sábado, 4 de novembro de 2017

No caminho da fonte (Conto), de Virgílio Várzea


No caminho da fonte
 

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Luísa deixara o bando alegre e chalrante das amigas e, de canjirão na mão, tomara para a fonte pelo estreito e branco caminho que sai do lado direito da habitação e atravessa o verde e pitoresco declive do terreno, como um longo sulco sinuoso interrompido aqui e além pela obesidade tranquila de algumas rochas cinzentas ou pelo vigoroso tamanho da grama.

Então o José, o filho da Albina, um rapaz robusto e louro como um alemão, uma dessas almas simples e rudes mas amantíssimas e generosas, foi atacá-la, às escondidas, debaixo de uma velha figueira ramalhosa que sombreava, em certa altura, o caminho; e, arrebatando-lhe o canjirão, numa brejeirice franca e suave de namorado, pespegou-lhe um beijo tão forte que chegou a manchar de roxo o rosto rosado e fresco da rapariga, deixando-a atrapalhada, trêmula, numa estonteação voluptuosa.

Era à tardinha. O sol esbraseava o poente e arrastava ainda a orla do seu imenso manto de ouro luminoso pelas grimpas atalaiantes da serra.

Rapazes alegres e gritadores, em camisa e chapéus de palha à cabeça, as grandes abas derreadas, corriam e cambalhotavam sobre a planura relvosa dos pastos, os alcandorados terreiros das casas ou ao longo das estradas, na expansão irrequieta e álacre dos seus corações infantis, despreocupados dos constantes cuidados e duros encargos da vida.

E a toada longínqua e sonora dos pegureiros recolhendo o seu gado, ecoava melancolicamente no alto Azul silencioso e sereno das ave-marias.

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