11/04/2017

Velha paixão (Conto), de Virgílio Várzea


Velha paixão

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia minutos que o Israel lidava com o raino, no terreiro, em frente à entrada da casa. Queria sair ao caminho e não podia, porque o cavalo, ainda meio redomão, não “encostava” direito, impedindo-lhe correr as varas aos moirões da porteira, embora metesse-lhe relho a valer. Muito fogoso e pouco “feito de boca”, de novinho que era, pois o rapaz o comprara quando ainda em “repassos” na mão do domador e dono, o crioulo, Bonefino, do Rapa, negava rédea a uma camba, e de tal modo que, esporeado a obedecer, empacava xucramente, saltando, empinando-se, boleando-se, aos galões e aos trancos. Coberto já de suor, não parava, entretanto, o animal, aos pinchos, para trás e para frente, quase no mesmo lugar, sem querer reatar a marcha. Era preciso, talvez, apear. Mas o cavaleiro se recusava a isso porque abrir uma porteira a cavalo, em ginete de “grito” e fazendo figura, é para a ardente mocidade roceira verdadeira glória e façanha. E por isso o Israel teimava, lançando pequenas “largadas” que revolviam o terreno, abancando e virando consecutivamente de encontro à cancela, e, curvado todo sobre o arção, alongava o braço para as varas, sem poder corrê-las, no entanto. E o danado do raino a negar seguidamente a camba! Furioso, recusando desmontar por lhe parecer uma humilhação, dispunha-se já a fazer o cavalo saltar a porteira de arranco, quando, numa das voltas da estrada, surgiu de repente o Julião, de mão erguida para ele, no seu malacara lunanco:

— Ó Rael, não te jogues! Olha que perdes o cavalo! Espera lá um instante!...

O rapaz deteve-se então, mas chicoteando e esporeando sempre o animal, que rodava em grandes empuxões revolvendo todo o chão.

O outro abancou de repente, cosendo-se à porteira, cujas varas começou a correr destramente, com uma das mãos, e, tolhido e rubro do esforço, ia dizendo ao Israel, seu antigo camarada de infância:

— Tu és o diabo, Rael! Tu não te emendas, rapaz! Queres ter mais força que o “raino”? Olha a “guexa” do costão!...

Falava numa voz contrafeita, quase dependurado do cavalo, as veias do pescoço tumefeitas de sangue.

Com as suas derradeiras palavras, aludia à queda que o amigo levara, nos Ingleses, pela festa dos Navegantes, ao montar, pela primeira vez, uma égua xucra, que saltara com ele um precipício, derrubando-o numa sanga.

O Israel, apenas foi saindo ao caminho, retrucou-lhe na sua pressa de garrador intrépido:

— Qual o que, Julião! Já lá se foi esse tempo! Hoje não há cavalo que me meta medo...

E perguntou-lhe o que andava a fazer e para onde se atirava, pois não o via há um ano, desde que o Julião se mudara para as Aranhas, onde morava agora, num sítiozinho que comprara, ao voltar do Rio Grande, com as economias de um triênio de mar, na catraia da barra, lutando na braveza das ondas.

O outro tornou, muito alegre, correndo a última vara a porteira, e vindo emparelhar-se com o Israel, que já largara estrada abaixo, num trote:

— Vou até a Rua Velha, ao José escrivão, por causa da escritura de umas terras. Aquele ranchozinho do Lúcio, na encruzilhada do Santos, negociei-o para a mamãe, que não se dá com a Merência e quer ter o seu canto. Custou-me muito separar-me da velha, coitada, uma santa, como sabes. Mas a Merência é uma fúria, e há dois meses para cá, mal eu saía para a roça, punha-se em rixa com a velha que era uma coisa sem conta. E fora tal a quizila que, para ela não lidar pela casa, chegara até a esconder-lhe o bordão. A mamãe, que já se não tem sobre as pernas sem um amparo qualquer, assim privada da cotia, passava os dias amarrada à esteira, chegando a aguentar “precisões”. Essa judiaria me trazia cá o sangue a ferver e, de uma feita, cheguei a “ensinar” a Merência com alguns safanões. Mas isso andou-me a doer cá por dentro semanas e semanas. É uma estimação que a gente tem que não pode. E eu, para não cair em outras razões, tratei o ranchozinho com o Lúcio, a fim de a velha sossegar no seu canto. E ela já lá está há dois dias, muito concha, a bater e a fiar algodão. Foi um peso que tirei cá do peito. Por isso, hoje, peguei cedo o lunanco, e botei-me, como vês, para o José escrivão. Depois há festa hoje por lá, pois vão meter um boi bravio na vara e há coroada e fandangos.

