sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Rose-Castle (Conto), de Virgílio Várzea


Rose-Castle
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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CAPÍTULO 1 

Naquela noite de Ano Bom, no bairro da Praia de Fora, a casa de William Fison era a mais alegre, a mais iluminada, a mais ruidosa. Ao cabo de seis anos de melancólica viuvez, o velho comerciante britânico tinha afinal casado, e a essa hora jubilosamente festejava as suas segundas núpcias.

O vasto edifício, branco; todo torreado, com um aspecto guerreiro e histórico de antigo castelo feudal, construção saxônia, de uma imaginação medieval, que fora o seu primeiro proprietário, um alemão, outrora militar, que dali se ausentara com uma enorme fortuna e cinco babies louras adoráveis, para a épica Germânia idolatrada, a reluzir sempre, com um prestígio ideal no seu patriótico e saudoso espírito de cidadão e de soldado — regurgitava de convidados, desde o imenso e rico salão tapetado até à ampla varanda quadrada, abrindo seis góticas e vastas janelas sobre o mar. Ao portão, muito largo, de antigo solar, com ambas as folhas de ferro em ornatos, abertas para trás, agrupavam-se em linha algumas carruagens, com os cocheiros dormitando às boleias, enquanto pessoas curiosas da vizinhança, homens e mulheres, aglomeravam-se, de olhos acesos, jorrando em massa para a escada, cujos degraus de cimento branquejavam à luz, como mármore. Via-se daí, talhado na vasta, artística porta ogival, um recanto feérico do salão, todo constelado de fisionomias límpidas e inefáveis, e toaletes opulentas, que se estadeavam aristocraticamente, como numa corte, em grandes festas imperiais, ao reverbero vivo dos espelhos de Veneza e às chamas amarelas dos lustres de prata. Uma estreita varanda, estilo teutônico colonial, corria a meio do prédio, numa faixa lateral, dando para o grande jardim gradeado, com flores e maciços de folhagens aromando o ar, malhado aqui e ali de claridades lácteas, despejando-se das janelas e portas, como placas de luar. Estava cheia de homens, que cervejavam, de pé, ou estirados sobre cadeiras confortáveis, numa palração animada, entre as folhas finas dos crótons de vasos e balões luminosos de papel, pendendo ao beiral, numa longa enfiada colorida, de um efeito chinês de luas pintadas.

Dentro, nos maiores apartamentos do Castle, dançava-se. E, nesse instante, uma banda musical, postada no largo corredor central, executava vivamente, com uma forte predominância de metais, uma linda valsa alemã, cujo ritmo, claro e vívido, desenrolava-se languidamente, em ondulantes espirais. Pares voltejavam, em turbilhão, num chiar contínuo e arrastado. Uma animação geral, no meio das palestras e dos risos, arrebatava as almas.

Os convivas deliciavam-se presos aos encantos da festa e às gentilezas e amabilidades dos noivos, especialmente de mistress Fison, que prodigalizava a todos, com uma efervescente graça de brasileira cultural, os seus sorrisos cariciosos e amáveis. Muito jovem ainda, nos seus vinte anos primaveris, uns olhos incomparáveis, de uma umidez sensual, negros como uma ardósia molhada, a adorável criatura, premida fascinadoramente num magnífico vestido de gorgorão branco, o véu simbólico coroando-a de virginal neblina, o porte de uma nobreza e elegância reais, atraia todos os olhares, valsando encantadoramente entre os braços robustos de William.

E lá iam ambos, arrebatados venturosamente aos compassos da valsa, perdendo-se num círculo de corpos girantes, onde a cabeça loura dele se destacava entre o negrume das outras, bela e cor de ouro, numa rutilação astral.

As danças não pararam um instante, até à madrugada, vibrando entusiasticamente, durante marcas sucessivas...

Mas, terminada a lauta ceia das bodas, ruidosos ainda daquela imensa alegria e dos vinhos, os convivas entraram a despedir-se.

E, dentro em pouco, Rose-Castle adormeceu, no silêncio estrelado da noite, que resplandecia.


CAPÍTULO 2 

William Fison era um belo homem, alto, rosado e forte, apesar dos seus sessenta anos. Nascera na Escócia, em Glasgow. Seu pai, um pequeno industrial, falecera tinha ele seis anos, e a mãe, como a casa ficasse atrasada com a longa moléstia do marido, entregara tudo aos credores, e fora habitar com uma irmã no rico condado de Hampshire. Ele saíra para o Hindustão em companhia de um tio, coronel do exército, comandante de um regimento em Calcutá. Ali se educara, seguindo a carreira do mar. Comandara steamers durante trinta anos, findos os quais, com algumas economias, se fora estabelecer naquela cidade, que era um dos pontos de escala da linha de vapores era que ultimamente navegava. A casa era importadora e logo nos primeiros anos dera-lhe resultados consideráveis. Mudara, então, para aí a família, que residia nessa época em Maidstone, onde ele aparecia, de tempos a tempos, a visitá-la. A mulher, porém, sucumbira de um parto, ao cabo de oito anos. Ele, então, todo de luto, fora levar as filhas à Inglaterra, para a casa de uma irmã, onde tinha um filho a educar. Mas volvera de novo ao negócio, que continuamente prosperava.

E, spleenético, numa desolação, na viuvez esmagante, que o levara logo a separar-se das filhas que adorava, preso ali aos seus interesses de comerciante, naquela pequena cidade, onde os divertimentos escasseavam, tornando irresistível e necessária a vida feliz e aconchegante do lar — entrou a frequentar assiduamente a chácara do Fernando Braga, um velho amigo negociante que conhecera, primeiro em Londres, depois no Rio de Janeiro, com uma grande casa comercial. Aí passava ele as noites, até tarde, muito entretido a conversar e a jogar.

A habitação do Braga, um vasto e magnífico chalé, na Rua Formosa, estava sempre iluminada e ruidosa, como em perenes recepções, porque as moças da vizinhança, com as meninas da casa, todas as noites, reuniam-se ali a chilrar. De sorte que “aquilo era um verdadeiro paraíso”, como dizia o Fison, com o seu áspero acento britânico.

E, dia a dia, experimentando uma nova emoção e um novo encanto, no meio daquela convivência selected, começou a sentir um certo enternecimento e tocade por uma das filhas do Fernando, a Helena, uma menina que não tinha ainda quinze anos, mas cuja beleza e desenvolvimento sadio e florente, enchendo-a toda das rutilações de um desabrochamento carnal fascinante, lembravam-lhe vivamente as esplêndidas rosas de cem pétalas, que tanto admirara, havia anos, uma manhã, em Roma, nos jardins do Palácio Real.

A menina, por sua vez, estimava muito a William, que a enchia de carinhos e presentes, retendo-a horas ao piano, para ouvir Mozart e Haydn, e alguns trechos de Rossini, seus autores prediletos, que lhe amenizavam tanto os spleens. Prendia-a também, outras vezes, com as suas pitorescas e variadas narrações de viagens, feitas sobriamente e com humour, principalmente as que se ligavam ao Mediterrâneo, por onde andara em rapaz, como boy de navios, e as que se referiam às remotas cidades históricas do Oriente, que conhecia até as baixas regiões do Eufrates, pois estivera em Alepo, Smirna, Bagdá...

Lia-lhe, em militas ocasiões, capítulos do seu livro Palestine, lugar onde residira um ano, estando desembarcado. Ela ouvia-o atentamente, satisfeita e cheia de curiosidade, no seu misticismo infantil e devoto pela Terra Santa. E como sabia bem o inglês, que aprendera com o pai, desde pequenina, ele emprestava-lhe também volumes ilustrados da sua bela obra. The Sea, que merecera em Inglaterra uma grande estima, ao ser publicada, primeiro, numa importante revista — a Nautical Magazine.

Porque William Fison era, além de negociante e mareante distinto, um homem inteligente e erudito, possuindo numerosos trabalhos sobre viagens e um pequeno romance, feito aos vinte anos, numa primeira paixão amorosa, Terrible Temptation, que produzira um grande escândalo em Calcutá. O livro, trabalhado à maneira moderna de Balzac, o escritor favorite de William, envolvia uma história verdadeira em que era protagonista a filha do Vice— Rei das Índias, uma criatura eteral de lenda, loura e branca, nostálgica e cismadora, visão das estrofes nevoentas de Ossian, errando, à noite, ao luar, atormentada de amor, na vaporação dos lagos brumosos...

