quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Suze (Conto), de Antônio Patrício


Suze
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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 Oh! dolce,
della soglia del lupanare
mirar le vergini stelle!
Gabriele D'Anunzio — “La meretrice di Pirgo”.

Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta da Suze, e a minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a pensar, com uma perversidade triste, que tenho escrito loucuras a um cadáver.

Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil incidente, que ia entrar para o hospital para ser operada. Anunciava-me isto, entre um projeto de vestido gris-taupe, que iria bem à sua tinta de viciosa pálida, e uma chuva de detalhes sobre a gata, a amar com romance e com luxúria um gato magro do terceiro andar.

Se tivesse sido operada e convalescesse, já decerto me teria mandado um telegrama.

É pois forçoso convencer-me que a minha pobre Suze — “era uma vez”...

Repito alto para mim mesmo: está morta, está morta a Suze! Logo que o disse alto, todo o meu temperamento de ator o acreditou, e em todo o meu ser, essa autossugestão ressoou em dobres, agudamente, por essa rapariga de vinte e três anos com quem vivi dois meses.

A morta (é certo, é positivo que morreu) era alta e magra.

Aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus livros, a vejo atirar o chapéu de rendas caras, em que havia heráldicas tulipas, acender com um gesto fino um dos Laferme, correr a mão na testa com o gesto da Duse nas catástrofes supremas, e dar-me fumo e destino e sonho. Aqui mesmo.

Naquele espelho prolongou com um traço de crayon os olhos vagos, ali palpou as molas do divã, e no toilette atou horas depois, im memoriam, as fitas de seda azul que lhe prendiam a camisa nas espáduas...

(Mas assim, não consigo dizer o que ela foi. Preciso acalmar a minha febre e começar pelo começo).

Vi-a a primeira vez este verão, no teatro, e logo a destaquei.

Os seus cabelos de criança escandinava, louro cendrado e seda palha em que havia reflexos quase brancos, tufavam na testa sob o chapéu preto, descaíam à esquerda, subiam à direita recortando a têmpora em ogiva; inverossímeis como raios de um sol de vício, químicos, absurdos... Só depois me convenci que eram autênticos.

Os olhos eram claros, cinzento de água em névoa; a máscara alongava-se num focinhito sonâmbulo; nariz incorreto, quase grosseiro; boca grande, acolhedora, de comissuras em pontos de interrogação; e o mento perdia-se na nuvem de tule de um laço, esparso na gola impecável de um costume tailleur azul.

Tinha muito da Sarah em nova: a cabeça de uma madona quatrocento em que vivesse a alma de Montmartre.

Acompanhava-a outra que mal vi, fisgado pelo estranho do seu tipo. Toda a noite, ferozmente, a encarcerei no meu binóculo e ela, exibindo atitudes de indiferença numa galeria intérmina, nem sequer teve o ar de ver-me.

Aborrecia-se com complacência, olhando sem fitar, cumprindo com resignação esse destino de, sobre uma plateia do Porto, num barracão de Folies-Brégeiras, esfolhar a carícia exangue e lambedora das suas mãos de raça.

No meu grupo faziam-se hipóteses. Cocotte? Cançonetista? Talvez seja essa que se estreia amanhã.

Todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia.

Quando à saída ela passou, compondo um ar abstrato e um passo ondeante de serpente-fantasma, excitado e burro, disse não sei que frase escória e ouvi numa voz de seda que range, esta coisa justa: imbécile!

Deixei de ir ao teatro. Achei a vida toda tão imbecil como eu.

Até que uma manhã Just irrompe no meu quarto e preludia felicíssimo: “Foste um doido em não aparecer”. Contou então: o empresário F. apresentara-o, e como eram duas e eu continuava incógnito, apresentou por sua vez o conde C., que ao menos não se arranjava mal. — “A tua, a do conde, chama-se Suzane. A outra, a minha, é Gaby d'Anjou, é perfeita. Não sei se reparaste: um corpo grego. Há uns poucos de dias que isto nem parece o Porto”.

E partiu num turbilhão de chance, dizendo apenas quase à porta, que a Suzane era finíssima, e se tolerava o conde é porque não via melhor, e porque enfim, o Amieiro o não vestia mal.

Como mesmo escrevendo, estou morto por chegar ao quarto dela, direi já que almoçamos a sós dias depois, e nem sei mesmo se comi, porque estendia as mãos em concha aos seus pés magros, para os sentir crispar-se com luxúria ao ranger da seda em folha seca...

Foi rápido e simples. O meu amigo apresentou-me: o conde é lorpa, eu sou fino, ela é fina e... voilà!

Aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me colheu, polarizando o meu desejo para o seu corpo elástico e felino, como se as suas mãos de pianista me corressem na medula, e os seus olhos de névoa me perdessem em hipnose.

De corpo e espírito era flexível como uma chama ao vento.

Horas e horas, com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória, recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cor toda a Comédia Humana; tinha um vício pessoal, erudito, arqui-sutil; cinicamente ingênua, ingenuamente cínica; amoral e heroica, e que caminhava para o seu leito de cocotte com o ar redolente de Desdemona na canção do salgueiro...

Oh! A sua canção do salgueiro, música e versos de Bruant, como eu a trauteio ainda exasperado:

Les ch' veux frisés,
Les seins blasés,
Les reins brisés,
Les pieds usés.

Pierreuses,
Trotteuses,
Ás marchent l'soir
Quand il fait noir
Sur le trottoir.

Os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caíam-lhe nos ombros; a robe empire era ampla e branca, as mangas vibravam em asas de serafim profissional... Era uma aparição de lenda rociada de água Lubinorvalho caro...

Quando depois mais de perto a detalhei, achei-lhe um não sei quê de transido, de parado, espécie de kakemono, espécie de bebe enorme, enigmático, aflitivo, como só um caricaturista-poeta criaria, num instante de emoção e febre, de quimera e riso. Pobre Suze!

Era pálida, pálida, no seu roupão de noite, sem as rosas do maquillage que ela tão sutilmente esmaecia. Pobre Suze!

Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como tu viste, nem como tu transfigurou uma máscara de gesso, patinada a lua, numa obra-prima irradiante.

Tu que eu agora vejo como um mármore de desgraça, arrepiado, vestido à toa, sem maillot de seda, sobre uma mesa misérrima de morgue; tu que tens já talvez no ventre aberto o esverdear levíssimo com que a Morte agora te maquilha; tu que depois de tanto te venderes, cada vez eras mais tu e mais perfeita, — ninguém irá junto do teu cadáver pôr-te o colar da Ordem do Desprezo que na vida te deu beleza e estilo.

Foste um gênio incompreendido, Suze. É o único ponto de contato que tiveste com dezenas de idiotas que eu admiro.

Mas não é isto o que me aflige, pois sei bem que se da Morte me ouvisses e se da Morte me falasses, mais uma vez me dirias a tua grande frase, a frase-medalhão, a frase-refrém, que tão sinteticamente define a tua graça, o teu gênio, o teu vício, o teu desdém:

Tu sais, ça, c'est un détail.

Para Suze, tudo na vida era um detalhe.

Ela que se deu a saborear a tantos homens, duvido bem que conhecesse um ensaísta, espírito de síntese, à Carlyle, que enquanto eu nesta noite de insônia a recomponho, com uma saudade sem esperança, friamente medite um grosso tomo, que deveria assim chamar-se: — a Filosofia de Suze (livro póstumo).

E em subtítulo, dum chic transcendente: — ensaio sobre a supra-mulher. Dir-se-ia no futuro: — isso é um detalhe, como outrora se disse: — penso, logo existo, como hoje se diz: — o homem é uma ponte para os sobre-humano.

Se Eça de Queiroz fosse ainda vivo, eu que nunca o conheci, havia de apresentar-lhe a Suze, e juro, juro, que a acharia bem mais sutil, bem mais complexa e humanamente fascinante, que o seu extraordinário figurino — carlos Fradique, dândi e epistológrafo.

Fialho, mais feliz, pôde falar-lhe; viu-lhe gestos que valiam máximas, e ouviu-lhe memórias e anedotas bem mais significativas que parábolas. Mas por mais que insistentemente lho pedisse, nunca escreveu sobre ela: recusou-se.

Não posso eu, como quem empalha uma asa, amortalhar o gênio da Suze em frases sábias, articular-lhe em sistema as formas típicas, erguer enfim essa arquitetura metafísica, que ficaria na névoa das idades, como um farol para sempre...

Não, não posso. Sinto ainda correr-me o corpo todo, em ondas lentas, o afago dos seus cabelos, dos seus dedos, que eram vivos, enervantes como línguas...

E não é assim, a arder em desejo póstumo, que eu posso lançá-la à posteridade... De resto, Suze, que era para ti a posteridade? Um detalhe, um detalhe apenas...

Mas quero afirmar que nessa frase — que nem sequer para muitos que a beijaram, foi mais que uma ironia sem estilo — se condensa o estoicismo, o galbo heroico, que fez desta parisiense tão estranha na sua vida de cocotte nobilíssima, uma neta espiritual de Marco Aurélio.

Foi nobre e foi cocotte. Não estranhem.

Viver, para uma mulher, na sociedade de hoje, é quase sempre prostituir-se. Mesmo as que casam, e que casando amavam os maridos, quantas vezes não sofrem sem desejo, um cio incontinente, numa humilhação de prostitutas, até que toda a emoção se lhes estanque e o hábito lhes embote o corpo e o espírito?...

Depois da primeira frase, em que a sede de amor lhes doura a vida, quantas não reconhecem no convívio que o seu ídolo moral é um canalha, e que o amoroso é só o macho sórdido, sem delicadeza, sem ternura — contundente, ferocíssimo, legal...

As outras, são apenas fêmeas broncas presas à canga do lar animalmente, ou semiloucas resignadas que um catolicismo castrador perdeu, ou índoles lunares de amorosas espairecendo de martírio e tédio. E consciente ou inconscientemente, todas vão afinal prostituir-se. Só a moeda diferere: nada mais.

Mas se viver, para uma mulher, é quase sempre prostituir-se, não o é menos afinal para um homem.

Prostituir-se é deformar, ou anular mesmo, o que em nós há de individual e caracterizante, pela necessidade de captar alguém, patrão ou mestre, rico ou superior hierárquico, e até mesmo o pobre, que nos dá a ilusão de sermos bons e a consideração hipócrita dos outros.

Cada um de nós, ao entrar na aula ou na oficina, no escritório ou na repartição, no salão ou na taberna, é postiço, é convencional, é um outro; ao princípio confrangidamente, através de mil torturas; depois inconscientemente: mecanizado, deformado, quinquilharia andante e cérebro de lixos, contribuindo assim para esse ideal que nos empala, e os moralistas chamam — solidariedade humana.

Era fácil mostrar como, violentando o temperamento, esta prostituição se repercute até nos gestos, na nossa maneira de andar e de vestir. E isto em todas as classes, porque ninguém é suficientemente forte para se bastar a si mesmo; todos precisam da consideração dos outros, da opinião pública, e vão vivendo sob a garra do preconceito, que os desengonça e deforma, que os raquitiza e anula, como os saltimbancos às crianças.

Quantos resistem íntegros ao regime penitenciário que é a vida de hoje em sociedade? Alguns pelo isolamento; — bem poucos dos que ficam.

Não riam portanto ao ouvir que a Suze, a minha pobre Suze, foi nobre e foi cocotte. Cocotte, sim. Como nós todos. Porque, em suma, eu sou cocotte, tu és cocotte, ele é cocotte...

Que horas serão? Deve ser quase madrugada.

Eu bem queria nestas palavras de febre, silhuetar a Suze, ter um pouco de método, monografá-la. Mas não posso, não posso.

Tenho aqui na minha mesa de trabalho o seu retrato, e nem sei como tenho coragem para escrever, como posso desviar os olhos da névoa abismal dos seus, que me transem de irremediável e me enlouquecem de desejo. Desejo absurdo, que o impossível hiperestesia, e me impregnou célula a célula.

Sinto no corpo todo a carícia opiada dos seus dedos, a sua carne sortílega, embruxada; a sua pele afim da minha, e que com ela dialogava em silêncio, nas horas de esgotamento, rememorando sensações agudas, fulgurantes...

Vejo-a, vejo-a!

Passa a teoria das nossas noites (em que os seus tiques profissionais me confrangiam) e ela era sempre duma envolvência fluida, de uma estesia de atriz inconsciente, uma viciosa triste, insaciada, e uma boa e uma pobre rapariga.

De começo podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça, tanto o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo: no andar elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de alcova e confidência. Mas não: viam-na mal. Ela era assim sem esforço, naturalmente: ela nascera uma obra de arte. E todo o meu trabalho de esta noite me parece o de um doido que quisesse com poeira reconstruir uma obra prima...

Muitas vezes já, aludi ao seu cinismo. Mas entendam-me: cinismo, disse-o o forçado genial de Reading—é a coragem de dizer as coisas como são e não como deviam ser. E a Suze era assim, quando falava a alguém que a compreendia.

Esses porém, eram raros, muito raros. Com uma intuição divinatória, balzaquiana, a Suze adivinhava às primeiras palavras o seu caso, lisonjeava-lhe os instintos, e assim durante o dia era, conforme o macho em catequese, canalha ou ducal, obscena ou protocolar.

Um deles, com quem viveu muito tempo, não via na Suze um animal de vício em quintessência, e, estúpido, não lhe sentia a graça esparrinhando gênio: era apenas sentimental e jogador.

Outra qualquer, para o prender, faria comédias românticas, e decerto orientaria o seu comércio por esse fundo fadista e namorisqueiro. A Suze não. Parecia-lhe demasiado reles, insuportavelmente folhetim. E foi por o jogo que o laçou.

Pouco a pouco, por sugestões dominadoras, foi-o convencendo de que ganhava sempre quando cedia passivamente aos seus caprichos, quando lhe dava mais vestidos, mais dinheiro: e em pouco tempo, ela era para esse jogador supersticioso, um ícone sagrado, tutelar,— nossa Senhora da Sorte ao seu alcance...

Dominava-o por completo. Se o traía, explicava-lhe com um ar vago e superior... que era para lhe dar chance; e todas as noites o desgraçado vinha implorar da Suze, aninhada num divã, com um pequenino ar de sibila délfica, um pouco de sorte por amor de Deus!...

Teve este espetáculo hiperdantesco: os Poderes Constituídos — em cuecas!... Ela os viu, aos redentores da pátria: viu como era piloso o sacro onde tem o fogo os oradores: foi caloteada por economistas: sofreu contra a pele fina a camisola de flanela dos guerreiros. Mas o que mais magoou o seu desprezo, foi a secura e a egolatria dos artistas.

para todos a sua arte era perfeita, radiando ilusão, hipnotizando.

Mais flexível que as nuvens são para o vento, o seu proteísmo teatral de prostituta mimava a cada um o seu ideal...

Ah! Mas como ela ficava, a minha Suze, a sua fadiga nervosa aniquilante, o seu imenso tédio neurastênico, querendo desertar de si, da sua alma e da sua pele enojada, para sempre!...

E caída num estofo, amarfanhada, era às vezes triste como uma coisa morta, como uma asa ferida nalgum charco... Curtia assim consigo mesma horas de miséria moral e de exaspero, sem uma queixa, sem uma lágrima, num orgulho de sozinha, donde só ressumava o sofrimento, num gesto, num olhar, numa ironia.

Uma manhã em Lisboa, acabávamos de almoçar no nosso quarto, com a janela aberta para a Avenida.