O Israel ouvia tudo em silêncio e só se interessou verdadeira mente pelas últimas palavras, perguntando-lhe ainda duvidoso:

— Então hoje há folia por lá, Julião?! Mas quem te contou? Cá no arraial ainda não se sabe de nada. Até ontem à noite, pelo menos, não corria essa nova, nem pela venda do Cosme, nem pelo engenho do Albano, e lá se sabe sempre de tudo pelo Albino e o Pires, que andam a pombear todo o dia por aquelas bandas. É verdade que os não encontrei ontem por ali, na trela costumada. Mas se tal se desse, os rapazes da praia saberiam de tudo, e eles lá estiveram a grulhar até ao cantar do galo, e nem “pio” sobre a festa na Rua Velha! É para admirar, Julião, que eles não soubessem do caso! E para admirar, meu rapaz!...

O Julião, porém, insistia:

— Pois há folia, repito, e é na casa do Vidal. O Luís Mafra foi quem me disse, anteontem, quando veio do Zé Alves. A rapaziada de lá estava muito influída, por ser a última noite de terço no Vidal e pelo boi que vão pegar hoje para a “vara”. O boi vai estar só do “fino”, pois vão laçá-lo no campo, do lado do rio do Brás. O diabo é “meio inteiro” e investe como um raio! Já tem dado corridas danadas na gente que atravessa o Luís Dias e a Roça de Baixo... Ó Rael, vamos num pulo até lá? Vai ser um barrigado, menino, pois a que tempo não se pega um bagual... Hoje é feriado, dia forro, nada se tem a perder. Aproveita-se o brinquedo e o raino toma mais um “repasso”...

Não, Julião; hoje, não! Estou aqui de lago nos “tentos”, para ir pegar o salino para o tronco. O diabo já está com um ano e muito bom para se amansar para o engenho e para o carro. Já devia ter ido há mais tempo, mas tu conheces as coisas: hoje para amanhã, amanhã para depois, e lá se vai todo o tempo... Não, Julião, hoje não posso... Vamos juntos até a Estiva, e de lá ou tomo pros Banhados e tu para Rua Velha ou para o rio do Brás... Depois não me convém aparecer por ali por causa da Aninhas. Lembras-te do caso da Aninhas, não?... Se eu for até ao Vidal, tenho de entrar na folia do boi, e vou decerto encontrar-me com ela que há de andar entre as raparigas... E Deus me livre, aquele povo vai-me chamar de oferecido... Não, lá não ponho os meus pés nem a mandado de Deus! É uma questão de capricho que não há quem não tenha... E vamos puxar, menino, que o sol já vai alto...

Romperam então num galope, sob os espinheiros tufados que beiravam, a uma e outra margem, o caminho arenoso, entrançando no alto as ramagens que formavam um largo túnel de renda verde, sobre um fundo dourado. O sol vivo da manhã — uma alegre manhã estival — aquecia todo o ar, malhando o solo de gemas rutilantes que tremiam na areia ao tremer das folhas na aragem.

Em pouco chegavam à Estiva, onde a estrada desafogava amplamente no campo, imensa planície de esmeralda cortada em todas as direções pelos sulcos negros dos carros e as fitas coleantes dos atalhos, interrompidas aqui e além por altas macegas de ervagens. No começo da Estiva cavalos dispersos pastavam, de focinho no chão, tosando pacificamente a grama, enquanto outros, em manadas, caminhavam, a passo, para a Roça de Baixo. Densas tropas de reses mansas moviam-se lentamente, em manchas de cores variegadas, em plena campina rasa ou contra a orla dos capões. Do céu, de um azul delicado, onde nuvenzinhas erravam em sidéreos vagares, caía a luz fulgurante iluminando tudo e fazendo brilhar os banhados. Ao fundo, os morros da Rua Velha erguiam os cimos no espaço, ostentando em seus pendores e lombadas fartas culturas de cana, de mandioca e de milho, fulvas de maturidade. E dentre as altas frondes dos pomares, branquejava alegremente, ao sol, a frontaria risonha dos engenhos e casais...

Na encruzilhada das trilhas que levavam ao rio do Brás e aos Banhados, quase beirando as matas virgens da Caieira, o Israel estacou o cavalo e, puxando de um grosso e longo cigarro que trazia à orelha direita, acendeu-o ao isqueiro, dizendo imediatamente ao outro:

— Bem; adeusinho, Julião, Vou já pegar o salino, para o meter no tronco esta tarde...

O outro procurava retê-lo, exclamando:

— Ora deixa-te disso, Rael. Guarda o novilho para depois. Hoje é dia de descanso. Vem comigo à Rua Velha, que nos divertiremos à grande. Deixa os caprichos para outra vez. Isso não passa de tolice. Eu sei que gostas ainda da Aninhas, e ela é doida por ti. Isto é mais do que sabido. E todos dizem que vocês vêm ainda a casar... Tens um bom dia para as “pazes”. Ninguém repara. E fazes isso sem sentir. Deixa o novilho pra depois, ó Rael. Anda daí, homem! Caprichos o demônio que os leve!...

O Israel meditava, tirando largas fumaças ao cigarro, com os olhos vagamente perdidos na imensa amplidão do campo. Estava quase, quase a ceder às palavras tão docemente convidativas do amigo. Mas dois pensamentos, ambos de igual possança e império, inteiramente adversos, debatiam-se-lhe no seu espírito, e eram — primeiro, o orgulho em manter bem saliente e bem alta a aparente indiferença que votava à Aninhas desde que, ao voltar do Rio Grande, soubera que ela, durante os seus três longos anos de ausência, voltara-se deslealmente para outro, quando tinha com ele casamento, embora todos lhe dissessem que isso não passara de uma leviandade inocente e passageira da rapariga; segundo, não deixar transparecer nunca que partia dele o desejo de um reatamento, mas fazer com que isso, ao ter de dar-se, ficasse patente publicamente como coisa toda originada dela. Entretanto, se tal jamais sucedesse, paciência: resignar-se-ia a sofrer, a morrer com essa dor. O que não era possível é que, ludibriado uma vez no seu grande afeto — não obstante logo se arrependesse dessa falta a ludibriadora — fosse ele, agora, o primeiro a submeter-se, a dar o braço a torcer. Amava-a talvez, ao presente, mais intensamente que dantes: não queria, porém, fazer de “padecente” e, sobretudo, sancionar precedentes que lhe podiam, quem sabe! acarretar desgraças futuras. O Julião, no entanto, arrastava-o. E ele estava vai, não vai, para o acompanhar à Rua Velha, curioso de ver como o enfrentaria a Aninhas, após dois anos de abandono...

Por isso, enquanto o amigo falava, consultava-se intimamente, com os olhos sem fixidez certa e perdidos no campo, a pesar tudo com critério para tomar uma deliberação condigna. Esta veio inconsciente. Iria, por que não? Nesse ato não havia o menor desdouro ou vexame. Sim, porque não poderia toda a vida andar a furtar voltas à Aninhas. Seria um nunca acabar e, mais do que isso, uma tolice... E, teso de repente na sela, como para uma heroica largada, gritou ao amigo:

— Pois sim, Julião! Deixa o novilho para outro dia. Vamos lá à Rua Velha!...

E deitaram ambos a galope para o rio do Brás. Do atalho do Siqueira, para lá do Capão Alto, encontraram já um ajuntamento de povo, por entre os macegões e rinchões. Eram rapazes a pé e laçadores a cavalo, que andavam a tocar um boi de pelo negro e de guampas retorcidas para o recanto do rio, onde o queriam pegar.

Ao vê-los chegar a galope, um dos laçadores que passava em torno à alimária, numa disparada, girando o laço no ar em largas voltas campeiras, berrou ao Israel, acenando num gesto vivo do braço:

— O Rael! Tira o laço dos “tentos”! E acode cá, rapaz, que nós precisamos de ti!...

Homens a pé, correndo igualmente em volta para cercar o animal, gritaram também:

— Encosta o raino, Rael! E ataca o “bicho” lá pela Toca, cerrando-lhe o laço nos galhos!...

O Israel, sem detença, calcou esporas no cavalo, e partiu para o sítio indicado, abrindo o laço no ar, numa atitude de mazepa e peão. O camarada, impelido como ele numa rajada “gaúcha”, largou a toda a brida, a escorar o animal noutro ponto.

Por toda a parte, em torno, via-se o gado manso a correr, assustado, de cauda no ar, a refugiar-se nos vassourais e capões. O boi xucro, apertado contra a volta do rio sob a perseguição dos cavaleiros, já com dois laços partidos e os pedaços de rastros, atirava-se furiosamente à água, atravessava-a a nado, galgava presto a outra margem e tomava, numa disparada terrível, em direção ao arraial.

A multidão seguia-o, correndo por entre o matagal, a cercá-lo por todos os atalhos, numa gritaria infernal:

— Oô! oô! oô! oô!...

O boi fora esbarrar, na corrida, à Cancela grande, que fecha o caminho na cerca geral das pastagens particulares extremantes com o campo, e não podendo vencê-la de um salto, varou o posto do engenho do Maurício, indo sair na estrada real, onde tomou para os lados do Vidal. O povo, que enchia o caminho nessa altura, em frente ao pasto da casa, ao centro do qual se erguia um grande chorão secular onde o animal ia ser amarrado para o brinquedo da “vara” — tocou-o porteira a dentro e atirou-se após ele.

Daí a pouco toda a estrada rumorejava à galopada furiosa dos laçadores montados, vindo à frente de todos, a bolear garbosamente o laço, o Israel que parecia um centauro. De envolta com eles, outra multidão de homens a pé vinha correndo, num berreiro colossal. E todos se jogaram para o pasto, perdendo-se entre os outros, que já batiam as capoeiras onde o boi se asilara.

Defronte, no vasto prédio do Vidal, situado num alto, a poucos passos da estrada, pelo terreiro e às janelas enxameavam as filhas da casa e as moças da vizinhança, em meio das quais se via a Aninhas, alvoroçada e curiosa com a presença inesperada do Israel, que ela descobrira logo entre os laçadores. As amigas que o tinham visto também, começaram a caçoar:

— Então, Aninhas, estás outra vez nas tuas sete quintas, hein?! Viste como o Israel passou ufano a cavalo?... Deixem lá dizer, vocês ainda se gostam... Hoje decerto é o dia das “pazes”... E se não, logo à noite veremos...

A Aninhas protestava, mas a sorrir, o rosto muito fresco e rosado, os olhos fulgindo de alegria:

— Que não! Nem pensar, nisso, meninas! Nem eu quero, nem ele... Com tudo há tanto tempo acabado, era o que faltava! Estas coisas não se fazem assim...

E via-se-lhe claramente nos olhos — uns formosos olhos negros que se não despegavam um instante do pasto — um lumezinho de curiosidade e cuidado pelos movimentos do rapaz que galopava airosamente, com os outros, no laçamento do boi.

Entre a grande massa de povo agitando-se em toda a zona em volta, era uma verdadeira preocupação saber quem seria o primeiro a laçar. Faziam-se apostas, optando uns pelo Manoel Maria e outros pelo Zé Tomás, os famosos peões e laçadores da Rua Velha. Mas, entre os homens, matronas e moças que enchiam a casa do Vidal, a maioria era toda pelo Israel. Ali não havia quem o excedesse naquilo! Era impossível! E todos se recordavam perfeitamente do que ele fizera, havia seis anos, com o queimado, um boi xucro como nunca mais pisara outro no sítio. O animal levara o dia inteiro a pintar, a zombar dos melhores peões, partindo laços, saltando cercas, investindo como uma fera contra cavaleiros e pedestres e levando tudo, ante si, de roldão. Pois o único que o conseguira laçar — e isto já à boca da noite ― fora o Israel, no seu famoso picaço, um cavalo ligeiro como um cervo e valente como um leão...

Nisto, o boi surgiu de repente, de cauda no ar e sinistro, sobre grama rasa do pasto, bem em frente à porteira. E, em galões violentos e loucos que revolviam o solo, investia como um cão contra a gente de pé, o laço cerrado nos chifres e preso à chincha larga do raino, em que vinha o Israel.

De todas as bocas uma aclamação estrugiu, triunfante. As moças, lá no alto da casa, em sinal de alegria, agitavam os lenços. E a Aninhas, arrebatada, tirou a faixa vermelha que trazia à cintura e, acenando com ela ao rapaz, deixava-a palpitar nervosamente ao vento como uma flâmula de sangue...

Mas o boi, num furor possantíssimo e açulado pelos gritos do povo, arremetia cegamente para todos os lados e por fim voltava-se todo para o cavalo do Israel, quando o Manoel Maria deitou-lhe outro laço certeiro nas guampas. Então, no claro que abriu entre a gente o laçador, o boi se jogou numa disparada terrível, e o laço, retesado de tirão, partiu-se no ar, num estalo. O Julião, porém, saiu-lhe logo na “cola” e enquanto o Israel buscava evitar outro tirão acompanhando a fera na corrida, ele atirou-lhe o seu laço, apanhando-a pelos chifres, e, disparando para frente, foi abancar adiante, mantendo-a agora sem movimento, para trás ou para vante, entre os dois laços tesos.