Estas diversões tornaram-se queridíssimas de Helena, e, quando o inglês não aparecia, a ausência dele lhe despertava um vago aborrecimento e saudade: fechava-se, então, no quarto, a ler, evitando as correrias alegres com as irmãs e as amigas; ou, sentada ao piano, longo tempo, tocava melancolicamente, umas após outras, as peças da predileção de William. Mas, tudo isso não ia além de uma impressão infantil.

As outras, ao vê-la assim com a “veneta” como diziam, troçavam-na muito, rindo:

— Olha a tola! apaixonada pelo velho inglês! E como estava caidinha... Que horror!... Nunca se vira uma coisa assim...

Quando William chegava, no outro dia, era a primeira a correr ao seu encontro, num alvoroço e a rir, e, trocando um afetuoso shake-hand, perguntava:

— Porque não vieste ontem? Porque não vieste? Todos nós te esperamos...

— Oh! miss Helena —fazia ele desculpando-se — não foi possível, não foi possível...

E tinha uma grande jovialidade, a larga fisionomia corada menos envelhecida, o olhar muito vivo e transparente, cheio de um fulgor juvenil, o pescoço forte, o porte mais rijo.

Conversando, gorjeando expansiva, a menina ia-o levando para a varanda, onde o Braga e a mulher o esperavam cordialmente, sentindo o ruído da sua presença amiga.

E assim decorreram anos.

Um belo dia, numa alegre manhã de Natal, em Joinville, onde tinham ido passar as festas, nessa florida e encantadora cidade alemã, o Braga e a esposa foram surpreendidos por uma carta de William, dando-lhes “as boas festas” e pedindo-lhes a mão da filha, a “beautiful miss Helena”.

Ficaram, a princípio “abismados”, sem explicação para aquilo, porquanto o inglês jamais lhes dera a entender semelhante coisa.

— Era um disparate, um absurdo, uma loucura! pensavam. Naquela idade, e com filhas já moças, um pedido desses!... “Enlouquecera”, decerto, aquele bom amigo...

Mas, refletindo depois, longamente, maduramente, pesando os interesses; o futuro da família, o casal entrou a considerar aquela união magnífica. William Fison era distintíssimo, e fora o modelo dos maridos. Conheceram-no sempre bom, extremoso, dedicado, vivendo só para a mulher e os filhos... Depois, e sobretudo, era um homem inteligente, ilustrado, riquíssimo. Não havia vacilar, casavam a rapariga...

E, à noite, reunidos num dos apartamentos que ocupavam no hotel, revelaram tudo à Helena, lendo-lhe a carta de William. A moça ficou de repente nervosa, trêmula, as mãos frias, e abraçou-se à mãe, a chorar:

— Que não queria! Com William, não! Estimava-o muito, era verdade, mas não para marido... Ele era um velho, ela uma menina... Lá era possível! Não! Seria uma desgraça... Não queria...

A mãe e o pai retorquiam-lhe afetuosamente, amimando-a:

— Mas é para a tua felicidade, filha! É para a tua felicidade...

— Não! não! volvia ela, muito de manso, numa recusa insistente, a voz velada.

Estava linda, o rosto dolorido, os cabelos negros e espessos desatados, caindo-lhe pelo dorso esplêndido, como longas crinas ondeadas.

Passado dias, porém, ao deixar Joinville, moça, já conformada, acedera aos desejos dos Pais, e o “sim” fora enviado, na véspera, pelo telégrafo, a William.


CAPÍTULO 3 

A casa do Fison, situada quase no extremo da larga rua de São Sebastião, correndo ao longo do litoral, e findando num sítio pitoresco e agreste, a Chácara Garcia, um alto arborizado e encantador de colina, era conhecida em todo lugar por este nome perfumoso e florido — Rose-Castle. A poética designação nascera da imensa alegria em que andara o coração ele William, ao estabelecer ali, pela primeira vez, a família, porquanto terra alguma do mundo jamais encantara o seu espírito de viajante e de artista, como aquela formosa ilha, que lhe lembrava saudosamente, sob um clima mais doce, um céu mais plácido e límpido, pedaços verdes da sua Old England querida. Era decerto a Escócia, de que tinha as mais doces recordações infantis.

Desde o seu estabelecimento em São Sebastião que o sonolento bairro da Praia de Fora adquirira um aspecto mais civilizado e ruidoso, porque o Castle continuamente festinava, enxameado de moças.

E toda a vizinhança, contentíssima com a presença dos “novos estrangeiros”, que eram tão estimáveis, vendo a transformação que sofrera a casa, outrora melancólica e sombria, sempre inacessível e fechada às visitas e às festas, abandonada de todos os ruídos, lamentava que o seu primeiro proprietário, o tal “alemão rico”, não se tivesse há mais tempo ausentado.

Assim Rose-Castle despertara em todos uma grande simpatia.

Quando a primeira esposa de William morreu, e as filhas embarcaram para a Inglaterra, o prédio recaiu no seu recolhimento monástico; mas o seu nome e as numerosas soirées tão festivas jamais foram esquecidos. E, agora, com o segundo casamento do inglês, voltava de novo à animação antiga.

As primeiras semanas do noivado corriam para William venturosamente, numa grande serenidade e doçura. O amantíssimo bretão deliciava-se em suas novas núpcias, como se volvera de repente aos bons tempos de moço.

Todas as tardes, no seu cab, arrancado por um belo cavalo d’Alter, recolhia ao seu Castle, jubiloso e risonho, numa alegria expansiva e ruidosa de namorado. Helena, com os seus lindos olhos de ônix, radiando amorosamente nas órbitas, entre os longos cílios de veludo, alta e tentadora, no seu vestido claro, vinha sempre esperá-lo ao portão. E ali mesmo abraçavam-se, beijavam-se. Depois, enlaçados, a palrar, subiam lentamente a escada.

William ia então fizer a sua toilette de casa: de verão, uma camisa de seda alva e um costume de flanela branca, muito largo; de inverno, um terno de cheviot azul-marinho, com jaquetão fechado.

E, enquanto se servia o jantar, sabiam ambos de mãos dadas, percorrendo lentamente, em íntima palestra adorável, as áleas luminosas do jardim. Desciam até ao mar.

Era em pleno verão. Sempre, a essa hora, o céu, no horizonte, além, estava cheio de grandes claridades inflamadas; as montanhas da Serra do Mar, desenhavam-se ao longe, numa linha azulada e nostálgica, fazendo um relevo nítido sobre o tecido esmaiado da atmosfera; a planura azul do mar, ampla, polida e calma, na ausência do Nordeste, que abrandava docemente pela tarde, depois de soprar rijo toda a manhã, tinha uma larga fulguração de broquel antigo; canoas, de encontro, à costa, já em sombra, dos lados da terra firme, pareciam imobilizadas, com as velas brancas quadradas a bater contra o mastro, no seio da calmaria; o Victory, o belíssimo cutter de recreio de William, que fundeava junto às janelas do Castle, a alguns metros da praia, mantinha o casco esguio e claro: aproado à corrente, o mastro alto e fino, com a carangueja erguida e a grande retranca repousada, fincando o tope agudo no Azul, onde tremulava, invariavelmente, murcho e pendido, na saudade dos ventos, um galhardete encarnado; ao Norte e ao Sul, dois pequenos promontórios de rochas altas, sobrepostas como dolmens, marcavam as pontas da formosa enseada, talhada em perfeito crescente; no canal, de um e de outro lado, o bordado pitoresco da costa alvejante; e, distante, além, numa ilha empinada, o grande farol do Arvoredo, com a sua alta cúpula de vidro, chamejando ao poente, como um zimbório de catedral...

Quase sempre, após o jantar, no esplêndido salão iluminado, fazia-se música. Helena ia para o piano, e, muito lânguida, na frouxidão morna do seu temperamento sensual, um pouco melancólica, com uma vaga nostalgia, uma saudade inexplicável de alguém, ou de alguma coisa, que não podia bem determinar, começava a correr as mãos sobre o teclado, e o Minuete de Mozart, que ela amava, erguia-se, sonoro e profundo, num ritmo lento e balançado.

Estirado sobre um longo divan damasquinado, que ficava ao pé, docemente embalado naquela estranha melodia, de uma fina tristeza e sentimentalidade, William olhava-a, idealizado, numa ternura e num embevecimento. E seus olhos azuis-claros, muito transparentes, emprestando-lhe à face uma frescura macia e moça, não se desprendiam, um instante só, da linha esplêndida e cinzelada do seu busto magnífico, evocando o perfil sonhador de uma castelã feudal.

Mas, sem olhar quase, como esquecida e indiferente, a esposa prosseguia, tocando sempre — o límpido olhar docemente fulgindo, como um cetim negro molhado, ora pairando sobre as extensas pautas da música, ora sobre o estuque do teto alvejado. Parecia imersa em recordações e devaneios ideais, que os sons borbulhando docemente, evocavam, com uma plangência gemedora de música de Schubert nas cordas trêmulas de uma harpa. A formosíssima cabeça, acompanhando as notas tristes, com um movimento lento, que lhe balançada o delicado dorso, tinha um ar dulcíssimo e cismador, batida vivamente pelas chamas das tampadas belgas, envolvendo-a num clarão suave.

Quando o piano cessava, numa modulação expirante e grave, o inglês erguia-se no divan, as pupilas de safira clara muito úmidas de emoção:

Beautiful! Beautiful!

Então, ela voltava-se, como surpreendida, na banquinha rodante, sorrindo cheia de esplendor.

Quase sempre, quando não apareciam visitas, recolhiam-se cedo, às 10 horas. As quintas-feiras e domingos, porém, nas costumadas recepções da província, a casa inteira resplandecia, alegre e festival, até à meia-noite.

E William, agora, sentia a existência correr-lhe radiante e feliz, como no seu primeiro noivado.


CAPÍTULO 4 

A felicidade do Fison tornou-se, porém, excepcional, como ele próprio dizia, quando a irmã lhe noticiou, de Londres, que o filho, o seu adorado Child, concluirá brilhantemente o curso de engenharia. E, daí a dias, foi um imenso alvoroço em Rose-Castle, ao receber-se um telegrama do rapaz, comunicando que partia para o Brasil.

Desde esse instante, Helena não parava, numa atividade infinita, dando ordens e mandando aprontar os quartos para a recepção do enteado.

No dia da chegada, à tarde, ela e o marido, mal entrara o paquete, foram recebê-lo a bordo, numa grande alegria.

À noite o jantar foi magnífico, na larga varanda gótica, com a presença das interessantes, cunhadas de William, das Moelmanns, umas adoráveis meninas alemãs da vizinhança e das louras filhas de James Crowley, duas miss gracious, que andavam muito a cavalo, o que as tornara conhecidas na cidade pelas Amazonas. Depois houve uma soirée animadíssima, que durou até à madrugada.

O velho William sentia-se agora mais feliz que nunca, com a presença do seu querido Child, o belo continuador do seu nome e da sua raça. Havia seis anos que o não via, desde a sua última estada em Inglaterra, quando fora levar as filhas. George era ainda mocinho, imberbe e juvenil nos seus dezesseis anos robustos, com uma cara rosada e fresca de rapariga. Nenhuma mudança fizera, além do grande crescimento e da esplêndida enformatura torácica, do tempo em que, muito tenro, aos doze anos, o enviara para Londres. Agora estava um homem, completamente enrijado e viril, possante e hercúleo, como um hussard, excedendo-lhe a altura da cabeça! E como viera lindo, com o seu largo rosto rosado, o busto direito, o pescoço forte e cheio, de uma linha torneada... Revia-se nele, com desvanecimento, com júbilo, enternecido e muito repousado, vendo a realização dos “seus esforços” perfeita, tão bem acabada — assim um escultor de gênio, ao terminar uma obra prima, uma estátua, a contempla sereno, com orgulho, com glória, por haver dado a perfeição inédita ao mármore.

Helena estava também fascinada pelo enteado, e achava-o incomparável, estranho, cheio da beleza olímpica de um Deus. Levava a olhá-lo, embevecida, longas horas, numa fixidez penetrante, tão intensa e apaixonada, que, muitas vezes, embaraçava o rapaz. Ao almoço, ao jantar e ao chá, ao lado dele, servia-o solicitamente, carinhosamente, com instâncias delicadas, cuidadosos requintes, para que aceitasse, “mais isto, mais aquilo”, numa voz que o prendia, como a um magnetizado. E as suas frases cantavam cristalinamente, à maneira de uma música de amor, febril, irresistível, ideal, onde as notas rutilavam, vagas e trêmulas, como a luz das estrelas nos altos céus azulados. Andava muito expansiva, alegre, venturosa, e sentia que no seu coração “alguma cousa” borbulhava, sacudindo-a e impelindo-a docemente para George. Não sabia explicar, mas ao pé dele, tomava-a uma doçura, um alvoroço feliz de andorinha amada. Às vezes chegava a ser crane, na sua dedicação pelo rapaz, e empalidecia com receio de que o esposo falasse...

Mas, as primeiras semanas, depois da chegada, foram consagradas por George à retribuição de cumprimentos e visitas pelas casas, a passeios na cidade e lugarejos em volta. Com o interesse e a natural curiosidade de percorrer de novo os sítios por onde andara em criança, quase não parava no Castle, saindo pela manhã e só voltando, à tarde. A sua inata paixão de touriste, característica e fundamental, na sua nobre raça, aventureira e artística, trazia-o preso às impressões novas, aos lugares, às coisas magníficas e originais, que haviam escapado ao seu espírito infantil e descuidado, e que o deliciavam agora: paisagens admiráveis, com certos cantos luminosos e serenos de verduras e águas, adormecidos e afastados, em plena Natureza, onde a vida corre sempre branca e cheia de paz, num murmúrio suave, como o curso claro de um rio; panoramas largos e verdes de encostas e vales; campos desenrolando-se a perder de vista, como lençóis de esmeralda, cobertos de gado; espetáculos erguidos de montanhas empinadas, dando aos olhos um plano de visão extensíssimo até aos longes em neblina; marinhas monumentais, dentre costa e mar alto, de uma amplidão infinita...

Foram semanas de um steeple-chase inaudito, findas as quais caiu a preguiçar um pouco, gozando o home, num descanso suave.


CAPÍTULO 5 

Child George quase não saía, além de uma ou outra vez, pela manhã, depois do almoço, que descia com o pai até ao escritório. E como adorava o mar, o sport marítimo, que tanto o divertia em Londres, nas férias do curso, passava os dias a bordejar no cutter, com o Nordeste, pela baía.

Outubro ia alegre e límpido, com belos, dias de céu azul e sol vivo, e ele, com as suas colantes, estreitas roupas marinhas, de cores claras e escuras, com o velho Moorn ou sozinho, largava no Victory, à bolina.

O Moorn era um perito contramestre irlandês que conhecia o pai de menino, desde o primeiro navio em que este embarcara, em Bombaim, e quando ia a bordo a viagem tornava-se bastante divertida: era feita costa a costa, ou pelas pitorescas e numerosas ilhas, que manchavam a baía, sem perigo de escolhos ou baixios, porque o antigo marinheiro conhecia todos os recantos do mar, como o “próprio nariz”, segundo dizia.

Ao ver sair George para essas alegres partidas de cutter, Helena às vezes tinha ímpetos de o seguir. Queria acompanhá-lo, velejar com ele, admirando-lhe a perícia das manobras, na tolda limpa, inclinada pela vela, as fitas do seu chapéu largo de mar esvoaçando sonoramente à brisa; e olhar da borda, enlaçada ao rapaz, as praias, as povoações, as montanhas e as planícies, correndo a um bordo, no litoral longínquo... Como seria feliz, como se regozijaria! Mas podiam falar na cidade mexeriqueira e pequenina onde tudo se sabia... Ainda se fosse uma estranha, uma estrangeira, sem nenhum parente ali, como o marido e George... Mas não! se embarcasse só com o enteado — a vizinhança, as amigas, os conhecidos, os criados, a própria família, cairiam na intriga...

