quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O homem das fontes (Conto), de Antônio Patrício


O homem das fontes
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada no Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz alto, de um louro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos de névoa calmos e abstratos, e uma voz estranha, monocórdia, ou para dizer melhor, uma voz de água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e sem lar, vive em perpétua viagem. Encontrei-o em Roma, em Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me feriu intensamente, desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma fonte, concentrado, como se fosse a caricatura fabulosa que o encantamento de uma ninfa ali prendesse.

Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porém, pensei em ir falar-lhe, recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.

Uma manhã, em Florença, tive quase a impressão de que era um louco. Cedo ainda, seriam cinco horas da manhã, fui para Piazza dela Signoria encher-me de sadismo extasiante a olhar na Loggia o Perseu de Benevenuto. Tem, como sabem por centenas de gravuras, uma fonte desenhada por Vasári à sombra ameada do Palazzo Vecchio. Caía uma luz melodiosa. Harry desenhava, um caderno de apontamentos na mão fina. Um esboço da fonte, era evidente.

Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente, pus-me a olhar também a fonte. Ao centro, o Netuno de mármore é boçal; há uma ronda de ninfas alongadas num bronze de patine quase azul; os cavalos marinhos saltam na água e os tritões que cercam toda a taça tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica e animal, espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, em verve muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água esparrinhada, e de estátua para estátua voavam pombas fazendo em roda aquele adágio de asas que à popa dos navios, no mar alto, riscam os voos curvos das gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único a morder-me: ver o que Harry Young desenhava.

Ele fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que colhera, quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do que estética, que me parecia absurda, incompatível com um esboço num álbum de viagem. Ao lado, em frente à estátua de Cosme de Médicis, criados sonolentos iam dispondo as mesas nas terrasses. Já havia dois cafés abertos onde gente apressada ia beber. Harry, que continuou alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a uma terrasse, e bebendo um copo de leite lentamente, tinha o álbum aberto sobre a mesa dando os últimos retoques ao desenho.

Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em Florença, como em Granada, como em Córdoba, nunca vi num museu ou numa igreja, como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os seus olhos estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara para o convívio enigmático, para segredo embalador das fontes, este rapaz, que não tinha ainda trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via mulheres nem paisagens, absorto neste claro misticismo?

Sentei-me numa mesa perto dele e pude ver à vontade o seu desenho. Nem um traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras, sob um desenho singular de mulher nua, eu li: Fonte Adamanti, em Florença. O quê?! A fonte concebida por Vasári era para Harry Young aquele corpo?... E buscando a relação possível com essa fonte mítica e ingênua, onde em torno a um Netuno gigantesco farandolam ninfas e tritões, ou fosse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu senti, ou porque de fato ela fosse um claro símbolo, pareceu-me que essa forma musical, esse corpo de oceânide surpresa esperando o tritão que a possuiria, era a síntese poética flagrante da fonte que Vasári imaginou. Corria o risco de me tornar suspeito na ânsia de ver melhor, de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o seguir pela galeria degli Uffizii e desaparecer ao fundo, lentamente, para esse cenário onde se evoca Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura nobre das colinas e das águas do Arno romanescas.

Depois voltei para Roma, onde encontrara Harry meses antes.

Muitas vezes me lembrava dele, eu que também adoro as fontes, com uma simpatia persistente, cúmplice. Por esse tempo ia eu às noites degustar o rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo rebordo de alabastro da fonte, fronteira ao Pincio, impregnando-me dessa alma sem memória, dessa crônica augusta de silêncio, que é em Roma a atmosfera de magia das praças sem ninguém, com vozes de água. Ficava assim horas numa tristeza quase sensual, com uma espécie de delírio de grandezas que me permitia dialogar com Roma, acalmar a minha incerteza de falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o meu destino como o de um herói num poema antigo.

Para sentir esta luxúria psíquica é preciso ter vivido muito ou ter a velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade, agarrando pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos. Era aquela em Roma a minha hora mais silenciosa.

Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se horas de convento. É a cidade suprema para viver com um sonho ou com uma ideia, velada por formas milenárias que recebem exames de consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado aos pés do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê, pensei em Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa autossugestão, nem já admitia dúvidas: era Harry, era o homem das fontes que ali estava. E como uma raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro meses, viajando sem sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.

O lirismo imemorial desse silêncio levava-me para aquela criatura, que uma espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como para um ser afim, um quase irmão.

Pareceu-me que ele mesmo se movera, olhara na minha direção, como esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o silêncio, o convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos museus, o meu desejo de falar com Harry atingiu a plenitude, exasperou-se. Levantei-me. Sem me atrever a caminhar para ele, fui-me timidamente aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei com ar distraído junto de Harry, como se olhasse um dos leões golfando água. Fiquei assim nervosamente alguns segundos.

Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de me falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras palavras que trocamos. Aludimos aos nossos múltiplos encontros, em Espanha, na Itália, na Turquia, por uma coincidência bem estranha, sempre junto de fontes...

Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio folhas secas. Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza della Signoria, o desenho da fonte de Vasári que eu vira na terrasse por trás dele. Harry calava-se surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, para pintar.

— Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande interesse da minha vida...

Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quase em segredo.

Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões que depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fosse um estranho, sem ternura.

Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à promiscuidade forçada e torturante para uma sensibilidade como a sua. Logo que chegou à maioridade, rico e só, foi visitar nos arredores de Londres o castelo em que seus pais viveram. Correu o parque, as salas, as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus brinquedos, onde um pó sem saudade ia caindo, como sobre coisas velhas num museu.

Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa em que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até os olhos fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fora essa visita com que tanta vez sonhara, e saía de lá desamparado, com uma espécie de desespero inerte que toda a casa lhe contagiara: a velhice das coisas sem beleza onde viveu alguém que nos foi querido e que perdem com a cor toda a memória. Esses muros sem alma angustiavam-no. Já atravessava o parque para sair quando ouviu a chamá-lo uma voz de água. Era ali perto e pareceu-lhe bem distante, vinda da sua infância já tão longe. Enfim alguém amigo, acolhedor! Foi para ela como iria para sua mãe ressuscitada, e ficou a ouvi-la até à noite. Abrira-a o jardineiro enquanto ele percorria as salas. Harry contou-me:

— Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem beleza consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.

Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não terei...

A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara, tudo me comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam... os tapetes, os móveis, as paredes, tinham linguagem agora: compreendiam-me. As janelas à névoa, eram olhos tão rasos como os meus. E como pousavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão para lhes dar, espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida toda no meu peito. Vem dessa hora o meu amor às fontes.

Harry erguera-se. Seguíamos pelo Corso lentamente. Pedi-lhe então que me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que criara.

— Só se quiser vir comigo ao meu hotel.

Já tenho as malas feitas para partir. Vou para Veneza. Veneza é um hospital de águas... Faz-me triste.

O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre duas janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais arqueada, como para receber melhor as confidências. A torre della Trinitá del Monte deu onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque subia da praça, propiciando, a voz da fonte de Bernini, la Borcáccia, a escoar-se sem jatos, brandamente. Harry acendeu as serpentinas sobre a mesa. Vi então dois álbuns grandes de viagem, e alguns pequenos mais esguios.

Começamos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes árabes: de Córdoba, de Granada la vieja, a terra andaluza de mors-amor. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de Granada, que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena vive ainda com uma corte calada de ciprestes...

O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova, musical, nesse jardim interior da Alhambra — jaula feérica da luxúria árabe, onde os corpos morenos das almeias enlanguesciam nos mármores dos pátios, e nas salas de joias lapidadas dormiam com os perfumes dos jardins as grandes sestas tórridas, de cópula...

Desenhara o mirador de Lindaraja, com as suas gelosias marchetadas que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como para ouvir melhor a voz da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos olhos, nos cabelos, na boca a intumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de uma corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um entre todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Istambul, no coração da praça do Serralho. É um lindo harém de grades redouradas, arabescado de ouro e lápis-lazuli, de que a água é sultana única.

Harry representara Schehèrezade, a noveleira das Mil noites e uma noite. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante mil noites e uma noite, a contar histórias sobre histórias, adormeceu o califa que a matava se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte Schehèrezade.

Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma Belle au bois dormant que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas que vi, apenas lembro uma carmelitana, lendo sob uma ogiva, cor de cera, decerto Santa Theresa, Las moradas... A última, porém, a mais estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a fonte dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas alagadas, uma cabeça de cavalo grego, desses que nos versos de Homero viviam irmãmente com os heróis. E não sei que fonte mitológica — uma estátua de Juno, sereníssima, a cabeça nimbada de andorinhas.

O outro álbum era de esboços — desenhos e maquetes,— toda uma arquitetura fragmentária para um palácio quimérico da água, num poético parque, inverossímil como o de Poe no Domínio de Arnheim.

A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia desse templo que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquiteto místico, em linhas-versículos de sonho.

Perguntei-lhe se tencionava construí-lo. Harry sorriu.

— Construí-lo e habitá-lo... Com Miss Fountain... se a encontrar um dia.

O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música, espumante, de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em motivos decorais no sonoro frontão religioso que viveria um dia tão beijado como as asas do mar no temporal.

É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a litúrgica, a aquática; era o seu esqueleto quase oculto, e por milhares de ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados, por bocas infletindo em curvas gráceis, por bilhões de crivos capilares donde cairiam chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa segunda, arquitetura sinfônica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia criar.

O mármore aparecia, sob a trama arquitetural da água golfante, como através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia às vezes como um seio no bojo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura de uma planta de água.

Oh! que feliz a carne desse mármore, escrava de uma fluida arquitetura, cantada e beijada todo o sempre! Jatos cruzavam-se como na argentaria solar de uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam molemente, em lágrimas, para renascer vivendo noutros sulcos, donde espirravam como flores se esfolham, em graças platerescas, em sorrisos.

Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de água, tamisando a luz para o interior em irisações fantásticas de nave. Mas, como Harry me fez logo notar, o seu projeto, perfeitamente realizável, era um ensaio de arquitetura musical. A eurritmia dessas linhas de água, tantas volutas líquidas que eu via no amoroso desenho daquele álbum, não tinham só um fim arquitetônico, antes eram a consequência imediata, o instrumento de beleza necessário, para a ópera da Água revelada por um arquiteto-músico de gênio. Mostrou-me então a partitura do palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.

Como toda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado. Primeiro o leitmotiv da entrada, cantado no peristilo por três fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da entrada (duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro quase ocultas) que acompanhava as três vozes argentinas. Harry chamava-lhe: o motivo de saudação.

Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma transcendente desse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando as mãos numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sobre um piano a fluidez dionisíaca das frases. Os graves e os agudos conseguiam-se por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos, ampolas, com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito ornamental e acústico.

A gama das ressonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas foscas, claros ouros, com espessuras várias nuançando, embutidos nos mármores da fachada, enriquecida assim com cores de joia e os tons sobrenaturais de um órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu Deus! prazer supremo, ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fosse vida!

Três melodias fugadas corriam a fachada sem cessar. A que vibrava ao centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jatos erguiam-se mais, implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de ressonância decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma aspiração de agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que tem as mãos erguidas das Ogivas. Harry chamava-lhe: a ânsia de ser nuvem.

Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rede, eram, musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: a alegria de morrer sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes. E os três deliam-se numa polifonia liquescente em que a ânsia de ser nuvem tinha o patético de umas mãos erguidas; a alegria de morrer sorrindo lembrava a vida e morte das espumas; e a saudade dos rios, das nascentes, nas conchas e recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em acordes quase cavos o desespero da água outrora livre, domada e orquestrada sabiamente: a nostalgia do coração das rochas vivas, dos açudes, dos campos cultivados que ela regava a chalrar nos sulcos largos.

Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas de ecos sem memória instilando um esquecimento de magia. Inútil descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitetura, Harry compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a notação musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham sido por ele copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder compor a partitura desse palácio feérico da Água.

O seu esforço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe parecia pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da arquitetura líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.

