quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O Veiga (Conto), de Antônio Patrício


O Veiga

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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É o tipo mais estranho que eu conheço. Que anos terá? Deve ter trinta ou mais. Magríssimo, esse lúgubre cabide que é o seu corpo, traz enfiadas roupas de outros, muito largas: sobrecasacas, fraques, vestes ricas, esverdeando, já em plena decomposição, e mais vexadas nesse esqueleto curvo de pedinte que numa loja de adelo ou num palhaço.

Decerto o conhecem. Decerto já, cerimonioso e gago, lhes pediu esmola. É um pobre diabo e é doido: o Veiga.

Caricatura das ruas, conselheiral e poética, encontro-o sempre com vagar e ritmo, num abandono corcova de vadio, que daria dandismo a um diplomata.

Pois bem: é só mendigo. Mas não como nós todos, a uma esquina de rua ou a uma porta banal de ministério, a pedir emprego ou noiva rica, dez reis ou participação num monopólio. Não é assim: é outro gênero, é paradoxal, é único!

Pede para comer, mas não come como nós todos: por comer. É para viver a Vida, a Vida toda! Esperem um instantinho: é extraordinário.

Deixem-me antes contar-lhes como ele era.

O Veiga, quando eu dei por ele, era empregado num cartório. Às dez, todas as manhãs, enfiava com unção manga de alpaca. Assim ficava até às três, todo curvado, cumprindo religiosamente, riscando o papel selado com uma letra estilada e redondinha, tão correta e tão banal que faria o desespero de um grafólogo.

Tipo neutro, nem vou lá, nem faço minga, gozava em todo o tribunal uma simpatia benevolente e desdenhosa. O escrivão, os colegas diziam dele: é um pobre diabo.

Era bem um pobre diabo.

Sofriam os seus nervos destrambelhados com o drama quotidiano do tribunal, esse espetáculo de miséria em carne viva, explorada pelos outros que viam nela a melhor posta, extraoficial e lucrativa, o verdadeiro emprego.

O Veiga, coitado, não explorava: sofria. Às vezes, copiando interrogatórios, mandados de captura ou de penhora, tinha os olhos rasos, e umas revoltas frustes de nervoso crispavam-lhe as mãos magras na caneta, perturbando em trêmulos sem arte o seu lindo e banalíssimo cursivo.

Em muitas dessas prosas rígidas, onde se amortalha em fórmulas destinos, ia o gráfico da sua emoção romantizada, o patético mapa dos seus nervos.

No cartório, melhor do que nos livros, sem gangas literárias, sem imagens, o Veiga ouviu a maré rouca da desgraça: a sua caneta atenta correu-lhe os sete círculos fatídicos; soube-a de cor, como um folhetim vivo, gritado aos seus ouvidos, que ele recolhia em papel selado a 20$000 réis por mês.

Naquelas laudas oficiais folheava a vida social como num índice; lia como numa partitura, toda a harmonia humana. E que harmonia, Santo Deus!

Tinha vontade de fugir, de tapar os ouvidos, de se meter sozinho num buraco. Ali roçou, mais encolhido, aspirações, quimeras ulceradas. Como era um fraco, de uma nervosidade romanesca, sentiu terror: tinha vontade de chorar. Não embotava como os outros num cinismo comodista: cada vez destrambelhava mais.

Claro que não podia ter amigos: era ridículo, era diferente, era um sozinho. Riam-se dele com benevolência, estendiam-lhe a mão com um ar de obséquio.

Quando se afastava de algum grupo, sob as arcadas conventuais do tribunal, ia aflito, a querer sumir-se, com vontade de morrer, pois bem sabia que se riam dele, das palhetas desafinadas, da gaguez.

Vivia com a mãe e sem mais parentes. Mal chegava a casa, ia esquecer, queimar no braseiro interior essas misérias, e com a luz de tão má lenha, fazia nimbos para o seu sonho.

Com que sonhava ele? Com o Amor.

Vira-o nu, reduzido a autos; ouviu-o debater-se bem imundo na camisa-de-força que é a Lei; acotovelou-o no cartório, em todas as formas, da prostituta de viela ao adultério rico; e assim mesmo, persistiu em amar imbecilmente, convencido, — o desgraçado! de não sei que sarcástico destino que o talhara para amoroso, com uma carcaça humilhante de fantoche.

Amou.

Era uma loira muito cromo, filha da loja de miudezas lá da rua. Escreveu-lhe em insônias de delírio, cartas imensas em papel azul. Chamou-lhe tudo e ela respondeu-lhe. Durante umas semanas viu cor de ouro, andava estonteado, como em sonho, suspenso dos fios dessa trança, pairando à altura de um terceiro andar.

E mesmo na saleta do cartório, se o deixavam só alguns instantes, fechava como os místicos os olhos, para forrar as pálpebras com ela, sussurrando baixinho devoções.

Que lhe importava agora o tribunal, essa tragédia amorfa, sem estilo, tantas palavras que condensam dramas e que ele por ofício, copiava! Escrevia a pensar nela, envolto em vago, como numa nebulosa redentora, e já não via no papel um mar pautado, em que boiam cadáveres de destinos, frangalhos de esperanças, vidas podres...

Há muitos dias, o Veiga era quase um ser de sonho. Dizia à mãe em casa coisas vagas, comia talvez menos, mas radiava.

