sábado, 25 de novembro de 2017

A nova glória (Conto), de Lima Barreto


A nova glória
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Quando morreu o grande estadista Vicente, logo todos os espíritos do reino começaram a se preocupar com a pessoa que devia substituí-lo.

Vicente tinha feito grandes e meritórias obras de alcance incalculável e era justo que todos se esforçassem para encontrar um digno substituto para ele.

Damas da corte, ministros, velhacos, doutores, agiotas, agricultores, todos tinham o seu candidato.

Um queria o Jagodes porque era alto; outro queria o Zeca porque dançava bem; outro ainda desejava o Chico porque entendia de música; afinal foi achado o Maneco, que teve por si o grande título de ser mais ou menos ruivo.

Todo o reino exultou com a escolha e ele foi encarado como substituto eficaz de Vicente.

Esse reino é vasto e pouco povoado. É dividido em várias satrapias que se guerreiam entre si. De onde em onde, uma delas se arma até aos dentes e parte em guerra contra a vizinha. As damas de uma e outra se vestem de branco, põem uma cruz vermelha ao peito e dispõem-se a ir curar os feridos. Chama-se isto patriotismo regional e ele é cultivado e cantado por literatos e poetas de fama. Muitos espíritos, porém, protestavam contra tal coisa e esperavam que Maneco resolvesse essa enfermidade do reino.

Maneco prometeu que iria tratar dos casos vitais da nacionalidade e havia de resolvê-los eficazmente.

Fez um discurso a respeito que foi impresso em papelão para ter mais volume e intitulou-o: “Problemas vitais”.

Todos gabaram a obra e ele entrou para todas as sociedades sábias da terra. Neste ponto, ele já se parecia com Vicente. Restava o resto, isto é, a ação política.

Esperavam todos por ela, quando certo dia a Gazeta do Reino publicou o seu primeiro grande ato. Ele tinha nomeado embaixador do Reino junto a uma nação vizinha, por trinta dias, uma das notabilidades da nação.

Houve quem dissesse: este Maneco é o Vicente das nomeações; mas a gritaria dos jornais não permitiu que todos vissem a insignificância do ato.

E o homem continuou a ser encarado como perfeito substituto do falecido estadista.

Vieram os dias que se passaram, e nada de Maneco fazer qualquer coisa de novo.

Um dia, porém, os jornais anunciaram a seguinte grande obra do homem:

Maneco vai viajar acompanhado de vários rapazes pelos países amigos.

Foi, voltou e continuou a ser um digno substituto do grande Vicente.

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