E ficava nervosa, aborrecida, febril, muito contrariada nos seus desejos e no seu amor, vendo a bela embarcação erguer o pano, deixando à popa uma esteira sinuosa de espuma...

Das janelas da varanda, que não deixava um minuto, enquanto o enteado andava além singrando, acompanhava, incansavelmente, com os olhos, onde havia uma ansiosa luz de paixão, todas as bordadas do cutter. A sua alma palpitava docemente, sobre as ondas, dentro do pequeno casco e na alta vela alvadia, rastejando em voos rápidos, contínuos, de um para outro lado, como uma grande gaivota. Entretinha-se longamente com aquela navegação de asa branca sob a sua vista. Mas se o pano errante e vogador se sumia por detrás de uma ilha, ou na volta de alguma península, experimentava uma vaga nostalgia, que se tornava em alegria vivíssima, quando ele reaparecia...

George voltava quase sempre à tarde, mais vigoroso e sadio, muito satisfeito, com um riso esplêndido de dentes alvos, o rosto radiante, onde o sol forte do mar abrira papoulas. Helena ia logo ao seu encontro, dirigindo-lhe perguntas sobre a viagem, o que vira, os portos onde tocara... E o seu contentamento, ardente e meridional, explodia vivamente, enchendo a casa de sonoros ruídos.

Outras vezes, o rapaz passava os dias a ler; na sua sala, ou no caramanchão do jardim, todo coberto de trepadeiras verdes e cheio de frescura, que dava para o mar.

Ela ia, então, para ali bordar. Encontrava-o estirado sobre uma chaise-longue, com a Revista de Edimburgo ou The Graphie sobre os joelhos, muito fresco no seu fato de baeta creme, rindo-se e olhando para ela, com os seus olhos garços e ingênuos de escocês. Sentava-se em frente dele, para bem receber o clarão do seu olhar límpido, os seus sorrisos deliciosos. Quando baixava um pouco a cabeça sobre as largas páginas negras de gravuras, punha-se a admirar, embevecida, os seus cabelos claros e de seda, cobrindo-lhe a fronte de caracóis dourados. E, com o espírito carregado de fantasia e ideal, imaginava-se uma Clieia moderna amando um frio Apolo boreal. Aquela presença olímpica do rei da beleza, tão junto às suas saias, despertava-lhe profundamente todos os desejos, e, caída de repente na realidade, mordia-a uma intensa vontade de beijá-lo freneticamente, numa insaciabilidade. Então, para conter a sofreguidão; congestionada, apertava os dedos, nervosamente, quase dilacerando o bordado.

Desde a ocasião em que William lhe mostrara uma fotografia de George, ainda em solteira, que tivera uma forte impressão pelo rapaz. O seu olhar claro, de uma luz doce e nostálgica, a fisionomia bonita e de um contorno oval, a boca curta, muito bem desenhada, os cabelos crespos e bastos — tudo lhe dera, no retrato, a ideia de uma criatura adorável. Tinha então um rosto adolescente, mas que encantava. E nunca mais a sua imagem fascinante a deixara. Fora mesmo essa imagem querida que estabelecera entre ela e William aquele laço de amizade, origem única, talvez, da união de ambos, porquanto foi pelo filho que chegara a amar o pai.

Por isso, quando o marido avisou-a de que o filho ia chegar, sofrera como um “abalo” agradável, que a pusera toda no ar, fazendo-a exclamar mentalmente, entre deliciada e nervosa: — “Meu Deus, George vai chegar!”

E desde logo aquilo lhe ficara a cantar no cérebro, preocupando-a a todas as horas. Assistia aos preparativos da recepção, cuidadosa e cheia de carinho, só falando do enteado, alegremente, por toda a casa. E quando ele chegou, para o ir abraçar, pisara a tolda do valor, toda trêmula, numa forte emoção.

O rapaz também, assim que a viu, ficou impressionado pelo seu porte esplêndido e alto, de uma elegância rara. O seu rosto lindo, de um moreno leve e tropical, lembrava-lhe docemente a beleza epidérmica das assírias e das transcaucásias. E toda a sua pessoa parecia estar desabrochando, com a frescura e fragrância de uma rosa de Itália.

E agora, naquela convivência íntima, só com ela, na vasta casa confortável, arrebatado pela sua beleza, a que a toda hora antepunha muralhas, no seu profundo respeito de filho digno e leal — sofria uma tortura cruel, para poder resistir; aquela impressão, que dia a dia aumentava. A princípio, isso não passara de uma afeição toda respeitosa e quase filial por Helena; mas, pouco a pouco, as carícias inefáveis, os olhares quentes e apaixonados em que o envolvia, a voz mansa e melodiosa com que lhe falava, despertaram fortemente no seu coração, até então adormecido e virginal, o fogo vivo de uma paixão indomável.

E, um dia, esquecendo toda a dignidade, todos os respeitos e deveres, ambos enlouquecidos pelo mesmo amor, forte, irresistível, formidável, lançaram-se nos braços um do outro...


CAPÍTULO 6

Helena e George não saiam agora do caramanchão, onde iam passar as suas horas de suprema felicidade. Aquele recanto do jardim, silencioso e retirado, que os isolava do mundo e dos criados, oculto entre espessas ramagens, vertendo frescura, com três pequenas janelas rendilhadas, enquadrando trechos azuis de céu e mar, tornara-se para os dois de uma atração sem igual.

Fora aí que a paixão de ambos se declarara, uma manhã, após a breve e impetuosa confissão de que se amavam. William saíra para o negócio, e George, com os seus livros e revistas debaixo do braço, arrastara logo a chaise-longue, indo se meter entre as folhagens.

Dera 11 horas. O dia seco e límpido, de sol forte, abrasava. Não ventava quase. O Azul meia voz, ao ouvido, arrastou-a para um canto, onde perdida foi para ambos a noção da realidade circunstante...

Quando soergueram-se, parecia-lhes que o sol faiscante tinha ganho uns tons amarelados, desmaiados, doentes, um ar de desolação. Havia, apesar do calor, para eles, um arrepio no ar dormente. Reinava ainda a quietação das horas calmas, em toda a Natureza, o silêncio que impõe a todas as coisas uma pausa, nas proximidades do meio-dia...

Daí por diante, constantemente, encontravam-se ali, debaixo da verdura protetora e amiga, como num leito nupcial.


CAPÍTULO 7

William, como todo o saxão, com a sua alma firme, o seu temperamento calmo, um espírito culto e superior, inacessível aos sentimentos primitivos e selvagens, a desconfiança ou o ciúme, jamais suspeitara das relações íntimas e clandestinas da esposa com o filho. Ninguém o surpreendia na mais leve indisposição, em um aborrecimento ou atitude sombria: a sua fisionomia mostrava-se continuamente alegre, límpida, clara. Ao chegar do escritório, trazia sempre um ar risonho e feliz, abraçando com meiguice a mulher e falando carinhosamente a George.

E assim, os dois amantes prosseguiam em uma impunibilidade, presos ao torvelinho daquela paixão. Mas, uma manhã, o velho Moorn, que era muito fiel e dedicado ao seu antigo commander, andando a estrumar o jardim, ouvira um ruído esquisito no caramanchão. Desconfiado, pressentindo “marosca”, porque desde meses via mistress e Child passarem ali os dias, desde que o patrão saía até à tardinha quando voltava, aproximou-se cautelosamente, por entre as ramarias. E, agachado, num maciço de verdura alta, que ficava junto ao caramanchão, do lado do muro, descobriu os dois abraçados, a beijarem-se, numa grande ternura...

O pobre homem quedara-se lívido e espantado, como diante de um crime, e retirou-se silencioso e aflito, pensando em correr logo à cidade, contar tudo a William. Muito perturbado, foi buscar o chapéu, e, para não ser visto, saiu pelo portão dos fundos.