O povo prorrompia agora em uma nova aclamação ao Israel que, muito risonho e num júbilo por se sentir a principal figura daquela festa, fixava mais demoradamente então a janela da casa do Vidal onde estava a Aninhas a agitar ainda para ele a sua larga faixa vermelha, que tremia alegremente ao vento como uma estranha flâmula de sangue.

Mas era preciso meter o boi na “vara” e o Israel gritava já por uma corda para essa função, quando um dos escravos do Vidal se precipitou pela porteira com uma peça de rijo cabo de cairo à cabeça. O Israel apeou então, e para coroar a alta façanha daquele dia, desenrolou rapidamente uma das pontas do cabo e, com uma dessas resoluções intranstornáveis da afoiteza inculta e bronca quando investe com o perigo, devagar e sorrindo, encaminhou-se serenamente para o boi e deitou-lhe corda aos chifres. O boi arrancou logo em marradas satânicas, mas ele com admirável rapidez e destreza deu um salto para o lado, continuando a desenrolar o seio coleante da corda. Em seguida dirigiu-se para o grosso chorão secular e aí a amarrou a grandes voltas seguras. E voltou para a fera, que empacara de novo, a língua de fora, os olhos em sangue, furiosa e berrante, entre os dois laços retesos. Ardido, mas cauto, foi avançando cuidadosamente por um dos flancos da rês para desprender os dois laços e deixá-la somente a puxar pela corda possante. Com efeito, num abrir e fechar de olhos realizou o seu intento e voltou imediatamente a montar o seu raino...

A multidão vitoriou-o ainda, em prolongada aclamação.

E todos achegaram-se do animal num grande círculo compacto, a jogar-lhe paus e calhaus apanhados ali mesmo, açulando-o com um vozear ensurdecedor e assobios estrídulos, desenvolvendo em torno, com a rapidez de um aparelho mecânico, toda a sorte de figuras, cambalhotas, saltos, trejeitos. Alguns rapazes mais atrevidos agarravam-no pela cauda, torcendo-a destros a um lado, para o fazerem espinotear furioso; ou montavam-lhe à garupa ou no dorso, fazendo verdadeiros equilíbrios e deslocações de acrobatas...

Assim entregue o boi à multidão, os laçadores subiram até a casa do Vidal, a tomar uma pinga da branca. Mas o Israel, ainda um pouco vexado, recusou-se a acompanhá-los, apesar dos rogos de todos e dos instantes convites do lavrador, que ameaçava até de o arrastar por um braço. À noite, porém, ansioso por acabar de uma vez com aquela “situação impossível” e falar francamente à Aninhas, que já duas vezes com as amigas descera a “espiá-lo” na estrada, em frente à venda do Cipriano onde ele fora jantar, dirigiu-se resolutamente para a habitação do Vidal, a assistir ao coroado e tomar parte nas danças.

Na sala, onde estava armado o altar entre duas portas ao fundo, já o terço começara. Todos, ajoelhados, acompanhavam em coro, e numa voz arrastada, o Pai-Nosso que o capelão rezava num tom rouco e monótono.

Mas o Israel se acomodara num recanto onde estavam os homens, seguido sempre do Julião — que fraternalmente o não deixara um momento durante todo o dia — deparou-se-lhe a Aninhas, que o fitou logo com o maior desembaraço, a sorrir, com os seus dentes muito alvos. E enquanto as oblatas subiam até Deus não cessaram ambos de olhar-se, enlevados e felizes, no reatamento da sua velha paixão.

Quando as danças começaram, em quadrilhas, polcas e valsas da roça que se sucediam entusiásticas e com pequenos intervalos — o Israel e a moça, em recíproca adoração, não se despegaram um do outro, nas marcas, senão apenas por instantes. Parabéns e risos festivos, partindo de raparigas e rapazes, choviam de toda a parte sobre os dois, no meio de imenso turbilhão dos pares...

Ao terminar a festa, já com o sol despontando nos montes, estavam definitivamente cimentadas as “pazes” entre os dois namorados e, ao trocarem o adeus de despedida, ela lhe pediu que a fosse ver, ao menos uma vez por semana, como dantes.

E assim o Israel triunfou na sua velha paixão.

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