domingo, 5 de novembro de 2017

A lição (Conto), de Humberto de Campos


A lição

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Toma cuidado contigo, Enedina! recomendava a bondosa D. Matilde, repreendendo a filha. — Essa mania de bailes, de festas, e passeios e esses vestidos muito curtos e muito decotados, podem prejudicar-te. É preciso um pouco mais de decoro, de zelo, de discrição. Isso, assim, não vai bem!

— Ora, mamãe! — respondia a linda moça, num muxoxo. — Mamãe não quer, então, que eu me case?

— Quero, sim; mas não é assim, indo a toda parte, e mostrando as pernas até os joelhos, e o colo até o estômago, que encontrarás um bom casamento.

A resposta era, porém, a mesma, com o mesmo estouvamento gracioso:

— Ora, mamãe!...

Sábado último, desejando oferecer à filha uma jóia custosa para as futuras festas ao Rei, veio D. Matilde à cidade, e parou, com ela, diante das vitrines da casa Adamo, na Avenida:

— Aquele não te agrada? — indagou, mostrando à moça um dos mais lindos colares da exposição.

— Não; não quero aquele.

— E aquele?

— Também não quero.

E convidando D. Matilde:

— Vamos ver lá dentro?

Entraram.

— Colares, de pérolas, ou de brilhantes, — pediu a conhecida senhora.

O dono da casa abriu o cofre forte, pondo-lhes sob os olhos um chuveiro de pedrarias.

— Quero este! — pediu a moça, batendo as mãozinhas, contente.

No automóvel, de caminho para casa, D. Matilde indagou da filha:

— Achaste, mesmo, esse colar muito bonito?

— Achei-o, sim.

— Mas havia outros mais bonitos, na vitrina.

— Havia.

— Por que não escolheste um deles?

E a moça:

— Mesmo. Porque estavam tão expostos, tão à mostra... Toda gente já os viu! Este, não; e, com certeza, há de despertar mais interesse, mais curiosidade! Não é?

A estas palavras, D. Matilde sorriu, carinhosa, e, tomando nas suas mãos enluvadas, as mãozinhas de neve da sua Enedina, observou-lhe, maternal:

— Minha filha, sirva-te isto, pela última vez, de lição. Os homens são pelas mulheres o que as mulheres são pelas joias: preferem as que se acham guardadas, recolhidas, às que vivem permanentemente no mostruário, expostas a todas as vistas! Aproveita, tu própria, minha filha, a tua experiência!

E beijando-lhe a testa, bondosa:

— Sê discreta e modesta para seres desejada. Ouviste?

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