Entrou, todo trêmulo, no escritório, e encontrando o Fison sozinho, na sua sala, narrou-lhe tudo, embrulhadamente, numa voz hesitante e cansada. O Fison ficara petrificado, os ouvidos zuniam-lhe, como se lhe houvessem dado uma forte pancada; mas duvidava ainda, apesar do velho e leal marinheiro afirmar-lhe “que vira” com os olhos rasos d'água.

— Oh! Moorn, você está enganado! Você está doido! Não é possível! Não é possível!...

E sentia o sangue circular-lhe nas veias com latejações brutais. As pernas tremiam-lhe, a cabeça pesava-lhe. Deu alguns passos incertos pelo soalho, indo amparar-se à escrivaninha para não cair. Mas acalmava-se, refletia:

— Helena... George... Não! Não podia ser! Era falso!...

Nessa tarde, ao voltar para Rose-Castle, William vinha meio abatido, o rosto engelhado.


CAPÍTULO 8 

Era já passado um mês e o Fison nada dissera em casa, observando, porém, cuidadosamente, as coisas do lar. Duvidava do que lhe narrara o criado. Mas, apesar disso, vivia “a espreitar”, numa irritação e desespero que, às vezes, o sublevavam.

Madrasta e enteado viam-lhe agora certos movimentos bruscos, a fisionomia alterada. Frequentemente, ao sair para o negócio, voltava logo, numa grande inquietação, dizendo-se “incomodado”. E não sabia mais. Na mesa, ao almoço e ao jantar, quase não falava, guardando um silêncio amargo, lançando olhares desconfiados para um e outro. À noite, rejeitava o chá, e, quando ela ia para o salão tocar, deixava-se ficar na varanda, a ler ou a fumar...

Em outras ocasiões, alta noite, já deitado, levantava-se, numa agitação, entrando a passear pelo quarto. Aí, então, sem declinar motivos, tinha para Helena tiradas ásperas e irritadas. Ela ficava nervosa, respondia-lhe mal. Altercavam. Um fundo plebeu lamentável surgia em ambos. Diziam-se injúrias, insultavam-se. Ela, num histerismo, rompia a chorar. Ele ameigava logo, pedia que lhe perdoasse. Ajoelhava-se junto a ela, chorava também. E voltava para o leito, arrependido, humilhado...

Os criados, nos seus quartos, que ficavam por baixo, ao rés do chão, ouviam às vezes os passos pesados de William estalando em cima, nas taboas, e exclamavam consigo, lembrando-se dos tempos em que ele enviuvara:

— Lá anda o senhor com o spleen fatal.

E, como o vissem de novo triste, sério, calado, começavam a comentar o caso. De dia, na cozinha, quando a ama e o enteado estavam no jardim, viravam-se a filiar... Como o velho Moorn, andavam também desconfiados... E, na sua agudeza e faro, pressentiam já um “escândalo”...

George é que ignorava essas brigas de alcova, porque Helena jamais se lhe queixara, e os seus apartamentos eram muito afastados, quase no outro extremo do Castle. Notava, porém, que a madrasta, certos dias, amanhecia abatida, como se levasse a noite inteira em claro. Atribuía isso ao seu profundo amor por ele, que a não deixava parar, e ao aborrecimento e cansaço das horas tão longas passadas no mesmo leito, ao lado do pai, “que ela achava cada vez mais intolerável”, sobretudo agora, com os seus “amuos senis.

E vinha-lhe, então, um furor contra aquele homem, que tanto outrora respeitara e amara, porquanto, atualmente, a afeição filial quase se lhe sumira, suplantada pela sua imensa paixão; e hoje, muitas vezes, só via diante de si “um rival”.

Nos dias que se seguiam a essas noites terríveis, Helena, mal William saia, ia logo trancar-se no quarto. E até ao jantar não aparecia a George, temendo que ele, notando-lhe a alteração da fisionomia, lhe inquirisse a razão. Depois, tinha também receio que aquilo se agravasse, com as ternuras intensas de ambos pela casa, em seguida à “medonha questão”, porque adivinhava que o “mau humor” de William era uma desconfiança dos seus amores com George.

E, estirada sobre a cama, posto que enlouquecida por aquela paixão, a primeira e única paixão da sua vida, procurava medir as consequências do caso, se um dia o esposo viesse a saber, a ter uma certeza iniludível... Matá-la-ia, talvez! Atirar-se-ia contra George! Estrangular-se-iam!...

Então, num grande nervosismo, imaginando todos os perigos, sentia-se opressa, desesperada, aflita.

O marido, porém, como “nada” verificasse, voltou a mostrar-lhe o seu semblante feliz: falava a George como dantes, com a sua imensa alegria.

E os dois amantes mergulhavam outra vez, com sofreguidão, no seu crime...


CAPÍTULO 9 

O Fison, desde que na sua vida aparecera a primeira desarmonia, o primeiro desgosto, com aquela “horrível acusação” à mulher e ao filho, pensara logo em despedir o velho Moorn, e dar um destino a George. Escrevera, então, para os Estados Unidos, onde tinha um bom amigo, diretor de grandes obras de engenharia no Mississipi, pedindo-lhe uma colocação para o filho. George era formado em hidráulica, praticaria ali, com grande proveito, essa especialidade, e voltaria depois a trabalhar no Brasil. Desejava vê-lo encaminhado, com um nome digno, uma carreira feliz. Ia fazer um ano que descansava em sua companhia, era preciso, pois, trabalhar, encetar a vida. O seu antigo camarada de bordo, a quem votava uma grande estima desde a infância, seguiria para Liverpool, de onde passaria à Dublin, sua terra natal, que há longos anos não via. Dar-lhe-ia um bom punhado de libras, que lhe garantisse para sempre a velhice, e embarcá-lo-ia num steamer...

E assim, cada um tomaria o seu rumo, ficando ele só com a esposa, no seu Castle tranquilo.

A resposta da carta sobre o filho chegara havia um mês, garantindo-lhe uma colocação magnífica; mas, o seu coração amantíssimo, sofreando-lhe as iras de pai “ofendido”, impedira-lhe comunicar isso a George, a quem tanto queria.

Moorn já havia embarcado, o bom velho amigo, e parecia-lhe, de algum modo, uma injustiça não ter feito também seguir desde logo o filho, único comprometido naquele “ameaço de infidelidade” que tentara atingi-lo.

E como agora voltassem-lhe a costumada serenidade e alegria, resolvera piedosamente ir adiando aquilo, até ao aniversário de suas núpcias — uma data de incomparável prazer para si — que estava próximo, findo o que abrir-se-ia com Child, falo-ia partir...

Mas Helena e George, cuja desordenada afeição crescia sempre, sentindo uma impossibilidade ingente em ocultar por mais tempo a William os tumultos e os ímpetos do seu coração — já desde muito que andavam a construir “um plano” de abandonar para sempre o Castle, indo viver juntos, longe, num recanto afastado e feliz. Quando estavam a sós, levavam em contínuas cogitações para que esse plano tivesse uma execução triunfal, buscando, por todos os meios, um momento em que uma grande oportunidade ocorresse, fácil e cheia de salvação.

E, uma tarde — meados de dezembro — em que William, ao entrar do escritório, só com Helena, alegre e afetuosamente falara em solenizar, com uma soirée brilhante, o aniversário do seu casamento — ela e George tiveram uma incomparável expansão. Encontravam, afinal, nesse dia, a “grande ocasião”, que já os enchia de júbilo, para irem livremente amar, sob outro céu distante.

Por isso, daí por diante, as suas carícias com William foram dia a dia aumentando. O digno homem, ignorando todas essas cobardias, julgava-se absolutamente ditoso, entre a hipócrita solicitude de ambos.


CAPÍTULO 10 

Era o último de dezembro. William Fison não parava, numa enorme azafama, dando ordens, mandando preparar tudo para o grande baile que ia realizar-se no outro dia.

Os criados, num contínuo movimento, cruzavam-se de um para o outro lado. Lavava-se, escovava-se, polia-se, em constante arrumação. Havia em toda a casa um reboliço de objetos e móveis, pelos corredores, os quartos, a varanda, o salão...