Ela fumava um Laferme, devagar, no prazer sutil de soprar nuvens. E de repente, como a uma lembrança súbita, disse-me isto baixinho, num tom que nunca esquecerei:

— Tu sabes: não gosto de falar da minha vida. Nunca me queixei. Se agora te falo, é porque é para dizer bem... Neste horror, tenho tido dias de uma volúpia imensa. Nem sei como te diga. Começo por me sentir doente, exasperada, sem poder mais... Eles veem e eu penso que vou morrer de nojo. Vem um, veem muitos... veem todos... Então, não sei porquê, sinto um bem-estar, um gozo doido; acho prazer a que me humilhem; parece-me que nasci para isto, que não há destino melhor... e gozo... gozo.

Depois, num riso seco:

— Sinto a volúpia de um cristão às feras...

Parou. Eu recebi num beijo o fumo do Laferme, e a Suze concluiu:

— Que importa isto! É um detalhe...

As outras, as vulgares, bestializavam-se; passada a crise horrível de adaptação, vendiam beijos, como um mercieiro vende arroz, um advogado eloquência, ou um diplomata uma colônia. A Suze não; era escultada em lava: era alguém. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria sempre ela, seria sempre só. Pobre Suze!

Alma apolínea, foi esboteada por fadistas que tem o nome em crônicas heroicas; sofreu-lhes, em noites de orgia besta, o suor e o vomito; e com uma clarividência trágica, pressentiu muita vez os haustos da manhã subindo, a olhar com a pele arrepiada a máscara boçal de algum cliente.

Teve amantes ricos, equipagens, e as suas melhores horas eram quando sozinha, abandonada a si mesma, ouvia numa noite de inverno, como uma confidência, o crepitar da lenha num fogão...

Teve paixões sensuais que a torturaram, foi roubada impunemente muitas vezes, e uma noite em Moscou— caía neve — velando uma companheira moribunda, sem nada para empenhar e sem recursos, foi pôr no prego, joia grotesquíssima!— a própria dentadura da doente que. Deus louvado, era montada em ouro... Assim puderam comer aquela noite.

É de estourar a rir — não lhes parece?...

Sabia de cor toda a Comédia humana: viveu toda a comédia humana. Pobre Suze!

Tu ao menos, não precisaste de ser louca para seres santa: ergueste-te sempre corajosa e simples, sem um abatimento ou uma queixa; e através de insultos e torpezas, conservaste puríssima, apolínea, uma alma aberta ao sol como uma rosa!

Quantas vezes, calçada de verniz, tiveste fome, e com teu passo elástico de espetro, nem um só Cireneu topaste que ao estender-te a mão, te não pedisse gozo...

Tu, Suze, sabias bem toda a piedade humana e como ela é antes... e depois. Se algum príncipe Nekhuladoff tentasse redimir-te, como a tua palidez riria de alto ao pobre místico, a ele que te falava de perdão e arrependimento, quando os teus olhos de névoa viam claro, com um determinismo lúcido, fatal, que a tua vida era assim, irremediável, e nem tinhas ódios nem sede de justiça, pois bem sabias que é inútil tê-la para morrer à sede...

Conheceste príncipes, é certo, mas nem um místico: só mais ou menos imbecis... Não te fossem falar do céu,— a ti que tantos viras de platina na boca de gozadores com avarias.

Por isso não tiveste gritos, não te estorceste: nem sei mesmo se choraste.

Posta em teatro, não farias uivar as galerias nessa paródia de circo tão grotesca que é um quinto ato para burgueses e povinho; eras para os raros apenas como o matoidismo poético da minha terra. Na tua voz de folha seca, dizias de todo o teu calvário apenas isto: é um detalhe.

Mas para mim, Suze, o teu corpo serpentino, que ora começa a decompor-se, o teu gênio a fagulhar num incêndio murmuro de élitros e, sobretudo, o supremo encanto da tua dor heroica, sem desfalências e sem queixas, para sempre ficarão no meu espírito, como qualquer coisa de belo, de perfeito, pois que correste os bastidores da vida, todo o egoísmo, toda a lama, toda a infâmia, em vítima serena — tão serena como essas que na Grécia iam hirtas de dor entre colunas...

E amaste sempre o sol! E amaste sempre o sol!

Deixa-me lembrar-te: é a última carta que te escrevo. Desta vez serei sincero, porque estás morta, porque a não lerás...