Tinha grandes cuidados de toilette. Mandou brunir o seu antigo fraque, que agora sem pelo era espelhento, e arranjou ainda um coco preto que o magoava pouco na cabeça. Para ser em segunda mão, era magnífico. Vendera-lho um colega no cartório. Andava cheio de felicidade como um ovo. Era uma vontade doida de sorrir, de beijar as crianças, dar esmolas, de agradecer a Deus o sol e a chuva, e de dizer a todos que era amado.

Tinha ido apreçar um anel de ouro, e fazia economias prodigiosas para lhe dar em breve essa aliança. Para ele o anel era um símbolo supremo: fundiria para sempre os seus destinos.

Só iria falar-lhe, gritando-lhe da rua o seu amor, quando pudesse levar esse aro liso, que ela enfiaria olhando-o perturbada, como numa liturgia nupcial.

Chegou o dia. O Veiga nem comeu. Meteu o anel no bolso, pôs o coco, beijou a mão à mãe comovidíssimo, e partiu rítmico e mudo, mui solene, como se pisasse a aresta do destino.

Era ainda cedo. Vadiou nas ruas, braços pendentes, lânguido, cismático, a construir projetos de futuro: outra casa melhor e em poucos anos — um lar com ela, imortalmente loira.

Caminhava, alheado, flutuando, sem olhar, sem perceber aspectos, fumando o seu monólogo de sonho, sentindo com prazer que a noite vinha.

Parou por fim, cravando olhos de febre nessa varanda do terceiro andar.

Esperou... esperou e ela não vinha!... Há quanto tempo olhava ele a varanda? Há cinco minutos talvez, talvez há uma hora. Perdera a noção do tempo. Não sabia. Súbito moveu-se o transparente... Era ela. Olhou um instante, viu-o, e retirou depois de um modo brusco.

“Coitadinha! Não pode vir agora. Talvez gente de fora... Esperarei” — pensava o Veiga com as pernas a tremer. E esperou, esperou, numa agonia.

Por fim deram dez horas muito fortes, badalando-lhe dentro da cabeça. Ergueu os olhos. Não podia mais. Batia os vidros um luar de opalas fluidas, e ela apareceu na claridade, muito branca, ao mesmo tempo que lhe deu um encontrão um caixeiro ajanotado que passava.

“Foi decerto sem querer”, — pensou o Veiga, mas viu-o logo voltar-se a provocá-lo.

“Que tem ele comigo? Que lhe fiz?” E interrogava-se assim ingenuamente, quando o viu fazer sinais para o andar dela e apontá-lo a rir, com um ar de troça.

Cessou em torno dele toda a vida. Deixou de ver, deixou de ouvir, ficou imóvel, numa aura de vertigem que o lambia, cara para o alto, lívido, inconsciente. O outro então aproximou-se dele, fisgou-o pela gola, muito teso, e com bruscos sacões foi-lhe dizendo:

— Que faz você ali, seu grande lorpa? Não percebeu ainda que o troçaram? As suas cartas trago-as eu aqui, para as ler aos meus amigos, para me rir. Você sempre é um ponto de primeira... Você ouve ou não ouve?...

E deu-lhe um sacão último mais forte.

— Não há que ver. É mouco como um muro.

O Veiga olhou-o atônito, sem gestos. Não teve uma palavra. Empedrou todo. Vergava de fraqueza, mal ouvia, e nos olhos de febre, muito abertos, um desencanto imenso, emparvecido, um vazio de assombro, semilouco... Estava em frente do outro sem o ver. Todo o seu corpo magro de humilhado corcoveava ainda mais de decepção, como se o esfrangalhasse uma rajada. Parecia esperar uns braços para cair. O outro olhou-o num desprezo besta, e rematou com o punho em murro junto dele:

— Agora rode! Senão parto-lhe a cara.

O Veiga nem buliu. Ficou inerte.

— Não ouviu, seu burro, não ouviu?

E como ele não tinha um movimento, deu-lhe uma bofetada que o virou. Depois, gozando muito o seu triunfo, encheu-lhe de pontapés o corpo todo, teve-o nas patas enovelado como um trapo, até que farto, resolveu largá-lo, soltando-lhe magnânimo o perdão:

— Já basta. Tomou para o seu tabaco...

Havia um luar de espasmo, amorosíssimo, e o imbecil, trepando a rua derreado, abafava os soluços contra o lenço, cerrava a boca seca como em trismus, e só tinha uma ânsia a empurrá-lo: ir despertar a mãe na alcova escura para chorar baixinho junto dela, como em petiz quando o troçavam no colégio.

Só isto poderia consolá-lo: ouvir-lhe a voz, palavras de ternura, sentir-lhe as mãos rugosas nos cabelos...

Fez um último esforço, dominou-se. Foi em bicos de pés até ao quarto, e caiu de bruços sobre a cama, como se fosse a cova, para acabar, na humilhação suprema de sovado diante do seu ídolo tão louro.

Crispou no travesseiro mãos de náufrago, como na carne de alguém que o acolhesse, um amigo para ouvir-lhe a confidência; disse coisas baixinho, o nome dela, chorou horas e horas, gemeu alto, diluindo nas lágrimas a angústia, sentindo contra o corpo extenuado a moleza da moinha a consolá-lo.