Em toda esta lida de ménage, que se esmalta para uma recepção, Helena desenvolvia também uma atividade, entregando-se aos mais delicados arranjos. Só, na sala que ia servir de toilette, punha artisticamente flores e enfeites nos dunkerques e vasos. Andava agora um pouco pálida, as olheiras roxas, os olhos pisados.

Estava mais magra, mais alta, vagamente abatida a formosíssima cabeça escultural, de onde os cabelos pendiam, soltos, grossos, ondulantes, torrenciais. O pescoço, um pouco inclinado pela aplicação, estava oculto, como as largas espáduas, por aquela massa densa e reluzente de seda, desfiada, mas o peignoir aberto deixava entrever a pele doce e quente dos seios capitosos e túmidos, que as rendas e os folhos sombreavam. Parecia intimamente preocupada, porque, de vez em, quando, erguia olhares melancólicos para um recanto do teto, ou para as vidraças em frente, abrindo luminosamente para um bambuzal, todo verde, por detrás do qual reluzia o céu puro, quando as hastes altas bamboleavam ao vento. Às vezes parava, suspendia o trabalho, soltava um grande suspiro, e murmurava baixo: “Santo Deus! como George tarda!”

O enteado subira pela manhã e ainda não voltara. Andava cuidando de encaminhar o terrível “plano”, em que ambos tinham tanto trabalhado, porquanto a “noite esperada” aproximava-se. Percorrera as agências das companhias; navegação, a informar-se dos vapores que estavam a passar. Fora à Norte— Sul, fora à Nacional. Queria saber se teria algum, a primeiro. Não havia nenhum.

Mal sucedido, logo ao primeiro passo, ficou desanimado, e, lançando-se através as ruas da pequena cidade, procurava embalde uma casinha, um esconderijo, um lugar, para onde pudesse ir com Helena, sem que ninguém suspeitasse. Desesperado e aflito, vagando ao acaso, sem ideias, sugestões ou resoluções fáceis, numa medonha esterilidade mental, descia uma rua, à beira-mar, quando esbarrou de repente com um rapaz inglês, grosso e alto, a pele queimada, uma bela barba de ouro ondeada.

Estacaram ao mesmo tempo, entreolhando-se, muito admirados; e, reconhecendo-se, lançaram-se ruidosamente nos braços um do outro, exclamando:

— George!

— Charles!

E após algumas perguntas, foram caminhando devagar, numa palração animada. Falavam de Inglaterra, dos bons tempos do Cresham College, onde ambos andaram. Referiram-se alegremente, e com saudade, às prodigiosas correrias, que então faziam, em Londres, pelos arrabaldes. Depois falaram dos seus destinos... Havia mais de seis anos que não se encontravam, desde que George se matriculara em engenharia. Charles perguntou-lhe o que fizera, quando se formara, como viera para o Brasil. O outro narrou-lhe tudo, em poucas palavras... E Charles? Ele vadiara algum tempo em Birmingham, para onde fora, ao deixar o Cresham College. O pai, que era comerciante, logo depois quebrara. A família ficara na miséria. Tudo se arruinara... Então, abandonou os estudos, abraçando em seguida, por fantasia e tendência, a vida do mar. Isolara dons aflitos, aos trambolhões, até tirar a carta. Piloto, andara muito entre Southampton e o Cabo. Mas passara a comandar. E ali estava, numa barca, onde fazia a sua primeira viagem de master. Naquele instante mesmo, vinha do consulado, de despachar, porque estava pronto a levantar ferro. Ia para São Tomás... Tencionava largar no outro dia, sem falta.

A estas palavras finais, George, a quem a conversa pouco a pouco serenara, teve uma enorme alegria, vendo surgir de súbito a sua felicidade, naquele encontro casual. Resolvera, então, contar tudo ao Charles, e como nessa ocasião fossem entrando a Praça do Mercado, ambos, ao mesmo tempo, tiveram uma lembrança — irem beber à Cervejaria Krapp.

Aí, num recanto afastado da sala, George abriu-se todo aquele velho camarada, pondo-o ao fato da sua grande paixão pela madrasta, das dificuldades terríveis em que estava, e do seu plano de se ausentar com ela, quanto antes, daquela cidade, onde já se murmurava...

Charles escutava-o, assombrado, achando aquilo terrible e extraordinary, mas interessava-se por ele como por um irmão.

E, após longas horas de íntima confissão de toda a sua alma, George pediu-lhe “que o salvasse, o arrancasse àquela situação desgraçada.”

O outro, calado, em profunda reflexão, parecia hesitar, medindo britanicamente os prejuízos e as responsabilidades que ia acarretar. Mas afinal acedeu, e entraram a combinar o embarque.

Charles adiaria a viagem por um dia mais. Na noite do baile, enviaria, do ancoradouro de Santa Cruz, onde estava fundeado, um escaler da barca, pronto e bem tripulado, que esperaria George, em um recanto escuso da praia, nas proximidades do Castle. Seria nas pedras do soleiro, umas rochas que corriam paralelas à costa, junto ao Estreito, um lugar deserto e abrigado. Um dos marinheiros, ao chegar o bote ao local indicado, acenderia um pequeno farol encarnado, que anunciaria a George a presença da embarcação. Esta, apenas embarcassem, far-se-ia ao largo, a toda força de remos, em direção ao navio, que arrancaria naquela madrugada...

Viraram mais um chopp. Depois ergueram-se, separando-se, com um forte shake-hand, até à noite aprazada.


CAPÍTULO 11

Nessa tarde, George, depois do desespero em que andara toda a manhã, voltava radiante o alegre para Rose-Castle.

William tinha descido até ao escritório, a fim de determinar certas coisas na cidade, para que nada faltasse, no dia seguinte, ao baile.

Helena estava no seu quarto, ainda a arrumar, quando viu atravessar para a varanda o enteado, que vinha muito risonho, a girar vivamente a bengala nos dedos e a cantarolar. Sorriu, subitamente satisfeita, e correu ao seu encontro, toda alvoroçada.

A casa, terminada a arrumação, reentrara no seu contínuo silêncio alto e aristocrático. Os criados estavam uns lá para a cozinha, enquanto outros andavam fora, em mandaletes.

Na grande sala de jantar — os stores arriados, contra o sol que escaldava, do lado do mar fresca e úmida da lavagem geral, havia uma doce claridade azulada, que vinha da refração das paredes. As étagères e os altos armários, com largos entalhes artísticos, todos envernizados, exibiam as lavradas pratas, as finas porcelanas e os trabalhados cristais, numa rutilação pomposa, de interior opulento, onde se experimenta o conforto magnífico de uma vida límpida e farta. O relógio, um antigo relógio inglês, em caixa esguia de ébano, erguendo-se a um canto, com um belo mostrador branco entre relevos dourados, cortava o silêncio com o seu tic-tac monótono, de mecanismo em trabalho. A mesa elástica, estendendo-se ricamente, ao meio da vasta sala, de um ao outro extremo, toda rodeada de cadeiras negras torneadas, e coberta por um grande pano cinzento, a listras vermelhas — três lindos vasos verdes, transparentes e cheios de desenhos originais, ostentavam, decorativamente, palmas e ramos floridos e frescos. Um perfume delicioso e sutil errava.

Aí, Helena e George encontraram-se, enlaçaram-se, e seus lábios sequiosos colaram-se logo, num beijo longo, profundo, insaciável.

Mas o rapaz, louco por dizer-lhe tudo, a foi arrastando suavemente para o seu quarto, onde, fechados por dentro, depois que William entrou a “desconfiar”, faziam os seus rendez-vous amorosos.

Narrou-lhe, então, minuciosamente, primeiro, a sua batida através da cidade, a sua desesperança e tristeza quando soube que não passava o paquete; depois, a enorme animação e prazer que lhe viera de repente, ao esbarrar-se, numa rua, com um antigo camarada inglês, com quem vinha de estar, e que lhe proporcionava tudo, providencialmente, à feição dos seus desejos.

