domingo, 5 de novembro de 2017

Política (Conto), de Humberto de Campos


Política

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Sentado diante do seu "bureau-ministre" coberto de telegramas e cartas, que lhe chegam, a todo momento, de toda parte do país, o grande chefe nacional dá audiência aos amigos. A situação do partido é, em toda a República, a mais lisonjeira, e é com a alegria no rosto e o orgulho no coração que ele recebe, um a um, como portadores de boas-novas, o enxame dos políticos correligionários.

As eleições para renovação da Câmara e recomposição do Senado haviam atemorizado um pouco o terrível politiqueiro indígena, pondo em perigo a sua poderosa máquina eleitoral. De tal modo havia ele, porém, se conduzido, sacrificando amigos e contemporizando com certos adversários, que emergia, agora, vitorioso, forte, insolente, como um homem que não transigiu um palmo e a todos esmagou pelo caminho.

Feliz e forte, ouve ele, embalando-se na cadeira de mola, as informações que lhe são carregadas pelo formigueiro que lhe mantém o prestigio formidável, quando entra no escritório, com familiaridade, um amigo particular. É um antigo senador afastado das lides partidárias, um velho companheiro que preferiu gozar em sossego os proventos da sua advocacia administrativa, um homem tornado independente e conhecedor do mundo, e que goza, por isso, de considerações especiais.

— Tu, por aqui? — exclama o chefe poderoso, arrancando o charuto caro e enorme da grande boca servida de dentes rígidos, sólidos, brutais, de antigo estraçalhador de carnes humanas.

O outro senta-se, abrindo um parênteses de intimidade na seriação de baixezas, de humilhações, de frases covardes, ouvidas pelo velho político naquele dia de audiências; e, a certa altura, entra no assunto que motivara a visita.

— O que me traz aqui — explica — é a situação do Belarmino; ele precisa entrar para a Câmara, e é indispensável que você o auxilie.

O grande chefe, habituado às incidências, aos sofismas, às expressões dúbias, balança a cadeira, lança para o teto uma nuvem de fumaça do seu charuto de sessenta mil réis a dúzia, e observa:

— Creio que não há nada contra ele...

E após um ligeiro silêncio:

— A votação não foi boa?

— Foi. Quinhentos e oitenta votos sobre o seu competidor.

— As mesas não funcionaram com regularidade?

— Perfeitamente.

— Houve protesto dos fiscais?

— Não.

— Eles não assinaram os boletins?

— Assinaram.

O chefe põe os olhos nos olhos do antigo companheiro, como a perguntar onde estava, então, a razão do seu temor, do seu susto, do receio de que o seu protegido seja sacrificado, e este esclarece:

— Há, porém, uma coisa.

O outro inquire com os olhos.

— Ele é casado com uma mulher feia como um bicho!

A essa informação a fisionomia do velho chefe, que se mostrara, até então, satisfeita, risonha, jovial, muda de expressão. Três rugas fortes, pronunciadas, profundas, cortam-lhe a testa perpendicularmente, unindo a cabeleira às sobrancelhas de cerda. E, após um instante, compreensivo:

— Homem, isso, agora, foi o diabo!

E, aborrecido, como quem tem a certeza de que perdeu um deputado:

— Enfim, vamos ver...

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