sábado, 4 de novembro de 2017

O Navio Negreiro (Conto), de Virgílio Várzea


O Navio Negreiro  (Heine)
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I 
No camarote, sentado ao beliche, mynher van Koek, o capitão do brigue, põe-se a fazer as suas contas. Calcula o preço de venda do carregamento e os lucros prováreis:

— A goma é boa, a pimenta boa: trezentos sacos e trezentas barricas, e marfim e ouro em pó! Mas a carga, preciosa entre todas, é a “negra”, que vale mais que tudo. Seiscentos negros, apanhados na praia do Senegal, em troca de ninharias, pois outra coisa não tinham custado em verdade, era um carregamento excelente. E todos eles, de ossatura poderosa e músculos rijos, dir-se-iam de bronze bem modelado. Uma tal fortuna a obtive apenas com algumas medidas de aguardente, contas de vidro, facas e canivetes. Que me não deem muito lucro: basta que só metade sobreviva à viagem e às doenças para que eu ganhe oitocentos por cento! Sim, se me for dado chegar ao Rio de janeiro com trezentos negros, ao menos, a casa Gonçalves Pereira comprar-nos-á à razão de cem ducados cada um...

De repente, porém, alguém interrompeu mynher van Koek nessas profundas meditações de comércio. Era o cirurgião de bordo, o Dr. van der Smissen, que assomou à porta do camarote, com a sua figura alta e magra, o nariz crivado de rubras verrugas.

— Oh! Bem vindo, Sr. esculápio naval! exclamou alegremente van Koek. Como vão os meus caros negros?...

O médico acudiu:

— Ora, capitão, venho justamente comunicar-lhe que a mortalidade entre os pretos, aumentou consideravelmente, esta noite. Entre um e outro sexo, têm perecido cerca de dois por dia. Os mortos desta madrugada atingiram o número de sete — quatro homens e três mulheres, que foram logo lançados no registro dos óbitos. Mas, para bem me certificar de que estavam mortos, examinei detidamente os corpos um por um, porque estes patifes frequentemente fingem de mortos, a fim de serem jogados às vagas. Preferem a morte ao cativeiro... Após esse exame mandei tirar-lhes as algemas e, ao romper do dia, segundo o meu hábito, ordenei fossem lançados ao mar. Imediatamente os tubarões, ávidos de carne negra, coalharam as ondas, em imenso cardume. Como sabeis, são eles os meus pensionários. Acompanham-nos, na esteira do navio, desde que deixamos a costa. Os malditos farejam de longe os cadáveres, com as suas narinas sôfregas. E não há nada mais cômico que os ver abocar os mortos: este arranca a cabeça, aquele a perna, e os outros tassalhos de carne... E, quando tudo foi devorado, saracoteiam alegres em torno ao costado, fitando-me com os seus grandes olhos de vidro, como se quisessem agradecer-me o almoço...

Mynher van Koek interrompeu suspirando:

— Mas como fazer cessar tamanha mortandade?

O cirurgião respondeu:

— Há um meio, um meio facílimo. Uns têm morrido, por falta de acomodações e pelo mau cheiro do porão; outros de melancolia. É dar-se-lhes, portanto, um pouco de ar puro no convés, um pouco de música e dança, e o mal desaparecerá.

— Admirável! exclamou o capitão. O senhor, meu caro esculápio naval, é tão sábio como Aristóteles, o preceptor de Alexandre. Muito respeito eu o presidente da Sociedade de aperfeiçoamento das tulipas, de Delft, como um grande homem; mas ele não possui nem metade da vossa argúcia nem do vosso engenho... À música! à música, pois! E que bailem os negros... Mas ai daqueles a quem a dança não conseguir alegrar! Nós os alegraremos a golpes de calabrote.

II 
Na alta abóbada do céu azulado pestanejam as estrelas, brilhantes de desejos, como os olhos inteligentes das amadas: e todas elas contemplam mudamente a infinita vastidão do Mar, aqui e além coberta de um véu fosforescente de ardentia. As vagas marulham voluptuosamente.

Raras velas bojam ou branquejam nos mastros e vergas do navio negreiro: e como, para o alto, os cabos se fundem na negrura da noite, dir-se-ia estranhamente despojado dos topes de seu aparelho. No entanto, embaixo, num recanto do convés, pequenas lanternas reluzem — e a música e a dança ressurgem vivamente.

O Piloto raspa com o arco as cordas de um violino, o cozinheiro sopra numa flauta, o grumete rufa um tambor, o médico faz vibrar um pistão como se fora um clarim. Em torno deles, cem pretos mais ou menos — homens e mulheres — em gritos de alegria, saltam e giram como loucos. E a cada movimento dos corpos, negros e nus, as algemas retinem, em cadência.

As longas tábuas do convés estremecem aos pinchos tumultuosos dos pobres cativos. E no imenso círculo em torvelinho, veem-se belas negras corpulentas, envolvendo com os seus braços, grossos e roliços, o tronco hercúleo do companheiro. De vez em quando, através da grossa algazarra de todos, passa um coro de gemidos...

O contramestre é o mestre-sala: ele estimula, de calabrote em punho, os dançadores já fatigados e os excita a alegria.

E trá-trá-trá!... Dum-dum-dum!...

Do seio fundo das ondas, os monstros marinhos, despertos do seu estúpido sono, acodem ao barulho. São em geral tubarões, centenas de tubarões, que, ainda entorpecidos; vêm reluzir à flor d'água, ao colorido clarão das lanternas e faróis, erguendo pasmadamente, para as bordas do navio e para a cena que no convés se desenrola, os seus grandes olhos de vidro. E, percebendo desde logo que a hora do seu almoço não chegou ainda, com a habitual e feroz voracidade, escancaram a boca até a fundo, mostrando as suas gigantescas maxilas, onde sinistramente alvejam, como estranhas lâminas de serras, fileiras de dentes agudos, enormes, terríveis.

E trá-trá-trá!... Dum-dum-dum!...

A dança e a música não cessam um instante: e os tubarões, volteando sempre em torno ao casco do brigue, mordem a cauda, impacientes. Penso que eles não amam a música, como alguns dos seus iguais. Por isso, muito bem disse um grande poeta inglês: “Não te fies nos animais que não amam a música!”

E trá-trá-trá!... Dum-dum-dum!...

A dança prossegue sempre. Mynher van Koek, que assiste sentado junto ao mastro grande, olha, preocupado e pensativo, a “preciosa mercadoria” que ali se agita loucamente. De repente ergue os olhos ao céu e, pondo as mãos, implora:

— Por Jesus, Senhor, poupai a vida aos pescadores de “pele negra”! Se eles acaso vos ofendem, sabeis perfeitamente que é porque são mais estúpidos que os bois. Poupai-lhes a vida, em nome de Jesus, que morreu por todos nós, pois se me não for dado chegar ao Rio de janeiro com trezentos negros, ao menos, hei de fazer um mau negócio!...

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