Por vezes chorou quase com prazer, desdobrou-se, assistiu ao seu martírio, como nas melhores noites de teatro, quando ouvia os quintos atos soluçantes, apertado num lugar das galerias.

Esteve assim de bruços muito tempo, amolentado, estúpido, pastoso. Não podia dormir: era impossível. E com um grande esforço, quis erguer-se. Mas doeram-lhe então as pisaduras, e numa raiva fruste de impotente, feriu a paz do quarto com patadas, com rangidos de dentes e com murros, torcendo-se num ódio corrosivo, menos contra o caixeiro que o tosara, que contra ele, Veiga, gago e reles, sempre curvado em cumprimentos torpes, entre troças e adeuses de desprezo, sem coragem para um murro ou uma insolência.

Sentiu-se trapo, lodo, coisa imunda. Teve mesmo prazer em deprimir-se; rolou-se na humilhação quase com gozo, como outros na glória ou na luxúria, e arrancou do seu misérrimo grotesco, da sua covardia tão cuspida, este consolo cristão para aureolar-se:

— Sou uma vítima, uma vítima do Amor e do Destino!

Tinha ainda na cara as bofetadas, ouvia ainda a voz boçal do caixeirola: “Já basta. Tomou para o seu tabaco”; mas a única realidade bem tangível, ao sentir-se chorar, assim, de bruços, de coco para a nuca e sobretudo, era esta coisa mágica e inefável: — "Sou uma vítima do Amor, tenho romance!” E com a cara a arder, era um herói.

Já quase madrugada, adormeceu. Acordou-o o sol vindo até ele, e ia voltar-se contra a luz covardemente, para se escoar no sono, para esquecer, quando ouviu passos da mãe que vinha entrando.

Embrulhou-se nos cobertores num gesto brusco, para que ela o não visse por despir; encolheu-se na roupa o mais que pôde, mas ainda assim ficou com os pés de fora, com as botas de elástico enlameadas e o coco amolgado em travesseira.

A mãe entrou no quarto devagar, foi abrir as janelas de mansinho, supondo-o a dormir, bem sossegado. Quando o viu vestido sobre a cama, com uma palidez desfeita e olheiras fundas, correu para ele, pôs-lhe a mão na testa, e perguntou branca de susto, a tremer toda:

— Que tens tu, meu filho? Estás doente? Por que dormiste assim todo vestido?!...

O Veiga olhou-a lorpa, emburrecido. Não soube que dizer, não quis contar-lhe; e como se a morte da ilusão o acanalhasse, como se viesse de nascer nele um outro ser, de secura e vaidade, um reles cínico, levantou-se da cama, espreguiçou-se, e sem olhar a mãe, sem a beijar, foi eructando estas mentiras torpes, surpreendido ele mesmo de as ouvir, travando relações com um novo Veiga:

— Que quer?... Nem eu sei já como isto foi. Uma noitada... mulheres... foi um pagode. Carreguei-lhe no vinho. Ora aí tem...

Meteu as mãos nos bolsos do colete, e de pernas abertas, bamboleando-se, vomitou aos puxões o seu programa:

— Isto vai mudar muito de figura. Estou farto de ser burro, vou mudar. De ora avante é outra coisa, é outra vida... Previno-a já. Não tem mais que estranhar...

E apontava-lhe a porta:

— O almoço está pronto? Vamos a isso já. Não quero esperar.

Quase nem gaguejava, o imbecil. Sem as asas-muletas da ilusão, que erguiam este orango a céus de sonho, ele ficava um tiranete bufo, com um rancor covarde de falhado, a farejar na sua raiva de impotente, uma vítima, alguém para expiar. Pasmada, a pobre criatura saiu limpando ao avental os olhos. E começou nessa hora o seu martírio.

 Nova fase do Veiga.

Iniciou-se então no botequim e com o olhar envernizado de genebra, ouvindo as mayonnaises de ópera que um sexteto melodramático lhe servia, ia pagando bebidas aos amigos...

Foi um ex-colega, que se alcançara havia meses, para fundar um semanário clandestino, que o apresentou aos rapazes do cavaco. Depois, extorquindo-lhe os cobres da bebida, empreenderam também o apostolado.

— E o nosso amigo tem... a ideia?

O Veiga não a tinha. Forneceram-lha copiosamente, em noites de catequese desvairante. Era agora um iniciado o meu idiota. As necedades que os outros lhe gosmavam, como uma bíblia obscena de revolta, acolhia-as o Veiga com fervor: o caixeiro agora era o burguês, e o seu ídolo louro o preconceito!

Perdia as noites num delírio gago, a proclamar no botequim o amor livre. Faltava ao cartório muitas vezes. Inconscientemente, como rezava com devoção até há pouco, absorvia brochuras anarquistas, e tinha à cabeceira, como uma espécie de Flos sanctorum laico, um hagiológio patético, ilustrado, com um Ravachol de auréola, hipercristo, e os mártires de Chicago nimbados.

Recolhia de madrugada ou noite morta. Nem já tinha horas certas de comer. Alimentava-se de pastéis e álcool. Só ia a casa para insultar a mãe e para dormir.

Mal lhe dava dinheiro para comer. A pobre criatura envelhecia anos cada dia. Por fim já nem falava: tinha por ele uma espécie de terror. Ouvia-o arengar coisas tremendas: a revindita social a dinamite, o “ódio ao burguês”, trapos de frases feitas que ele moía e remoía muitas vezes, numa espécie de automatismo cerebral.

