domingo, 5 de novembro de 2017

O amigo (Conto), de Humberto de Campos


O amigo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O engenheiro Adriano Walsh havia chegado de viagem, e convidara para almoçar em seu palacete, no dia seguinte, o seu opulento amigo Dr. Polidoro Tavares, advogado jovem e competentíssimo que era tratado na família com as maiores considerações.

O almoço, nesse dia, correu delicioso. Alta, esguia, elegantíssima com os fartos cabelos de ouro arranjados com encantadora simplicidade, Mme Walsh mostrara-se, como sempre, deslumbrante de formosura e de espírito. Atordoada pela alegria do marido, os seus olhos, cinzentos e lindos, lembravam duas pérolas grandes e misteriosas, luzindo, magníficas, entre os canteiros de violetas das olheiras. Vestida de linho espumante, o seu vulto emergindo, na mesa, do tumulto dos cristais e da baixela de ouro, era como uma grande rosa branca, em torno da qual fervilhassem, disputando-lhe o pólen, miríades de insetos faiscantes.

Após o almoço, quando o sol já sonhava, cansado, com o leito longínquo das colinas, os dois amigos tomaram o automóvel, e desceram, juntos, para a cidade. Na Avenida, saltaram, e caminhavam, palestrando, por uma das ruas transversais, quando diante de uma fábrica de móveis, o engenheiro estacou, preocupado:

— Diacho! — proclamou. — Minha mulher pediu-me para mandar concertar um móvel em casa, e eu não me lembro. Agora, qual é a peça da mobília!

— Não é o divã da alcova, que está rangendo muito? — atalhou o advogado, insensível.

— É isso! é isso mesmo! é o divã da alcova! — lembrou-se o Dr. Walsh batendo na testa.

E entrou na marcenaria.

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