sábado, 25 de novembro de 2017

A fraude eleitoral (Conto), de Lima Barreto


A fraude eleitoral
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Desde muito que várias personalidades da República, próceres de vários partidos e facções que se propunham salvar a pátria, mediante medidas inócuas ou simplórios cortes sistemáticos na arraia-miúda; desde muito, dizíamos, que várias personalidades se reuniam para resolver o problema da verdade eleitoral.

A comissão, como fazia há seis anos, se congregou naquela tarde para apresentar ideias tendentes a obter da exata manifestação das urnas a legítima representação nacional.

O senador Brederodes apresentou as suas ideias, o seu colega Marcondes as suas opiniões; Machado Malagueta aventou alguma coisa; enfim toda a comissão trabalhou a valer, e os alvitres mais sutis, mais severos, mais saudáveis, foram sugeridos para que a fraude fosse evitada nas eleições federais.

Despediram-se amáveis, sorridentes. E, ao famoso “secretário” da comissão, o oficial da Secretaria do Senado, Raide, pareceu que, daquela confabulação, ia sair obra de grande valia e alcance.

O seu desgosto, ao supor isto, era de não poder ele também assinar o projeto.

Seria a imortalidade...

Brederodes, que era econômico, desceu a pé até às ruas centrais. Atravessou o Campo de Santana apreensivo.

Chegou à chapelaria Watson e encontrou logo o seu adepto Fulgêncio, deputado desconhecido.

Falou-lhe este com todo o respeito devido ao chefe supremo do seu partido.

— Como vai vossa excelência?

— Não estou bom hoje, Fulgêncio.

— Por quê?

— Aborreci-me no Senado, na reunião da comissão.

— Que houve?

— Escuta aqui.

— Aquele canalha do Malagueta parece que anda de mãos dadas com o Dourado e os meus adversários no estado.

— Por quê?

— Não é que ele propôs que, na reforma eleitoral a fazer-se, não houvesse voto cumulativo? Estou derrotado...

Enquanto isso se passava, Malagueta, que viera de bonde, já se havia encontrado com a mulher e as filhas em uma confeitaria. Uma destas lhe disse:

— Papai parece que está contrariado.

— Pudera!

— Que houve, Chico? — perguntou-lhe a mulher.

O tratante do Marcondes propôs na comissão que só houvesse um deputado por distrito e que estes fossem equivalentes ao número de deputados que cada estado dá.

— Que tem?

— Que tem? É que não faço nem quatro lá na nossa terra...

Marcondes não ouviu certamente o tratamento que lhe deu o seu amável colega, mesmo porque ele tinha corrido do Senado para a casa de uma adorável criatura, a Manon, francesa nascida nos arredores de Varsóvia.

— Marcondes não está bom hoje — disse-lhe esta.

— É verdade. O patife do Brederodes propôs medidas que acabam com as atas falsas nas eleições.

— Que tem isso?

— É que, se eu assinar o projeto, o Juca, o chefão, não me reelege.

O projeto, como era de esperar, não foi apresentado ao plenário, e a comissão ainda estuda os meios eficazes de acabar com a fraude eleitoral.

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