— Porque, fique-o sabeado, Deus é o crime... o crime, sim senhor, digo-lho eu... Hei de dar que falar. Verá, verá...

— Não hei de ver, meu filho, que eu não tardo... Deus há de me levar. É grande esmola...

E lá ia a chorar muito baixinho.

Com as noites de álcool e vadiagem, numa exaltação agudíssima e imbecil, a loucura do Veiga emparedou-o.

Não podia dormir o meu fantoche. E depois das palestras de café, em que os outros disparavam burramente trechos de artigos de fundo e anedotas, vagueava monologando, em fala-só, repetindo na excitação da bebedeira as escórias que mais o impressionaram, e o que era pior, sugestionando-se, desdobrando-se num Veiga que ameaçava, e noutro que o terror lambia todo.

A Sociedade, a Religião, o Estado, eram os inimigos do meu títere.

Ao recolher a casa, noite morta, tomava precauções, dava mais voltas, e era em suores de angústia, em calafrios, que dobrava, na névoa, cada esquina.

Andavam a preparar-lhe uma cilada... Quase tinha terror do novo ser que se instalara nele, inquietante, atulhado de fluído de revolta, como uma garrafa de Leyde subversiva.

Certo, ele não fizera nada, era um pobre diabo inofensivo, mas vivia agora o outro dentro dele, como uma mina de dinamite, subterrânea, que a Ordem poderia farejar... E entrou a ter medo da polícia.

Ao recolher, logo que via um guarda, nem sequer dissimulava o seu terror, rodava nos calcanhares, voltava logo, de uma forma tão flagrante e tão grotesca, que se fazia notar ao mais boçal.

Às vezes esperava o sol, porque de dia não lhes tinha medo, e era na luz lial da madrugada que se esgueirava para casa, rente às portas.

Uma noite em que bebera mais, desengonçou-se em tão cômicos trejeitos ante o primeiro guarda que avistou, que o santo homem resolveu deitar-lhe a luva, e regenerá-lo com parasitas no Aljube.

Lá passou o resto da noite, sem falar, meio sonâmbulo de medo e de genebra, e a única impressão nítida que teve, foi a de ouvir, pouco antes de o soltarem, um fado soluçado como nunca, por um gatuno que dormira ao lado dele:

Já que eu te não dou o pão,
dá-te nua a quem to der;
mas guarda-me o coração,
a alma que ninguém quer.

Foi por este tempo, que ele fez parte do grupo dramático Luz e Esperança. Gago e solene, estava a calhar para conde e para pai nobre.

Teve triunfos colossais nos arredores. Declamava às noites pelas ruas, corrigia nos espelhos das vitrines a expressão dramática da tromba, e muita vez contracenou com os candeeiros, à hora espectral dos varredores... Fazia, é claro, teatro de combate, peças de intuitos sociais, dramas de tese, e como todos os colegas lá na trupe, considerava-se um ator-apóstolo. Recolhia cada vez mais tarde, trespassado de frio e de patético.

Uma manhã, chegando ao patamar, procurava a chave pelos bolsos, quando viu um vulto enrodilhado contra a porta. Estacou, varado de terror. O seu primeiro movimento foi de fuga. Quem seria?!... A mãe não, — dormia àquela hora. Mas, olhando melhor, viu que era ela... Estremeceu. Meu Deus! Estaria morta?... Não, não: adormecera ali. Para quê?... Não podia perceber.

— Deu-lhe talvez alguma coisa... Coitadinha!

Sacudiu-a de manso, despertou-a. Pela primeira vez há muito tempo, teve um gesto de filho, de piedade: ajudou-a com ternura a levantar-se. A pobre criatura erguia uma cara de espanto, de terror. Vê-lo outra vez meigo para ela como dantes, inquietava-a mais que ouvir-lhe insultos. E ali no patamar, sem gestos, fitaram-se, como dois náufragos, segundos. Não se viam já há muitos dias...

A expressão da cara dela ia mudando à medida que o fitava: — era o seu filho! Aquele rapaz cheio de rugas como um velho, com um tremor nas mãos, no corpo todo, aquele pobrezinho — era o seu filho!...

Sempre a olhá-lo, ergueu as mãos que tanto o abençoaram; a sua máscara desfeita iluminou-se, tanto a piedade ardia dentro dela; e com uma voz de misericórdia e de carícia, pôde ainda dizer-lhe:

— Ó meu filhinho!...

E caiu-lhe, toda em lágrimas, no peito. Entraram abraçados pelo quarto. Lá estava a cama aberta, a dobra feita — como uma carícia dela a recebê-lo... Através das frinchas das portadas, a manhã estava a sorrir no travesseiro...

Então na alma deste trapo humano o remorso dobrou como um mau sino, fazendo-lhe ver quanto de bom era possível: a vida antiga com a mãe, a vida calma... Sentia bem que fora torpe para ela; viu-a com a cova ao lado para tragá-la: e numa lufada de desespero ajoelhou com lágrimas rolando quatro a quatro; gaguejou como uma criança a quem bateram:

— Ó mãezinha... ó minha mãe... perdão

Ficou assim alguns instantes; levantou-se. Ainda outra vez fitaram-se nos olhos — como se um deles acabasse de chegar, com uma sacola de dor, de muito longe... E agora, entre lágrimas, sorriam. Ele pôs-se a dizer-lhe muito baixo:

— Juro por Deus, minha mãe, juro por si, que ainda a hei de fazer muito feliz... Hei de pagar-lhe com amor, com muito amor, os meses de martírio que lhe dei. Verá, verá. Vou ser outra vez o seu filho, vou ser outro...