E expunha-lhe entusiasticamente como realizar-se-ia agora o plano, com o aparecimento daquele amigo, comandante de um navio, que estava a sair, e que os ia levar para sempre. Tinha arranjado todos os meios, o embarque seria facílimo. Na noite seguinte viria um escaler de bordo para recebê-los. Não haveria o menor perigo. Ele e ela, como já estava assentado, no baile, tomariam parte nas danças com a maior alegria... Não teriam nenhuma sorte de preocupações, para não se denunciarem... Ririam, folgariam expansivamente... Receberiam os convidados, como dantes, afetuosamente, e com todos os sorrisos... Mostrar-se-iam amáveis, dedicados, felizes... Cercariam William de todos os carinhos, a fim de que ele nada pressentisse... E, calmamente, sem agitação ou nervosismo, à meia-noite, ou pela madrugada, quando todos começassem a sair, no burburinho enorme das despedidas, aproveitariam e escapar-se-iam, no meio da confusão geral, pelos fundos do jardim. Tomariam, então, pela praia, para o lado das pedras, onde encontrariam a embarcação, pronta a partir... E quando William e os amigos, os mais íntimos, os procurassem, e não os achassem, suspeitando uma fuga, eles já estariam distantes, além, sentados; à popa do bote, rolando para outro destino. E, deliciosamente unidos, na emoção extraordinária daquela aventura, afastando-se ao largo, sobre as ondas balouçastes, veriam esmorecer, longe, no escuro da costa, as luzes de Rose-Castle, já trêmulas e tristes...


CAPÍTULO 12

Helena, posto que cheia de imensa alegria com o que lhe dissera George, porquanto só assim poderiam — ele e ela — gozar longamente e sem cuidados aquela paixão incendida, que, a permanecer por mais tempo sob aqueles tetos, viria talvez a perdê-los um — ficara, entretanto, abalada e nervosa. Desde que assentara definitivamente em partir, deixar para sempre William e aquela casa, que, às vezes, uma imensa nostalgia se apoderava de sua alma, a enlanguescia, a entristecia.

Deixara o quarto do enteado e viera para a sala esperar o marido, cuja demora, nesse momento, a impacientava e a assustava, a vila, sempre dantes tão fria! Agora, que estava a deixá-lo para sempre, e que o via tão abandonado e traído, indiferente e descuidado ao que tramavam em volta de si, tranquilo e alegre, porque tudo ignorava, o excelente, o generoso, o bondosíssimo William, sobre quem estava para cair a maior de todas as desgraças, à qual talvez não pudesse sobreviver, resistir; — agora, sentia por ele como uma piedade e ternura infinita.

Então abalada e num grande histerismo, opressa, tonta, aflita, entrou a pensar na partida... Que desgraça! Sair, fugir! Abandonar aquela cidade, onde tinha nascido a sua casa, a família, as amigas, tudo, para ir correr outras terras e outros mares, entre povos estranhos, falando talvez outra língua! Que horror! O que era a paixão, o que lhe ia custar! George era o seu amor, a sua felicidade, a sua vida. Mas que infortúnio ter que abandonar o marido, seu verdadeiro marido, para acompanhar o outro, o amante, o seu enteado!... O que seria de William, que ali ficava, na aflição, quando soubesse, experimentasse a certeza cruel, que já um dia pressentia, de que ela desde muito o enganava com o filho?... Enlouqueceria, matar-se-ia, o pobre William!...

E com o espírito em tumulto, cheio de lembranças sinistras, onde as ideias giravam, num torvelinho, confusas, dispersas, como folhas secas que um vento rijo levanta, toda trêmula sem se poder suster, atirou-se para cima do largo divan, a soluçar baixo, num pranto infindo... Mas dentro em pouco, foi-lhe descendo por todo corpo como um adormecimento sutil, que lhe trouxe as ideias uma sonolência pacífica.

A luz fria e esmorecida da tarde, caindo lá fora, céu de um azul diluindo, enchia a sala de um crepúsculo triste. Uma sombra invasora estabelecia-se, envolvendo pelos cantos os objetos e móveis numa cinza fina. Metais e porcelanas procuravam reter a claridade escoante em cintilações frígidas. Por todo o vasto compartimento riquíssimo, um fundo escuro erguia-se, onde se destacava, em machas vagas, aqui e ali, a brancura das capas da mobília e as rendilhadas e custosas cortinas. As janelas abriam ainda altos quadrados de claridade lívida, como se fosse um efeito da própria transparência dos vidros, através os quais via-se já tremerem, no céu, as primeiras pontilhações de ouro vividas...

Helena continuava desfalecida sobre o divan. De repente, um ruído de rodas na calçada sobressaltou-a. Ergueu-se logo vivamente, esfregou as pálpebras, surpreendida pela escuridão. Gritou para dentro que viessem acender as lâmpadas. E, dando toques rápidos ao cabelo e a roupa, correu para a porta, que abriu de uma volta, numa emoção.

William esperava-a já, de pé e risonho, no alto da escada. E, abraçando-a, exclamou todo radiante: “Oh! my dear...”

Enlaçados ambos, e falando alegremente, atravessaram o salão. Nesse instante, um criado, apressado, dava luz às lâmpadas. Na varanda, toda iluminada, tilintavam sonoramente os talheres e a louça, anunciando o jantar.

George, quando a madrasta o deixara, ficou sentado sobre a cama longo tempo, cismando... Como ela, experimentara, se bem que vagamente, as mesmas ideias tristes e desalentantes. Mas fora apenas um instante, porque era homem, era forte, tinha a pujança de um leão. Depois, cansado das caminhadas do dia, e de se ter erguido muito cedo pela manhã, encostara-se aos travesseiros e adormecera profundamente. E, despertado agora, subitamente, pela voz grossa do pai no corredor, saltara da cama, assombrado com a noite que lhe parecia haver descido, magicamente, como em um encanto.


CAPÍTULO 13 

 Amanhecera límpido e alegre o primeiro do ano.

William não descera, muito repousado, limito sereno, naquele dia feliz. Havia três anos que casara, e nem um só dia se passara em que ele não abençoasse o destino. Posto que tivesse andado uns tempos “aborrecido e aflito” com aquela maldita intriga, que surgira, inopinadamente, há meses, na sua vida, sempre tão correta e tão nítida, sentia-se com tudo, como dizia, “quase absolutamente ditoso”. Idolatrava a esposa e conhecia também que era querido. George, o filho estremecido, estava em sua companhia, pronto a seguir uma carreira, com uma profissão adquirida: brevemente partiria, a conquistar fora uma boa posição e um nome digno. Tinha uma fortuna. O rapaz e as irmãs, se ele morresse, já não sofreriam. E como possuía um nome ilustre, obra exclusiva da sua vontade e dos seus esforços, queria também um brilho idêntico para o dos filhos. Por isso mandara estudar George e educar superiormente as filhas. Aquele ano correra-lhe propício, como poucos. Os negócios lhe tinham dado resultados consideráveis. George concluirá o curso. Um cunhado em Inglaterra fora elevado a ministro. Gozava saúde. Casara uma filha.

— Efetivamente, pensava, podia sorrir-se, expandir-se amplamente, porque não tinha a invejar alegrias!

Helena e George andaram também contentíssimos, na sua imensa paixão, antegozando já a “aventura” que os iria unir, de uma vez e para sempre, nessa noite tão ansiosamente esperada.

O almoço e o jantar, nesse dia, tiveram a cintilação e o encanto dos banquetes em ménage, íntimos, cordiais e tranquilos. Estiveram presentes, em pleno júbilo e em plena amizade, todos os numerosos amigos de Rose-Castle. Logo pela manhã, chegaram o Fernando Braga e toda a família, que vinham passar o dia. Depois viera o Crowley e as lindas filhas; as Moelmanns, sempre gorjeantes e vivas; as Sabino, umas raparigas magrinhas, muito camaradas de Helena, que cantavam e eram pianistas exímias; as Veigas, as Barbosas, as Lino... De sorte que pela casa inteira espalhava-se sonoridades cristalinas, que alegravam, na orquestração incomparável das moças reunidas sob tetos festivos.