Mostrou-me ainda detalhes interiores. A Galeria da Meditação tinha vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o casamento do Doge com o Adriático na galera de sonho o Bucentauro; Ofélia louca, o cabelo como um chorão de fios de ouro, apartando com mãos de prata fosca os canaviais orando à beira-rio: sereias penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...

No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas, como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do tempo... Ali iria meditar e ler.

Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.

Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento, concentrando-o. Além das grades balizando o parque, cinco muros de árvores concêntricas, por ordem de alturas decrescente: a grisalha colossal dos eucaliptos, o veludo dos cedros, choupos góticos, ciprestes tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras soltas dos chorões... E seria num vale agasalhado.

Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as fontes se fizera vagabundo, para as ver, para as ouvir assimilando-as, e poder executar um dia o seu palácio — síntese de todas.

O entusiasmo de Harry contágiou-me. É possível que amanhã não seja assim, que deste plano de arquitetura musical que antevejo e anteouço emocionado, no contágio febril que me vem de Harry, me fique a ideia de um projeto fruste, de uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de loucura poética só como documento, interessante.

O templo da Água é para a vida deste sensitivo, sob uma forma íntima e discreta, a minúscula visão quase infantil, a criancice lírica encantada em que este poeta semilouco e ingênuo tenta exprimir em linguagem de arte, com a arquitetura e a música por meios, tudo quanto na terra deslumbrou a sua alma de tritão éxul.

Se amanhã analisar este projeto longe do seu contato perturbante, talvez eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas sempre com emoção hei de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe entrega, sem nenhuma restrição, de todo o corpo, e arde nessa febre dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nômade, de acaso, que o fará morrer ao desamparo no hotel de alguma terra onde haja fontes, ainda fiel a essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em cristais múrmuros...

O palácio da Água!... “Construí-lo e habitá-lo com miss Fountain se a encontrar um dia...” Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de água, clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água, envolvente, fluido, esquecedor, como um nirvana de água inesgotável.

Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um místico dos sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas composições que agora ouvi. Ou, quem sabe! um arquiteto novo, musical pela assunção das linhas, sem recorrer, vesânico, quimérico, às impossíveis sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa, cuidaram descobrir todo o destino.

Ao ouvir-lhe a voz meiga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe deste homem, sem família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento por uma sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que era uma loucura essa quimera onde fechou o futuro a sete chaves.

É certo, é natural que isso suceda. Que sabe ele de hidráulica, de acústica? Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, para admitir como exequível esse plano, que ele fosse um arquiteto extraordinário, um músico revelador de novos meios e um engenheiro único, de gênio.

E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de vertigem, a mais vitoriosa das derrotas, condenando pela voz desse homem-deus tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry?

Esse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um prodígio interior, não se exterioriza, e só com uma genialidade adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura) a obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes, domínios que pareciam de outras artes.

Se ao menos pudesse conviver com ele e canalizar tão belas qualidades para qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida se partisse como uma lufada de vento quebraria aquela arquitetura em pratas de água, como um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira noite que falamos e é decerto a última também.

E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão, este culto das fontes religioso?...

Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da fachada, comecei a dizer que um dos motivos — a alegria de morrer sorrindo — me fizera, ali na paz de Roma, uma saudade imensa do meu mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.

— Gosta muito do mar, não é verdade?

Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma onda de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A fonte de Bernini ouviu-se mais: dir-se-ia uma voz de ama milenária a acalentar fantasmas com terror...

Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz, mas ele viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha ânsia. A sobre-excitação daquele instante, até o fato de eu ser quase um estranho, a quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a um amigo ou a um conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.

Respondeu-me com agitação de um modo brusco:

— O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi ele que perdeu os meus... Compreendo-lhe a beleza, que é divina, mas não o posso ver, aterra-me, detesto-o...

Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, vivendo as frases:

— Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com ele e adorava-o. Era piloto. Viajava para o Norte quase sempre. Filho de marinheiros, tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a bordo do Baltic, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então dezessete anos.

Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens por mar interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira) imensamente bela, não é verdade?

Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de histeria, e ao menor obstáculo, com acessos de choro e grandes febres. Meu tio era o tutor, e longe de a reprimir, estimulava-a mais, lisonjeando-a, com uma adoração de esplenético alcoólico por aquela andorinha semilouca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela ia fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobressaltos dos seus nervos, e ele ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta de sadismo. Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.

Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma corte romanesca que alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas que era para ele a mais cruel: abandonar a vida de bordo para sempre. Estava tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe arrancassem toda a alma...

Na véspera do casamento, foi a bordo do Baltic despedir-se. Abraçou os companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um cão sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa noite passou-a a errar no porto. Ninguém diria que aquele vagabundo tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã seguinte.

A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade exasperada, como um travo de remorso do mar longe...

Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo nos olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem convívio, num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em vida, lhes doou. Havia no amor dele a minha mãe devoções de plebeu por um ser de raça, e o sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com longos períodos de abstinência no mar largo, por um corpo de pétala, serpentino, enlaçando com braços e perfumes...

No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como ele evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia mesmo ele pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que fizera, que não falasse do mar diante dele. E a cada instante, em horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes noites de invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava o espetro do mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via bem amarfanhado, caído como uma coisa ao desamparo, para cima de um estofo, a mascar raivas, erguia-se mais linda que um tanagra e ia beijar-lhe os olhos, dar-lhe a boca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.

E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguém. Raro saíam. A vida mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e esgotou-a com uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece em pouco tempo. Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento desigual, não queria humilhar meu pai nem humilhar-se.

Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados qualquer coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor, na mesma jaula de ouro, dia e noite... Enervavam-se um ao outro. Enlouqueciam-se.

Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por esse tempo. Emagrecera. Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica requintava, em perversões subtis, quase em loucuras. Torturava meu pai continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões que iam atormentá-lo, evitando contudo falar dele, com uma hipocrisia que era mais cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia paisagens de mar por toda a parte... E por cima das mesas, dos sofás, como uma obsessão de crime, sempre e sempre, livros, romances e gravuras, com narrações de mar, sempre com o mar...

Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda “ouvir como isto é lindo!” E ele encostado ao piano, junto dela, via os Lieder de Schubert já abertos numa página marcada. E lia: O mar!...

Depois que eu nasci, a nevrose de minha mãe, longe de se acalmar na maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram enormes. Passavam horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a adorar-me. E como me dizia a velha Jeny, por quem eu soube tudo o que lhe conto, dir-se-ia, naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais, se bebiam com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.

Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.

A virilidade impulsiva de meu pai caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se aos pés dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...

Os criados achavam-nos estranhos, cada vez mais pálidos, mais magros. Eles mesmos pressentiam — no silêncio augural daquela casa onde os viam enlaçados, de olhos loucos — qualquer coisa de trágico, de mau...

Meu pai, que a bordo fora sempre sóbrio, bebia agora imenso, embebedava-se. Depois, com a ideia do mar cravada nele, ia esmoer essa obsessão, calado. Viam-no às vezes falar só, baixinho, escondido nas salas afastadas, dizendo por entre dentes, sufocado, coisas de bordo, vozes de comando, com as mãos em porta-voz, olhando o teto, como se fitasse os mastros, o velame...

Se alguém o via, disfarçava, com uma expressão de terror quase idiota. Ia endoidecendo pouco a pouco.

Minha mãe sabia tudo, tudo. A pobre Jeny, sobressaltada, ia contar-lhe; pedia-lhes que se distraíssem, viajassem, que fizesse um esforço para o salvar. Ela, porém, só tinha curiosidade para saber se meu pai bebia muito, se falava só, o que dizia...

Ás vezes vinham cartas dos camaradas, dos portos em que o Baltic tocava, falando-lhe de bordo com saudades. Ele lia-as e relia-as muitas vezes. Trazia-as sempre consigo, decorava-as. Mas logo que minha mãe aparecia, mudava de figura, era já outro. O olhar babava adoração. E se um instante se abandonava nos seus braços, pegava nela ao colo como um doido, levava-a para a alcova aos tropeções, sem se importar com os criados, com ninguém.

Afinal minha mãe gostava disto. Era ela que o enlouquecia pouco a pouco. Cada vez mais, sem falar dele, a propósito das coisas mais triviais, aludia ao mar, com pausas bruscas, em que os ouvidos dele, alucinados, ouviam o rumor, a voz do largo...