— Sim, sim, meu filho, tu és bom. Deus trouxe-te outra vez. Pedi-lho muito. Eram as más companhias... os malvados... Por pouco te matavam, meu filhinho. Matavam-nos a ambos, Manoel. A tua mãe já não podia mais. E tu... e tu... estás tão magrinho!...

— Hoje começa vida nova. Não se aflija. Hei de ser forte outra vez, vou trabalhar...

Interrompeu-se de repente, como se uma ideia de terror viesse gelá-lo. A mãe, sem compreender, continuava:

— Trabalhar... ora aí está, é o que é preciso. Foi por isso que te esperei deitada à porta, com medo que entrasses e saísses sem te eu ver — como nos últimos dias sucedera... E eu, pobre de mim, que tinha medo, não sabia como to havia de dizer!... E afinal tu mesmo o reconheces. Louvado Deus! Tudo é pelo melhor. Ora vê tu — mas que cabeça a minha! — pus-me para aqui a falar e nem to disse... Esta tarde, o senhor Sousa esteve cá...

— Quem?

— O senhor Sousa escrivão... ele... o teu chefe.

— Ah! disse o Veiga e pôs-se cor de cal.

A mãe, sem reparar, dizia sempre:

— Devo-lhe muito, é muito nosso amigo. Que outro no seu lugar — tu bem o sabes — tinha-te posto fora do emprego. Mas ele não. Só quer que tu te emendes. Diz que te espera hoje sem falta, às dez em ponto. Verás, Manoel, tudo se arranja bem...

Ele olhava-a com os beiços a tremer:

— Estás contente com isto? Ahn! Manoel?...

— Não, minha mãe, não volto ao tribunal. Não posso mais... não posso mais lá ir...

— Ora essa, meu filho, tu que dizes?!...

— Não, minha mãe, não posso mais lá ir...

Por mais que perguntasse, que insistisse, sempre a mesma resposta em voz sumida, como a última decisão de um agonizante:

— Não posso... não posso... É-me impossível

E de repente, chegando-se para ela como um petiz com terror, pôs-se a dizer baixinho:

— Quem sabe se não é uma cilada... O Sousa quere-me lá para me prender... Sabe que sou um anarquista... quere vingar-se...

Continuou neste tom ainda algum tempo. Ouvindo-o sem poder interrompê-lo, com o coração a desfazer-lhe o peito, a mãe era forçada a perceber que aquele desgraçado que ali tinha, guardado nos seus braços outra vez, precisava mais de si que em pequenino, porque Deus lhe tirara o entendimento.

Quando ele lhe contava as suas noites, como na rua a polícia o perseguia, o que havia na névoa, a certas horas, — interrompeu-se bruscamente e ainda mais baixo, transido de pavor, colado a ela, pediu-lhe que fosse ver ao patamar... tinha ouvido passos... era alguém... Para o tranquilizar, ela fechou a porta à chave, com os olhos rasos, a conter-se, e pôs-se então a ver se o adormecia.

— O que precisas, Manoel, é de dormir, tens mesmo os teus olhos a fechar-se...

Ele não queria dormir. Era impossível. Podia vir o Sousa... alguém prendê-lo... Só se ela ficasse ao lado, de vigia.

— Eu fico, eu fico ao pé de ti. Sossega. Despiu-o então como em pequeno. Tirava-lhe a roupa devagar, ia-o beijando com meiguice, em despedida: e deitou-o por fim sem resistência, como se fosse uma criança sonolenta. Aconchegou-lhe o cobertor bem contra os ombros — tão magrinho, Senhor, um esqueleto! — e à beira da cama, de joelhos, sentindo-o adormecer, ia dizendo:

— Dorme, meu filho. Dorme... dorme... dorme...

Quando o sentiu adormecido, ergueu-se.

— E agora?!... perguntou no quarto escuro. O filho doido... a morte em torno dela... e ninguém, ninguém que lhe valesse...

Lá fora a manhã subia, com pregões. Mas neste quarto, para a pobre velha, o silêncio era doloroso como um uivo.

Meses depois, encontrei-o uma manhã em Nevogilde, sob um grande castanheiro a desfolhar-se.

Intrigou-me ver o Veiga em pleno campo, saturando-se de outono e solidão. Que podia fazer ali aquele idiota?

Mas quando me aproximei e o vi de perto, espantou-me a mudança que fizera. Era outro: era um pedinte louco, de olhos meigos...

Parei a olhá-lo. Ele cumprimentou-me com maneiras untuosas de prelado... E ficou a sorrir, chapéu na mão, como à espera de que eu fosse falar-lhe.

— Linda manhã, senhor Veiga, não é verdade?

— Diz vossa excelência muito bem... Está linda.

— Então mora por aqui — por Nevogilde?

— Não, senhor... Eu não tenho casa. Gosto disto... aqui. Há campo e mar...

— Não tem casa!... Desculpe esta pergunta: e onde dorme o senhor?...