Espera!... As nossas tardes no Rio Doce, em Leça... Os olhos dos mortos ainda refletem, ainda veem... Pudesse eu ir arrancar-tos, trazê-los nas mãos com cautela, como dois pássaros mortos, e dar-lhes ainda a beber, pobrezinhos!— sol, mar, areias ruivas, águas correntes...

Pudesse eu beijar-te os olhos mortos!

Chamava-se Sol o nosso barco. Eu levava-o à vara, lentamente. Tiravas o chapéu, estendias-te à popa e nem falavas. De quando em quando, ia colar à tua a minha boca: beijava-te as pálpebras de manso.

Parava sob um chorão, à sombra dos seus cabelos verdes. Cingia-te. Pousava a cabeça nos teus seios, que eram lindos, tersos como de virgem. Todo o teu corpo desfalecia, se humilhava no teu vestido de seda crua como o duma criança adormecida... E era então que eu sentia, que eu palpava, que eu vivia a vida divina do silêncio.

Era mais vago o marulhar da ramaria e fazia mais silêncio, como faz mais silêncio, à noite, o acorde das ondas numa praia...

Sentia-se cair silêncio como se sente cair névoa.

As nossas bocas colavam-se num beijo úmido, calado, duma volúpia tristíssima, confrangida. Era como uma despedida sem palavras, muito lenta, de dois suicidas...

Eu não te via os olhos, mas adivinhava-os: estavam maiores, mais nevoentos, como janelas deitando para o silêncio que se cavava em torno, fazendo leito ao nosso pensamento pelo espaço...

E confusamente sentíamos que o tempo passava, passava sempre entre os nossos corpos enlaçados....

Por fim — era à boca da noite — voltávamos.

Devagarzinho, dizias tu, devagarzinho...

Eu ia levando o Sol na água mortuária, e à nossa passagem, partiam sempre, iam partindo, pássaros mal adormecidos nos salgueirais das margens, refletiam-se no rio em fugas de asas, e era tudo mais triste como se esse voo fosse o adeus de tudo...

Quantas vezes te olhei com os olhos rasos! Disfarçava, não queria nunca que os visses. E de repente, apertava-te os braços, sacudia-te para me aturdir, para espancar a emoção que me afogava numa maré de lágrimas represas.

Queria gritar, queria chamar-te meu amor e... odiava-te. Queria beijar-te as mãos, vestir-te de meiguice, e dizer-te a ânsia, o sonho doido de viver contigo sem palavras — como as estátuas dos túmulos nas criptas...

Queria bater-te, cuspir-te, demolir-te, como faz um tufão a uma árvore sozinha, e a puxar-te os cabelos de criança, ir gritando, gritando sempre: prostituta... prostituta...

Hoje tenho remorsos. Mas tu compreendes, tu bem sabes: era quase loucura.

Não podia perdoar à tua graça ter-se deixado poluir, não podia perdoar ao teu gênio a tua derrota, não podia perdoar-te, Suze, que fosses vítima.

Ah! ter piedade, ter piedade... Mas isso é pouco, muito pouco: é um sentimento consolador só para eunucos. E eu queria amar-te ao sol, Suze, olhando as árvores irmãmente, todo o nosso desejo a escorrer luz...

A noite vinha. Seguíamos enlaçados, e eu cansava-me no esforço imenso de te não magoar... Tu bem sabias, tu bem sabias... Segundo a segundo, o meu martírio pesava o tempo como se uns ponteiros de relógio me ferissem os nervos... Tu bem sabias. Tanto sabias, que por fim me beijavas na testa, quase maternal, e a tua voz de folha seca rangia este refrém de outono: “Isso passa. E um instante, é um detalhe.

Minha pobre Suze, como tu eras justa, como tu adivinhavas, bruxa de vinte anos, para além da hora que passa, o nada que virá.

A tua desgraça era suprema, porque tu eras aquela que não se ilude nunca.

