terça-feira, 28 de novembro de 2017

Um pintor de gatos (Conto), de Wenceslau de Moraes


Um pintor de gatos
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Era uma vez, em mui remotos tempos, uma família de boa gente lavradora, vivendo em certa aldeia do Japão. Marido, mulher e um rancho de filhos; gente pobre, é claro; e ajunte-se que a mui árdua fadiga se dava o camponês, para que não faltasse em cada dia, a cada uma das vorazes boquinhas dos garotos, a tigela de arroz do almoço e do jantar. O mais velho dos rapazes, já aos quatorze anos, robusto quase como um homem, começava a ajudar o pai, nas várzeas e nos campos, o pobre pai, a quem as forças minguavam; e os outros, cada um conforme a sua idade, iam fazendo também o que podiam; até a irmã pequena, — uma migalha de gente, coitadita! — lá ia aliviando a atarefada mãe na lida do casebre.
Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um inútil; não que ele fosse falto de juízo; pelo contrário, excedia em esperteza qualquer dos irmãos ou das irmãs; mas era enfezadito, débil de músculo; e bem cedo os pais se convenceram de que aqueles braços tenros não haviam nascido para a enxada. — “Faça-se dele um bonzo”, — combinaram; e foi nesta intenção que um belo dia decidiram levá-lo ao templo do lugar, e à presença do velho sacerdote, que era como quem diz — o prior daquela freguesia. — O pai falou e expôs a questão, enquanto que a mãe aprovava com a cabeça; o reverendo, que em breve trecho descobrira rara sagacidade na criança, consentiu em tomá-la por pupilo, pensando talvez intimamente que ali o acaso lhe trazia um digno sucessor, quando a hora lhe chegasse de despedir-se deste mundo.
E ficou tudo resolvido.
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O noviço mostrou-se, desde os primeiros dias, submisso, inteligente e piedoso; e também — valha a verdade — não lhe iam mal a rude túnica amarela e a cabecita rapada à navalha, de preceito; mas como não há formosa sem senão, segundo um provérbio português (e a filosofia dos provérbios se aplica à humanidade inteira), tinha um defeito o rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que é curioso: nas horas de sueto ou nas horas de estudo, no templo, na cela, no jardim, em toda a parte onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem os pintava, — faça-se-lhe justiça neste ponto, — que nenhum pintor até então pintou gatos melhor do que o fradinho. As páginas dos livros sagrados do convento, as paredes, os biombos, os pilares, as árvores, os rochedos, — forte mania de criança! — tudo servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por onde ele passava, por onde se quedasse dois minutos, era logo a sucessão interminável de desenhos, eram as curvas caprichosas dos travessos felinos, de todos os tamanhos, em todas as posturas, creio que até enjaneirados, os olhos redondos, esbraseando as duas orelhas espetadas, o cotozito alçado e petulante (os gatos japoneses não têm rabo), a garra atrevida posta em guarda... Está-se a adivinhar com que azedume o reverendo acolhia tais desmandos; vezes sem conto repreendeu o artista (como por ironia lhe chamava), tentando dissuadi-lo daquela triste balda, que nem lhe permitia estudar com atenção os velhos alfarrábios do budismo, de tão necessária ciência ao seu santo mister. Intento inútil: não por maldade, por instinto, quanto mais lhe proibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso. Até que finalmente, em certa ocasião, o reverendo perdeu de todo a paciência e gritou ao moço incorrigível: — “Vai-te embora! Foge da minha vista!... Bom padre, nunca serás seguramente; serás talvez um bom pintor.” — A ordem era terminante. Foi fácil ao mocinho entrouxar os seus poucos haveres, pôs a trouxinha às costas, e fez uma mesura ao padre mestre.
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Ei-lo na rua, escorraçado, em bem angustiosas condições. Que fazer? Tremeu de voltar ao lar doméstico, onde o pai, mui certamente, o puniria da sua teimosia. Lembrou-se então que a quatro léguas de distância havia uma outra aldeia, com um templo cheio de bonzos, e para lá se encaminhou, disposto a pedir abrigo e proteção aos padres. Era notório que o tal templo desde alguns meses se achava abandonado, por nele ter entrado um demônio, um espírito malfazejo, como tantos que abundavam então pelo Japão; muitos guerreiros animosos se tinham decidido a ir lá dentro, mas nem um só voltou; porém estas notícias, que iam já apavorando aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado aos ouvidos do pequeno.