Esteve um pedaço a fitar-me, olhos em olhos. Depois — em confidência misteriosa:

— A vossa excelência sempre o digo. Eu nunca durmo...

— Ahn?!...

— Eu nunca durmo. Não tenho tempo para dormir. Quero viver! viver!... Não posso perder nem uma manhã nem uma noite. A gente sabe lá quando tem de deixar isto... Sabe-o Deus! Eu já perdi muito. Tenho remorsos. Quando penso nisso... tenho remorsos... Quando eu era empregado, passava dias inteiros sem olhar para o céu. Só via gente e ruas... E as noites... também as perdia. Ia para os teatros, para os cafés. Foi só depois —quando morreu a minha mãe — que eu compreendi que ia mal... e resolvi viver. Passei dias de desespero, a pensar que não gostei dela como devia... que a não acarinhei... que a deixei ficar sozinha muitas vezes... Ia dando comigo em doido. Depois lembrei-me — que o que me sucedeu com a minha mãe me podia suceder com a vida toda. E mudei de rumo... Deixei o emprego. Fiquei assim... pus-me a viver. Agora, se adormeço num banco uma hora ou duas, zango-me comigo...

Por muito tempo, em palavras de gago, bipartidas, sussurrou as razões da sua vida, a sua exegese moral de vagabundo, a sua felicidade e... os seus recursos.

Tinha amigos, pessoas que o conheceram noutro tempo, antes de ele saber o que era a vida... E quando precisava de dinheiro (ele afinal de pouco precisava: nutria-se de frutos e de pão) era muito raro recusarem-lho: só se de todo em todo não podiam.

Notou que eu lhe fixava a andaina rota e sorriu com meiguice desdenhosa:

— Ando assim... todo roto. Que me importa! E podia andar bem... isso podia. Muitas pessoas me tem dado roupa. Até fatos inteiros... e em bom uso. Pode vossa excelência acreditar. Mas às vezes, de noite, pelas ruas, veem ter comigo às escondidas da polícia, desgraçados com fome... todos rotos... E por boas maneiras ou à força, tenho de trocar a minha roupa pela deles...

— Imaginam, coitados, que me roubam... Que pode isso fazer-me!... Que me importa!...

Teve uma expressão de piedade em toda a máscara, e gaguejou com outra voz, comovidíssimo:

— Tenho tanta pena deles... tanta... tanta... de todos os que foram como eu.... No fundo... é mais triste que a fome e que a miséria... ver como andam na vida sem viver... vossa excelência perdoe o que eu lhe digo...

Assim, nessa manhã de outono, eu conheci um outro Veiga — o que me interessa.

Perguntei-lhe, almofadando a oferta, se precisava algum dinheiro. Recusou. Tinha já almoçado há algumas horas... Mas como eu insistia, tirou do bolso uma mão cheia de migalhas, e mostrou-mas como um último argumento:

— Ficou-me ainda isto... para os pardais...

Depois, com um gesto lento, precioso, em que as taras do amador dramático automaticamente se traíam, tirou do outro bolso muitas pétalas, e ofereceu-me algumas:

— Faz... favor. São de uma roseira que o vento desfolhou...

Ficou curvado a aspirá-las uns segundos:

— Certas manhãs de outono... os perfumes dão vontade de chorar...

Datam daqui as nossas relações. Cultivo nele com estima, com ternura, o único panteísta que eu conheço. E tal qual o veem pelas ruas, este pobre mendigo alienado anda “bêbedo de Deus”, como Espinosa.

Encontrei-o ontem à noite: conversamos. E as poucas palavras que me disse, cravaram garra em mim: não as esqueço. Ele anda agora esquelético, a cair: o seu boemianismo panteísta tomou uma forma aguda, convulsiva: é uma espécie de delírio ambulatório.

Como eu aludia ao seu cansaço, pedindo-lhe que não andasse dia e noite nessa lufa em que agora o via sempre, ele, que era mais meigo de que um cão, deitou-me bruscamente as mãos aos braços, e com uma indizível voz de raiva e súplica:

— Por o amor de Deus... não diga isso! Olhe que eu não duro muito. Eu sei... eu sei... E tenho fome... fome de adorar... Eu quero como a um filho, à terra toda...

E falou-me das árvores, do mar.

Disse-me que queria acompanhar a Noite, sem perder um segundo, um só segundo, caminhando com ela, caminhando; — e logo, logo ao despedir-se dela, abrir bem os seus olhos, bem abertos, ao primeiro raiar da madrugada... E seguir depois o sol até à morte, ele e a sua sombra que era triste — como se fosse já uma saudade...

Era num jardim público, deserto. Caíam dos plátanos folhas secas... Ele baixou-se, apanhou algumas com cuidado, como se fossem borboletas estonteadas...

— Veja vossa excelência veja... Como estão encarquilhadas... tão sequinhas! A minha hora chegou como a hora delas...

E como o vento as fazia redemoinhar, estremeceu e disse bruscamente:

— Passe Vossa Excelência muito bem... Queira perdoar... Não posso perder tempo...

E o amante da terra o meu pedinte; não tem tempo para amar, por isso sofre; sente que ela lhe foge a cada instante, e não quer adormecer para sentir sempre, contra o seu corpo de fantoche mártir, com sobrecasacas doutros, fraques doutros, por cujos rasgões entra o sol ao luzir d’alva, até que a noite por sua vez se engolfe neles, correndo-lhe a carne de miséria, sensitiva, e amando-o sem nojo horas e horas...

A Morte, quando vier, vai comover-se, ouvindo-lhe na gaguez frêmitos de asas, vendo-lhe abrir os braços de esqueleto como para agasalhar a vida toda, e oferecer-lhe nas mãos roxas e ósseas — pétalas murchas e folhagens secas...

Não pode durar muito: é impossível.

Mas nas pedras da rua onde morrer, terá em torno dele a despedir-se, o Mar, as Árvores, a Aurora, toda a vida da terra — sua amante...

Apercebia com uma acuidade visionária a orquestração da noite, dita em surdina nas janelas, nas folhagens, e decompunha essa penumbra de ruídos, complexíssima, a que chamamos vulgarmente as “horas mortas”.

Quase madrugada, em dezembro, recolhia eu estugando o passo, porque fazia uma névoa frigidíssima, quando o cruzei numa ruela íngreme. Levei a mão ao chapéu e fui andando, mas instantes depois ele atracou-me, a tiritar de frio, soleníssimo, o coco erguido e o busto em reverência. Era ainda polidez, diplomacia:

— Desculpe vossa excelência teve agora a bondade de saudar-me e eu não pude corresponder... Só depois me voltei e o conheci. É que eu ia distraído, a trautear...

— Nada mais natural, senhor Veiga, nada mais natural...

E para o não despedir com brusqueria, fiz-lhe ainda esta pergunta estúpida:

— E que trauteava o senhor com este frio?

Fixou-me. Depois com um gesto curvo, muito vago:

— Isto... o silêncio... a névoa...

Sem flauta rústica, pobre fauno de quico e butes rotos, o Veiga não imitava, como colegas seus de longes tempos, quando a Terra era ainda uma criança, o rumor claro das levadas rindo espuma, mas apenas o esgarçar dolorosíssimo de uma névoa mendiga de dezembro, que o vento ia rasgando aos empuxões, nos beirais dos telhados, nas esquinas, esquecida talvez de que foi mar ou o choro das nuvens vagabundas...

E lá foi sob a grisalha a desfazer-se, ouvindo música inédita para todos, esse mísero fauno arrepiado que eu vi uma só vez com uma ninfa...

Foi à beira do rio, em Massarelos. Como era tarde e não havia elétrico, eu ia a pé para a Foz, na noite calma.

No cais, sentado em toros de pinheiro, — madeira para embarque, certamente — havia um par em idílio, muito unido, onde fui descobrir com grande espanto, a silhueta cômica do Veiga.

Por trás, junto a uma faia sonolenta, detive-me um instante a escutar. Era o Veiga que falava à criatura, na sua voz gaguejada e um pouco enfática, em que eu sentia o ex-amador dramático sob uma névoa de lágrimas molhando-a:

— Não se aflija. Eu tenho relações. Há de tornar a entrar na fábrica, descanse. De que serve chorar?... Torna a entrar, torna a entrar, digo-lho eu.

E uma voz de timbre fino, adolescente, respondia num choro sem esperança:

— Não me querem lá mais. Que hei de eu fazer?...

— Qual não querem! Olha a grande coisa! Mas por que foi que andaram à pancada?

A outra voz choramingava, aos haustos:

— Eu andava na descarga do carvão... Nunca chegávamos à barca ao mesmo tempo. Quando eu trazia o cesto carregado, voltava ela sempre de o largar... e dava-me encontrões e más palavras. Eu calava-me, mas já não podia mais. Tudo isto, já se vê, por causa dum rapaz que é da Afurada e anda a passar o povo para outra banda. Hoje deu-me um encontrão com tanta força, que me voltou o cesto na cabeça e chamou-me... ainda por cima. Foi então que me atirei a ela como cega — que até lhe cuspi de raiva no cabelo... Depois o inspetor veio e pôs-me fora. E agora... agora...

Desatou a chorar de encontro ao Veiga. Corria um leste morno de carícia, e ele passando-lhe as mãos magras na cabeça, gaguejava consolações, mui comovido:

— Não chore, não chore, torna a entrar. E há de voltar para casa ainda esta noite... Eu mesmo vou acompanhá-la... Não tenho nada que fazer. Não me faz monta... Eu falo à sua mãe, conto-lhe tudo. Já ela lhe não bate... então... não vê? Depois volta para a fábrica, verá. Eu tenho relações, trato-lhe disso. Amanhã pela manhã...

Não ouvi mais. Nem um sopro de desejo nessa arenga: apenas o amor por um ser vivo, a ânsia de o erguer que ele teria, vendo um caule partido num caminho ou uma rosa ao abandono, a desfolhar-se.

É que os nervos do Veiga, como os de certos artistas que tem gênio, vibravam de amor igual por toda a Vida, e sentiam nas rosas e na névoa, nas crianças e nos pobres e nas almas, a mesma ânsia inconsciente de Unidade, o mesmo erguer de mãos para a Beleza.

Vi-o depois na Cordoaria uma manhã de inverno, sob o tufo cismático dos cedros, grisalhos de névoa e de geada.

Debatia-se com grandes gestos aflitos, entre um grupo de garotos que gritavam. Trazia um fraque imenso, parecendo ter sido acastanhado, coco preto que a grenha intonsa levantava, e na cara chorinca e acriançada, davam-lhe os olhos rasos, mais que nunca, um ar de melodrama pífio, um cômico angustioso de careta.

