sábado, 4 de novembro de 2017

O noivado (Conto), de Virgílio Várzea


O noivado

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma tarde tranquila e fresca de maio.

Um grupo alegre e festivo de gente de aldeia, à frente do qual vinha uma rapariga de branco pelo braço de um rapaz grosso e desajeitado, de sorriso triunfal, metido no talhe esquisito de um arruinado fraque de pano, ainda luzente nas costuras da última passagem ferro — descia, lento e palrador, o adro da igrejinha amarela onde pastava o “baio” do cura, sossegado e feliz, erguendo de vez em quando a cabeça e voltando o pescoço para olhar aquela boa família em festa que por ali passava.

O ruído fino e miúdo de um pequeno sino pendendo de uma corda amarrada a um travessão de madeira firmado em dois paus ao alto, ao lado direito do pequenino templo — vibrava vivo no ar, num contentamento de sons que o badalo fazia, desforrando-se da longa mudez melancólica, a que o condenava a raridade das festas. E assim tangendo-o, numa preocupação de profissional e de artista, o sacristão esforçava-se, jogando destramente ao espaço esfuziadas de notas nítidas e bem ritmadas.

Na frente dos noivos corriam pela estrada, dispersos, numa imensa e jocunda algazarra, os meninos da vizinhança, antegostando já, na sua gulodice insaciável e devoradora, o sabor das deliciosas broas de polvilho, tão comuns nessas bodas dos sítios, tão torradas e tão tenras que se esfarelam no paladar.

Moças curiosas, saudáveis e de faces da cor dos morangos maduros, o olhar aceso e inquieto, assistiam à passagem do noivado com risinhos maliciosos e espertos, a beliscarem-se entre si, num cochicho zumbidor de colmeia, debruçadas nas porteiras.

Os canários loiros, os pardos que amarelam ao sol meses depois de nascidos, e os coleiros luzidios que devoram, em bandos rapinantes, os arrozais viçosos pelas margens dos banhados — chilreavam alegremente nos espinheiros da estrada, onde as roseiras silvestres, tocadas de florzinhas de nácar, se misturavam às perfumosas boas-noites, estrelando festivamente as cercas com as suas pétalas sulferinas e de um recorte delicado.

No céu o sol escondia já a sua luz mágica e de ouro por trás dos montes de oeste.

E daí a instantes a cinza fina do crepúsculo principiava a cair, negra, silenciosa e nostálgica... 

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