Era já noite escura quando alcançou a aldeia; o povo dormia nas choupanas; ao fundo da rua principal, e sobre um dorso de colina, de entre a rama das matas erguia-se o templo majestoso, e uma luz interior bruxuleava, luz de esperança para a mísera criança. Luz de esperança parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim manhosamente ia atraindo algum caminheiro solitário em busca de pousada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate terceira, sem que ninguém acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta empurrá-lo para abri-lo; e então, por um leve impulso dos seus braços, achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos pés nus as suas sandálias poeirentas.
Nos aposentos interiores ardia uma lâmpada com efeito; mas nem um bonzo só, de tantos que ali deviam estar, aparecia. Julgou que tinham ido dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperá-los. O tempo ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar o aspeto do sítio onde se achava. Notou com espanto que abundava o lixo, e pelo teto as aranhas iam tecendo sem cerimônia as suas longas teias; era estranho que, sendo em regra os templos, mimos de limpeza e de cuidados, aquele se encontrasse em tal desleixo, como se fosse coisa abandonada. É que, provavelmente, aos santos bonzos faltava o auxílio dum acólito, a quem, como de praxe, cabe o dever de todas as manhãs lavar, varrer e sacudir o pó, arte exercida no Japão com especial desvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no próprio interesse da comunidade.
Agora o rapazito, prosseguindo no exame, fixa o olhar num móvel que o cativa, que é um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces brancas; passara-lhe na mente o irresistível desejo de encher aquelas faces de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as bigodeiras hirtas e os olhos chamejantes; e uma súbita alegria iluminava-lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido. Cerca encontrou a clássica escrivaninha japonesa, — a caixa com os pincéis, com a gota de água num depósito metálico, com o pedaço de tinta negra e com a lousa onde esta se prepara. — Mãos à obra. O pincel voava em curvas humorísticas; a mãozinha inspirada corria, pulava de alto a baixo, ponto aqui, rabisco ali, traduzindo a impressão própria com habilidades prodigiosas. Assim foram aparecendo, sobre aquela tela improvisada, ranchos e ranchos de gatos adoráveis; e tantos gatos desenhou, e tantas horas correram, sem que os bonzos voltassem do passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente cheio de sono e de fadiga; num cubículo contíguo se recolheu e se fechou; estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu.
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Lá pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrível luta se travasse entre misteriosos combatentes, despertou a   criança. Os gritos, os gemidos, o ruído dos corpos que caíam, vinham de perto, do aposento vizinho onde estivera; tremiam as paredes, o chão, a casa toda; a peleja durou até à madrugada. Como ele sofria de pavor! Caído sobre a esteira, imóvel, parecia coisa morta, sustendo o próprio fôlego, para que a sua presença não fosse pressentida...
Já com a manhã clara e Sol bem alto, ergueu-se então, e animou-se a espreitar um pouco para fora, por uma fenda da parede. Foi medonho o que viu. No chão grandes poças de sangue se alastravam; e mesmo ao meio da casa, jazia morta, esfacelada, uma enorme ratazana, — maior do que uma vaca!... Mas quem matara o monstro, se ninguém parecia ter entrado? Reparou por acaso no biombo, onde horas antes pintara tantos gatos; lá os viu, mas com os focinhos lambuzados de sangue e as patinhas igualmente; eram eles que tinham dado cabo do demônio...
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O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda hoje se admiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitável.
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O cronista de quem extraí esta legenda, nada conclui, como moralidade, da história que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se mo permitem. Em primeiro lugar, pouco propenso a crer em coisas do diabo, embora mesmo no Japão, concluo que, se a rata do convento era tão grande, é que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras terras, dos frades portugueses por exemplo, faz honra à sobriedade de hábitos dos maganos, pois não consta que jamais os presuntos e a marmelada de reserva nutrissem uma rata lambareira até atingir igual tamanho. Concluo ao mesmo tempo, humilhado, confundido, que os pintores do meu país estão bem longe do traço criador dos pintores do Dai-Nippon. Por último (e talvez esta final conclusão seja a mais útil), vejo que às vezes as nossas qualidades, de que os outros se riem e escarnecem, são as que mais nos valem neste mundo.

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