sábado, 25 de novembro de 2017

Uma anedota (Conto), de Lima Barreto


Uma anedota
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

---

Na legislatura passada, quando chegavam ao auge as proezas e violências do Dudu e o seu amigo Pinheiro, foi um dia anunciado que o Sr. I. Machado falaria. Os populares se moveram e, apesar das ameaças dos cacetes e navalhas dos secretas e capangas, encheram as galerias. O parlamentar tomou a palavra e, em breve, desandou uma formidável catilinária em ambos.

Disse dos dois o que Mafoma não dissera do toucinho.

O senhor Pinheiro Machado — pronunciou o orador em certo ponto do seu discurso — está habituado a governar alimárias e pensa que o somos também. Nero, aquela crueldade, feito imperador de Roma, também se picava do bom cocheiro. A aproximação é eloquente... Não se compreende, senhor presidente, que este povo brasileiro se deixe assim governar como uma parelha de caminhão; que consinta que os mais baixos temperamentos de sua raça subam ao poder e deem expansão às suas inclinações de magarefe, de almocreve e senhor de senzala.

Apesar dos capangas e dos cacetes, os populares das galerias desandaram em palmas entusiásticas.

O orador continuou:

Senhor presidente, temos visto dominando povos a espada que vai à guerra, a astúcia que domou as feras ao tempo que o homem era fraco diante da força delas, a coragem, a inteligência, o saber, a beleza; mas nunca se viu dominando, esmagando, comprimindo um povo, o laço do domador de potros associado ao pontaço do sangrador dos matadouros. Era preciso que...

Houve palmas nas galerias, e o presidente da Câmara, conforme tinha ameaçado anteriormente, mandou que os polícias evacuassem as arquibancadas.

O orador continuou e terminou o seu interessante discurso tão somente para os seus pares, para os gordos funcionários da Câmara, sem esquecer no meio destes os serventes e contínuos.

Desceu da tribuna e foi muito cumprimentado. Um dos deputados disse-lhe ao ouvido:

— Irineu, estiveste feroz com o Pinheiro. Não é do trato... Ele fica zangado...

— Ora! Dirás a ele que não se apoquente... Estamos nas vésperas da reeleição... É para uso externo.

— Assim mesmo, ele se aborrece.

— Qual! Eu já lhe tinha mandado dizer que hoje ia dobrar a parada... Ele já está prevenido.

Separaram-se e ainda vieram até à janela ver como os populares levavam pancada dos capangas, da polícia, a mais não poder.

Houve quem dissesse:

— Este povo é muito burro...

— Por quê? Porque leva pancada?

— Não; porque acredita no Irineu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário