sábado, 25 de novembro de 2017

Abertura do Congresso (Conto), de Lima Barreto


Medidas de Sua Excelência
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Aconselham todas as autoridades que têm tratado do assunto, que é conveniente procurar os governantes de um estado, de um país, de uma cidade, entre as pessoas que conheçam o presente e o passado, portanto, a história desse estado, desse país, dessa cidade.

Durante algum tempo, esse critério foi obedecido; mas desde que as várias partes do país quiseram ter uma maior autonomia e governadores, que as conhecessem perfeitamente, o país começou a ter à testa do seu governo os mais ignorantes e desconhecedores de sua vida passada, dentre os magnatas que sempre acompanham os grandes chefes.

Vinham hindus, tabajaras, gregos, árabes e até um chinês a governá-lo, sem conhecer sequer a capital.

Em certa ocasião, veio dirigi-lo uma bela pessoa, mas que, da capital, só conhecia as ruas principais, o bairro chic e os conventos.

Nascera em província longínqua e nela passara apenas a mocidade, e parte da virilidade, passou-as em Portugal.

Nem pela planta conhecia a cidade; nem pelos antigos conhecia a sua história; mas, como não havia quem quisesse o lugar, fizeram-no governador do país e ele se entronizou no governo com a maior boa vontade.

Os nossos governantes quando querem mostrar atividade fazem-se estadistas visitantes. Mal tomam posse, mal se sentam na curul governamental erguem-se logo, arrepanham meia dúzia de “toma-larguras”, sorridentes e mesureiros, e põem-se a visitar este ou aquele estabelecimento.

O novo governante, para não desmentir a tradição, deu logo em visitar os principais estabelecimentos que dependiam de sua autoridade.

É um modo de governo fácil hoje, em que há automóvel e ruas asfaltadas, mas que seria agradável há um século, quando se andava de sege, traquitana, liteira ou mesmo nas costas dos machos.

O gerente da metrópole, portanto, não sofreu muito com seus constantes deslocamentos e fez descobertas na cidade que era sede do governo, imprevistas e nunca suspeitadas por ele.

A primeira coisa que ele notou foi que a cidade era muito maior que aquela em que nascera. Ele a julgava assim duas vezes e pico; viu, porém, que o era cem vezes.

Outra coisa que notou foi que os subúrbios tinham casas de pedra e cal. O presidente imaginava que neles só houvesse choupanas, palhoças e barracões. Isso alegrou-o muito porque podia aumentar os impostos.

Observou ainda o governador do país que, nos arredores, nas freguesias distantes, não havia cafezais, como acontecia nas circunvizinhanças da sua terra natal.

Não gostou muito da coisa, pois lhe parecia que em toda a parte devia haver fazendas de café e engenhos de açúcar. Fatalidade da imagem que se grava na infância...

Depois de ter visitado o seu governo, deu em visitar sociedades sábias. Foi até aos arquivos especiais que eram dirigidos por um funcionário competente, zeloso e conhecedor do ofício como poucos.

Logo este funcionário quis mostrar à alta autoridade os papéis mais curiosos que havia. Como o alcaide-mor era especialista em coisas de eleições, o chefe dos arquivos disse:

— Quer vossa excelência ver as atas de eleições dos tempos coloniais?

— Como? Eleições nos tempos coloniais! O regime representativo só foi instituído depois da Independência...

— Vossa excelência se esquece do Senado da Câmara.

— Senado da Câmara! Senado é uma coisa e Câmara é outra.

— Vossa excelência há de me permitir...

— Qual, doutor! Se o senhor tem esses papéis, deve mandá-los para o governo central. Vou falar ao seu chefe para mandar tudo isso para o Arquivo Geral da Nação. É a ele que compete guardar coisas do Senado e da Câmara. Mande-os quanto antes.

O funcionário caiu das nuvens e nada disse. Ainda rondou a suprema autoridade pela repartição; dado momento, perguntou, olhando uma vitrine:

— Que vara é aquela?

— É uma vara de almotacé!

— Isto não deve estar aqui.

— Por que, vossa excelência?

— Por quê? A Igreja não está separada do Estado? Aquilo é negócio de padre, de procissão... Mande já tudo para o cardeal.

Após tomar tão sábias medidas, o presidente saiu e continuou com as suas boas intenções a assinar os decretos que o esperavam sobre a sua mesa.

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