, coitado!
Que de histórias lhe contou, e ele ouviu pasmado, vencido por aquela verdade irrefutável: — a Maria era feiticeira!
A Gertrudes comentava com gestos curtos e vozes de confidência: — Ora essa! De que se admirava? Sempre lhe dissera que não era mulher capaz para um homem de brio e de honra.
Tinha-lhe ódio, o ódio implacável das velhas criaturas desprezíveis aos que têm a insolência da alegria, da juventude e da beleza. E então, depois que a rapariga dissera numa sacha, entre as gargalhadas do rancho, que não queria estar ao pé dela porque lhe podia dar quebranto ou chupá-la como fizera ao filho da fidalga, a Gertrudes não a podia tragar.
— Se fosse com a Teresinha, — continuava convencedora — com essa era de sua aprovação. Uma rapariguinha tão recolhida, sem uma nota, sem más palavras para ninguém, e sempre tão boa, tão condoída! Mesmo um anjo do Céu!
O Manuel calava-se, abismado no seu desgosto, não podendo seguir-lhe a tagarelice nem dizer uma palavra que lha fizesse estancar. De quando em quando, uma palavra ou outra feria-lhe o ouvido, chamando-o à realidade, aos repelões, sobressaltando-lhe ainda mais a alma amarfanhada.
Por vezes já a imagem da Teresinha, com a sua esbelteza delicada, o seu vestido escuro de luto aliviado, o sorriso magoado da sua boca virgem de beijos, se começava a esboçar na sua memória. Via-a corada como a romã quando acertava de lhe dirigir a palavra, sofredora e resignada quando o sabia mais preso pelos encantos de Maria; lembrava-a fugindo arisca da porta para o espreitar da janela, mal assomava ao cimo da rua com os seus ares triunfantes, bamboleando-se com a importâncias de janota de aldeia. — Coitadinha! Gostava tanto dele! enquanto esteve doente, nunca ela deixou apagar a lâmpada à Senhora do Castelo...
O Manuel afastou-se por fim — a velha já o enjoava com as suas histórias. E, ao sair dali, pensava com funda melancolia em todo o passado extinto, nessa alegria radiosa que não voltaria mais. Da sua vida, tão profundamente abalada, nem a si mesmo sabia dar conta.
Quando subia vagaroso e preocupado a rua estreita e íngreme, os seus olhos puseram-se com sobressalto na Maria do Próspero, que caminhava em sentido contrário, cabisbaixa, os braços caídos ao longo do corpo, os olhos pisados postos no chão, o fato em desalinho de quem perdeu o gosto e a garridice.
Que mudada estava! Nem parecia a mesma, — não a reconheceria por certo fora dali.
O rapaz, olhando-a, sentiu subir-lhe do largo peito um soluço doloroso.
Meteu-se na sombra duma porta e deixou-a passar, avergada ao peso da tristeza e do remorso do seu pecado sinistro.
Estremecia de horror como se a visse ainda na noite demoníaca, cuja lembrança o perseguia como uma ideia fixa de monomaníaco.
Como podia ser feiticeira uma rapariga tão linda, tão alegre, tão sincera?!...
Mas era-o, tinha a certeza, porque a vira abraçando o homem vermelho de negros pés de forquilha, e porque a Gertrudes lho afiançara havia instantes.
Todo o pavor daquela noite trágica o tomou de novo, e involuntariamente evocou o sabbat infernal: — as luzinhas bailando, entrechocando-se, e afastando-se num compasso rítmico; as gargalhadas que soavam como crocitar de corvos; os olharapos correndo, com o seu único olho a furar-lhes a testa; os lobisomens galopando, no seu fadário triste; avejões, diabitos galhofeiros, lêmures, trasgos, duendes, feiticeiras, e, sobretudo, como ferro em brasa a causticar uma chaga, a recordação da cena em que a Maria abraçava o homem vermelho e lhe servia de estrado.
Era de endoidecer!
Quando despertou desse pesadelo de acordado, já a Maria ia longe, andando lentamente, acurvada pelo imenso desgosto de ver o Manuel tão diferente do que fora, e sem razão nenhuma que ela lhe desse!
Se ao menos soubesse explicar o motivo por que tão cruamente a repelira durante toda a doença, quando ela passava as noites sem se deitar, sempre pronta à primeira voz, — uma verdadeira filha para a Clara do Rezadeira, que já lhe queria como tal!...