Evocado a todos os pretextos, por essa linda torcionária histérica, ele acabou por ser uma presença: o Espírito do Mar viveu com eles!... Eram três agora no castelo. Passava o inverno com eles, a seu lado. Vivia nas marinhas das paredes, nos livros e no vento, nos ruídos... E mais e melhor: na alma deles...

Sós, à noite, a ouvir o vento, olhavam-se... E em ambas as bocas, bem cerradas, cada um lia: “Ouves o mar? É ele...” E depois de suspensos um instante para o sentirem correr-lhes a medula, afogavam-se nos braços um do outro, com uma fúria sensual desesperada. Foi minha mãe que provocou tudo isto, e acabou por se enredar também, por acreditar como ele, contagiada. Numa cama de amor, dois amorosos, partilham as loucuras como os corpos...

O Espírito do Mar estava com eles. Ainda lhe não tinham pronunciado o nome, mas calavam-se muitas vezes para ouvi-lo, conversavam sobre ele por olhares...

Uma noite de inverno — ia a fazer três anos que casaram — recebeu do Norte um telegrama.

Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava; mandavam-lhe do Baltic saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio, o seu pano que tanta vez ferrara, vinha naquela noite de Janeiro, dizer-lhe o último adeus da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares de névoa, das veladas na ponte a todo o tempo, dos sonos bons depois no seu beliche, pequenino e estreito como um berço... Rolavam-lhe as lágrimas dos olhos.

A Jeny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa noite última.

Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume, bebeu gin. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns olhos de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...

Já tarde, ergueram-se. Jeny foi ajudar a despir-se minha mãe. Ele seguiu devagar pelo corredor e abriu a janela toda à noite negra... Ficou assim algum tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao vento...

Depois, bruscamente, foi para quarto. Com um tremor de alcoólico nas mãos, foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas de bordo, atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para sempre. Pôs-se então a vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas altas, na cabeça o sueste... Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a sair, quando voltou para trás. Qualquer coisa lhe faltava. Procurou no armário, procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de couro já puído. Pô-la â cinta e partiu com um andar mais firme, resoluto, como se a bordo, fosse fazer um quarto em noite má.

Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o esperava. Sem bater, entrou: parou a olhá-la. Tinha os cabelos desfeitos, muito branca, num robe-de-chambre que abriu ao vê-lo entrar. E com o colo nu perdeu-se a rir...

“Vais para o mar, meu amor? Deixas-me só?...”

Pro mar! Pro mar!... Pela primeira vez há já três anos, espantado de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortilégio, supremo: “Pro mar!” com uma inflexão pueril, quase idiota.

A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.

— ”Estás vestido para bordo... Estás já pronto...”

De súbito, ela viu-o demudar-se. Com uma inflexão rouca, de bêbedo, tornou; “Está mau... está mau... Está um temporal desfeito. Como querias tu que eu me vestisse?” Ela sentiu terror e aproximou-se. “Ouves a chuva?” dizia ele. “Ouves a noite?... Ouves?... Ih! Ih! Que vento! Que maldito!...” Num lindo gesto meteu-se-lhe nos braços, colando-se contra ele, abandonando-se. O robe-de-chambre descaía-lhe nos ombros. “O pano incha, o pano incha... Ferrar pano! gritou com voz de comando: Ferrar pano!”— tomou-lhe o corpo nos braços enovelado. E Jeny, que ao ouvir-lhe a voz correra, ouviu ainda aterrada; “Não aguenta o pano! Cortar cabos!...” Tirou a faca de bordo da cintura, prendeu a bainha nos dentes para arrancar, e cravou-lha no colo até à raiz. Era curva. Dir-se-ia que tinha a inflexão dos seios dela.

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Harry contou-me ainda o processo, o julgamento, e como ele no tribunal acusou o Mar... A opinião dos médicos legistas, foi que ele estava doido irresponsável. Apesar disso, porém, foi enforcado. A opinião pública, os jornais, eram contra ele.

Harry estava lívido.
 
— Compreende agora porque odeio o mar.

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