domingo, 5 de novembro de 2017

A Santa Casa (Conto), de Humberto de Campos


A Santa Casa

(Paródia a uma sátira de Emílio de Menezes)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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As nuvens começavam a tomar uma cor arroxeada, anunciando o fim do crepúsculo e o início de uma noite soturna, quando alguém bateu, medroso, à luminosa porta do Céu.

— Quem bate? — gritou, de dentro, São Pedro, arrastando as suas alpercatas de couro e tilintando, trêmulo, a sua enorme penca de chaves.

— Sou eu! — respondeu de fora o recém-chegado.

Aberta a portinhola do parlatório, informou o retardatário haver sido despachado da vida naquele dia, com destino à mansão dos justos, onde devia, portanto, ser admitido.

— Aqui? — observou o apostolo, espantado. – Aqui, não. Todas as pessoas que tinham de entrar hoje, já entraram. Não falta mais nenhuma.

E bondoso:

— Não será engano seu, meu filho? Você não terá sido despachado para o Purgatório?

O peregrino admitiu a hipótese de uma confusão, e, saltando de nuvem em nuvem, como quem salta de rochedo em rochedo, foi ter à porta de fogo do Purgatório, onde bateu.

— Quem vem lá? — trovejou um anjo, escancarando, com um gancho, a rubra fornalha das penitências.

O desventurado deu o seu nome, e, momentos depois, reabria-se o forno.

— Há engano na direção, camarada! — informou o guardião, soprando, severo, a sua vermelha espada de chama. — O seu lugar não será no Inferno? Aqui, é que não é. Não consta nada sobre a sua pessoa!

E, fechando a fornalha, deixou-o na amplidão, tristonho, solitário, abandonado, tendo aberto, apenas, à sua frente, o caminho escuro do Inferno. Resolvido a cumprir o seu destino, tomou o infeliz esse rumo, até ir ter, corajoso, à porta da caverna formidável.

— Quem é? — rugiu, de dentro, uma voz que parecia um trovão.

Tremendo de pavor, o mísero deu o seu nome, e esperava, já, o instante de ser precipitado nas enormes caldeiras ferventes, quando o portão monstruoso se abriu, dando passagem aos chavelhos de ferro de Belzebu.

— Quem o mandou para cá? — indagou o bruto, acendendo os olhos.

— A mim? — gemeu o desventurado. — Ninguém. Fui ao Céu, disseram-me que não era lá. Fui ao Purgatório, e informaram-me a mesma coisa. Logo, é aqui, por força.

O Diabo meditou um instante, consultou umas chapas de ferro incandescente que estavam próximas, e protestou, firme:

— Aqui, também, não é!

— Não?

— Não; absolutamente! — tornou o Capeta. — O seu lugar deve ser mesmo no Céu. O Pedro está muito velho, já, e, com certeza, não viu bem. Volte lá! Volte lá!

Um momento depois, estava o desgraçado, de novo, à porta do Paraíso.

— Outra vez? — observou São Pedro, paciente.

— Outra vez, sim, — confirmou, grosso, a vítima. — O meu lugar não é no Purgatório, não é no Inferno; deve ser, forçosamente, aqui. Veja bem!

O apóstolo enforquilhou os óculos no nariz, abriu o livro em que estavam registrados os nomes das almas, folheou, folheou, folheou, e, de repente, voltando-se, indagou:

— Diga-me uma coisa: onde foi que você morreu?

— Eu? Na Santa Casa do Rio de janeiro! — respondeu a vítima.

E o chaveiro, escancarando a porta:

— É aqui mesmo, entre!

E mostrando o livro:

— A culpa não foi minha, filho! Você devia vir para cá, daqui a vinte anos!

E aborrecido:

— Esta Santa Casa tem me estragado a escrita!...

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