domingo, 26 de novembro de 2017

Opiniões do Gomensoro (Conto), de Lima Barreto


Opiniões do Gomensoro
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Os negros fizeram a unidade do Brasil.

O negro é recente na terra.

Os negros quando ninguém se preocupava com arte no Brasil eram os únicos (Gonzaga Duque, Arte Brasileira).

Os produtos intelectuais negros e mulatos, e brancos não são extraordinários mas se equivalem, quer os brancos venham de portugueses, quer de outros países.

Os negros diferenciam o Brasil e mantêm a sua independência, porquanto estão certos que em outro lugar não têm pátria.

Se um viajante, saiu etc. etc., sem saber a história de seu passado, e fosse visitar os árabes atuais, negaria qualquer capacidade intelectual a eles.

A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori.

A energia só tem revelado depois de lenta submissão (hunos, plebe romana, bárbaros em geral).

A coragem é da mesma maneira.

O português que humilde entre nós é um povo valente, o fim a que se propõe obriga-o a curvar-se.

Discutindo a incapacidade mental desta naquela raça, temos o ar de dizer com o poeta grego — os bárbaros, gente vil que não ama a filosofia e a ciência; ele se dirigia ao avô de Kant e ao tio de Descartes.

Se a feição, o peso, a forma do crânio nada denotam quanto à inteligência e vigor mental entre indivíduos da raça branca, porque excomungar o negro?

Os anjos, quando no platô da Bactriana, nada valiam imigrando, após séculos de fermentação vibraram numa cultura superior, porque os negros transportados de África pelo tráfico não desenvolveram uma civilização, ou concorreram para ela? Esse fenômeno de mudança de habitat é importante para o estudo.

A ciência é um preconceito grego, é ideologia, não passa de uma forma acumulada de instinto de uma raça, de um povo e mesmo de um homem.

Se há três geômetras etc. etc.

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