sábado, 4 de novembro de 2017

À luz das estrelas (Conto), de Virgílio Várzea


À luz das estrelas 

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ao gradil da larga varanda de madeira do grande prédio acaçapado da fazenda cercado de laranjeiras e cafeeiros tufados e adormecidos já sob a noite avançada no solene e profundo silêncio dos campos, um vulto de mulher assomara de repente, em gestos misteriosos, a passadas nervosas, inquietas, hesitantes. Ora voltando-se para a porta de onde saíra e que deixara cautelosamente cerrada, sem o mínimo rumor, ora como que sondando com um fundo olhar rebuscador e ansioso a sombra espessa das ramagens em torno, deslizou apressada para os balaústres da escada que descia ao terreiro sob uma pequena latada aromal de rosas e trepadeiras. Aí estacara por instantes, protegida por esse estranho dossel de renda de verdes folhas miudinhas e alçadas corolas abertas que lhe afagavam em frescas carícias vegetais o colo, as faces, os cabelos — quando uma figura de homem corpulento, surgindo dentre o laranjal, correu ao seu encontro e pegando-lhe de uma das mãos fortemente, murmurou numa arrebatação e num enlevo:

— Vamos, querida! A noite está deserta e silenciosa: ressonam os lares. O que tu ouves não é senão a monótona zoeira das árvores ao vento, o latir rouco e melancólico dos cães, ou o pio longínquo de alguma ave noturna que esvoaça lá para os lados da igreja. Teu pai e teus irmãos nada sabem. Os escravos já dormem. Enrola-te na minha capa. Dá-me a tua mão. Vamos!...

Mas a donzela hesitava, olhando ainda o prédio, a varanda, as árvores, o campo imenso, tudo indeciso, confuso, sonolento, apagado na treva, — e após ergueu o olhar às estrelas que se ostentavam idealizadoramente lá acima, no céu muito alto, com os seus pequeninos olhos de ouro, tremeluzentes.

Por fim, entregou-se de todo ao seu bem-amado, deixando o destino, a felicidade, a beleza, a vida correrem acordes ao seu coração, no tumulto absoluto e absorvente do Amor que tudo irresistivelmente, heroicamente, benditamente sacrifica à sua consumação.

E eles partiram ao longo de meandrosos atalhos e trilhas, à claridade frouxa, muito vaga, quase imperceptível, dos belmazes altíssimos dos astros, radiando magicamente, encantadamente, na incomparável vastidão do Infinito.

Iam felizes, unidos, cochichantes naquela inefável aventura, ardente e complicado episódio de romance, que o amor enchia de energia e audácia, ao mesmo tempo que um calafrio de medo os invadia e traspassava, quando alguma rajada mais rija açoitava as ramarias.

Numa volta de estrada, em que a vegetação se descerrava como num rasgão de clareira, a brancura de uma pedra musgosa paralisou-os subitamente num susto, destacando-se, terrível e apavorante, dentre a negra espessura das capoeiras, quando um pirilampo passou faiscando rente. Depois, um novo sobressalto colheu-os, ao enfrentarem uma larga porteira de engenho, de onde se avistava, à pequena distância, em meio às plantações, uma enorme figura de homem, vestida de branco, ameaçando, com uma vara na mão, a quem porventura ousasse acercar-se. Pararam outra vez por instantes, observando atentamente o vulto, muito achegados aos espinheiros do outro lado da estrada e ocultos na sombra densa de suas altas frondes rendilhadas, através de cujas malhas tremulantes espiavam as estrelas, essa adoráveis, louras e luminosas veladoras do Espaço, durante o curso nostálgico e desolado das noites. E apenas os dois amantes reconheceram que o “homem” não passava do conhecido espantalho feito sempre na roça para afugentar os pássaros e macacos rapinantes dos milharais em semente e maturidade — retomaram o seu caminho.

Mais adiante, porém, um ruído de patas que lhes deixou no peito anelante a palpitação de um perigo — elevou-se e foi morrer longe, cortando o ar na direção do rio. Aqui e além então, os latidos roucos dos cães se tornaram mais intensos, menos espaçados, ecoando merencoreamente em meio ao silêncio augusto, misterioso, espiritual e solene das altas horas da Noite.

Trêmulos e ofegantes, estreitamente enlaçados, caminhavam agora precipitadamente, como se algum tropel os seguisse pela espessura das árvores, das moitas, ou pela vasta amplidão desafogada e livre das imensas pastagens em sombra.

E assim chegaram a um rancho, onde os esperava uma grande canoa de voga tripulada por negros. Embarcaram. E logo uma voz precipitada e viril vibrou de rijo:

— Larga!

Então, em seguida, um marulho fresco e cristalino da água mansa sulcada se ouviu, afastando-se por entre o ranger seco e compassado dos remos a cantar nas toleteiras côncavas.

Nesse momento, como minutos antes, um grito possante e formidável golpeou o espaço, numa prolongada estridência, perseguidor e alarmante:

— Ladrões! Assassinos!...

Era o Vicente, o filho da Andreza, um verdadeiro “quebra” dos sítios, rapaz arrojado e valente, que, ao recolher a cavalo da sua costumada perambulação noturna, ouvira vozes de homem falando no rancho, e então, batido da curiosidade de saber quem estaria de viagem por uma noite assim escura, prometendo mau tempo — lançara-se a galope até perto, deixando porém, para não ser pressentido, o seu gordo e fogoso Tordilho bem amarrado e oculto entre os vassourais da estrada, a alguns metros do porto. Aí, agachado, atento, quedara-se cautelosamente a espreitar: os seus olhos de roceiro noctívago, varando o ambiente escuro, iam pouco e pouco dominando todo o terreno em volta, com uma grande nitidez de visão. E ele pôde descobrir uma grande canoa que flutuava sobre a faixa negra do rio onde, arrumados e bem postos aos remos, alguns homens esperavam, parlando segredeiramente. Percebeu que ali havia “marosca” e aguardando um desenlace para tudo aquilo, pusera-se à escuta, quando subitamente lhe chegara aos ouvidos a voz grossa do patrão:

— Aí vem eles... não tardam... olha os cães como ladram...

Com efeito, daí a instantes, dois vultos embuçados — um homem e uma mulher — chegavam a passo estugado, embarcando precipitadamente.

Ao vê-los, o Vicente lembrou-se de súbito da Eugeninha, a filha do Venâncio (o ricaço que morava havia um ano no sítio), uma rapariga morena e formosa, que tivera, segundo diziam, não fazia muito tempo, uma grande paixão amorosa por um rapaz da cidade, a quem o pai odiava e perseguia. Indignado e não podendo conter-se, diante daquela fuga traiçoeira da moça com o primeiro namorado, a quem ia agora pertencer para sempre, quando já era noiva do Ernesto, o seu prezado camarada de infância que havia dois meses não saía de casa empolgado pela malária — berrou forte, com a sua possante garganta de touro:

— Ladrões! Assassinos!...

E sinistramente o grito perseguidor ecoou, por momentos, na alta noite estrelada, profundamente silenciosa e solene, enquanto a canoa em que ia o amoroso par fugitivo galhardamente singrava sobre a ampla corrente do rio, retinta, chamalotada e marulhosa, aqui e além constelada de uma imensa pontilhação de ouro líquido.

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