sábado, 4 de novembro de 2017

No literal catarinense (Conto), de Virgílio Várzea


No literal catarinense

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A tarde esmorecia serenamente, na vastidão do céu límpido, azulado. Por trás das altas montanhas de Cubatão, de uma cor roxa e nostálgica, com agudos píncaros em recorte, sumiam-se, escoavam-se os últimos listrões de ouro do ocaso.

A velha fortaleza de Santana, adormecia, sobre as pedras à beira da água. Nas muralhas denegridas, antigas peças enormes alongavam, em fileira, o pescoço de bronze, a boca agressiva e temerosa, oxidada pelo tempo numa longa inação. A um ângulo, junto de uma guarita arruinada, um mastro delgado e alto sustinha tristemente, caída ao longo da haste, a bandeira nacional, desbotada, silenciosa e murcha no abandono dos ventos.

Embaixo o mar estendia-se, aplainado, manso, turvo, numa larga refulgência de aço polido. A nordestia dura de março acalmara, depois de açoutar a costa por espaço de dias, cobrindo-a de nevoeiros.

Reinava uma grande calmaria.

Do ancoradouro da Praia de Fora, pequenas embarcações de cabotagem, arribadas ali, arrancavam ferro e prosseguiam a viagem retardada, levadas pela corrente, as velas pardacentas a bater contra os mastros.

Aqui e além, como parados nas ondas, latinos claros de botes, virgulados de rizes e com as amuras recurvas, semelhavam, de longe, estranhas lâminas gigantescas de foices ao alto.

De uma e outra banda do canal, sobressaindo saudosamente à distância, no pendor das encostas, ou na linha rasa das planícies, brancuras de casas, denunciando os povoados – São Miguel, Biguaçu, Sambaqui, Gacopé...

Alvuras de praias desenrolavam-se, norte-sul, como fitas brancas debruando as enseadas. Entre pontas, distante, a barra: ilhas mal distintas já no crepúsculo, a vastidão das águas atlânticas.

E sob a luz violácea e melancólica da hora, em meio ao Tabuleiro, desenhando-se à claridade poente, uma enorme barca, com o pano todo largo, saindo lentamente para o norte, em lastro, na maré da vazante.

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