Ainda assim, penso comigo: quem sabe! quem sabe! Se ela me visse como eu sou, se eu não fosse com ela sempre ator, se eu não fosse o ser falso, o clown céptico mascarrando com riso o sentimento; se eu não me amordaçasse a cada instante, e tivesse podido ser eu mesmo... Se visses, Suze, a criatura que eu escondo; se soubesses que afinal eu sou bem simples e como eu amo a vida toda de mãos postas...

Se em vez de analisar, eu me entregasse; se eu esquecesse os livros e os outros e te falasse tão naturalmente como o meu sangue fala nas artérias... Quem sabe!... Talvez, Suze, se eu fosse o que não viste, o que te fala agora... Porque eu lembro-me, eu lembro-me. Duas horas houve que nós vivemos um no outro, fora do espaço, fora do tempo... Tu bem sabes, tu lembras-te.

Era madrugada. Estávamos deitados.

Todo o meu ser vivia de ti, morria em ti. O nosso desejo ardera, estava morto. Que fadiga a nossa, que fadiga!...

A rua despertava, ouviam-se pregões, o sol luzia nas frinchas: eu tinha a cabeça contra o teu peito, perdidamente, como contra a esperança, como contra o futuro...

Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza imensa, a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e juro — que em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flor com orvalho me ungiu assim de sonho, me fez assim vibrar no impossível dum amor perfeito.

Levantamo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu ri, eu ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que auscultei contra o teu peito — o impossível de um sonho sempre erguido!...

Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti — na tua morte, Suze!— eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei um ar gelado, irônico, impossível, quando queria chorar perdidamente, quando queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um medo horrível de que os outros me vissem, porque para eles é uma torpeza amar-te assim...

Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. Para todos os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos para um crime assim: não tem remissão: é imoral e é grotesco.

É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize o seu olhar de chama, para eu poder dizer como te amava, como te amo.

Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.

Toda a vida morreu para mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar que eu amei tanto, não me importa.

A vida agora é este horror: uma sala de morgue, mesas ovais de mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre eles, Suze, o teu cadáver.

Como irás tu para cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho, mercenárias.

Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver transe, empedra de martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam pentear; deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro, de uma seda mais pura, mais de infância...

Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...) sapatos de verniz, pontiagudos... fivelas de ouro... meias de seda nos teus artelhos finos de cegonha.

Cruzaram-te decerto as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e amarelas, outonais, dizem ainda: “é um detalhe apenas, um detalhe...”

E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...

Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to apressa, sem cuidado. Se te tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava assim mais sossegado.

É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quase dia, minha Suze.

Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A minha febre aquece-tas: verás...

Não te descerro as pálpebras. Para quê? Está ainda escuro.

Tens saudades do sol, minha pobrezinha?... A última vez, quando almoçamos na praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias morrer... Todo o teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguém.

Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa, simplesmente. Disseste como sempre: é um detalhe...

Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto que a tua graça vá dourar uma saudade.

Ninguém irá ao teu enterro, e ainda bem!

Por tua causa, ninguém se irritará jantando à pressa; ninguém irá, de sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.

Não terás latim grunhido por um clérigo, nem essa coisa triste e tão grotesca — um círio laico em ar solene, com fungagá e arenga humanitária.

Vais para cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos homens, vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és discreta, minha Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.

Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas nuvens, nos maquereaux, nas pupilas das joias, nos crepúsculos...

Ensinaste-me o desprezo sem palavras, a dor sem confidência, feita orgulho. Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.

Quem mas dera guardar para sempre, em mármore; suspendê-las como um ex-voto à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando eternamente sobre a vida, o perdão dos que a entendem: — o desprezo.

... Ouço horas. Uma, duas... oito. Oito horas! Se eu pudesse dormir!

E agora mesmo, ao enfiar-me na cama extenuado, eu ouço a voz da Suze, voz de seda que range, a segredar-me:

Mon pauvre ami! Quoi?! Qu'est-ce qui t'attriste? Ma mort?... Mais, tu sais, ça c'est un detail.

Sim, um detalhe... como tudo, terminando no mármore frio de uma morgue, ou a uma esquina de rua banalmente. Como tudo.

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