11/26/2017

O profeta e o bloco (Conto), de Lima Barreto


O profeta e o bloco

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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 Ao meu amigo Profeta, a quem não sei bem por que razão, teimei em tomar como meu espírito familiar, vim a encontrar outro dia depois de uma longa ausência de meses. Tenho pelas pessoas de sua condição um respeito religioso. Para mim, elas são como eleitas que a divindade visita para lhes fazer ver o mundo invisível por detrás das coisas. Por isso, falei-lhe humilde, com a humildade com que me dirijo aos humildes privilegiados como o meu amigo profeta:

— Que pensas do bloco?

— Do bloco? Pode ser mole ou duro...

— Falas como são João da Pathuras; quero-te mais preciso.

— Duro, se for de granito; mole, se for de açúcar.

— Grande novidade. Não esclareces o caso.

— Sim! Se for de açúcar, será doce...

— Entendo.

O vago frasear do camarada inoculou-se em mim. Pus-me a amar aquelas respostas sem nenhuma ligação ao meu propósito primeiro; assim foi que, ainda acrescentei ao que dissera.

— Entendo. Dever é também solene.

— Sinceridade também o é, sem ser doce, bem entendido.

— Salgado.

— Exato; e refratário ao calor.

— Belo bloco! Mas se for de pólvora...

— Inflamável! Um perigo.

— Pode ser também de cosmético.

— Apreciável para a toilette da gente avariada; e de nitrato de prata.

— Medicinal, assim, sendo de ferro, poder-se-á aproveitá-lo para esse fim útil.

— Sendo de ferro, falei-lhe, o melhor é fundi-lo.

— Sim, porque em pequenas folhas, facas, garfos, prestará imensos serviços.

— Ou batido?

— Batido, seria melhor; mais resistente.

— Mas menos maleável.

— E uma virtude; resistirá a trovão.

— E a tração, propriedade essencial, mas se o quer maleável e fusível, melhor é o chumbo.

— Em grãos de caça, ou em balas, é inestimável.

— Mesmo para arma de guerra, se levar uma camisa protetora.

— O bloco com camisa!

— Não é propriamente o bloco; são partes do bloco, fragmentos.

— Mas é não desse bloco.

— Sim, pode ser de terra, será bom para aterro, encher buracos, lastro de navios — fins insignificantes.

— E se for de bronze?

— É uma liga própria para as artes plásticas.

— Só?

— Achas pronto. Pelo visto tem uma extraordinária utilidade.

— Enfeita jardim.

— E lembra com ponteiros.

— As façanhas dos simples homens.

— Mas é desse bloco; e de uma agremiação política.

— É o mesmo: questões de física, química, sociais e artes correlatas.

— O pretendente — Mas...

— A influência — Não há vagas, meu caro senhor.

— P. — Se vossa excelência quisesse...

— J. — Onde, onde há de ser? Todas as repartições estão cheias.

— P. — O bloco ainda não.

Consta que o Congresso Panamericano resolverá a questão do café.

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