Não me sentiu aproximar. Ouvi-lhe a arenga gaguejada: compreendi.

Um dos garotos apanhara, fisgando-o à pedra, um pobre pássaro que outro tinha nas mãos agonizante. O Veiga que passeava, interviera, e entre insultos e risadas, reclamava com palavras patéticas, o pássaro — para que o não matassem.

— Se o quer, dê-me um vintém por ele, dizia brusco um dos pequenos.

— Quem?! Olha o peneira! gritava outro às gargalhadas.

Dei o vintém, mandei que lho entregassem.

Foi ao ouvir-me a voz que se voltou. Riam-lhe as lágrimas nos olhos. Tirou-me o coco, curvado em reverência. Depois, como o garoto lhe entregava o passarito, recebeu-o com carícia no côncavo das mãos arroxeadas, e hirto, solene, sacerdotal, veio entregar-mo, erguendo muito os braços, como se levasse uma pixide sacrosanta.

— É... é de vossa excelência... Muito... muito obrigado...

E sem que eu tivesse tempo para fugir-lhe, beijou-me as mãos e deu-mo ensanguentado.

Encontrei-o muitas vezes de passagem: de manhã, de noite, a toda a hora.

Às vezes, esquecia-se a olhar muros de quinta, quando caem braçadas de glicínias, e era destes para quem o musgo numa pedra é um afago de veludo que comove.

Uma noite, vi-o sair com um embrulho de um bazar. Vinha radiante. Viu-me, fletiu em parábola numa vênia, e foi andando.

Cruzei-o horas depois ao vir do teatro. Seguiu-me. Vi que queria falar-me e esperei-o numa esquina, a acender um cigarro. Abordou-me com o cerimonial de mandarim que ele usa sempre. Supus que ia pedir dinheiro. Mas não: era outra coisa.

— Vossa excelência desculpe... Está frio e eu venho demorá-lo. Vem decerto do São João... é só um instante. É que eu devo uma satisfação a vossa excelência. Viu-me hoje sair do Bazar dos três vinténs, não é verdade? Decerto imaginou que eu fui lá comprar para mim alguma coisa... Não fui: quero contar-lhe...

— Ó senhor Veiga, que ideia! Nem pensei nisso.

— Vossa excelência consente? Eu vou dizer. Fui lá comprar uma boneca para a Mariinha... Perdão. Vossa excelência não sabe quem ela é. É a filhita duma pobre que eu conheço... Tem cinco anos... É um amor de pequenina. Sou muito amigo dela. Até me chama padrinho... A mãe ensinou-lhe. Já vossa excelência vê... Era para ela...

— Não era preciso dizer, eu nem notei...

— Era o meu dever. Pela consideração que vossa excelência me merece. Queira vossa excelência perdoar. Não o importuno mais. Está fria... está muito fria a noite!

Ainda uma reverência e lá partiu.

Estranho Veiga! Como se desentranhou este ser de hoje, do grotesco banal que eu conheci?

Como desse reles títere, amoroso sovado, trapo humano, ex-amador dramático e ex-poetastro, saiu o panteísta vagabundo, o louco duma misericórdia tão sentida, que eu vi salvar com os olhos rasos um pobre passarito moribundo?...

A pobre velha, morrendo, iniciou-o. Nasceu da sua dor segunda vez...

Uma manhã, em Carreiros, junto à praia, depois das cortesias do costume, pediu-me uns cobres para ir almoçar. E quando eu ia já a despedir-me, reteve-me com um gesto, e gaguejou esta oferta, muito lento:

— Peço licença... para uma pequena lembrança a vossa excelência as antes prometa-me que a aceita... É uma insignificância, mas cuido que vossa excelência a estimará...

Prometi.

Enfiou solene a mão ossuda no bolso da sobrecasaca coçadíssima, que vestia sem camisa, contra a pele, e tirou com infinitas precauções, um anterídio ainda úmido, perfeito.

— Como sei que vossa excelência gosta do mar, pensei em dar-lha. É uma estrela do mar... Perdoe o atrevimento...

E partiu quando eu lha agradeci, com os olhos loucos rasos de alegria.

Nunca, porém, me feriu tão fundamente o seu amor de louco à Natureza, como nessa madrugada em que eu o vi numa rua afastada de arrabalde.

Fazia já um calor asfixiante. Estava em cabelo junto a um muro de quintal, revestido de rosas de toucar, madressilva em flor e clematites.

Todo em gestos litúrgicos, mui lentos, punha rosas a abrir na grenha imunda, perfumava as mãos com madressilva, e passava-as nas fontes, extasiado.

De quando em quando descaía os braços, descansava assim alguns instantes, e na cara sugada, pele e osso, os olhos puros riam, muito calmos, numa beatitude transcendente.

Havia já um grupo em torno dele, de leiteiras que vinham para a cidade, de moços de lavoura que estacavam. Olhavam-no a rir perdidamente.

Eu pensava em Ofélia, no Rei Lear, nas loucuras patéticas de Shakespeare, ao ver esse alienado vagabundo, esse estranho pedinte de olhos meigos, que trazia só pétalas nos bolsos, e em plena luz polínica de estio, oficiava a Pan, de butes rotos, aspirando perfumes volutuado...

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