À noite, Rose-Castle tornara-se feérica com a sua profusa, magnífica iluminação, jorrando para a rua, em grandes faixas luminosas, pelas cinco janelas góticas e o largo portão do jardim. Daí para os fundos, nas áleas de saibro alvadio, ardiam esplêndidos balões venezianos, presos em linha as ramagens balouçantes, cujo verde destacava, no lugares mais banhados de luz, com um tom artificial e vivíssimo de cenografia. No fundo principal, os dois esguios torreões caídos, fincavam no Azul as flechas finas erguidas, que suspendiam, cada uma, um globo rubro de vidro, flamejando, num tamanho de lua, como dois astros grandes entre as estrelas vivíssimas.

Desde o anoitecer que todo o bairro da Praia de Fora, a vasta rua de São Sebastião e adjacências, num alvoroço, começaram a vazar para ali a sua exígua e curiosa população. De todos os pontos da cidade, ainda os mais longínquos, afluíam famílias, picadas pelo conhecido prurido provinciano de “espiar bailes”. E às 8 horas da noite, em frente ao Castle, tornara-se quase impossível o trânsito, pela densidade imensa da multidão aglomerada. Até as 10 horas, as carruagens, trazendo convidados, não cessaram de estacar ao portão.

Dentro, no imenso salão regurgitante, William e Helena, muito alegres faziam as honras da recepção, agradecendo cumprimentos que lhes dirigiam e trocando infinitos shake-hands. Daí por diante começaram a despenhar-se as danças, a princípio lentas e cerimoniosas, depois precipitadas e febricitantes.

William dançara apenas as duas primeiras quadrilhas, sendo uma com a esposa e outra com uma senhora de cabelos alvejantes, formosíssima, a mulher do Crowley, uma amiga de infância, muito elegante no seu porte alto e fino de escocesa da clan, e cujos olhos azuis olhos fascinantes conservavam ainda o brilho e a ternura dos dezesseis anos.

George tivera como pares, nas primeiras marcas, uma das Sabino e a Sofia Moelmann, que estava adorável, com seus olhos garços e transparentes de virgem renina.

Helena, radiosíssima, no seu rico vestido creme de crepe da China, estava como nunca, num raro esplendor de beleza olímpica, a voltejar no salão, pelo braço de James Crowley, um gentleman, e o amigo mais querido de Willian. Todos os olhares viris dos cavalheiros seguiam-na arrebatadamente, com intenções requestantes, enaltecendo-a e apoteosando-a. No entanto, ela, magna cheia de altivez, não se dignava lançar-lhes, um momento só, a mais pequena atenção. Prosseguia sempre, dominadora e triunfante, indiferente a todos, só fixando George, continuamente, com uma grande adoração. E, às vezes, quando ele, admirável na sua formosura máscula, com seu perfil Apolônio, demorava-se acaso a gracejar ruidosamente com alguma dama – ela estremecia de repente, e de seus olhos negros saiam chamas zelosas de leoa amante.

Da terceira quadrilha em diante, George e Helena não se despegaram mais, em marcas sucessivas, girando num turbilhão. E quando a orquestra executou As Ninfas, uma linda valsa alemã, que era a predileção e o encanto de ambos, não houve roda de rapazes e moças em que não se filasse, numa inveja formidanda, “daqueles modos escandalosos”, da madrasta e enteado, presos agora, a noite inteira, nas danças.

Ninguém, porém, se cansava de olhá-los, acompanhá-los, admirativamente em todas aquelas volteações rítmicas, em que os seus corpos passavam, por entre os outros, em um destaque fulgurante: ela, morena, soberbamente bela, com o seu corpo estatual de ateniense dos tempos áureos da Grécia; ele, louro, lindo, gigantesco, lembrando um titã escandinavo, na mitologia brumosa dos Eddas.

Mas, posto que frequente nas danças, George não perdia um instante só a direção do seu plano, que ele via quase totalmente triunfante. De vez em quando, dava uma chegada ao gabinete onde William entretinha-se agora, profundamente, em seguidas partidas de whist, com o Crowley, o Fernando Braga e o Lino. Fora já duas vezes, sem que ninguém o visse, verificar se com efeito, lá para os lados das pedras do soleiro, já estaria o “sinal”. Não o vira ainda. E uma certa preocupação começava a assaltá-lo... Mas tinha confiança em Charles. Esperava...

E, como fosse quase meia-noite, mal terminara a valsa, saíra a espreitar. O céu estava um pouco escuro, embora estrelado. A praia tinha uma brancura amortecida e vaga, destacando junto à negrura do mar. Pôs-se a olhar de novo, a investigar, quando de repente deparou com uma luzinha encarnada, pondo um cordão fino e longo de rubis n'água. Murmurou então, respirando alto, num alívio de quem sacode uma forte opressão:

— Ah! lá está!... Lá está!...

E entrou, muito alegre, pela varanda do lado. No corredor, esbarrou-se com Helena, que vinha da sala. Tomou-lhe o braço e, lançando-lhe um olhar significativo, entraram no quarto. Aí George disse-lhe que era preciso aproveitar a ocasião, porque a embarcação já os esperava...

Ela teve uma grande palpitação, ficou de repente pálida, tremida, toda fria, não podia respirar. Agarrou-se ao enteado, murmurando baixo:

— Mas como, George?... Vão nos ver, vão nos agarrar... Que horror!... Podiam ter suspeitado...

Ele replicou-lhe, convictamente, muito calmo:

— Não! Ninguém sabia... O pai estava lá para o gabinete, entretido a jogar... Os outros ignoravam tudo... Não havia trepidar... Logo que alguém começasse a retirar, aproveitariam e... good night!...

— Pois sim, George! pois sim! fez ela, subitamente enrijada.

E, com efeito, daí a instantes, quando começaram a sair os primeiros convidados, justamente ao estalar entusiástico da quinta quadrilha, num burburinho enorme, Helena e George, que tinham ido acompanhar os Cabrais até ao portão, escaparam-se subitamente, por entre as árvores do jardim, para os lados do mar... Ninguém notara isso, nem mesmo os criados. E, na praia, tomando ambos para a banda das pedras, rente ao muro do Castle, que avançava até grande distância, foram-se afastando devagar, sem ruído, num profundo silêncio, que só o leve bater das ondas na areia perturbava...

Mas a quadrilha terminara. No salão algumas famílias erguiam-se, falando em retirar. No gabinete, o Fison e os companheiros ainda jogavam, quando a esposa do Braga entrou subitamente, toda lívida, os beiços brancos, a perguntar:

— Onde estava Helena? Onde estava?...

 Os três homens ergueram-se logo, sobressaltados. William correu para ela, louco, numa precipitação, os olhos a faiscarem:

— O que fora?... O que fora?...

Ela, ofegante, em palavras pausadas e trêmulas, entrecortadas, disse-lhe:

— Que tinha dado por falta da filha na sala. A princípio, julgara que estivesse ocupada, a dar algumas ordens lá dentro, ou que se achasse no quarto. Mas depois, como ela demorasse, e não visse George para lhe perguntar, erguera-se, muito impressionada e cheia de cuidados, supondo alguma dor... Foi até ao quarto. Não a encontrou. Foi à sala de jantar, ao toilette, as outras salas... E nada. Nem George!... O que aconteceria, Nossa Senhora! Aquilo era uma desgraça...

O Fison ficou por instantes a olhá-la, espasmado, hirto, branco como a cal; depois, ergueu os braços ao ar, e, num desespero, como um alucinado, atirou-se para o corredor a gritar:

— Traído, Santo Deus!... Desonrado!...

O Crowley, o Fernando Braga e o Lino, de repente abalados, numa grande perturbação, não sabiam o que fazer. Todos, em volta, tinham um ar aterrado.

Um enorme reboliço, choros, exclamações, gritos de ataques, abalaram então sinistramente A casa. E a voz triste, dolorosa e pungente do Fison, ecoando pelas salas, era como uma nota plangentíssima e dantesca no fim de uma perdida batalha:

— Traído, Santo Deus!... Desonrado!...

E logo após, os convidados entraram a retirar-se, silenciosamente, dispersos, numa debandada de desastre...

Nessa mesma noite, William Fison, só, no seu quarto, agitado e perdido, numa desesperação suprema, numa dor formidável, rebentava a cabeça com uma bala. E no outro dia, Rose-Castle se fechava para sempre numa paz funerária...

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