Alguns meses depois, os sinos da antiga igreja matriz repicavam freneticamente mostrando o entusiasmo do sacristão pelo casamento do Manuel com a Teresinha da Zefa do Padre.
A noiva ia radiante, mais linda do que nunca. Os olhos brilhantes, os lábios ardentes, as faces ligeiramente coradas pela felicidade inesperada que a chamava à vida, quando ia já caminhando para a morte, ao compasso monótono do tear subindo e descendo no contínuo trabalho.
Satisfeito e feliz, também o Manuel ia, triunfante, com o seu fato preto de pano fino, o seu chapéu lustroso, a sua fina camisa engomada a primor, ao lado da noiva — uma santinha do altar!, dizia a Gertrudes benzendo-se.
Também ele se sentia alegre e despreocupado, sem pensar na pobre Maria do Próspero, que curtia sozinha, num desespero torvo e sem remédio, a sua derrota miserável.
Quando a Gertrudes Zarolha começou a espalhar o que se passara, o que vira o Manuel na noite em que viera mais tarde da feira, por se ter demorado a conversar com uns amigos na taberna do Jeitoso, a Maria teve um violento acesso de cólera, uma rubra indignação, que estava na lógica da sua forte e sadia natureza. Quis bater na velha, que fugiu espavorida, gritando-lhe que fosse perguntar ao Manuel — e ele lhe diria tudo quanto vira...
E ela fora logo, forte da tranquilidade da sua consciência, certa de que ele estaria ao seu lado para a defender de tão absurda acusação...
Mas quando ouviu da boca dele a confirmação dos ditos da velha, quando ele lhe atirou com desprezo o epíteto de feiticeira, sucumbiu. Ficou quieta, a olhá-lo pasmada, sem encontrar uma palavra para se defender, cheia de dúvidas e de desânimo... Sem a confiança do Manuel, o que podia fazer?!
E desandou dali, com grossas lágrimas a rolarem-lhe pelas faces, e um aperto na garganta que a estrangulava.
Fechou-se em casa; e, sem ninguém que a consolasse, nenhuma alma compassiva que a ajudasse a levantar daquele abismo em que a própria consciência desaparecia sob a sugestão alheia, rebolou-se pelo chão, rasgou o fato, atirou contra as paredes a cabeça que sentia perdida e desvairada, soltou gritos que lhe despedaçavam o peito, até que, exausta, ficou como morta no meio da casa. Ao voltar do trabalho é que o pai a levou para a cama, limpando, num repelão, à camisa suja de suor e poeira, uma lágrima que teimava em rebolar-lhe pela face encarquilhada e dura.
— A sua pobre filha, a alegria da sua vida — em que estado a encontrava! Maleitas ou mau-olhado, espírito ruim que lhe entrara no corpo e já a não largaria...
Quando voltou a si, pesou bem a desolação da sua vida, e chorou toda a sua esperança, a sua alegria como a sua mocidade exuberante que tinham fugido espantadas diante daquela noite negra e sem fim.
Enquanto os sinos cantavam na manhã clara, de Sol radioso e céu azul em festa, as alegrias do casamento da Teresinha com o Manuel da Clara, a caldeirinha mágica tilintava o seu risito escarninho e macabro e todos a consideravam com admiração e respeito pelo sobrenatural.
A Maria, agora feiticeira conhecida e apontada por todos, já não canta nem vai às romarias.
Nos trabalhos do campo, as mulheres e as crianças afastam-se dela apavoradas, e os homens, lamentando-a, não têm coragem de vencer esse pavor.
Um brilho ardente de febre queima sempre os seus lindos olhos negros, que vagueiam inquietos, num medo doentio e trágico.
Atormentada de visões, mordida de maus-olhados, meses inteiros presa de delírios histéricos, sente-se, na verdade, transportada nas asas do vento para sítios ermos em que luzinhas saltitam em rondas buliçosas, lobisomens passam em cavalgadas doidas para se irem espojar nas encruzilhadas sinistras, moiras encantadas tecem em teares de ouro contando as saudades antigas da sua vida humana, e olharapos, duendes, lêmures e trasgos povoam as noites horríficas de sabbat.

Nenhum comentário:

Postar um comentário